O renascimento na Itália



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O Renascimento na Itália

O termo Renascimento é comumente aplicado à civilização europeia que se desenvolveu entre 1300 e 1650. Ele sugere que, a partir do século XIV, teria havido na Europa um súbito reviver dos ideais da cultura greco-romana. Mas essa é uma visão simplificadora da História, já que, mesmo durante o período medieval, o interesse pelos autores clássicos nunca deixou de existir. Dante, um poeta italiano que viveu entre os anos de 1265 e 1321, por exemplo, manifestou inegável entusiasmo pelos clássicos. Também nas escolas das catedrais e dos mosteiros, autores como Cícero, Virgílio, Sêneca e também os filósofos gregos eram muito estudados. Na verdade, o Renascimento foi um momento da História muito mais amplo e complexo do que o simples reviver da antiga cultura greco-romana. Ocorreram nesse período muitos progressos e incontáveis realizações no campo das artes, da literatura e das ciências, que superaram a herança clássica. O ideal do humanismo foi sem dúvida o móvel desse; progresso e tornou-se o próprio espírito do Renascimento. Num sentido amplo, esse ideal pode ser entendido como a valorização do homem e da natureza, em oposição ao divino e ao sobrenatural, conceitos que haviam impregnado a cultura da Idade Média. Nas artes, o ideal humanista e a preocupação com o rigor científico podem ser encontrados nas mais diferentes manifestações. Trabalhando ora o espaço, na arquitetura, ora as linhas e cores, na pintura, ou ainda os volumes, na escultura, os artistas do Renascimento sempre expressaram os maiores valores da época: a racionalidade e a dignidade do ser humano.



A arquitetura renascentista

Para compreender melhor as ideias que orientaram as construções renascentistas, retomemos rapidamente a linha evolutiva da arquitetura religiosa.

No início, a basílica cristã imitava um templo grego e constituía-se apenas de um salão retangular. Mais tarde, no período bizantino, as plantas das igrejas complicaram-se num intrincado desenho octogonal. A época românica, por sua vez, produziu templos com espaços mais organizados. Já a arquitetura gótica buscou uma verticalidade exagerada, criando espaços imensos, cujos limites não são claramente visíveis.

No Renascimento, a preocupação dos construtores foi diferente. Era preciso criar espaços compreensíveis de todos os ângulos visuais, que fossem resultantes de uma justa proporção entre todas as partes do edifício.

A principal característica da arquitetura do Renascimento, portanto, foi a busca de uma ordem e de uma disciplina que superasse o ideal de infinitude do espaço das catedrais góticas. Na arquitetura renascentista, a ocupação do espaço pelo edifício baseia-se em relações matemáticas estabelecidas de tal forma que o observador possa compreender a lei que o organiza, de qualquer ponto em que se coloque. Um dos arquitetos que pela primeira vez projetou edifícios que expressam esse ideal do Renascimento foi Filippo Brunelleschi (1377-1446).

Brunelleschi é um exemplo de artista completo do Renascimento, pois foi pintor, escultor e arquiteto, além de dominar conhecimentos de Matemática, Geometria e de ser grande conhecedor da poesia de Dante. Foi como construtor, porém, que realizou seus mais importantes trabalhos, entre eles a cúpula da catedral de Florença - conhecida também por igreja de Santa Maria del Fiore -, o Hospital dos Inocentes e a Capela Pazzi.

Segundo a planta inicial, a catedral de Florença teria uma grande nave central e duas naves laterais que terminariam num espaço octogonal. Os trabalhos iniciais de construção foram realizados em 1296 por Arnolfo di Cambio. Mais tarde, Giotto também participou de suas obras. Em 1369 as obras da catedral tinham terminado, mas o espaço que deveria ser ocupado por uma cúpula continuava aberto.

Coube a Brunelleschi, em 1420, a tarefa de projetar a abóbada sobre esse espaço. A partir de estudos do Panteão e de outras cúpulas romanas, ele chegou à conclusão de que seria possível construir o domo de Santa Maria del Fiore, assentando-o sobre o tambor octogonal formado pelas paredes de pedra já construídas. A solução ficou tão integrada ao edifício que parece ter sido concebida pelo mesmo arquiteto que projetou originalmente a catedral.

