O recém-nascido é pleno de potencialidades e vivencia desde sua vida intra-uterina uma série de transformações que são decisivas para o seu crescimento e desenvolvimento



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1 INTRODUÇÃO
O recém-nascido é pleno de potencialidades e vivencia desde sua vida intra-uterina uma série de transformações que são decisivas para o seu crescimento e desenvolvimento. Algumas situações o fazem necessitar de um cuidado mais complexo, levando-o à internação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). O ambiente desta unidade propicia ao recém-nascido uma experiência bastante diferente daquela vivenciada no ambiente uterino, visto que o introduz em um ambiente inóspito.

É inquestionável como a evolução da tecnologia modificou o prognóstico e a sobrevida dos recém-nascidos de alto risco, mas atualmente se sabe que apenas atender aspectos clínicos não é suficiente, por isso busca-se a implantação de novas tecnologias do cuidado em que outros aspectos sejam também considerados. Neste prisma é fundamental que as dimensões bio-psico-sócio-espiritual sejam consideradas.

Apesar de o dia-a-dia hospitalar ser permeado pela dimensão técnica e cumprimento das rotinas, entende-se que ao buscar aplicar a humanização do cuidado, novas oportunidades podem ser visibilizadas pelos enfermeiros (CASTANHA; LACERDA; ZAGONEL, 2005). O hospital não é um local só de dor e sofrimento, nele sempre há espaço que deve ser aproveitado para o desenvolvimento de atividades humanísticas, dado que a internação não deve interromper o processo de desenvolvimento natural dos recém-nascidos (CERIBELLI et al., 2009).

Assim, é oportuno repensar as ações em saúde neste âmbito, visando a humanização da assistência em UTIN pautada no atendimento das necessidades de todos os agentes envolvidos nesse processo. A palavra humanização pode ser entendida como a maneira de ver e considerar o ser humano a partir de uma visão global, buscando superar a fragmentação da assistência. Um dos aspectos que envolvem uma prática dessa natureza está relacionado ao modo como lidamos com o outro, tratando-o com dignidade e respeito, valorizando seus medos e sentimentos (FERREIRA; REMEDI; LIMA, 2006).

Humanizar não é uma técnica ou artifício, é um processo vivencial que permeia toda a atividade das pessoas que assistem o paciente, procurando realizar e oferecer o tratamento que ele merece como pessoa humana, dentro das circunstâncias peculiares que se encontra em cada momento no hospital (SANTOS, 2001). No ambiente hospitalar, a humanização representa um conjunto de iniciativas que visa à produção de cuidados em saúde capaz de conciliar a melhor tecnologia disponível com a promoção de acolhimento e respeito ético e cultural ao paciente (FERREIRA; REMEDI; LIMA, 2006).

Na atualidade, a temática da humanização dos serviços de saúde vem sendo levada em conta pelas políticas governamentais, serviços de saúde e academia. Nesse sentido, o Ministério da Saúde criou o Programa Nacional de Humanização (PNHAH) que prevê a organização dos serviços de saúde considerando dois ângulos interdependentes: a humanização do atendimento ao público e a humanização das condições de trabalho do profissional de saúde (BRASIL, 2000).

Na busca deste cuidado humanizado é imprescindível que o conhecimento das ciências biológicas e sociais se entrelace ao conhecimento de outras áreas como artes e filosofia, permitindo chegar a um conhecimento mais abrangente e preciso da natureza humana, o que permitirá o desenvolvimento de um cuidado integral e personalizado, voltado não para a doença, mas para o ser humano que adoece (CERIBELLI et al., 2009).

Neste sentido, a necessidade de desenvolver tecnologias aplicadas ao cuidado e ao ensino de enfermagem que abranjam o cliente em sua integralidade, e consequentemente humanize a assistência, tem estimulado cada vez mais o estudo de recursos e práticas que possam contribuir de maneira efetiva com o campo de saber da Enfermagem. Frente a isso, traçou-se como objeto de estudo tecnologias do cuidado aplicadas em UTIN.

Tecnologia como um conjunto de conhecimentos, especialmente princípios científicos, aplicados a determinado ramo de atividade. Sendo a tecnologia do cuidado inserida na classificação das tecnologias específicas de Enfermagem, que significa todas as técnicas, procedimentos, conhecimentos utilizados pelo enfermeiro no ato de cuidar (NIETSCHE; LEOPARDI, 2000).

