O que lê e como seleciona os livros de literatura os alunos de 09 e 10 anos da escola municipal padre martinho stein



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O QUE LÊ E COMO SELECIONA OS LIVROS DE LITERATURA OS ALUNOS DE 09 E 10 ANOS DA ESCOLA MUNICIPAL PADRE MARTINHO STEIN

Gladis Terezinha Longo Boaventura

Luiza Maria Felippi Antônio
A compreensão da função da Literatura na Escola passa pelo entendimento de que sua razão de ser deve-se fundamentalmente à formação de leitores. Leitores que reconheçam na literatura seu valor ou função social e que, acima de tudo, aprendam a falar com o texto e, por meio dele, estabeleçam um diálogo com a vida. Segundo BETTELHEIM (1980, p. 78) “uma criança defrontada com problemas e situações cotidianas que lhe causam perplexidade é estimulada, no seu aprendizado, a compreender o ‘como’ e o ‘ por que’ de tais situações, e a buscar soluções.” Sendo assim, é necessário que encontremos na leitura de obras literárias oportunidades de prazer, de lazer e de significado que sejamos capazes de nela reconhecer valores estéticos e artísticos que se dão por meio da palavra.

Que consigamos identificar na literatura o que ela tem de belo enquanto organização textual e uso da palavra escrita. Que sejamos capazes, professores e alunos leitores, de se encantar pelos livros, de traçar metas, programar atividades, leituras e produções literárias, selecionar obras de forma conjunta, na sala de aula, descobrindo nessa relação, o universo da Literatura.

Todavia, QUEIRÓS apud YUNES (2002, p. 160) nos alertam quando afirmam que “a escola por ser servil, quer transformar a literatura em instrumento pedagógico, limitado, acanhado, como se o convívio com a fantasia fosse um bem menor.”

Este alerta nos chama atenção no sentido de termos claro que muitas vezes literatura infantil na escola leva a criança a transformar o real em fantasia e o sonho em realidade. A magia da literatura nos leva ao mundo imaginário, sem sair do real. Pode-se dizer que a literatura oportuniza uma leitura de vida por meio da fantasia, longe de alienar, ajuda a descobrir o real camuflado pela aparência.

Toda criança gosta de livros, desde que a história neles contida provoque o seu interesse. Portanto, o livro de literatura deve ser uma obra aberta que envolva o prazer da descoberta.

Porém, a simples atração pela história não é critério suficiente para se avaliar a qualidade de um livro infantil. SILVA (1993, p. 5) contribui com os estudos nesta área quando nos chama atenção dizendo que, “se o contexto do texto lido não proporcionar uma compreensão mais profunda do contexto em que o sujeito leitor se situa ou busca se situar, então a leitura perde sua validade. Dessa forma, não existe a posse, a apreensão ou compreensão de idéias, mas a mera reprodução alienada de palavras ou de trechos veiculados pelo autor do texto.”

Ao selecionar suas leituras literárias, as crianças estarão se preparando para a vida. Dentro da magia de observar, questionar, comparar e refletir há uma interação com o texto literário e o mundo real.

A escola é um espaço privilegiado para desenvolver o gosto pela literatura, tendo como função específica de proporcionar o encontro entre o livro e a criança de maneira que esta possa utilizar-se da Literatura para a compreensão de si, das coisas que a cercam e das relações entre ambas.

Como educadoras sabemos da importância de cultivarmos o ato da leitura em nossos alunos, o que até então não é feito, pois a escola ainda vive num universo de formar hábitos de leitura.

Entendemos que é necessário quebrar o monólogo do texto, promovendo uma interação na qual os conhecimentos do leitor a as novidades da obra contribuam para gerar novas idéias e ações.

Diante as constatações apresentadas elaboramos este projeto intitulado “O que lê e como seleciona livros os alunos de 09 e 10 anos da Escola Municipal Padre Martinho Stein”, tendo como objetivos específicos: verificar as preferências literárias dos alunos; quais os critérios os alunos utilizam na escolha do livro de literatura; registrar com que freqüência que o aluno busca o livro literário na escola e que tempo dispõe para realizar a escolha do que irá ler e apurar o procedimento do professor no processo de troca de livros dos seus alunos na biblioteca.