Mas a concretização da harmonia e da regularidade, como consequência das regras de geometria - aplicadas por Brunelleschi no princípio do século XV -, é mais evidente na Capela Pazzi, em Florença. Comparada às grandes construções do período gótico, a Capela Pazzi é um edifício pequeno. Mas foi construído segundo princípios científicos tão precisos, que parece testemunhar a potencialidade de que dispõe o ser humano. Nessa obra, Brunelleschi alcançou plenamente os objetivos da arquitetura renascentista. Aí, “já não é o edifício que possui o homem, mas este que, aprendendo a lei simples do espaço, possui o segredo do edifício”.

Além das obras mais conhecidas desse importante arquiteto, outras construções revelam o espírito científico e humanista que o homem da Renascença cultivou com tanto interesse. Uma dessas obras encontra-se na cidade de Urbino, no norte da Itália. Como outras pequenas cortes que floresceram nessa região nas últimas décadas do século XV, Urbino foi um importante centro da civilização ocidental no período da Renascença.

O primeiro duque de Urbino, Federico de Montefeltro, foi um grande chefe militar, inteligente e culto. E este espírito humanista e civilizado que se encontra refletido no Palácio Ducal de Urbino. Suas salas são claras, arejadas e de proporções perfeitas. Não é conhecido o artista que projetou o palácio. Sabe-se apenas que um construtor chamado Laurana fez as fundações do edifício. Mas é certo que Piero della Francesca, um dos grandes pintores do Renascimento italiano, trabalhou em sua decoração. Foi para esse palácio que fez, por exemplo, o famoso díptico que retrata o Duque Federico de Montefeltro e sua esposa Battista Sforza, que será examinado mais adiante.

A pintura renascentista

A pintura do Renascimento confirma as três conquistas que os artistas do último período gótico já haviam alcançado: a perspectiva, o uso do claro-escuro e o realismo. E interessante lembrar que os pintores gregos e romanos da Antiguidade já haviam dominado esses recursos da pintura. Entretanto, como já vimos, os pintores do período românico e dos primeiros períodos góticos abandonaram essas possibilidades de imitar a realidade.

No final da Idade Média e no Renascimento, porém, predomina a tendência de uma interpretação científica do mundo. O resultado disso nas artes plásticas, e sobretudo na pintura, são os estudos da perspectiva segundo os princípios da Matemática e da Geometria. O uso da perspectiva conduziu a outro recurso, o claro-escuro, que consiste em pintar algumas áreas iluminadas e outras na sombra. Esse jogo de contrastes reforça a sugestão de volume dos corpos. A combinação da perspectiva e do claro-escuro contribuiu para o maior realismo das pinturas.

Outra característica da arte do Renascimento, em especial da pintura, foi o surgimento de artistas com um estilo pessoal, diferente dos demais.

Durante a Idade Média, como vimos, a produção artística era anônima. Isso ocorreu porque toda a arte resultou de ideias anteriormente estabelecidas - seja pelo poder real, seja pelo poder eclesiástico – às quais o artista deveria se submeter.

Com o Renascimento esse quadro se altera, já que o período se caracteriza pelo ideal de liberdade e, consequentemente, pelo individualismo. E, portanto, a partir dessa época que começa a existir o artista como o conceituamos atualmente: um criador individual e autônomo, que expressa em suas obras os seus sentimentos e suas ideias, sem submissão a nenhum poder que não a sua própria capacidade de criação.

Assim, no Renascimento são inúmeros os nomes de artistas conhecidos, tendo cada um características próprias, como veremos a seguir.

Masaccio: a pintura como imitação do real

Segundo Giorgio Vasari, um crítico e historiador de arte que viveu e produziu suas obras no século XVI, Masaccio (1401-1428) foi o primeiro pintor do século XV a conceber a pintura como imitação fiel do real, como a reprodução das coisas tal como elas são.

O seu realismo ê tão cuidadoso que ele parece ter a intenção de convencer o observador a respeito da realidade da cena retratada, como se pode observar em seus quadros Adão e Eva Expulsos do Paraíso, São Pedro distribui aos pobres os bens da comunidade e São Pedro Cura os enfermos.