As dimensões humanas e afetivas necessitam do aspecto relacional, desse modo, não se pode desprezar o uso de tecnologias que vão além das convencionalmente adotadas pelo paradigma dominante, que é o paradigma biomédico. Neste sentido, instituições de saúde de todo o mundo já reconhecem o valor social e terapêutico dessas tecnologias e a tendência de incluí-las entre as atividades hospitalares é crescente (FERREIRA; REMEDI; LIMA, 2006).

Watson na sua Teoria do Cuidado Humano Transpessoal, trata desses aspectos emergentes na Enfermagem ao abordar a visão da unidade transpessoal de mente, corpo e espírito. O processo de cuidado e o relacionamento transpessoal são elementos conceituais originais dessa teoria, que atualmente, incorporou conceitos como: visão expandida de si próprio e da outra pessoa, cuidar-cuidado que é conscientização intencional para promover a cura e o restabelecimento, consciência sobre os cuidados servirem como energia dentro do ambiente humano, e avançada modalidade para curar e restabelecer através da arte da enfermagem. Tal pensamento pede um senso de reverência e respeito à vida e serve como um modelo avançado para a prática de enfermagem (WATSON, 2003).

Neste paradigma é possível incorporar, arte, ciência e espiritualidade, como também redefini-las, reconhecendo uma convergência entre essa tríade. Desta forma, a teoria de enfermagem transpessoal oferece um caminho que difere, contudo, complementa o que conhecemos como enfermagem convencional, pois o uso criativo do conhecimento como parte do processo de cura, gera a arte da prática do cuidado e cria um ambiente cuidativo1 em todos os níveis, físico e não físico.

A arte de cuidar em enfermagem busca diversas estratégias para o ambiente cuidativo do neonato, podendo ser usadas como uma qualidade que efetiva o cuidado humano de enfermagem, pois amplia a visão deste cuidado para além da observação puramente fisiopatológica, envolvendo manifestações de afeto ao recém-nascido que está hospitalizado. E assim, contribui para a qualidade da relação humana tão necessária à efetivação do cuidado de enfermagem, o que reforça a dimensão-saúde do neonato para que ela cure a dimensão-doença (MENDES; BROCA; FERREIRA, 2009).

O ato de cuidar não compreende apenas o tratamento da doença mediante uma intervenção puramente técnica, mas envolve principalmente a interação e a troca entre o neonato, sua família e a enfermagem. A realização de pequenas mudanças abre possibilidades para as transformações mais profundas no âmbito do cuidado, e estas mudanças se relacionam não só à produção de recursos tecnológicos, mas também à valorização de relacionamentos que efetivam a arte do cuidar (KUMAMOTO et al., 2006).

Nesse contexto, foram traçados os seguintes objetivos: identificar as tecnologias do cuidado empregadas em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal dos Hospitais Universitários Federais da região sudeste do Brasil; descrever a visão dos enfermeiros a cerca da humanização em unidade de terapia intensiva neonatal; e discutir as tecnologias do cuidado aplicadas em unidades de terapia intensiva neonatal sob a luz da Teoria do Cuidado Humano Transpessoal.

A hospitalização não deve constituir-se em uma experiência traumática ou uma interrupção no desenvolvimento. Por isso, se faz necessária a utilização de recursos que permitam de alguma forma minimizar os efeitos da hospitalização para os recém-nascidos. Os esforços realizados pelos profissionais de enfermagem no sentido de humanizar o cuidado em UTIN, é uma tarefa difícil, pois demanda atitudes às vezes individuais contra todo um sistema tecnológico dominante.

Por fim, pode-se dizer que é importante a enfermagem estar imbuída da vontade de prestar um cuidado que abranja o neonato em sua integralidade e que as intervenções e estratégias que levam a este cuidado possam ser aprendidas por todos os interessados em assistir a dimensão bio-psico-sócio-espiritual. Dessa forma, a relevância deste estudo encontra-se no fato de que o mesmo pode contribuir para a reflexão sobre as tecnologias do cuidado empregadas em unidade de terapia intensiva neonatal.

2 ESTADO DA ARTE - História do cuidado neonatal
O cuidado à criança pode ser resgatado por diversos registros em diferentes culturas ao longo da história. Esses registros refletem concepções e paradigmas peculiares a diferentes povos em seu respectivo momento históricos-filosófico.

Na civilização Mesopotâmica, por exemplo, as malformações congênitas eram um sinal de mau presságio relacionado ao bem estar da família do rei, além de indicar os caminhos que o país seguiria. Desta forma, na maioria das vezes eram vistas como um sinal de cautela, justificando o sacrifício dos neonatos malformados (SOUZA, 2011).

