O que importa é que as vidas não servem como modelos. Apenas as histórias servem. E é duro construir histórias para poder vivê-las Qualquer que seja sua forma, ou seu meio, as histórias têm nos formado a todos nós



Baixar 28.16 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho28.16 Kb.



A NATUREZA HISTÓRICA DA INVESTIGAÇÃO NARRATIVA
Rosália Maria Ribeiro de Aragão*


O que importa é que as vidas não servem como modelos. Apenas as histórias servem. E é duro construir histórias para poder vivê-las... Qualquer que seja sua forma, ou seu meio, as histórias têm nos formado a todos nós; e são essas que devemos usar para fabricar novas ficções, novas narrativas. de vida!

Heilbrun

INTRODUÇÃO


Tem sido cada vez mais freqüente o uso da investigação narrativa em estudos e pesquisas sobre a experiência humana. De forma tal que, podemos dizer, esta já tem uma longa história intelectual e acadêmica dentro e fora da educação. Dentre as razões que explicam ou justificam, de forma mais convincente o uso da narrativa na investigação educativa, encontram-se as de Connelly e Clandinin (1995) quando ressaltam que nós - os seres humanos - somos organismos contadores de histórias, organismos que, individual e socialmente, vivemos vidas relatadas. Sendo assim, para eles, o estudo da narrativa é o estudo da forma pela qual nós, os seres humanos, experimentamos o mundo. Em outro âmbito, mas neste sentido, Ribeiro (2000, Espaço Aberto - Entrevista, GloboNews) afirma que na vida não há fatos, o que há são histórias...

É dessa idéia geral que decorre uma das proposições atuais definidoras da educação como a ‘construção e re-construção de histórias pessoais e sociais’, das quais busco tratar na presente comunicação, ressaltando a sua natureza histórica. Nesta perspectiva, é meu propósito evidenciar que tanto professores como alunos são contadores de histórias e também personagens não só das histórias dos demais mas das suas próprias histórias.



A NATUREZA DA INVESTIGAÇÃO NARRATIVA
Narrativa é o termo usual de referência - no âmbito da investigação educativa - a uma qualidade que estrutura a experiência que vai ser estudada, compreendida e explicada; é também designativo dos padrões de investigação que vão ser utilizados para estudo dessa experiência.

De modo geral, no sentido atribuído por alguns autores (cf. CONNELY e CLANDININ, 1995), tendemos a chamar de ‘história’ ou ‘relato’ ao fenômeno, aos dados advindos da investigação e de ‘narrativa’ à própria investigação. Dessa forma, quando dizemos que nós, pela nossa própria natureza, vivemos ‘vidas relatadas’ e contamos as histórias dessas vidas, precisamos dizer - para explicitar - que os pesquisadores que são ‘investigadores narrativos’ buscam recolher essas vidas, descrevê-las e, por sua vez, contar histórias sobre elas, investigando e escrevendo sobre seus relatos de uma tal experiência.

A narrativa ocupa um lugar importante nas mais variadas disciplinas ou campos de saber, talvez porque ‘narrar’ seja inerente ao ser humano, isto é, seja uma estrutura fundamental da experiência humana vivida. Talvez, por isso, apresente uma qualidade holística, uma vez que possibilita a todos nós a expressão da ‘história do nosso ponto de vista’, do lugar de onde podemos olhar e ver... não só com os olhos mas principalmente com a mente (ARAGÃO, 1993:3).

