O que se entende por coerência?



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Encontro29.07.2016
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O QUE SE ENTENDE POR COERÊNCIA?

A coerência é condição indispensável para que um enunciado passe a ser um texto, é ela que garante o seu estilo. A coerência revela-se através das condições de encadeamento das frases. Além disso, a falta de coerência pode ocorrer pela existência de erros conceituais no texto, pela inadequação do texto à circunstância na qual é enunciado ou pela inadequação ao destinatário a quem é dirigido.

Em um texto, as partes surgem uma após a outra, relacionado-se com o que já foi feito ou com o que ainda vai se dizer. Para realizar tal propósito, quatro elementos devem ser considerados: a repetição, a progressão, a não-contradição e a relação. Em rápidas pinceladas, vamos analisar esses quatro constituintes textuais.

1. REPETIÇÃO

Ao produzirmos um texto, é obvio que precisaremos utilizar algumas repetições, retomados os elementos já mencionados. Os pronomes, normalmente, encarregam-se de fazer essas retomadas, assim como também podemos lançar mão de palavras sinônimas, expressões equivalentes, terminações verbais ou até mesmo podemos repetir as palavras ou expressões, mas isso implica um certo cuidado. Podemos exemplificar com um pequeno excerto de Mário Quintana, transcrito a seguir.



Triste história

Há palavras que ninguém emprega. Apenas se encontram nos dicionários como velhas caducas num asilo”. (grifo nosso) (Mário Quintana)

Como enfatizado acima, a terminação do verbo encontram é que retoma a expressão “palavras que ninguém emprega”. Há, também, uma relação com a expressão “velhas caducas” (no feminino plural, assim “palavras”). Construindo o texto dessa forma, o autor não precisou fazer repetições, o que poderia comprometer o ritmo.

A repetição pode ser usada para dar maior expressividade, para enfatizar uma idéia, mas, nesse caso, ela adquire valor funcional no texto e deixa de ser uma pura repetição condenável, como no excerto seguinte de um poema de Drummond.



Cidadezinha qualquer

“...Um homem vai devagar

Um cachorro vai devagar

Um burro vai devagar...”

Podemos observar que a repetição nos remete à idéia de que, na cidadezinha, tudo acontece devagar.

2. PROGRESSÃO

Se um texto não progredir, trazendo novas idéias e informações, ele se tornará enfadonho, numa constante repetição do que já foi dito. A progressão garante a continuidade do tema. Observe como, facilmente, podemos fazer o texto progredir:

“Recebi um telegrama, ontem, que me deixou nervosíssima e com insônia. Primeiro, porque fui convocada para uma reunião com meus chefes, o que quase nunca acontece. Segundo, porque a mensagem era muito seca e breve, limitando-se a informar o horário e sem fazer referência ao assunto. Depois, quando a reli, detalhadamente vi que estava sendo solicitada minha carteira de trabalho. Logo pensei: serei despedida!”

As expressões primeiro, segundo e depois introduzem novos fatos e informações. Ocorre, paralelamente, a repetição, como, por exemplo, como o emprego do pronome a, que retoma a palavra mensagem;



3. NÃO-CONTRADIÇÃO

Para um texto ser coerente, não há possibilidades de serem utilizadas expressões que contradigam o que já foi dito anteriormente. Não se pode, por exemplo, ser contra a violência e, ao mesmo tempo, defender ferrenhamente a pena de morte. A contradição só é tolerada se for intencional, pois, do contrário, afeta a lógica do texto. Não se pode confundir a contradição com o contraste; este é um recurso muito utilizado para reforçar a argumentação. Assim, por exemplo, podemos dizer que o nosso país é riquíssimo e, em seguida, afirmar que existe uma má distribuição de renda que gera muita pobreza no Brasil. Uma única palavra ou expressão pode comprometer toda a lógica do texto, como no artigo a seguir:

(...)

“Mas foi a Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial, que realizou as experiências aterradoras. Só que as cobaias eram seres humanos. Prisioneiros de guerra, principalmente judeus, foram submetidos a todos os tipos de crueldades”. O Estado de São Paulo, 3 out. 1991.



A expressão só que está totalmente inadequada ao contexto. As experiências mais aterradoras foram as da Alemanha nazista justamente porque as cobaias eram seres humanos.

4. RELAÇÃO

Já comentamos acerca da necessidade da inter-relação das idéias num texto. Esse só será coerente se os fatos ou os conceitos apresentados tiverem um porquê que justifique a sua inclusão no texto. Não se podem lançar frases soltas, sem relação entre si, pois se não houver entrelaçamento, como anteriormente afirmamos, não será um texto.

Os versos abaixo servem para exemplificar a relação, pois fazem parte de um mesmo conjunto: o sentimento de tristeza e saudade do autor em relação às coisas que deixaram de existir, a sua mais completa nostalgia.

Nostalgias

Há tempos escrevei este decassílabo nostálgico:

“Acabaram-se os bondes amarelos!”.

Tão nostálgico que até hoje ficou sozinho esperando o resto dos companheiros.

Também, não faz muito tempo, escrevi este outro decassílabo:

“Acabaram-se as tias solteironas...”.

Talvez esses dois solitários se venham um dia a reunir num mesmo poema.

Têm ambos o mesmo ritmo. Causam ambos o mesmo nó na garganta que me impede de os continuar.

Talvez o poema já esteja pronto... e ninguém notou. Nem eu!

Porque ele próprio se completou, cada verso chorando no ombro do outro... E sem mesmo notar que eram decassílabos!



(Mário Quintana)

Outro aspecto muito importante na construção de um texto é a originalidade. “Original é aquele texto que tem origem no indivíduo que o produziu, aquele texto que resulta de uma elaboração personalizada no enunciar e não de mera reprodução de clichês ou fórmulas pré-fabricadas”. (PLATÃO & FIORIN, p. 359)


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