Num outro momento histórico e em outra região geográfica, outras práticas faziam-se presentes no manejo com a criança. Na América Latina, por exemplo, entre os povos pré-colombianos, especialmente os Maias, ocorria a promoção de deformidades no crânio de crianças, prensando-o entre tábuas, para deixá-los mais alongados (braquicefalia), acreditando que assim o adulto se tornaria paranormal (FERRAZ; GUIMARÃES, 2007).

Evidências apontam ainda que, na tentativa de curar doenças povos antigos realizavam a trepanação craniana (abertura de um ou mais buracos no crânio) em crianças com raquitismo e hidrocefalia. Tal prática ocorria no período pré-histórico Neolítico (10.000 a 5.000 a.C.), em todas as regiões do planeta (SOUZA, 2011).

A história registra que no período de 1.500 a.C. já se relatava doenças infantis, porém, em meio a relatos que tentassem explicar essas doenças, havia ainda muitas crendices e mitos que interferiam no cuidar da criança e da puérpera na época. Algumas crendices e mitos se perpetuaram nos séculos seguintes, como por exemplo, no século I era contra indicado o aleitamento materno nas primeiras semanas de vida por acreditar que a mãe se encontrava muito debilitada. Desta forma, o enfaixamento era prática comum daquela época. O aleitamento era realizado pelas amas de leite e seu valor foi questionado até o século XVIII (SOUZA, 2011).

O cuidado do recém-nascido era realizado pela parteira da comunidade, voluntária de prática reconhecida, que assistia ao parto utilizando rezas, amuletos, a aplicação de compressas e de pressão sobre o ventre. Quase nunca eram recompensadas por sua prática. Somente em meados do século XVI, a Igreja passa a atribuir licença para o exercício da função de parteira (FERRAZ; GUIMARÃES, 2007).

Destaca-se também, outra prática descrita nessa época datada desde o velho testamento que foram as manobras como a reanimação neonatal envolvendo: respiração boca-a-boca, balanço do bebê inconsciente, espancamento, mergulho alternado em tinas de água quente e fria, injeção subcutânea de uísque irlandês misturadas em tintura de beladona, aplicação de bebida alcoólica nas gengivas e administração de drogas estimulantes. Ainda com relação à reanimação neonatal, James Blundell (1834) recomendava a insuflação pulmonar por meio da aplicação de um cateter endotraqueal de prata, princípio seguido por Gibbard e Barkley em 1935, com equipamento semelhante (SOUZA, 2011).

Durante muitos séculos a criança não era conhecida como parte integrante da sociedade, principalmente, no contexto de atenção à saúde. Nesse cenário eram comuns práticas como: aborto, abandono e infanticídio justificando um elevado índice de mortalidade infantil, principalmente, entre os recém-nascidos prematuros (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).



Afinal, o esperado nessas épocas é que as crianças nascidas prematuramente fossem ao êxito letal, assim como também aquelas nascidas com malformações. Desta forma havia um sentimento de que a seleção natural se encarregaria dessas crianças (AVERY, 1999). Porém, uma mudança de paradigmas em relação aos valores e sentimentos relacionados á criança começou a surgir no século XVIII. Neste momento, começaram a ser observados alguns sentimentos e valores relacionados à criança, havendo um despertar da ciência para com a família e, posteriormente, para com os filhos. Esse interesse promove dentro da medicina, o surgimento da pediatria como uma especialidade, passando a criança a ser vista de forma específica em singularidades, enfermidades e tratamento (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

A pediatria prosseguiu com o decorrer dos tempos e com os avanços técnicos e científicos, ganhou um subgrupo de conhecimentos próprios, denominado neonatologia, definido como o conhecimento do recém-nascido humano; não um sistema, mas um todo que precisa ser tratado desta forma. O termo Neonatologia foi criado por Alexander Schaffer em 1960, e introduzido na nomenclatura médica somente em 1963 (AVERY, 1999).



A Neonatologia (do grego, neo: novo, nato: nascimento; logos: estudo) surgiu em meados do século XIX. Sendo definida como a ciência e a arte de diagnosticar e tratar os distúrbios do recém-nascido, dedicando-se à assistência e a pesquisa, e tendo como meta a diminuição da morbimortalidade perinatal na busca da sobrevivência dos recém-nascidos com as melhores condições clínicas possíveis (TRAGANTE; CECCON; FALCÃO, 2010).

