O «revivalismo colonialista» de Fernando Rosas brandão ferreira(*) Dr. Fernando Rosas



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O «revivalismo colonialista» de Fernando Rosas

brandão ferreira(*)
Dr. Fernando Rosas (FR) i está preocupado. Assim o afirma em artigo saído no «Público» do passado dia 27 de Abril.

E está preocupado porque o autarca-mor de Coimbra, Dr. Car­los Encarnação, segundo diz, re­solveu inaugurar um monumento de homenagem aos «Combatentes do Ultramar», numa praça apelida­da - ela também! —, «Dos Heróis do Ultramar».

O escrito é todo ele uma aleivosia pegada, cheio de rancor e into­lerância. E se tal fica mal a qual­quer cidadão, acresce o ónus face às responsabilidades do Dr. Ro­sas, como político e como deputa­do. E como, ainda por cima, se assina como «historiador», as coi­sas ficam piores dadas as inverdades propaladas e a falta de hones­tidade intelectual (e crassa igno­rância!), evidenciadas, de todo in­compatíveis com aquele título.

A situação descamba finalmen­te, pelo franqueamento assaz libe­ral (digamos assim), com que os principais meios de comunicação social premeiam as prolixas, sem embargo de pouco sérias, inter­venções do personagem e outros afins, numa pouco equilibrada — e democraticamente —, para já não dizer deontológica, vivência pro­fissional.

Mas concentremo-nos nos di­zeres do plumitivo e só podemos escolher alguns porque para res­ponder a todos os dislates equiva­leria quase a um curso de pós gra­duação nomeadamente... em His­tória.

A primeira ilação que transpa­rece do artigo no seu todo, é que FR não entende nada do país onde nasceu; não suspeita sequer de um conjunto de valores, princípios e referencias que são essenciais à vivência dos povos e tem da Histó­ria uma visão eivada de preconcei­tos ideológicos que há muito per­deram o seu prazo de validade. Numa palavra FR não é um historiador, mas sim um contador de histórias que pretendem sustentar uma ficção política.

Num primeiro engano FR ad­jectivou a estátua que representa um soldado português (branco), com um petiz (negro) às costas e uma G-3 na mão, como sendo «apo­logética da guerra colonial». O engano, aliás, é duplo, em primei­ro lugar porque a estátua não é apologética, representa apenas a realidade e, depois, porque não houve nenhuma «guerra coloni­al» — o Dr. Rosas anda desfasado no tempo —, mas tão só operações militares de soberania, em larga escala, em apoio das autoridades locais e de protecção de bens e populações. Mas eivado de erros como está FR duvidamos que per­ceba a diferença.

FR cai em várias confusões ao tentar ligar a cerimónia à «legiti­mação da guerra» «(e por essa via da ditadura)». O que alguns autar­cas e políticos de nomeada têm andado a fazer não tem sido a legi­timação da guerra — porque para isso ainda não ganharam coragem (embora eu tivesse todo o gosto em discutir tal aspecto porque, de fac­to, Portugal travou uma «guerra» justa) —, mas apenas um reconhe­cimento público, e deve acrescen­tar-se tardio, do esforço traduzido em sangue, suor, lágrimas e alegri­as que os filhos de cada concelho fizeram em defesa da sua terra, en­quanto combatentes enquadrados nas Forças Armadas (FA's), nacio­nais (e não «coloniais», como mal­dosamente insinua o docente do cachimbo à banda).

E isto representa tão só e ape­nas, uma cerimónia natural, por ancestral, que se passa em todas as latitudes e regimes.

É estranho que um homem com tantas preocupações cívicas (está lá no artigo), não entenda isto.

Que quer o Dr. Rosas que se faça: que se exaltem os desertores (que, aliás, quase não houve)?; que se faça uma estátua aos cobardes?; ou que se ensine nas escolas que a traição é uma virtude cívica?.

Num âmbito mais alargado o Dr. Rosas tenta confundir a legiti­mação da guerra com a «ditadura». Passando por cima da inexactidão no campo da Ciência Política de considerar o regime do «Estado Novo», como uma ditadura ques­tão da guerra não tem nada a ver com ela.

Se FR fosse um pouco mais atento aos factos históricos e ao sentir da «alma nacional» já teria notado que a defesa do Ultramar como aliás da Metrópole —, nun­ca teve nada a ver com regimes políticos, com monárquicos ou republicanos; maçons ou católi­cos; liberais ou absolutistas. Foi sempre uma causa nacional, anco­rada num lastro de séculos e inte­riorizada no devir colectivo. Era uma maneira portuguesa de estar no mundo.



O Dr. Rosas sabe pouco. E o pouco que sabe está colado com cuspo. Avermelhado.

E escusa de se meter com os comandos das FA's. Eles têm mais que fazer do que lhe dar troco.

Não param os embustes em que FR se enredou ou quer enredar os leitores, por ex. «... Foi a consci­ência de que só a democracia seria capaz de acabar com a guerra colo­nial que fez os jovens oficiais do movimento evoluir para a impres-cindibilidade de derrubar pelas ar­mas o regime vigente...»

Dr. F. Rosas, acorde para a realidade! O 25 de Abril foi prepa­rado aí por uns magros 3 por cento dos oficiais do quadro permanen­te, a maioria dos quais tinha uma ideia vaga do que era a democra­cia. A causa primeira do que se passou foi corporativa e prendeu-se com promoções de oficiais mi­licianos que passariam a entrar para o quadro mantendo a sua antiguidade de milicianos, ultra­passando assim largas dezenas de «jovens oficiais» que viam, por essa via, comprometidas as suas carreiras.