Mas além disso, o pintor parece convidar o observador a também participar do que está representado na pintura.

Podemos notar esses aspectos, por exemplo, na obra Santissima Trindade, um grande afresco da igreja de Santa Maria Novelle, em Florença, e no painel Madona com o menino.

Olhando atentamente essas obras, constatamos um fato importante: os recursos da pintura renascentista e a atitude convincentemente humana das figuras retratadas nos mostram que a concepção que o homem do século XV faz de si mesmo, do mundo e de Deus se alterou em relação ao passado.

O artista do Renascimento não vê mais o homem como um simples observador do mundo que expressa a grandeza de Deus, mas como a expressão mais grandiosa do próprio Deus. E o mundo é pensado como uma realidade a ser compreendida cientificamente, e não apenas admirada.

Fra Angelico: a busca da conciliação entre o terreno e o sobrenatural

Fra Angelico (1387-1455) foi considerado o primeiro herdeiro de Masaccio, por causa do seu interesse pela realidade humana. Mas sua formação cristã e conventual fez com que suas obras manifestassem uma tendência religiosa na arte do Renascimento. Sua pintura, embora siga os princípios renascentistas da perspectiva e da correspondência entre luz e sombra, está impregnada de um sentido místico. É o caso, por exemplo, de “O juízo universal” e “Deposição”. O ser humano representado nas obras de Fra Angelico não parece manifestar angústia ou inquietação diante do mundo, mas serenidade, pois se reconhece como submisso à vontade de Deus.

Em sua obra Anunciação, pintada entre 1433 e 1434, notamos que ainda persiste a intenção religiosa. No entanto, a perspectiva e o realismo já são bastante evidentes. Aqui, as figuras ganham volume e feições mais humanas, diferentemente do aspecto menos realista das personagens que aparecem nos quadros pintados anteriormente, e a anunciação do anjo a Maria é ambientada numa construção cujas linhas geométricas parecem abrigar a serenidade com que Maria ouve a mensagem divina.

Paollo Uccello: encontro das fantasias medievais e da perspectiva geométrica

Paollo Uccello (1397-1475) procura compreender o mundo segundo os conhecimentos científicos do seu tempo e, em suas obras, tenta recriar a realidade segundo princípios matemáticos.

Mas, por outro lado, sua imaginação corteja as fantasias medievais, o mundo lendário de um período que já estava se constituindo num passado superado. Essa característica de Uccello pode ser observada no quadro São Jorge e o Dragão.

Além disso, outro aspecto importante de sua pintura ê a representação do momento em que um movimento está sendo contido. No painel central do tríptico Batalha de São Romão, por exemplo, os cavalos parecem refrear o ímpeto de uma corrida que logo será iniciada.



Piero della Francesca: imobilidade e beleza geométrica

Para Piero della Francesca (1410-1492) a pintura não tem por função representar um acontecimento. As cenas que suas obras mostram servem como suporte para a apresentação de uma composição geométrica.

Na Ressurreição de Jesus, por exemplo, o grupo de figuras humanas ali representadas compõe uma pirâmide, cujo ponto mais elevado é a cabeça de Cristo e cuja base são os soldados que dormem sentados no chão próximo ao túmulo.

No díptico que retrata o Duque Federico de Montefeltro e sua esposa Battista Sforza é bastante clara a preocupação do artista em reduzir as figuras às suas formas geométricas. Essa obra, formada por dois painéis de madeira, apresenta um aspecto interessante: embora cada um dos personagens esteja isolado num dos painéis, a mesma paisagem, ao fundo, estabelece a unidade entre eles. As duas figuras foram pintadas de perfil e o artista deu-lhes tal densidade que elas parecem ganhar volume e relevo.