Pierre Budin (1846-1907), obstetra no “Hospital La Charité”, em Paris, considerado o precursor da Neonatologia moderna, estendeu sua preocupação com os recém-nascidos além das salas de parto, criando um ambulatório de puericultura no Hospital La Charité, em Paris, no ano de 1892. Foi o responsável pelo desenvolvimento dos princípios e métodos que passaram a formar a base da medicina neonatal (LUSSKY, 2001).

Esse percurso de desenvolvimento da Neonatologia teve um marco em 1880, quando as primeiras incubadoras foram projetadas pelo obstetra Stephane Etienne Tarnier que adaptou câmaras de aquecimento de frangos para aquecer recém-nascido. A instalação da incubadora, em 1880, na Maternidade de Paris foi capaz de reduzir a mortalidade em crianças com peso inferior a 2000g, de 66% para 38% (TRAGANTE; CECCON; FALCÃO, 2010).

Ao inventar a incubadora, Tarnier acabou implantando a tecnologia como fundamento do cuidar em neonatologia. Pierre Budin, discípulo de Tarnier, aperfeiçoou as incubadoras e foi o primeiro a escrever sobre os cuidados com pré-termos, sendo considerado o primeiro neonatologista da era moderna. As preocupações de Budin baseavam-se no controle e manutenção da temperatura, na prevenção das infecções hospitalares, no aleitamento materno e na permanência das mães junto aos recém-nascidos (PACHECO, 2000).

Budin foi o autor da primeira publicação sobre a prematuridade, datada do ano de 1888, divulgou o aleitamento materno artificial esterilizado e implantou, juntamente com Marchand, a alimentação do recém-nascido por sonda nasal. Martin Coney, assistente de Budin, difundiu os princípios de tratamento neonatal, sendo considerado o primeiro a oferecer cuidados especializados aos recém-nascidos pré-termos (SOUZA, 2011).

No início do século XX, o neonatologista austríaco August Ritter Von Reuss contribuiu decisivamente para o aprimoramento do cuidado ao pré-termo quando descreveu a ventilação com pressão positiva contínua. Nesta época, as incubadoras já estavam sendo utilizadas com sucesso no tratamento de recém-nascidos pré-termos (LUSSKY, 2001).

E mais inovações ocorreram, em Viena, o médico Carl Credé foi o responsável pela introdução do uso de nitrato de prata na profilaxia da ophtalmia neonatorum, o cirurgião ortopedista inglês, William Little correlacionou o trauma de nascimento com a paralisia cerebral. Foram adotadas ainda medidas de controle de temperatura e de infecção hospitalar, com isolamento restrito do recém-nascido na tentativa de reduzir as taxas de mortalidade neonatal (LUSSKY, 2001).

Entretanto, as taxas de mortalidade entre os recém-nascidos mantiveram-se elevadas e, além da prematuridade, as infecções hospitalares também eram as responsáveis pela maioria dos óbitos. Nesse período, iniciou-se uma disputa pela assistência aos recém-nascidos entre obstetras e pediatras (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2005).

Em 1914, o pediatra Julius Hess criou um centro para prematuros no Hospital Michel Reese, em Chicago; e também a incubadora Hess, tornando-se autoridade americana em relação à prematuridade. Através dele o tratamento neonatal entrou na cadeira acadêmica. Em 1923, foi criado no Hospital Sarah Morris de Chicago outro centro hospitalar para pré-termos. Os hospitais Sarah Morris e Michael Reese Hospital promoveram avanços em técnicas assépticas, serviços de transporte neonatal e alimentação por via nasal (LUSSKY, 2001).

Anos após, Julius Hess juntamente com a médica Evelyn Lundeen, em 1922, preconizou a manipulação mínima do recém-nascido, a lavagem frequente das mãos e o uso de indumentária específica na unidade de cuidados ao recém-nascido (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010). No decorrer dos anos, outras descobertas científicas foram reveladas, em 1924, Albrecht Peiper descreveu o desenvolvimento neurológico inicial do lactente pré-termo. Os avanços nas técnicas também foram se ampliando, em 1925, Alfreed Hart realizou, com sucesso, pela primeira vez, a exosangüineotransfusão no recém-nascido com icterícia (DOWNES, 1992).

