O retorno de martin guerre



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REFLEXÕES SOBRE NARRATIVA E PESQUISA HISTÓRICA À LUZ DO LIVRO “O RETORNO DE MARTIN GUERRE”, DE NATALIE ZEMON DAVIS.

Ana Paula Vosne Martins – Departamento de História da UFPR


Faz parte da miséria do homem o não poder conhecer mais do que fragmentos daquilo que passou, mesmo no seu pequeno mundo; e faz parte da sua nobreza e da sua força o poder conjecturar para além daquilo que pode saber. A história, quando recorre ao verossímil, não faz mais do que favorecer ou estimular essa tendência. A. Manzoni, Del romanzo storico e, in genere, de componimenti misti di storia e d’invenzione. 1830.

O escritor romântico Alessandro Manzoni, do qual retirei a epígrafe deste texto, escreveu um livro para tratar especificamente do romance histórico, comparando os procedimentos dos historiadores da época com os dos romancistas em favor destes, por escreverem histórias mais circunstanciadas sobre grupos sociais marginalizados e inferiorizados e indivíduos comuns, suas vidas, seus costumes, sentimentos, enfim, para aqueles temas que mais de um século depois da publicação do livro de Manzoni os historiadores passaram a se dedicar, inclusive a historiadora cujo livro vou analisar. O que é importante sublinhar desta referência sobre o romance histórico é que Manzoni já atentava para as relações entre texto histórico e texto ficcional, entre reconstrução positiva e invenção, entre verdade e verossimilhança, ou seja, tratava da dimensão narrativa da história e da dimensão histórica da narrativa literária.

Embora a discussão sobre a narrativa histórica ou das relações entre história e ficção não seja recente, como atesta o livro de Manzoni e algumas reflexões de tantos outros escritores do século XIX, ela conheceu uma inflexão entre as décadas de 1970 e 1980, com a publicação de livros e artigos escritos por historiadores sobre o que passou a ser conhecida como a questão da narrativa histórica. Lembro aqui do livro de Hayden White (Meta-História, de 1973) e os artigos do periódico inglês Past and Present escritos por Lawrence Stone (O ressurgimento da narrativa. Reflexões sobre uma nova velha história, de 1979) e de Eric Hobsbawm (O ressurgimento da narrativa: alguns comentários, de 1980) Esta discussão remetia não somente a um estilo, mas à questão do método e, como bem colocou Carlo Ginzburg, das vantagens que os historiadores podem tirar das elaborações artísticas em torno das relações emaranhadas entre realidade e ficção. (GINZBURG, 1989:201)

O livro escrito por Natalie Zemon Davis e publicado em 1983 contribuiu para esta discussão de forma bastante polêmica. Usando procedimentos narrativos como a verossimilhança, as conjecturas e as analogias, para poder contar uma história de impostura e de falsa identidade ocorrida numa aldeia francesa na região do Languedoc na metade do século XVI, a autora suscitou reflexões em torno da pesquisa e da relação entre texto histórico e texto literário.

O livro intitulado “O retorno de Martin Guerre” foi um grande sucesso editorial e de crítica. Foi resenhado nas mais importantes publicações do mundo acadêmico como a American Historical Review e a Renaissance Quartely, mas também foi bastante divulgado nos meios de comunicação de massa como jornais diários do porte de um New York Times, por exemplo, e em revistas culturais. O sucesso deste livro não se deve apenas ao apelo da história contada, mas ao estilo adotado pela autora, pois apesar da erudição e da densidade da pesquisa documental, a autora escreveu um livro atraente, acessível e com uma estrutura narrativa realista que o aproxima do romance histórico, atraindo, portanto, um público não acadêmico.