Os pintores cubistas do século XX impressionaram-se muito com essa obra. Eles compreenderam a aproximação feita por Piero della Francesca entre as figuras humanas e as geométricas, pois fica patente no retrato do duque e de sua esposa que o rosto feminino assemelha-se a uma esfera, e o masculino, a um cubo. Como pudemos ver por esses exemplos, em Piero della Francesca a pintura não se destina a transmitir emoções, como alegria, tristeza, sensualidade. Para ele, a pintura resulta da combinação de figuras e do uso de áreas de luz e sombra. Seu universo é representado de uma forma geométrica e estática. Isso pode ser observado também no Batismo de Jesus e em Nossa Senhora com o Menino e Santos.

Botticelli: a linha que sugere ritmo e não energia

Botticelli (1445-1510) foi considerado o artista que melhor expressou, através do desenho, um ritmo suave e gracioso para as figuras pintadas. Os temas de seus quadros - quer tirados da Antiguidade grega, quer tirados da tradição cristã - foram escolhidos segundo a possibilidade que lhe proporcionavam de expressar seu ideal de beleza. Para ele, a beleza estava associada ao ideal cristão da graça divina. Por isso, as figuras humanas de seus quadros são belas porque manifestam a graça divina, e, ao mesmo tempo, melancólicas porque supõem que perderam esse dom de Deus.

Sua criação mais famosa, Nascimento de Vênus, retoma um tema da Antiguidade pagã, mas Botticelli transforma Vênus, a deusa do amor, no símbolo da pureza e da verdade.

Mas é na obra A Primavera que podemos compreender melhor as características de Botticelli. Essa pintura foi feita para decorar uma parede da casa de um dos membros da família Médici, de Florença. O assunto é a representação do mundo pagão. Ao centro está a deusa Vênus; acima de sua cabeça, Cupido dispara suas setas que despertam o sentimento do amor. À esquerda de Vênus estão Flora, a Primavera — uma jovem com um ramo de flor na boca - e Zéfiro, o vento oeste, na mitologia grega. À direita de Vênus estão as três Graças e Mercúrio, o mensageiro dos deuses. Aparentemente, as figuras não têm muita relação entre si, mas o observador as percebe como um conjunto. O que as une é o ritmo suave do desenho e a sugestiva paisagem em tons escuros que favorecem a impressão de relevo das figuras claras em primeiro plano.



Leonardo da Vinci: a busca do conhecimento científico e da beleza artística

Leonardo da Vinci (1452-1519) foi possuidor de um espírito versátil que o tornou capaz de pesquisar e realizar trabalhos em diversos campos do conhecimento humano. Aos 17 anos esteve em Florença, como aprendiz, no estúdio de Verrocchio, escultor e pintor já consagrado. Em 1482 foi para Milão, onde se interessou por questões de urbanismo e fez um projeto completo para a cidade. Projetou uma rede de canais e um sistema de abastecimento de água e de esgotos. Previu ruas alinhadas, praças e jardins públicos. Por volta de 1500, dedicou-se aos estudos de perspectiva e de óptica, de proporções e anatomia. Nessa época realizou inúmeros desenhos - cerca de 4.000 - acompanhados de anotações e os mais diversos estudos sobre proporções de animais, movimentos, plantas de edifícios e engenhos mecânicos.

Na verdade, Leonardo da Vinci pintou pouco: o afresco da Santa Ceia, no convento de Santa Maria delia Grazie, em Milão, e cerca de quinze quadros, dentre os quais destacam-se Anunciação, Gioconda e Santana, a Virgem e o Menino. Ele dominou com sabedoria um jogo expressivo de luz e sombra, gerador de uma atmosfera que parte da realidade mas que estimula a imaginação do observador. Um exemplo disso é o quadro A Virgem dos Rochedos. Um conjunto de rochas escuras faz fundo para o grupo formado por Maria, São João Batista, Jesus e um anjo. Essas figuras estão dispostas de maneira a formar uma pirâmide, da qual Maria ocupa o vértice. Essa disposição geométrica das personagens mais a luz que incide no rosto da virgem, em contraste com as rochas escuras, a torna o centro da obra. Mas a nossa atenção é desviada para o Menino Jesus, o que o torna a figura principal da composição. Leonardo conseguiu isso pelo envolvimento do corpo do menino na luz, pela atitude de adoração de São João, pela mão de Maria estendida sobre a cabeça do menino e pela atitude protetora do anjo, que o apoia. Por sua vez, a profundidade do quadro é dada pela luz que brilha muito além da escuridão da superfície das pedras.