A alma de qualquer instituição de ensino são os professores. E como argumenta ZILBERMAN (1985) “são estes profissionais da educação que precisam dotar-se de instrumentos adequados para cumprir suas funções didáticas, sabendo escolher obras apropriadas a sua clientela, empregando recursos eficazes que estimulem as mesmas à leitura.”

Entretanto, a realidade que se encontra nas escolas é diferente. A maioria dos professores utiliza os livros de literatura para preencher o tempo entre uma atividade e outra, sem objetivo nenhum e também não acompanha seus alunos à biblioteca na escolha do livro.

O professor não tem conhecimento do que o aluno lê e muitas vezes é contagiado pela idéia de uma leitura obrigatória, tornando-a uma atividade insuportável para os alunos. Obrigados pelos professores, os alunos lêem apressadamente a obra escolhida

É comum ouvirmos pais e professores dizerem que as crianças não gostam de ler. Realmente, a criança que tem como lazer principal à superficialidade da televisão, não vê os que a rodeiam lendo e assim não se motiva para o ato da leitura como também não reconhece nesta algum significado.

Na escola, ler tornou-se sacrifício, obrigação, imposição e não um ato de prazer

A formação do leitor competente é constituída mediante uma prática constante de leitura, partindo de um trabalho que deve ser organizado em torno da diversidade de suporte de textos que circulam socialmente, atendendo desta forma as mais diversas preferências textuais dos alunos.
Os gráficos que seguem apresentam os gostos e a freqüência de leitura semanal dos alunos.
Gráfico 1 - Você gosta de ler?

Fonte: Alunos 4as séries da E.M. Pe. Martinho Stein.


Gráfico 2 - Você lê livros de literatura semanalmente?

Fonte: Alunos 4as séries da E.M. Pe. Martinho Stein.


Diante destes gráficos, conclui-se que há forte incoerência entre o índice de 71% (gráfico 1) dos alunos que gostam de ler, contrapondo os 57%4 (gráfico 2) que não lêem com freqüência semanal.

A incoerência está quando 71% dos alunos afirmam que gostam de ler e apenas 43% realizam uma leitura semanal. Se os alunos realmente gostam de ler, porque não procuram os livros com uma determinada freqüência?

Acredita-se que vários fatores influenciem nesta falta de freqüência ao ato da leitura. A falta do modelo de um leitor adulto; a não disponibilidade de suportes de textos que sejam da preferência dos alunos; um ambiente agradável e convidativo à leitura são alguns dos fatores que podem ser citados como exemplos que caracterizam a baixa freqüência da procura de livros.

Outro aspecto que chamou atenção nesta pesquisa diz respeito ao cruzamento dos dados das questões / gráficos que segue:

Gráfico 3 – O que você prefere ler?


Fonte: Alunos 4as séries da E.M. Pe. Martinho Stein.

Gráfico 3.1 – Outras preferências de leitura

Fonte: Alunos 4as séries da E.M. Pe. Martinho Stein.

Tabela 1 – Disponibilidade de acervo na biblioteca a partir das preferências


Preferências

Suporte de Leitura Disponíveis na Biblioteca Escolar

Terror

0

Aventura

25

Comédia

26

Romance

15

Mistério

12

Suspense

0

Pesquisa

10

Entrevista

0

História em Quadrinhos

0

Poesia

30

Lendas

45

Contos

40

Fábula

69

Fonte: Acervo da Biblioteca da E.M. Pe.Martinho Stein.
A pesquisa demonstra que os suportes de textos escolhidos pela maioria dos alunos não coincide com o que é oferecido na biblioteca da escola. Sendo que, 34% optaram por ler terror; 19% histórias em quadrinhos; 2% suspense e 2% entrevista. Suportes estes não disponíveis ao leitor. Portanto, observa-se uma grande perda de oportunidade para estimular o gosto pela leitura quando não há disponibilidade destes livros que atendam as preferências dos alunos.

Os critérios adotados e considerados pelos alunos durante a escolha dos livros são de diferentes ordens. Pode-se constatar que o formato ainda influencia significativamente na escolha, uma vez que 3% dos alunos observam o formato do livro; 21% capa; 1% condições do livro; 27% ilustrações e 17% título. Estes critérios desvelam que os alunos possuem um pequeno repertório de livros lidos, pois os mesmos apresentam seus critérios de seleção voltados ao formato do livro em detrimento da qualidade textual.