Em 1932, Faber e Wilson descreveram a síndrome da angústia respiratória e em 1934 foi criado o “Box de Oxigênio Hess” por Julius Hess, sendo utilizado para o tratamento de distúrbios respiratórios. Em 1937, Albrecht Peiper descreveu os distúrbios pulmonares e no ano seguinte, em 1938, Charles Chapple elaborou uma incubadora conhecida como ‘Isollete’, no Children’s Hospital de Filadélfia. Na década de 30, observa-se uma maior atenção dada aos problemas respiratórios (DOWNES, 1992).

Em meados do século XX, ocorreram grandes avanços, como o uso de antibióticos, o advento da terapia intravenosa, inovações na armazenagem do sangue, o cateterismo umbilical para a exosanguineotransfusão e os avanços nas incubadoras que passaram a contar também com os recursos de umidificação (TRAGANTE; CECCON; FALCÃO, 2010).

Dando continuidade aos avanços alcançados nas décadas anteriores para com os problemas respiratórios, os anos 50 foram marcados pelas descobertas de soluções para os distúrbios respiratórios (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2005). Entre 1949 e 1959, Mary Ellen Avery e Jere Mead descreveram a deficiência de surfactante pulmonar como motivo da síndrome de angústia respiratória e com isto proporcionaram uma explicação para o distúrbio e uma base para a terapia (DOWNES, 1992).

Em 1957, Richard Pattle e John Clemente descobriram as propriedades da parede interna do alvéolo (DOWNES, 1992). No mesmo ano, na Cidade do Cabo, África do Sul, o pediatra Patrick Smythi e o anestesiologista Arthur Bull, cuidaram de recém-nascidos com tétano e ventilaram mecanicamente dez lactentes por até dez dias utilizando traqueostomia e bloqueio neuromuscular. Desta forma, eles comprovaram que os recém-nascidos poderiam ser ventilados mecanicamente com aparelhos de adultos modificados (FERRAZ; GUIMARÃES, 2007).

Nesta mesma década, a anestesiologista Virgínia Apgar desenvolveu um método de contagem para avaliar as condições do recém-nascido nos primeiros momentos de vida, criando o boletim de avaliação do recém-nascido (DOWNES, 1992).

Outros exemplos desses avanços ocorreram a partir da década de 1960, com a criação das Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). Verifica-se nesta década um aumento significativo dos investimentos em pesquisas com neonatos, principalmente, prematuros. Com estes novos conhecimentos, equipamentos, tratamentos e técnicas introduzidos no cuidado neonatal, houve uma diminuição da taxa de mortalidade neste grupo e, consequentemente, um aumento da sobrevida destes (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Foi nessa década ainda que Paul Swyer e outros colaboradores defenderam a regionalização das unidades e a transferência das gestantes de alto risco para centros especializados na assistência perinatal que dispusessem de unidades de cuidados especializados também para os neonatos, promovendo uma efetiva redução das mortes e seqüelas (TRAGANTE; CECCON; FALCÃO, 2010).

Robert Guthrie, na mesma década, desenvolve e divulga uma metodologia simples e barata para a dosagem de fenilalanina em amostras de sangue seco, colhido em papel-filtro, para o diagnóstico da Fenilcetonúria, permitindo que fossem enviadas pelo correio a laboratórios especializados, possibilitando a identificação daquela doença metabólica em neonatos (SOUZA, 2011).

Um marco da década de 1970 foi o estabelecimento da ventilação mecânica e consequente desenvolvimento das UTIN. Este procedimento juntamente com a monitorização de gases arteriais e sinais vitais passaram a ser a tônica da assistência neonatal (SOUZA, 2011).

Na década de 1980 houve o aprimoramento do suporte ventilatório com a introdução de novas modalidades como: a oxigenação extracorporal por membrana, pressão positiva nas vias aéreas e óxido nítrico. Além disso, houve melhora no prognóstico da retinopatia da prematuridade com a utilização da crioterapia para o seu tratamento. A nutrição parenteral ganhou espaço e cateteres venosos especiais foram desenvolvidos (SOUZA, 2011).

Ainda nessa década, Fujiwara e cols. demonstraram, com sucesso, o uso do surfactante exógeno extraído de macerado de pulmão bovino em recém-nascidos pré-termo (RNPT) com síndrome do desconforto respiratório grave (ou doença das membranas hialinas). Esta terapêutica modificou a morbimortalidade neonatal (SOUZA, 2011).