É importante esclarecer a origem deste livro, pois ela também está relacionada ao sucesso editorial. Em 1982 Natalie Davis foi convidada pelo diretor Daniel Vigne e pelo roteirista Jean Claude Carrière para trabalhar no roteiro e produção de um filme que estava sendo realizado sobre a história de um camponês francês chamado Martin Guerre. Como historiadora especialista na história francesa do século XVI, principalmente das camadas populares urbanas e dos camponeses, Natalie Davis já conhecia esta história. Ela conta no prefácio do livro que ao ler um dos relatos escrito pelo juiz que julgou o caso, ficou impressionada com os acontecimentos e pensou que esta história daria um bom filme. Sua participação no roteiro e nas filmagens, cuja reconstrução é de notável qualidade e competência, a estimulou a escrever o livro, pois segundo Davis, quanto mais ela saboreava o processo criativo, se sentia compelida a ir mais fundo naquela história, a dar-lhe um sentido histórico. (p.10) Sentia também os limites do filme histórico, que em favor de uma narrativa cinematográfica tinha que sacrificar uma série de informações e de detalhes da vida dos personagens, o que dificultava a compreensão do que acontecera: Nessa bela e forte recriação cinematográfica, onde estavam o espaço para as incertezas, os “talvez”, os “poderia ser” a que o historiador tem de recorrer quando as evidências são inadequadas ou geram perplexidades? (p.10)

Portanto, filme e livro foram quase lançados juntos e o livro foi anunciado pelos resenhistas da imprensa como um suplemento histórico, um aprofundamento da história narrada na tela.1

De que trata, então, esta história que tanto atraiu os realizadores do filme, a historiadora, os espectadores e os leitores? Muito resumidamente esta história se passou na década de 1550 na aldeia de Artigat, na região do Languedoc. Martin Guerre, um camponês bem estabelecido, casado ainda muito jovem com Bertrande de Rols, teve um desentendimento com seu pai e foi embora para a Espanha, deixando a jovem esposa com um filho pequeno. Oito anos depois ele retornou um tanto diferente, mas todos o receberam e o reconheceram, inclusive sua esposa, suas irmãs e seu tio Pierre Guerre, que cuidara da propriedade na sua ausência e com a morte do pai de Martin. O casal passou a cuidar da terra e dos negócios e teve mais dois filhos. O tempo passou e logo um desentendimento entre Martin e seu tio, por motivo de herança, acabou por desencadear um conflito judicial, pois o tio Pierre acusou de impostor o homem que retornou a Artigat dizendo-se ser Martin Guerre. A aldeia se dividiu quanto à acusação, mas Pierre e sua esposa, a mãe de Bertrande, estavam convictos de que aquele homem não era Martin. Alguns acontecimentos acabaram por reforçar as suspeitas e o processo começou na cidade próxima de Rieux. A corte ouviu mais de 150 testemunhas, mas as opiniões eram muito divergentes. Até então Bertrande defendeu o marido, mas acabou cedendo às pressões da mãe e de Pierre e também apresentou queixa contra o acusado. O juiz considerou o acusado de falsa identidade culpado e o condenou à morte. Martin mostrou-se muito seguro durante todo o processo, narrando com memória prodigiosa detalhes de sua vida pregressa, principalmente do casamento com Bertrande. Ele recorreu da sentença ao Supremo Tribunal de Toulouse, que a partir de 1560 começou a analisar o caso e a ouvir as testemunhas e o acusado. Um dos magistrados desta corte, o juiz Jean de Coras estava quase convencido da inocência do acusado, pois sua eloqüência e a memória dos fatos passados eram indícios de que o tio Pierre estava procurando vingar-se do sobrinho acusando-o de impostor e de ser um falso marido.

Justamente quando o juiz parecia disposto a rever a sentença da corte de Rieux adentra no tribunal um homem com uma perna de pau dizendo a todos ser ele o verdadeiro Martin, estando distante de casa e da família todos aqueles anos porque serviu o irmão do cardeal Francisco de Mendoza y Bobadilha e por lutar no exército do Filipe II, tendo por isso perdido a perna numa batalha. Dramaticamente tudo se inverte. Bertrande o reconheceu e disse a todos que foi enganada pelo impostor, o falso Martin, cujo nome era Arnaud Du Tilh, mais conhecido na sua aldeia de origem pela alcunha de Pansette. Arnaud confessou ser um impostor, mas inocentou Bertrande, enganada, segundo ele, durante todos aqueles anos. Os magistrados o condenaram à morte, mas inocentaram Bertrande do crime de adultério e de bigamia, aceitando a versão da sua credulidade e boa fé. Arnaud foi enforcado em Artigat e seu corpo queimado. Sua filha com Bertrande foi considerada legítima,(à época do julgamento um dos filhos do casal já havia morrido, sobrevivendo uma filha e o filho que Bertrande teve com Martin antes de sua partida) suas propriedades não foram confiscadas, o marido com a perna de pau e sua esposa voltaram a viver juntos com as duas crianças e alguns anos mais tarde o juiz Jean de Coras foi linchado pelas turbas nos desdobramentos da Noite de São Bartolomeu.