Michelangelo: a genialidade a serviço da expressão da dignidade humana

Aos 13 anos, Michelangelo (1475-1564) foi aprendiz de Domenico Ghirlandaio, consagrado pintor de Florença. Mais tarde passou a frequentar a escola de escultura mantida por Lourenço Médici, também em Florença, onde entrou em contato com a filosofia de Platão e com o ideal grego de beleza — o equilíbrio das formas. Entre 1508 e 1512, Michelangelo trabalhou na pintura do teto da Capela Sistina, no Vaticano. Para essa capela, concebeu e realizou grande número de cenas do Antigo Testamento. Dentre tantas cenas que expressam a genialidade do artista, uma particularmente representativa é a da criação do homem. Deus, representado por um homem de corpo vigoroso e cercado por anjos, estende a mão para tocar a de Adão, representado por um homem jovem, cujo corpo forte e harmonioso concretiza magnificamente o ideal da beleza do Renascimento.



Rafael: o equilíbrio e a simetria

Rafael Sanzio (1483-1520) é considerado o pintor que melhor desenvolveu, na Renascença, os ideais clássicos de beleza: harmonia e regularidade de formas e de cores. Tornou-se muito conhecido como pintor das figuras de Maria e Jesus e seu trabalho realizou-se de modo tão precisamente elaborado que se transformou em modelo para o ensino acadêmico de pintura. Suas obras comunicam ao observador um sentimento de ordem e segurança, pois os elementos que compõem seus quadros são dispostos em espaços amplos, claros e de acordo com uma simetria equilibrada. Rafael evitou o excesso de detalhes e o decorativismo, expressando sempre de forma clara e simples os temas pelos quais se interessou.

Dentre sua grande produção é importante mencionar A Libertação de São Pedro, A Transfiguração e A Escola de Atenas. Esta última é um afresco pintado no Palácio do Vaticano, que "pretende ser um sumário gráfico da história da filosofia grega". No centro, estão Platão e Aristóteles. À volta deles agrupam-se outros sábios e estudiosos. Mas depois que o olhar do observador passeia pelo conjunto das figuras, procurando identificar aqui e ali outros personagens, sua atenção volta-se para o amplo espaço arquitetônico representado pela pintura. São admiráveis a sugestão de profundidade e a beleza monumental das arcadas e estátuas. E neste modo de representar o espaço e de ordenar as figuras com equilíbrio e simetria que residem os valores artísticos da pintura serena mas eloquente de Rafael.

A escultura renascentista

Na escultura italiana do Renascimento, dois artistas se destacam por terem produzido obras que testemunham a crença na dignidade do homem: Michelangelo e Verrocchio. Inicialmente, Andrea dei Verrocchio (1435-1488) trabalhou em ourivesaria. Esse fato acabou influenciando sua escultura. Observando algumas de suas obras, encontramos detalhes decorados que lembram as minúcias do trabalho de um ourives. É assim com os arreios do cavalo do Monumento Equestre a Colleoni, em Veneza, ou nos detalhes da túnica do seu Davi, em Florença. Mas Verrocchio foi escultor seguro na criação de volumes e considerado, na estatuária, um precursor do jogo de luz e sombra, tão próprio da pintura de seu discípulo Leonardo da Vinci.