Somente uma pequena parcela que corresponde a 31% demonstra uma interação mais ampla com o real significado da leitura. Dos 31% dos alunos mencionados 20% lêem o resumo; 7% escolhem o livro baseados nos autores; 3% procura ler um livro que foi indicado por outra pessoa e 1% observa a editora, o que indica uma relação mais significativa com o ato de ler.

Se o objetivo é formar cidadãos capazes de compreender os diferentes textos com os quais se defrontam, é necessário organizar em trabalho educativo para que experimentem e aprendam isso na escola e para a vida. Quando os alunos não tem contato sistemático com bons materiais de leitura e com adultos leitores, quando não participam de práticas em que ler é indispensável, torna-se essencial que a escola ofereça materiais de qualidade, modelos de leitores e práticas de leitura eficazes.

Formar leitores é algo que requer, condições favoráveis para a prática de leitura. Sabe-se que dispor dos livros e demais materiais impressos é aspecto determinante para o desenvolvimento da prática e do gosto/ significado pela leitura.

O interesse pela leitura começa a ser despertado na criança pelo tipo de livro que apresentam à ela. Neste sentido MARTINS (1994, p. 32), afirma que “a leitura vai além do texto, e começa muito antes do contato com o mesmo.”

Para que os alunos se interessem pela leitura e passe a aprecia-la cada vez mais, é preciso dar-lhes uma série de motivos que as estimulem e que as façam sentir uma necessidade crescente de ler. Assim, é importante a mediação do professor, fazendo o mesmo movimento que seus alunos em relação ao ato de ler. Bons professores são exemplos para seus alunos à medida que influenciam o prazer/gosto/significado de ler. Como mediador, deve criar um movimento de aprendizagem em que os alunos, de modo ativo, optem por ler como um meio de obter prazer e informações.

Com o resultado da análise dos dados referentes aos critérios de seleção do livro, pode-se perceber que a maioria, sendo alunos que se apresentam na faixa etária entre 09 e 10 anos ainda encontram-se num estágio de leitura que na seleção observa preferencialmente a impressão visual do livro, nem sempre levando em consideração a qualidade textual. Esta constatação acaba por desvelar a história de relação com o livro que estas crianças possam ter vivido.

O livro não precisa ser imposto ao aluno: cabe ao professor apresentar uma diversidade de obras para que ele escolha as suas preferências. A individualidade na escolha do livro é fator de importância fundamental.

A vida pede de todos os cidadãos a capacidade de ser leitores competentes, leitores de muitos textos (notícias, artigos, manuais, embalagens, poemas, contos fábulas, propagandas, editoriais) entendendo para que servem e como utilizá-los.

A prática de leitura visa a formação de bons leitores, isto é, pessoas capazes de ler diferentes textos com compreensão e utilizar a leitura como acesso ao conhecimento e lazer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipioni, 1991.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília, 1997.

CADEMARTORI, Ligia. O que é literatura infantil. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 1 ed. São Paulo: Moderna, 2000.

FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 1983.

JOSÉ, Elias. Caixa mágica de surpresa. São Paulo: Paulinas, 1987.

LUCKESI, Carlos Cipriano. Fazer universidade: uma proposta metodológica. 6 ed. São Paulo: Cortez, 1991.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 19 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

ORLANDI, Eni Pulcineli; ZILBERMAN, Regina; SILVA, Ezequiel Theodoro da. Perspectiva interdisciplinares. 3 ed. São Paulo: Ática, 1995.

SILVA, Ezequiel Theodoro da. De olhos abertos: reflexão sobre o desenvolvimento da leitura no Brasil. In: Leitura no contexto escolar. São Paulo: Ática, 1991.

_____. Elementos de pedagogia da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

YUNES, Eliana. Pensar a leitura: complexidade. São Paulo: Loyola, 2000.

XAVIER, Marcelo. Asa de papel. Belo Horizonte: Formato, 1993.

ZILBERMAN, Regina; LAJOLO, Marisa. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 5 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.

_____. Literatura infantil brasileira: história e história. 2 ed. São Paulo: Ática, 1985.





4 Que correspondem a soma dos 17% que não lêem semanalmente e dos 40% que lêem às vezes.


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