A maioria dos estudos educativos sobre a ‘narrativa’ tem se desenvolvido em relação às ciências sociais. Nos meados do século XIX, segundo referências de Polkinghorne (Apud CONNELY e CLANDININ,1988:101-105), a ‘história da psicologia individual’ já continha estudos de narrativas psicológicas que expressavam equivalentes educativos. As próprias categorias consideradas pelo autor referido – história de caso, biografia, história de vida, fragmento de vida, dentre outras – aparecem também, e com freqüência, na literatura de educação. Tais categorias de investigação tendem – como esse próprio autor assinala – a enfocar a psicologia de um indivíduo, considerada em um breve espaço de tempo, da forma tal como ainda hoje se registram alguns estudos da educação infantil e de orientação escolar. Este matiz original, no entanto, parece ser responsável pela derivação de uma das críticas mais freqüentes à investigação narrativa, qual seja a de que esta modalidade de investigação tende a ‘privilegiar indevidamente o indivíduo em detrimento do contexto social’.

Em que pesem tais restrições, vale ressaltar que a investigação narrativa pode desenvolver-se também em uma outra vertente, sociologicamente preocupada com grupos sociais e com a formação da comunidade, conforme o estudo de Carr (1986) sobre ‘um tratamento narrativo da comunidade’, ou a histórica discussão de Goodson (1988) sobre ‘as histórias de vida dos professores e sobre os estudos de currículos no ensino’, os quais resultaram em um amplo estudo sociologicamente orientado sobre ‘histórias de vida’, não só em sociologia mas também em antropologia e, decididamente, em estudos vários sobre a educação.

Nessa perspectiva, para esse último autor referido, a autobiografia emergiu justamente como uma variante das histórias de vida. Contudo, Connelly e Clandinin (1995) levando em conta os estudos mais recentes sobre trajetórias profissionais e vidas de professores, que tendem a enfocar os percursos de profissionalização docente, passaram a considerar desejável que se mantenha certa distinção entre a biografia, a autobiografia e as histórias de vida. Berk (1980), segundo tais autores, em uma discussão sobre a história dos usos da ‘autobiografia’ e da ‘biografia’ em educação, havia distinguido a autobiografia como uma das primeiras metodologias específicas e efetivas para estudo da educação. À medida que as questões no campo da educação foram, entretanto, sendo elaboradas em âmbito explicitamente pedagógico, a partir, por exemplo, de perguntas tais como o que significa para uma pessoa ‘ser educada’? ou como as pessoas se educam, de modo geral?, pareceram ter chegado ao fim as ênfases biográficas e autobiográficas geralmente presentes em estudos sobre educação.

Mesmo assim, os trabalhos de natureza investigativa-narrativa, que proliferaram na década de 1980, por sua vez, chegaram a constituir uma certa tradição autobiográfica e biográfica nos estudos sobre educação.

Em decorrência de uma análise em nível macro, nessa perspectiva, Connelly e Clandinin (1995) definem três linhas de investigação de caráter narrativo, relacionadas entre si, que incidem fundamentalmente sobre o relato, quais sejam : a história oral, os contos das crianças e os usos de contos nas experiências lingüísticas, tanto na educação pré escolar quanto na educação escolar fundamental, média e superior.

No Brasil, nas últimas décadas do último quarto do século XX, têm-se cultivado investigações em função da ‘história oral’, principalmente com o propósito de registrar o pensamento de pessoas desescolarizadas ou de minorias sem voz em âmbito social/escolar.

Em que pesem os estudos vários já desenvolvidos nessas vertentes, vale destacar uma versão curricular pouco conhecida ou menos divulgada dessa literatura, que inclui os trabalhos de Egan (1986) e de Jackson (1987), citados também por Connelly e Clandinin (1995), que advém da consideração de alguns outros elementos pedagógicos para admitir que as matérias escolares estão geralmente organizadas na forma de historietas ou de contos. Nesse sentido, Jackson, já referido, assinala que mesmo quando a matéria em si não seja uma história, a lição – ou aula - contém usualmente um grande número de segmentos narrativos. Além disso, de outro modo, Egan propôs um modelo que certamente nos estimula a que consideremos as aulas ou as unidades curriculares muito mais como boas histórias para serem contadas do que como conjuntos de objetivos para serem atingidos.