Nota-se como a história tem uma estrutura romanesca, com personagens principais e secundários, um casal e suas dificuldades, esperanças e sentimentos e um desfecho dramático. A autora escreveu o livro dando-lhe esta estrutura, o que o torna ainda mais atraente, pois ele realmente se parece com um romance, mas não é. Foi esta estrutura narrativa e a interpretação que Davis deu para a história que suscitou críticas quanto ao seu método de pesquisa e principalmente quanto aos limites e as distinções entre texto histórico e texto ficcional. Uma dessas críticas foi produzida pelo historiador especialista no Renascimento italiano, Robert Finley. Ele escreveu o artigo “The refashioning of Martin Guerre” publicado na American Historical Review em junho de 1988. Neste mesmo número Natalie Davis faz a réplica a Finley com o artigo “On the lame”. Vou retomar alguns dos principais pontos desta crítica.

Davis recorreu às duas principais fontes sobre o caso de Arnaud du Tilh. O juiz Jean de Coras escreveu seu relato dos acontecimentos logo após o julgamento de Arnaud, publicado em francês no livro “Arrest Memorable”, com o atraente subtítulo “Contendo uma história prodigiosa de nosso tempo”. Davis define esta obra como um trabalho jurídico, um relato histórico e uma narrativa que se desdobra entre as fronteiras do conto moral, da comédia e da tragédia. (p.134) Na mesma época outro contemporâneo de Coras, Guilherme Le Sueur escreveu em latim a “História Memorável do falso Martin Guerre”. Embora recorra às duas fontes para reconstruir os acontecimentos, Davis explora mais o livro de Coras porque ele testemunhou os acontecimentos enquanto juiz, construindo uma narrativa a partir dos autos do processo (que não mais existem) e de suas próprias dúvidas e das dificuldades do seu métier relativamente às provas, testemunhas, verdade, mentira, invenção. Além destas fontes publicadas, Davis recorreu a outros processos do Supremo Tribunal de Toulouse para averiguar as práticas e atitudes dos juízes. Também percorreu arquivos para consultar a documentação das aldeias da região a fim de entender o mundo dos camponeses, como viviam e as reações que deviam ter. Ao falar da metodologia, Davis explica que embora a história do retorno de Martin Guerre, do falso marido e da mulher enganada seja excepcional ela desnuda motivações e valores que se diluem na agitação cotidiana (...) e que as aventuras destes três aldeões não estão tão distantes das experiências mais corriqueiras dos seus vizinhos. (p.21)

Ao explicar as limitações impostas pela documentação escassa e o desafio interpretativo que se colocava, Davis usa uma expressão no mínimo controversa para os historiadores. Ela diz que ao recorrer a outras fontes da mesma época e região para encontrar homens e mulheres semelhantes a Martin, Bertrande e Arnaud, já que não era possível ter acesso aos seus pontos de vista, nem às suas falas, oferecia aos leitores uma invenção construída pela atenta escuta das vozes do passado. (p.21) Teria a experiente historiadora cometido um deslize, um erro ou uma imprudência metodológica imperdoável no “tribunal dos documentos” e uma afronta à “soberania das fontes”?2 Pode o historiador inventar?

Certamente que não e defendo que o verbo inventar foi utilizado pela autora com um sentido diferente ao da oposição entre verdade e mentira. Natalie Davis estabelece como o problema de sua investigação o significado da identidade no século XVI; ou seja, através de um caso de falsificação de identidade a autora propõe explorar o problema da verdade e da dúvida. A documentação disponível era escassa e lacunar. Para resolver este problema com as evidências, por um lado Davis estabelece argumentos conjecturais que a contigüidade das fontes permitia e, por outro, constrói uma narrativa de estrutura literária, usando verbos no condicional, advérbios que expressam a dúvida como “talvez” e “certamente” ou expressões como “pode-se conjecturar” e “meu palpite”. Desta forma, como bem havia notado Carlo Ginzburg em seu artigo sobre o livro de Davis, o problema da prova continua mais do que nunca no centro da investigação histórica: mas seu estatuto é inevitavelmente alterado no momento em que são abordados temas diversos relativamente ao passado, com o apoio de uma documentação também diversa. (1989:201) Natalie Davis não mudou de ofício ao escrever este livro; ela problematizou a relação entre provas e possibilidades, entre invenção e criação, entre verdadeiro e verossímil. Este procedimento não deixa de ser desconcertante, especialmente para os historiadores.