Quando alguém observa atentamente a escultura que Verrocchio fez para o personagem bíblico Davi, inevitavelmente a compara ao Davi de Michelangelo. É interessante notar que as figuras humanas concebidas por Michelangelo e por Verrocchio para representar o jovem que, segundo a narração bíblica, derrota o gigante Golias, são extremamente diferentes entre si. O Davi de Verrocchio é uma escultura em bronze e retrata um adolescente ágil e elegante, em sua túnica enfeitada. Já o mesmo Davi em mármore, de Michelangelo, apresenta-se como um desafio para quem o contempla. Ao observarmos esta escultura, notamos que não se trata de um adolescente e sim de "um jovem adulto, com o corpo tenso e cheio de energias controladas. Não é frágil como o Davi de Verrocchio, nem perfeito e elegante como o Antinuos grego. A mão é colossal, mesmo na proporção da estátua. É a mão de um homem do povo, forte e acostumado ao trabalho. Mas é na cabeça que se encontram os traços mais reveladores. O Davi de Michelangelo tem uma expressão desconhecida na escultura até então. Contém uma espécie de força interior que não aparece no humanismo idealizado dos gregos. O Davi de Michelangelo é heroico. Possui um tipo de consciência que surge com o Renascimento em sua plenitude: a capacidade de enfrentar os desafios da existência. Não é apenas contra Golias que este Davi se rebela e batalha. É contra todas as adversidades que podem ameaçar o ser humano". A criatividade de Michelangelo manifestou-se ainda em outros trabalhos, como a Pietà, conhecido conjunto escultórico conservado atualmente na basílica de São Pedro, em Roma, e as esculturas para a capela da família Médici, em Florença.

A Pietá realizada quando o artista tinha apenas 23 anos, mostra um surpreendente trabalho de escultura em mármore, ao registrar o drapeado das roupas, os músculos e as veias dos corpos. Mas é na figura de Maria que ele manifesta seu gênio criador. Desobedecendo a passagem do tempo, retrata a mãe de Jesus como uma mulher jovem, cuja expressão de docilidade contrasta com o assunto da cena: o recolhimento do corpo de seu filho após a morte na cruz. Na capela da família Médici, Michelangelo realiza trabalhos de escultura nas tumbas dedicadas a Lourenço, Duque de Urbino, e a Juliano, Duque de Nemours. No túmulo de Lourenço estão as alegorias o Crepúsculo e a Aurora; no túmulo de Juliano, o Dia e a Noite. É interessante observar como Michelangelo concebeu essas quatro figuras que representam a passagem do tempo. A Aurora, embora simbolize o despertar da vida, traz um véu na cabeça, que é sinal de luto. O Crepúsculo, apesar de ser um homem maduro, tem o rosto indefinido. Já a Noite, melancólica, em sua posição esquisita, parece não conseguir repousar, enquanto o rosto do Dia, aparentemente inacabado, revela incerteza. Evidentemente, é possível admirar muitos escultores italianos renascentistas, mas a grandeza heroica de Michelangelo detém os olhos e as emoções de quem quer conhecer a arte da escultura desse período.



O Renascimento na Alemanha e nos Países Baixos

As concepções estéticas italianas de valorização da cultura greco-romana começaram a se internacionalizar e atingir outros países europeus. Nesses países, foi comum o conflito entre as tendências nacionais e as novas formas artísticas vindas da Itália. Mas esse conflito acabou se resolvendo com a nacionalização das ideias italianas. Fora da Itália, foi a pintura, entre as artes plásticas, que melhor refletiu a nacionalização do espírito humanista tão próprio da Renascença italiana. No século XV, ainda eram conservadas, na pintura alemã e na dos Países Baixos, por exemplo, as características do estilo gótico. Mas alguns artistas, como Dürer, Hans Holbein, Bosch e Bruegel, fizeram uma espécie de conciliação entre o gótico e a nova pintura italiana, que resultava de uma interpretação científica da realidade.



Dürer: a busca dos traços psicológicos do ser humano

Albrecht Dürer (1471-1528) foi o primeiro artista alemão a conceber a arte como uma representação fiel da realidade. Por isso, em várias de suas obras, procurou refletir a realidade de seu tempo e de seu país, representando camponeses, soldados e gente do povo em seus trajes característicos. Como se dedicou a estudos de geometria e perspectiva, valorizou os métodos científicos para a análise e recriação das paisagens naturais e da figura humana. Ao contrário de outros artistas que admiravam a geometria e fizeram das figuras geométricas suportes para o desenho da figura humana, Dürer, famoso pelos vários retratos que fez dele mesmo, de seu pai e de personalidades da época, buscou também os traços psicológicos do retratado. É assim, por exemplo, com o retrato de Oswolt Krel. Nele o artista não apenas registra fielmente os traços físicos e a posição social do personagem, como revela também um pouco do caráter enérgico desse comerciante alemão.