A ministração de corticóide à gestante, nas horas que antecedem o parto determina a aceleração da maturidade pulmonar fetal. Seu uso, embora seja conhecido desde a década de 1970, foi popularizado no final do século, simultaneamente à introdução do surfactante exógeno. Introduziu-se ainda, a ventilação de alta frequência (oscilometria), a hipercapnia permissiva, a triagem auditiva, a terapia com laser para o tratamento da retinopatia da prematuridade (SOUZA, 2011).

O diagnóstico pré-natal ganha importância e técnicas diagnósticas não invasivas, como translucência nucal, ultrassonografia, eco-Doppler, coleta de sangue materno para triagem genética, vieram somar-se às técnicas como amniocentese e coleta de vilos corionais, ampliando a capacidade médica para diagnosticar alterações fetais (SOUZA, 2011).

Outras grandes conquistas do final do século XX foram o rastreio precoce do sofrimento fetal, os progressos da genética e da citogenética, a realização de exsanguinotransfusões na incompatibilidade Rh e os procedimentos cirúrgicos realizados nos primeiros dias de vida (SOUZA, 2011).

Todos esses avanços possibilitaram a melhora no atendimento ao feto e ao neonato, culminando com a viabilização de recém-nascidos considerados, até então, inviáveis, como os que nasciam com menos de 500g ou com idade gestacional inferior a 28 semanas. A prematuridade passou a ser a principal causa de internação. Assim, Unidades de Terapia Intensiva Neonatal, nos grandes centros, passaram a registrar a sobrevida de recém-nascidos com peso inferior a 400g.

No corolário de todo este progresso da assistência neonatal houve também a implantação de medidas, que embora necessárias, reproduziram um agravante. Um exemplo disso é a privação dos pais de um contato íntimo, intenso e duradouro com o recém-nascido, que interfere na vinculação afetiva dos mesmos. Tamanha é essa interferência que este tema, passou a ser objeto de estudo em investigações científicas e os resultados destes serviram de subsídios para modificar em parte a assistência neonatal prestada.



A permanência dos pais nas UTIN passou a ser valorizada, sendo amplamente aceita e incentivada, favorecendo o estabelecimento do apego materno e paterno-filial. O que traz efeitos positivos, tanto para os pais, quanto para os recém-nascidos além de favorecer o sucesso da terapêutica (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Com a implantação destas medidas os agravantes da privação materna foram minimizados. Entretanto, nos dias atuais esta realidade ainda permeia este contexto.

Neste sentido, no Brasil, algumas políticas públicas foram criadas a fim de atender os direitos da mulher-mãe e do recém nascido. Dentre estas, destaca-se a regulamentação do alojamento conjunto que proporciona um maior contato entre a mãe e o filho possibilitando a melhor adesão ao aleitamento materno (COSTA et al., 2011).

O Método Mãe Canguru (MMC) surgiu a partir da preocupação em prestar ao recém-nascido e sua família uma assistência humanizada. Este programa tem por objetivo sensibilizar os profissionais de saúde na humanização dos cuidados hospitalares oferecidos aos recém nascidos de baixo peso, numa perspectiva interdisciplinar de saúde integral que abrange pais e recém-nascidos.

Outras estratégias foram a criação do Pacto Nacional para a Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, firmado com todos os órgãos de saúde e Universidades do Brasil; e o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), estratégia de saúde pública que visa rastrear através de exames laboratoriais, as patologias Fenilcetonúria, Hipotireoidismo Congênito, Anemia Falciforme e outras Hemoglobinopatias bem como a Fibrose Cística (BRASIL, 2002).

Além disso o aparato tecnológico das UTIN, capaz de garantir a sobrevida de prematuros extremos e de baixo peso, torna este um ambiente inóspito para o recém-nascido, constituindo-se num importante desafio para os profissionais de saúde.

O intervencionismo tornou-se um dos múltiplos desafios enfrentados pela equipe de saúde, ou seja, utilizar de forma prudente esta tecnologia, garantindo a sobrevida dos recém-nascidos e a sua qualidade de vida no futuro (SÁ NETO; RODRIGUES, 2010).

Na trajetória do cuidado neonatal, evidenciamos que o início do século XXI, é um período caracterizado pelo emprego de alta tecnologia nas UTIN. É inquestionável como a evolução dessa tecnologia modificou o prognóstico e a sobrevida dos recém-nascidos de alto risco, mas atualmente se sabe que apenas atender aspectos clínicos não é o suficiente, tornando imprescindível que outros aspectos sejam também considerados. Neste prisma é fundamental que as dimensões bio–psico–sócio-espirituais sejam consideradas, visando a humanização da assistência neonatal.

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