A falta de jeito em lidar com o assunto por parte de membros do governo e chefias militares, a am­bição de dois generais e a fraque­za do Presidente do Conselho de Ministros, Prof. Marcelo Caeta­no, fragilizado pela doença e morte da esposa, fizeram o resto. A Democracia e toda a parafrenália política que se invocou e cons­truiu não tiveram nada a ver com o que se passou. Foram chavões disseminados pêlos revolucio­nários encartados que espreita­vam a oportunidade. Percebeu, Pr. Rosas?



Os delírios do historiador

Por isso não faz sentido afirmar que «a condenação do colonialis­mo e da guerra colonial estão na génese do 25 de Abril». Estavam, sim, na mente de uns milhares de expatriados e de outros tantos sim­patizantes do «Reviralho», como eram conhecidos os membros da Oposição ao regime vigente e que estavam longe de constituir sequer uma parcela significativa da popu­lação portuguesa.

Que esse número fosse após a Revolução (melhor dizendo, do gol­pe de estado), multiplicado por mui­tos em termos de «adesivos» e «vira casacas», não é de espantar. Passa-se o mesmo em todas as revoluções, em qualquer parte do mundo. Faz parte da (fraca) natureza humana.

Afirma ainda FR que a guerra em que nos envolveram (não fomos nós que a começamos para o caso desse pormenor lhe ter passado desperce­bido), era «contra a História». Está enganado mais uma vez. A guerra não foi travada nem contra nem a favor da História. Era apenas a sua continuação. Foi sempre assim. Por­tugal sofreu em toda a sua já vetusta existência, da cobiça de outras na­ções e sempre se teve que bater pelo que considerava os seus interesses e a sua sobrevivência. O que FR evo­ca é o mito dos «ventos da História». A História revela, porém, que os ventos são sempre soprados por quem tem mais Poder em cada época. Dr. Rosas ponha os pés no chão.

Uma outra afirmação espantosa aparece algures: «como todas as guerras coloniais, esta foi, sobretu­do para o exército colonial, uma guerra sem heróis». Com franqueza ó Dr. Rosas, felizmente que há muitos e tudo está bem documenta­do.

Mais à frente chega ao insulto (e quiçá ao âmbito jurídico — não se pense que a imunidade parlamentar dura sempre...), ao afirmar: «as po­pulações africanas atingidas, quan­tas vezes barbaramente, por exces­sos criminosos do exército coloni­al», onde quer chegar com isto?; tem provas do que afirma?; é capaz de dar exemplos?

E ao tratar os combatentes como «vítimas» estará por acaso atentar inferiorizá-los psicologicamente ou a tentar relegá-los para uma espécie de gueto como tentaram os da sua laia, nos idos de 1974/5?

Finalmente FR delira: «...as di­reitas esquecem que o colonialismo e a guerra se transformaram, alem do mais, num empreendimento econó­mica, social e politicamente desas­troso. ..» O Dr. Rosas viveu cá, ou a sua miopia politiqueira nem sequer lhe dá para ver o que pisa? Então os portugueses estavam a realizar uma obra portentosa no Ultramar, tendo-se inclusive feito mais em África nestes 14 anos de guerra do que nos quatro séculos anteriores, enquanto que o desenvolvimento na parte eu­ropeia de Portugal estava a crescer a 7 por cento ao ano e FR defende que o resultado era um desastre?

Desastre foi o que se passou a seguir com o rasto de destruição, miséria e morte, fazendo regredir a civilização décadas! O senhor en­xergue-se!

Afinal de que tem medo o Dr. Rosas, dos colonialistas e quejandos que ele, por outro lado afirma serem minoritários, voltem ao Po­der e vão com os navios que deixá­mos de ter, costa abaixo recuperar o «império»?; ou tem receio que a pouco e pouco a Verdade do que na realidade se passou, e espaço no meio da ditadura mediática e educa­cional do politicamente correcto e da leitura marxista da História?



O Dr. Rosas quis, aparentemen­te, atacar o Dr. Encarnação, a Direi­ta (coitada), e a Extrema-direita (de quem ninguém dá por ela desde que o Dr. Salazar pôs o Rolão Preto na ordem). Mas só aparentemente, pois no fundo quem FR quis atingir fo­ram os combatentes, as FA's e toda a Nação.

Em Democracia, melhor dizen­do, nas relações entre os seres huma­nos, as opiniões quando fundamen­tadas e defendidas de boa mente em e têm de ser respeitadas.

O Dr. FR fará o favor de ponde­rar as suas de modo a que caibam neste âmbito.
PS

Este texto foi enviado para o jornal «O Combatente», órgão da Liga dos Combatentes, instituição que deve estar na primeira linha da defesa da dignidade dos Combatentes. O Presidente da Liga entendeu não permitir a sua publicação, preferindo ser ele próprio a dar resposta ao artigo do Dr. Rosas, sem nunca lhe citar o nome.



Não está em causa o direito que assiste ao Presidente da Liga de escolher os textos a serem publicados no órgão de que ele é o último responsável. Agora será preocupante quando tais atitudes parecem indiciar cedências ao politicamente correcto; censura a opinião diversificadas ou a pessoas e menor coragem em lidar com afrontas ou na defesa de princípios.
(*) TeorPHv. (ref.)

e-mail: brandaof@sapo.pt


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