O trabalho de Applebee (1978, apud CONNELLY e CLANDININ, 1995), algumas vezes referido como ‘o trabalho do grupo de Cambridge’, incide sobre ‘desenvolvimento do currículo’ (para o ensino da linguagem) e sobre ‘método de ensino’. De forma semelhante se desenvolve o próprio trabalho desses autores sobre currículo, muito embora eles mesmos, segundo dizem, vejam as narrativas idiossincráticas de professores como metáforas das relações de ensino-aprendizagem. Isto porque, como eles próprios assinalam... entendendo-nos, a nós mesmos e aos nossos alunos, de um ponto de vista educativo, necessitamos entender as pessoas que apresentam narrativas das suas experiências de vida. Mais ainda, em termos tais que se possa ressaltar a reciprocidade, as narrativas de vida são o contexto no qual se dá sentido às situações escolares.

Em função de argumentos como esses, reitera-se que a narrativa está situada em uma ‘matriz de investigação qualitativa’ posto que se funda na experiência vivida e nas qualidades da Vida e da Educação.

Os autores até agora citados referem-se, ainda, de forma destacada, à revisão de Eisner (1980) sobre o estudo educativo da experiência. Isto porque este pesquisador relaciona a narrativa aos trabalhos de investigadores educacionais de orientação qualitativa que trabalham com a experiência em várias áreas do saber, tais como, a filosofia, a psicologia, a teoria crítica, a antropologia e os estudos sobre currículos. Além disso, acrescentam - dentre os que destacam pela importância - a revisão procedida por Elbaz (1988), relativa aos estudos sobre ‘o pensamento do professor’, por esta ter criado um perfil dos enfoques investigativos mais próximos da ‘família dos estudos narrativos’. Uma das maneiras citadas, concernente a como esta autora construía tal ‘família’, implica/implicava uma revisão acurada de estudos decorrentes de investigações, já desenvolvidas sobre ‘o pessoal’, em âmbito pedagógico, para evidenciar como tais estudos tinham/têm afinidade com a narrativa. Uma outra questão importante para Elbaz – e pela qual esta pesquisadora tem sido conhecida - é relativa ao tema da voz, contudo, a sua principal preocupação é atinente ao relato, distinguindo-o não só como “um dispositivo metodológico”, mas também como uma “metodologia em si”, ao tempo em que articula a narrativa com inúmeros estudos de educação, os quais - ainda que os seus autores não estejam conscientes de utilizar procedimentos narrativos - apresentam ou transmitem os seus dados em forma de relatos, ou utilizam histórias participativas como dados efetivos.

Nessa visão, podem ser mencionados, como trabalhos que estão relacionados com a narrativa, as investigações de Shulman sobre ‘professores especialistas’ (1987), os trabalhos de Schön sobre ‘a prática reflexiva’(1987) e os de Munby sobre ‘as metáforas dos professores’(1986), dentre outros. Além disso, registra-se na literatura pertinente uma grande quantidade de estudos sobre educação que têm qualidades narrativas e que são chamados de relatos de professores e de relatos sobre professores, em referência ao relato ser de ‘primeira’ ou de ‘segunda mão’, escritos por professores ou por outras pessoas, mas que, seguramente, tratam de aspectos históricos relacionados a professores, alunos, aulas e... escolas! Dentre esses, merece destaque, ao meu ver, o trabalho intitulado A Vida nas Aulas, de Jackson (1968), já referido, que tem um papel pioneiro e, sem dúvida, sobremaneira significativo no que concerne à literatura deste gênero.

Consideramos, ao final, que a importância desta linha de pesquisa para a educação reside no que ela propicia por constituir-se em um tipo de abordagem histórica de idéias teóricas, teórico-práticas e práticas sobre a natureza da vida humana – enquanto ‘vivida’ – que pode ser usada na experiência educativa, também enquanto experiência ‘vivida’. Isto pode ser enfatizado, certamente, na consideração necessária de que é possível a constituição - pelos pesquisadores-narrativos – de um ‘documento histórico do presente’, em função de relatos obtidos pela enunciação da história oral.