Além de pintor, Dürer foi desenhista e gravador. São famosos os desenhos que fez para ilustrar livros, não só por causa da beleza de suas linhas, mas também porque, como os desenhos de Leonardo da Vinci, contribuíram para a compreensão científica da natureza.

Hans Holbein: a valorização do humanismo

Hans Holbein (1498-1543) ficou conhecido na história da pintura como retratista de personalidades políticas, financeiras e intelectuais da Inglaterra e dos Países Baixos. Seus personagens são retratados segundo os princípios de um realismo tranquilo, diferente da inquietação que Dürer imprimia a seus retratos. Soube expressar com serenidade e esmero técnico tanto o ideal renascentista de beleza como a precisão da forma.

Dos seus retratos, é bastante conhecido o de Erasmo de Roterdã. Holbein, amigo de Erasmo, retratou com simplicidade e fina perspicácia os traços físicos e psicológicos deste grande humanista do século XVI, considerado, dentro de sua época, o maior defensor da internacionalização da cultura e contrário aos excessos nacionalistas, que conduzem a preconceitos e impõem estreitos limites à inteligência humana.

Bosh: a força da fantasia

Hieronymus Bosch (1450-1516) criou um estilo inconfundível. Sua pintura é rica em símbolos da astrologia, da alquimia e da magia conhecidas no final da Idade Média. No entanto, nem todos os elementos presentes em suas telas podem ser decifrados, pois ele seleciona e combina aspectos dos mais diversos seres, criando formas que estão presentes apenas nos sonhos ou nos delírios. Desse modo, uma figura pode apresentar aspectos vegetais e animais associados arbitrariamente pelo artista. Por que a composição desse artista é assim e o que ela reflete? Alguns críticos veem na pintura de Bosch a representação do conflito que inquietava o espírito do homem do final da Idade Média: a tensão entre o sentimento do pecado ligado aos prazeres materiais, de um lado, e a busca das virtudes de uma vida ascética, de outro. Além disso, um forte misticismo se espalhou pela Europa entre as pessoas mais simples e fortaleceu conceitos supersticiosos e crenças em manifestações diabólicas ou divinas. Esses conflitos podem ser vistos em obras, como As Tentações de Santo Antônio, Carroça de Feno e Os Sete Pecados Capitais.

Das obras de Bosch a mais instigante é, inegavelmente, o tríptico chamado O Jardim das Delícias. No painel da esquerda, chamado Paraíso Terrestre, o artista retrata a criação de Adão e Eva, tendo como cenário uma paisagem exótica e nada parecida com a imagem do paraíso descrito na Bíblia. O painel central é o próprio jardim das Delícias. Aí, estranhos personagens, animais, frutos, aves e peixes parecem realizar um movimento delirante. Mas, no painel da direita — O Inferno Musical — Bosch cria um clima complexo e terrível. Misturando formas humanas, animais, vegetais e minerais em meio a tons sombrios e soturnos, descreve um pesadelo próprio dos que viviam aterrorizados pelo medo do inferno.

Bruegel: um retrato das pequenas aldeias do século XVI

Apesar de Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), ter vivido nas grandes cidades da região conhecida como Flandres, já sob a influência dos ideais renascentistas, ele retratou a realidade das pequenas aldeias que ainda conservavam a cultura medieval. É assim, por exemplo, em Caçadores da Neve, Banquete Nupcial e Dança Campestre. Essa mesma temática foi trabalhada pelo artista em jogos Infantis, em que apresenta 84 brincadeiras de crianças. Quando observamos essa obra, dois fatos nos chamam a atenção. Em primeiro lugar, a composição com grande número de figuras, técnica que o artista dominava com segurança. Em segundo, a atitude das crianças: parece que elas não estão brincando por prazer e sim por obrigação, como quem executa um trabalho. Essa sensação é dada pela ausência de sorriso em seus rostos. A melancolia é o seu traço mais marcante.



TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO: História da Arte – Graça Proença – Editora Ática

Prezado aluno: Ignore as referências à figuras, elas não estarão presentes para não carregar demais o arquivo.

Prof. Agnaldo Ferreira – Arte - 2013



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