As críticas de Finley apontam para isto. Seu artigo levanta três principais objeções ao método conjectural e à interpretação de Davis. A primeira objeção diz respeito à esposa do verdadeiro e do falso Martin, Bertrande. Davis não tem dúvida a respeito da cumplicidade de Bertrande com Arnaud. Em várias passagens do livro ela diz que Bertrande sabia da falsa identidade. Bertrande teve uma vida conjugal difícil com Martin, pois o casamento demorou muito tempo para ser consumado, devido a um sortilégio. Ambos eram adolescentes quando se casaram e o nascimento do filho só ocorreu oito anos após o casamento, quando uma velha curandeira da aldeia retirou o malefício. Segundo Davis, Bertrande viu no homem que retornou como seu marido a possibilidade de realizar seu sonho: um casamento de paz e amizade. (p.65) Ambos se deram muito bem, trabalharam e prosperaram juntos e tiveram dois filhos. Davis também defende que frente aos juízes do caso Bertrande desempenhou o papel que era esperado de uma mulher honesta e virtuosa: primeiro, como boa esposa defendeu seu marido; depois, pressionada e ameaçada, ela negou saber da impostura e se disse enganada, com os olhos baixos e tremor na voz.

Finley critica esta interpretação de Davis ao dizer que ela não se sustenta em evidências, pois os dois relatos do caso, o de Coras e o de Le Sueur, afirmam que Bertrande foi uma mulher enganada devido à fraqueza de seu sexo frente às artimanhas de um impostor. Para Finley a interpretação de Davis teria transformado Bertrande numa heroína camponesa proto-feminista.

A segunda objeção refere-se ao uso do conceito de modelagem de si (self-fashioning), que remete à importante discussão presente no livro sobre falso/verdadeiro; sobre a invenção/criação da identidade; questão central da argumentação de Davis. A autora empresta da literatura e das fontes renascentistas o conceito de modelagem de si, conceito este que os leitores de Baltasar Castiglione (O cortesão), Della Casa (Galateo) e de Montaigne (Ensaios) conhecem bem como a arte de se fazer pelo conhecimento, pelos gestos, pela conversação, enfim, pela modulação dos comportamentos na vida social que diferencia os cortesãos e as damas das pessoas incivilizadas e rústicas. Segundo Davis, Arnaud e também Bertrand se modelaram ao inventar um casamento e uma nova identidade, a identidade do novo Martin, tanto que Davis só vai usar o nome Arnaud quando começa o julgamento. Ou seja, para Finley este empréstimo do conceito de modelagem de si também não encontra nenhum amparo na documentação, sendo imposto ao mundo camponês pela autora.

Por fim, a terceira objeção diz respeito à possível identificação que Davis estabelece entre o juiz Jean de Coras e o acusado Arnaud. Para a autora o juiz e o acusado compartilhavam algumas qualidades que foram percebidas por ele: a eloqüência, a memória prodigiosa, o amor à esposa e a simpatia pelo protestantismo. É desta forma que Davis interpreta o relato de Coras como sendo uma tragédia, não pela impostura (tema mais afeito à comédia), mas sim pela sua descoberta e pelo fim do casamento inventado e do próprio Arnaud. Para Finley esta aproximação também não se sustenta em fontes e demonstra somente o trabalho reinterpretativo da fonte por parte de Davis. Desta forma, Finley é categórico na sua crítica: o trabalho de Davis é histórico somente no que diz respeito à trapaça; no restante, no que se refere às interpretações, ele não se sustenta em provas; Davis teria se permitido um excesso de invenção e imaginação na sua abordagem da vida dos camponeses.

Não pretendo sumariar a resposta que Natalie Davis deu à crítica de Finley. Gostaria de tratar do método usado no livro porque esta me parece ser a questão central da polêmica e também através dela podemos retomar os argumentos de Davis.

Parece-me que a palavra-chave do método usado por Davis é invenção. Finley levou a sério esta palavra e condenou a autora pelo seu uso, pois o historiador não pode inventar; seus argumentos e suas explicações são construídos a partir das evidências documentais. Pois bem, já conhecemos a posição do juiz Finley. Vejamos os argumentos da acusada. Davis não inventou nada, se considerarmos o verbo inventar na acepção de imaginação astuciosa e de fantasia, como oposição à verdade. Invenção, segundo Davis refere-se a uma ação criativa, a um procedimento analítico frente às lacunas documentais. O caso analisado por Davis efetivamente tem somente duas fontes: os dois relatos de homens eruditos sobre a vida dos camponeses relativamente a um caso de falsa identidade de um marido. As referências posteriores a este caso inserem-se nas publicações sobre “casos célebres e prodigiosos”, seguindo mais ou menos de perto a interpretação de Coras e Le Sueur. Desta forma Natalie Davis não se propôs a escrever mais um livro sobre a história de uma impostura e de uma mulher enganada. Sua experiência com a sociedade e a cultura camponesa no século XVI, com o lugar social das mulheres, com as relações entre cultura, sociedade e religião, com a cultura das pessoas eruditas, a cultura das pessoas comuns e suas inter-relações, enfim, sua experiência nascida nos arquivos e no estudo das fontes desta época e destes grupos sociais e sujeitos, proporcionou a armação metodológica que Davis chamou de invenção.

Mais do que provas, o trabalho de Davis apresenta possibilidades interpretativas. As provas documentais sobre família, casamento, sociabilidades e cultura camponesas foram recolhidas pela autora nos arquivos das localidades onde se deram os acontecimentos. De posse destas informações, a autora procurou explicar alguns comportamentos e escolhas das pessoas envolvidas, já que não era possível ter acesso a algum testemunho delas a não ser pela intermediação dos relatos dos dois eruditos. Desta forma, a invenção a que se refere Davis diz respeito a este procedimento metodológico que a contigüidade das fontes permitiu. O recurso às analogias e às conjecturas foi outra estratégia decorrente da contigüidade das fontes. Como Davis tinha evidências sobre escolhas e comportamentos de outros indivíduos no mesmo contexto sócio-histórico, estendeu com isso as possibilidades de explicação para aqueles acontecimentos. Assim, entendo que Davis não narrou a história de Bertrande, de Martin e de Arnaud, mas através deles, das lacunas sobre o que disseram, fizeram e sentiram, Davis narra experiências coletivas, inclusive de indivíduos de classes hierarquicamente superiores e de estratégias compartilhadas com homens e mulheres das classes inferiores, como é o caso da modelagem de si. Esta é a razão de Davis ter recorrido à invenção, pois a história que narra trata de invenções: de identidades, comportamentos, casamento e da narrativa trágica do texto de Coras.

Diferentemente do rigor metodológico do “tribunal das fontes” conforme defendido por Finley, o livro de Davis é instigante e provocativo porque traz para o debate histórico as reflexões suscitadas pela narrativa, pela relação entre quem narra e o que é narrado, mas principalmente por problematizar os limites entre a verdade e a dúvida, tanto sobre a identidade dos maridos, quanto das explicações dos historiadores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAVIS, Natalie Zemon. O retorno de Martin Guerre. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

__________________ “On the lame.” American Historical Review. Vol.93, N. 3, June 1988. 572-603.

FINLEY, Robert. “The refashioning of Martin Guerre.” American Historical Review. Vol.93, N. 3, June 1988. 553-571

GUINZBURG, Carlo. “Provas e possibilidades à margem de “Il Retorno de Martin Guerre”, de Natalie Zemon Davis.” In A micro-história e outros ensaios. Lisboa: DIFEL, 1989.

MANZONI, Alessandro. Del romanzo storico. (1830) Disponível no endereço: www.classicitaliani.it/index073.htm





1 O filme tem o mesmo título do livro. Foi dirigido por Daniel Vigne, baseado nas fontes primárias principais que narram a história e também no romance de Janet Lewis, A esposa de Martin Guerre, publicado em 1941. O elenco foi encabeçado por Gerard Depardieu, Natalie Baye, Roger Planchon, Tchéky Karyo e Dominique Pinon. O roteiro é de Daniel Vigne e Jean Claude Carrière.

2 Estas expressões judiciais são tomadas de empréstimo do artigo de Finley. (1988)



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