Por tais razões, consideramos pedagogicamente importantes as contribuições que podemos oferecer em uma perspectiva - de explicitação para reflexão - de vários aspectos não só metodológicos mas também históricos e epistemológicos da investigação narrativa, na feição de constituição da história do presente.


BIBLIOGRAFIA


ARAGÃO, R. M.R de. Reflexões sobre Ensino, Aprendizagem, Conhecimento... In : Revista de Ciência & Tecnologia. Piracicaba-SP : Editora UNIMEP, Ano 2, Nº 3, Julho/1993.

ARAGÃO, R.M.R.de. CONTANDO O QUE VIVI – A Epistemologia e a Poética da Investigação Narrativa. Campinas-SP : 2000 (no prelo).

BERK, L. Education in lives: Biografic narrative in the study of educational outcomes. In : The Journal of Curriculum Theorizing, 2, 88-153.

CARR, D. Time, narrative and history. Indiana : Indiana University Press, 1986.

CONNELLY , F. M. e CLANDININ, D. J. Relatos de Experiência e Investigação Narrativa. In : J. Larrosa et allii, Déjame que te Cuente. Barcelona : EDITORIAL LAERTES, 1995.

CONNELLY, F. M. e CLANDININ, D. J. Teachers as curriculum planners. Narrative of Experiences. New York : Teachers College Press, 1988.

EGAN, K. Teaching as story telling. An alternative approach to teaching and curriculum in the elementary schools. London : Althouse Press, 1986.

ELBAZ, F. Knowledge and discourse. The evolution of research on teacher thinking. Paper presented at the Conference of the International Study Association of Teacher Thinking. University of Nottingham, UK, 1988.

GOODSON, I. Teachers’ life stories and itudies of curriculum. In : I. F. Goodson (ed.) The making of curriculum. Collected Essays. Philadelphia : Farmer Press, 1988.

JACKSON, P. W. Life in Classrooms. Chicago : Holt, Hinehart & Winston, 1968.

JACKSON, P. W. On the place of narration in teaching. In : D. Berkinger & B. Rosenshine (eds.) Talks do teachers. New York : Random House, 1988.

MUNBY, H. Metaphor in the thinking of teachers. In Journal of Curriculum Studies,18. 197-209, 1986.

RIBEIRO, J. U. Entrevista sobre Histórias. Espaço Aberto – Entrevista, Globonews, 2000.

SCHÖN, D. Educating the reflective practitioner. San Francisco : Jossey-Bass, 1987.



SCHULMAN, L. S. Knowledge and teaching. Foundations of the new reform. In Harvard Educational Review, 57, 1-22, 1987).

* Docente do PPGE-UNIMEP

Catálogo: acer histedbr -> seminario -> seminario5
seminario5 -> Origens da escola moderna no brasil
seminario5 -> A história das instituiçÕes de ensino confessionais: um estudo do colégio nossa senhora das lágrimas
seminario5 -> O malogro da educaçÃo popular na paraíba (1930-1945)
seminario5 -> O projeto de rui barbosa: o papel da educaçÃo na modernizaçÃo da sociedade
seminario5 -> A economia dos empreendimentos jesuítas para o financiamento das atividades educativas e missionárias entre 1540 e 1770
seminario5 -> Wenceslau Gonçalves Neto
seminario5 -> O currículo de 1855 do colégio de pedro II: Ensino Propedêutico versus Ensino Profissionalizante
seminario5 -> EducaçÃo e cultura brasileira à luz do caso jean des boulez (SÉC. XVI)
seminario5 -> História Cultural e História da Educação: diversidade disciplinar ou simples especialização?
seminario5 -> Imagem, história e educaçÃO: O CINEMA COMO FONTE PARA A PESQUISA histórica em educaçÃO


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal