O. S. Marden querer é poder



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O. S. Marden

QUERER É PODER

Porto, 1939


Sumário

Prefácio do Tradutor 4

1. A vontade e a sua educação 6

2. A vontade em ação 14

3. A vocação e o ambiente 23

4. Fatalismo, determinismo e livre-arbítrio 32

5. Auto-educação 39

6. Obstáculos da vontade 50

7. Idealistas e positivistas 59

8. O entusiasmo no trabalho 68

9. Responsabilidade e energia 73

10. Vontade e decisão 78

11. O possível e o impossível 83

12. Satisfação interior 87

13. Originalidade, imitação e extravagância 92

14. Dinheiro e trabalho 97

15. A vontade e o ascendente 101

16. O direito à vida 106

17. A vontade e a sorte 111

18. Pobreza e fortuna 114

Conclusão 117




Prefácio do Tradutor


De toda a obra filosófica que Marden generosamente produziu para benefício da humanidade é este um dos livros mais sensatos e substanciosos, onde refulgem, como pérolas de fino engaste, os ensinamentos e os conselhos mais belos e salutares.

Os que lerem este livro – incluindo os amoucos das velhas doutrinas, que costumam esboçar um gesto de enfado em leituras transcendentais – hão-de notar, logo nas primeiras páginas, a preocupação do autor em realçar a importância da vontade como fator máximo na vida do homem. Não porque pretenda consubstanciar na vontade todas as potências da alma – ele próprio o declara –, mas porque entende, como, aliás, o reconhece a psicologia contemporânea, que a vontade é o principal fulcro das ações humanas.

– A vontade, diz Gabriel Compagré, é o agente essencial da virtude. Sem ela não se pode triunfar no mundo, não se podem vencer as dificuldades e modificar as circunstâncias da vida. Nos grandes ou nos pequenos negócios, a vontade prepondera sempre. Chega a ser mesmo um elemento do gênio. Os inventores e os benfeitores da humanidade só à custa de nobres esforços e duma enérgica perseverança conseguiram realizar a sua obra. Em todos os graus da escala social a vontade é a base da qualidade essencial do homem – o caráter 1(1).

Marden, porém, ponderado sempre nas suas afirmações, esclarece que não basta querer para poder; é necessário saber. E, assim, com um sugestivo poder de análise que convence e contagia, forma a bela trilogia da vontade, da sabedoria e da atividade, como potências inerentes apenas à natureza humana, em oposição à fórmula antiquada e cediça de memória, entendimento e vontade, que abrange igualmente os animais, e que desvirtua o pensamento divino, sublimemente construtivo.

Todos conhecem a ideologia do aforismo – querer é poder –, mas poucos são os que penetram a fundo no seu espírito, procurando fugir à influência dos sentimentos que degradam, para simplesmente escutarem a voz de secretos e criminosos instintos. E, assim, há uma grande maioria de consciências que, querendo ser honrada, não pode consegui-lo, por dar ouvidos às vozes espectrais da ambição, do egoísmo e da mentira, que geram a insinceridade, pondo trevas na alma para maior perversão do caráter.

Há uma grande necessidade de educar toda a gente – desde o ministro ao simples operário –, para que toda a gente, numa real compreensão dos seus deveres morais e sociais, não dê sustento às burlas, à vigarice, ao latrocínio, ao homicídio, a toda essa coorte de espectros diabólicos que têm imperado mais horrendamente depois da guerra no espírito social.

É necessário que todos os homens de caráter perfeito e inteligência lúcida façam a propaganda cerrada das virtudes mais belas que podem florir na alma humana, não só pelo livro e pelo jornal, mas pela conferência e mesmo pelo comício. É necessário despertar e estimular em todos uma vontade consciente, para que possam, numa multiplicidade de ações inteligentes, benéficas e generosas, imprimir um novo estádio de civilização em toda a humanidade.

Querer é poder não é uma frase vã e despida de conceito. É a expressão máxima do pensamento humano, é a meta luminosa do futuro que o rebanho panígico dos que teimam em se manter deploravelmente jugulados pela rotina desqualificada e ignóbil precisa de atingir dentro do mais curto prazo, para decoro mundial.

Eduquemo-nos. Melhoremos o nosso caráter, depuremos os nossos costumes.

A educação, completada pela auto-educação, prepara-nos para a vida integral, dentro da mais ampla e perfeita lei moral.

Os que quiserem elevar-se acima do pântano sombrio onde vegetam, para se aproximarem da luz radiosa que fulge no cume dos montes, poderão ver despontar nas suas almas a aurora refletida das consciências luminosas, donde irrompe a gênese das saudáveis doutrinas.

Este livro de Marden realizará por certo tão nobre desiderato.

Manuel de Melo

1. A vontade e a sua educação


O agulheiro duma estação de estrada de ferro estava um dia no seu posto, no momento em que vinha a chegar um comboio rápido, quando viu um seu filho de seis anos a correr alegremente para ele, sem dar pela chegada do comboio. Se a criança desse mais um passo seria imediatamente colhida pela locomotiva. O agulheiro pensou que, se abandonasse o seu posto, poderia causar uma catástrofe que custaria a vida a centenas de pessoas, mas, cumprindo o dever de não se afastar das agulhas e não acudindo ao filho, expunha-o indubitavelmente a uma morte certa. Nesta dolorosa indecisão, teve o agulheiro a feliz idéia de gritar energicamente à criança: Pára aí, não te mexas. O pequeno obedeceu como autômato, no momento em que ia a atravessar a via por onde precisamente passou o comboio, que o teria esmagado, se ele não obedecesse ao pai ou se perdesse tempo em saber as razões por que lhe ordenava que parasse.

Este exemplo demonstra que a obediência disciplina a vontade e é o meio mais eficaz de a robustecer e orientar na infância, para que na juventude e na virilidade ela possa agir espontânea e rigorosamente, apenas sob o império da própria consciência. Quem não aprender a obedecer, nunca saberá mandar e muito menos imperar em si mesmo, que é no que consiste a mais eminente autoridade.

Dizem os psicólogos que a vontade é uma potência da alma, talvez a maior de todas, porque da sua boa ou má educação, da sua fortaleza ou deficiência depende o procedimento do indivíduo, os atos da sua vida e, por conseguinte, o êxito ou insucesso na utilização profissional da sua atividade.

Mas, sendo a vontade uma potência, por isso mesmo devemos desenvolvê-la, porque o que pode vir a ser alguma coisa não tem para nós valor algum, enquanto não chegar o momento de o ser na realidade. Sob o ponto de vista psíquico, ou seja, em tudo quanto se refere à vida espiritual, a vontade é uma força anímica tão susceptível de robustecimento por meio do exercício como o é a força muscular sob o ponto de vista físico.

Todos temos os mesmos músculos e as mesmas fibras em cada músculo. A diferença está em uns serem mais robustos do que outros; mas quem o não for, pode adquirir a necessária robustez e desenvolver a sua força muscular por meio do exercício, isto é, por meio da educação física, cultivada na infância em jogos pedagógicos, na puberdade em exercícios ginásticos e na juventude em desportos atléticos.

Convém notar que, no decurso da educação física, o educando não emprega a sua força muscular a seu bel-prazer, mas, pelo contrário, submete-a disciplinarmente às educativas condições dos jogos, exercícios e desportos. É o que poderíamos chamar de obediência física, que tem como conseqüência a fortaleza corporal.

Pois também, durante o período de educação moral, a vontade do educando tem de submeter-se obedientemente às leis morais que a dirigem para o seu verdadeiro ponto de aplicação, ou seja, para o bem. Deste modo, o fortalecimento da vontade no indivíduo consiste em obedecer aos pais, aos mestres e aos seus superiores, durante o tempo da infância e da juventude. Mais tarde, quando já homem, habituado a obedecer à lei moral expressa nas ordens recebidas, terá aprendido a imperar no seu ânimo com a certeza de vencer nas rudes batalhas da vida. Não será então um arrojo afirmar: Eu quero, e tem que ser. A vontade disciplinada e fortalecida pela educação identificará neste caso o querer com o poder, porque será uma força positiva, vigorosa, capaz de transformar dinamicamente o pensamento em ação.

Quantos há que fazem os seus juízos sobre os acontecimentos e contingências da vida social e notam, sem grande esforço de observação, que é manifesta a falta de caracteres da natureza do de Abraão Lincoln, em quem a integridade de sentimentos ombreava, em tripla harmonia, com o talento natural e a vontade indomável!

O imortal libertador dos escravos foi um desses homens considerados como estrelas de primeira grandeza, que parecem irradiar luz sobre todos os espíritos e que justificam plenamente o tão repetido como adulterado adágio de querer é poder.

A vida de Lincoln oferece ao psicólogo e ao educador numerosos episódios, que são outros tantos pontos de observação e de estudo, donde se podem tirar conclusões aplicáveis à instrução da juventude e servindo a esta de verdadeiro estímulo.

Os rapazes que atualmente folheiam com indolência os montões de livros luxuosamente encadernados, que lhes fornecem as casas editoras, achariam mesquinhos os livros, mal brochados e mal impressos, em que Lincoln começou a disciplinar o seu caráter e a fortalecer a sua vontade. Eram a Bíblia, as Fábulas de Esopo e a Jornada do Peregrino. Leu e releu estes livros com tal cuidado e reflexão, interpretando com a luz do seu espírito o sentido do que lia, que se julgou o rapaz mais feliz do mundo. Recitava de cor capítulos inteiros da Bíblia, todas as fábulas de Esopo e as passagens mais comovedoras do imortal livro de Bunyan.

Desde muito moço ainda, Lincoln revelou a austera integridade de caráter que o havia de fazer progredir no caminho da vida, à custa da sua vontade inabalável.

Lincoln habitava com sua família numa pobre choupana. Em certa ocasião, soube que um seu vizinho, chamado Crawford, tinha um exemplar da Vida de Washington, escrita por Weems. Ansioso por ler a obra, pediu-a emprestada a Crawford, e toda a primeira noite passou entregue à leitura, à luz duma vela de sebo, só deixando de ler quando a vela chegou ao fim. Lincoln colocou, então, o livro, que ele já considerava inestimável, numa fenda que havia numa das paredes da choupana; mas, durante a noite, desencadeou-se uma violenta tempestade e, na manhã seguinte, quando foi buscar o livro, ficou assombrado de o ver todo encharcado em água, não podendo já ser utilizado para a leitura.

Outro que não fosse ele teria feito o que geralmente fazem os que pedem livros emprestados, isto é, não os entregam aos seus donos e fingem-se esquecidos, considerando o empréstimo dum livro como coisa de pouca monta. Mas Lincoln não procedeu assim. Pegou no exemplar deteriorado e, com muita pena do que aconteceu, foi ter com Crawford e disse-lhe que, não podendo pagar-lhe em dinheiro o valor do livro, estava disposto a indenizar-lhe o prejuízo com o trabalho que fosse combinado. Afinal, resolveram que, durante dias, Lincoln fosse cortar forragem para o gado na granja de Crawford, em paga do livro. Mas Lincoln receando ainda que a dívida não ficasse satisfeita por este modo, perguntou:

– Acha que com os meus três dias de trabalho ficará pago o prejuízo?

– É claro que fica, respondeu o lavrador. O ajuste é dares-me três dias de trabalho, cortando erva para o gado, e o livro fica sendo teu.

Quando mais tarde Lincoln, pelo esforço da sua vontade indomável, chegou a ser o jurisconsulto mais notável do seu tempo, dedicou-se a essa famosa campanha contra Douglas, candidato à presidência da república e acérrimo defensor da escravatura negra. Nessa campanha, que antecedeu a que mais tarde havia de dirigir, quando ascendeu à mais alta magistratura da nação, Lincoln pôs toda a energia da sua vontade, mas também todo o vigor do seu talento e toda a retidão do seu caráter, ao serviço da oprimida raça negra. A vontade por si só, sem ter um ponto de aplicação em que pudesse atuar, de nada lhe teria valido, como de nada vale a força elástica do vapor, quando se não exerce nos órgãos da máquina. Desta forma, a vontade há-de ter por complemento ativo o espírito de decisão manifestado no caráter.

Douglas também era homem de vontade enérgica, e punha a eloqüência da sua palavra e o esforço da sua alma ao serviço duma causa que lhe parecia justa, embora laborasse num gravíssimo erro. Mas a ação de Lincoln naquela histórica campanha foi, sob o ponto de vista moral, incomparavelmente superior à do seu adversário.

Quando andava percorrendo as povoações onde ambos pronunciavam os seus discursos, Douglas viajava em comboio especial, acompanhado de uma banda de música e duma peça de artilharia, que, por entre acordes e salvas, anunciavam ostentosamente a sua chegada.

Nas assembléias de controvérsia, que foram muitas, Douglas costumava infringir as condições do debate e interrompia insolentemente o seu opositor. Nos discursos empregava frases depreciativas, senão injuriosas, contra os seus adversários, chamando-lhes indignos republicanos, e afirmando -– o que ele sabia ser uma falsidade – que estavam no propósito de estabelecer a cisão no país, por terem a leviandade de querer igualar socialmente as duas raças, a branca e a negra. Aleivosamente, diria ainda que os mesmos adversários queriam abolir a escravatura sem atenderem a que, de harmonia com os princípios democráticos, os cidadãos de cada estado e território eram os únicos que, por meio do seu voto, se deviam decidir a favor ou contra tal regime.

Lincoln, pelo contrário, viajava modestamente, em carruagem de terceira classe, acompanhado dalguns amigos leais, e bastava a sua presença nas povoações aonde ia para anunciar a sua chegada. Como os escravagistas estavam em maioria, a esse tempo, todos o recebiam aos gritos de embusteiro! farsante! e outros insultos piores, sem que o futuro libertador se melindrasse com isso ou se queixasse, e muito menos pensasse em replicar ao ultraje. Limitava-se a expor nos seus discursos as razões da sua atitude a favor da liberdade dos escravos, baseando-se na Declaração da Independência que diz textualmente: “Deus fez todos os homens iguais, concedendo-lhes certos direitos inalienáveis, entre os quais se contam a vida, a liberdade e a conquista da mesma”.

Insistia Lincoln no irrefutável argumento de que a Declaração da Independência dos Estados Unidos se referia a todos os homens, sem distinção de raça nem de cor, e que, portanto, a escravatura negra ia de encontro aos princípios da constituição. E, quanto à eficácia da vontade popular, expressa pelo voto dos habitantes dos estados e territórios, replicou Lincoln habilmente dizendo:

– Reconheço aos cidadãos dum país o direito de se governarem a si mesmos; mas nego-lhes o direito de governarem os outros sem o apoio da opinião geral.

Numa das assembléias em que se continuaram os debates, celebrada em Charleston (Illinois), Lincoln replicou a Douglas com tão persuasiva eloqüência e incontestável argumentação e demonstrou com tal habilidade as insídias e os subterfúgios do seu adversário que o auditório, a princípio desconfiado, ficou convencido, aplaudindo-o entusiasticamente.

Apoderou-se o pânico dos partidários de Douglas. Este, ao ver que ficara vencido e não podendo refutar o discurso de Lincoln, perdeu a serenidade e, levantando-se da cadeira, começou a passear na tribuna com manifesta impaciência, de relógio na mão, por trás do orador. Quando estava a expirar o tempo que fora marcado para o discurso, encarou com Lincoln, e pôs-lhe o relógio adiante dos olhos e disse-lhe:

– Queira sentar-se, Lincoln, sente-se que já passou a hora.

– Pois sim, respondeu o orador tranqüilamente. Vou sentar-me já. Creio que já passou a hora.

Um dos que estavam na tribuna acrescentou sarcasticamente:

– Já, já passou. Douglas já tem a sua conta. É tempo de o deixar em paz.

Noutra ocasião, Douglas, com o seu habitual desdém, disse num discurso:

– Assim como, entre um crocodilo e um negro, eu me colocaria ao lado do negro, assim também, entre o negro e o branco, hei-de sempre declarar-me a favor do branco.

Ao que Lincoln replicou:

– Parece-me que o que Douglas acabou de manifestar é uma espécie de regra de três, que pode assim estabelecer-se: o negro está para o branco como o crocodilo está para o negro. E, se o negro tem direito a tratar o crocodilo como um réptil, também como tal assiste ao branco o direito de tratar o negro. Portanto, cidadãos, o senhor Douglas propõe-vos uma norma de proceder que repugnaria a vossa consciência.

Citamos todas estas referências biográficas para demonstrar que, na realização dum plano, deve a vontade andar aliada à sabedoria e à ação, isto é, não basta querer para poder; é necessário ao mesmo tempo saber e agir.

Segundo nos ensina a psicologia experimental, a alma humana é, à semelhança de Deus, trina e una. A diversidade das suas três faculdades ou potências essenciais não é incompatível com a sua unidade, antes a confirma, como não é incompatível com a unidade de Deus a diversidade das suas três pessoas, aspectos ou manifestações simbolizadas no universal dogma religioso da Trindade.

As três faculdades ou potências da nossa alma são a vontade, a sabedoria, e a atividade, e todas elas concorrem e devem concorrer simultaneamente para o êxito feliz da vida humana. Não pode, porém, gozar-se plenamente destas faculdades, sem que a educação as desenvolva e as torne vigorosas, até atingirem no indivíduo a sua máxima eficiência. Assim, deve notar-se que a educação integral do ser humano é também trina e una, correspondendo a educação moral à vontade, a intelectual à sabedoria, e a educação física à atividade. Estas três modalidades ou aspectos deferenciais de educação integral hão-de harmonizar-se independentemente, de maneira que todas elas concorram para o mesmo fim, em vez de se considerarem completamente desligadas umas das outras, como agora sucede.

Em todas as nações, até nas que erradamente se acham colocadas na vanguarda da civilização, lamentam os homens refletidos a relaxação dos costumes; o predomínio do mais desenfreado egoísmo; a avalanche de ódios e violências terroristas que aviltaram a vida humana a ponto de ela valer menos do que a lama dos caminhos; a cegueira dos governantes que não conseguem resolver os problemas sociais; a desaforada inobservância das leis; a multidão de indivíduos que pensam unicamente em enriquecer por todos os modos, ainda que seja à custa alheia; a falta da austera integridade de caráter e inconcussa honradez dum Lincoln, dum Grant, e dum Gladstone que, como auroras boreais, brilham no tenebroso horizonte da idade-moderna.

Debaixo do ponto de vista doméstico, é já vulgar a falta de respeito e a manifesta desobediência aos pais, a desconsideração pelos velhos, o atropelo aos direitos alheios, a ausência de todo o sentimento de responsabilidade, o delírio pelos gozos sensuais, pelos prazeres mundanos, pelos espetáculos e por outras diversões que estimulam o espírito.

Alguns atribuem esta dissolvência social à falta de crenças religiosas; mas lembremo-nos de que pelo fruto se conhece a árvore e, se os homens perderam a fé tão ardente das gerações passadas, a culpa só poderá caber aos que eram obrigados a educar a geração presente no sentimento da vontade e na preparação psicológica indispensável, para que os verdadeiros princípios ficassem radicados no espírito de todos.

A operação da vontade é o querer. E sendo, por sua vez, a vontade uma força susceptível, como a muscular, de desenvolver-se em grandeza e intensidade por meio do exercício, é indispensável educá-la ou, o que é o mesmo, dar-lhe o máximo de eficiência.

O método que, em nossa opinião, mais convém adotar abrange três períodos correspondentes à infância, à puberdade e à juventude, que são os três fatores da virilidade. O primeiro período deve ter por principal característica a disciplina concretizada na obediência, tal como vimos no começo desta obra, no exemplo relativo ao filho do agulheiro.

A vontade da criança, como tudo o que nasce para a vida e começa a entrar em ação, manifesta-se sob a forma inquieta, volúvel e inconstante do desejo, reverso da vontade, porque precisa de disciplina que a fortaleça, apoio que a estabilize e bússola que a oriente. É como a ave que anda esvoaçando dum lado para o outro, antes de fabricar o ninho.

Durante a infância, tem de ser a obediência a primeira qualidade moral que devemos fortalecer no educando, porque é o alicerce do edifício educativo, e é por meio dela que o educador domina a vontade prematura do educando – como o agrônomo domina o crescimento precoce da planta – aplicando essa qualidade ao habitual cumprimento do dever, que é no que, afinal, se resume toda a educação moral.

Nunca, por qualquer motivo, a criança deve deixar de fazer o que se lhe manda, nem tão pouco deve fazer o que se lhe proíbe, pois o educador que for sempre condescendente ou tolerante verá diminuir o seu ascendente moral e, mais tarde, será escravo dos caprichos do educando.

A condescendência é precisamente o fraco das mães que, tímidas e imprudentes, deixam que os filhos pratiquem um sem-número de desatinos, por não terem a energia suficiente para lhes disciplinar a vontade.

Costumam as crianças responder muitas vezes: não quero ou não me apetece. Estas respostas freqüentes e as atitudes da resistência passiva, com a conseqüente pirraça a que as crianças são tão inclinadas, não devem permitir-se uma única vez sequer. O argumento de certas mães que dizem que os filhos ainda estão a tempo de se emendar ou que ainda são muito pequenos para serem reprimidos é uma ilusão e um erro. Se a mãe cede à resistência do filho, dá-se esta inversão de papéis: o filho irá tomando pouco a pouco sobre a mãe o ascendente moral que ela deveria tomar sobre ele.

Circunstância muito para ponderar é o fato das mães dos grandes homens terem Todas escrupulizado na verdadeira educação de seus filhos. Em crianças, não consentiram que eles fizessem o que queriam. Disciplinaram-lhes a vontade, acostumando-os a praticar boas ações, até que lhes criaram uma nova natureza, com tendência para os hábitos virtuosos, ao mesmo tempo que, por descostume, lhes incutiram aversão aos maus hábitos.

Quem assim diariamente exercitar a vontade na prática do bem, e se abstiver de praticar o mal, chega a adquirir os virtuosos hábitos da economia e da diligência, da honradez e da justiça, da laboriosidade e da prudência, sem os quais é impossível querer ou poder alcançar o êxito material e a felicidade espiritual da vida.

Mas, se a obediência cega, exemplificada no tipo do agulheiro, serve para disciplinar a vontade durante a infância e não para a atrofiar ou deprimir pela coação, é muito conveniente que tudo quanto se mande fazer à criança seja necessário, útil e exeqüível, e que as ordens e proibições não derivem do capricho, da cólera ou do abuso da autoridade do educador, mas sim da vontade aconselhada pela razão. Há muitas pessoas que não respeitam uma determinada ordem por a considerarem injusta e importuna.

A noção do bem e do mal, dos atos justos ou injustos, é rudimentarmente intuitiva na criança. Quando uma criança recebe uma repreensão ou é contrariada nos seus desejos, irrita-se e fica rancorosa por momentos; mas logo lhe passa a irascibilidade, acaba por reconhecer a justiça da repreensão e trata de afagar quem, com razão, a repreende.

Por outro lado, nada contribui tanto para perverter o caráter duma criança e para lhe deseducar a vontade como a injustiça, a arbitrariedade e o abuso da força. Por isso, é absolutamente indispensável que o educador, quer seja a mãe ou um professor estranho, dê ao educando uma ordem com fundamento e não o faça apaixonadamente; proíba só quando for preciso e não por mero capricho; satisfaça sempre um pedido justo, negando-se em absoluto a fazer vontades injustificadas. Antes de dar uma ordem, deve refletir bem se ela é razoável, não vá colocar-se na dura necessidade de a revogar, em prejuízo da sua autoridade.

A obediência é a mais eficaz disciplina da vontade, desde que quem manda saiba mandar e tenha em consideração a gravíssima responsabilidade em que incorre pelas conseqüências morais das ordens que der.

Logo que, durante a infância, a vontade fique disciplinada por meio da obediência, começa o segundo período da educação durante a puberdade. Neste caso, convém que a autoridade do educador ceda um tanto o passo à liberdade do educando, a fim de lhe avigorar o sentimento de responsabilidade, sem o qual seria um autômato que unicamente faria alguma coisa por influência estranha.

Neste período, tem o educador de evitar os dois extremos, igualmente viciosos, da rigidez do caráter e da tibieza, mantendo-se no grau de tensão necessária para que a vontade do educando seja dirigida e não fique subjugada. O rapaz que a nada se atreve sem que lho ordenem e que não sabe fazer coisa alguma sem lhe dizerem como é feita, é um pobre ser hipnotizado, sem vontade própria, que obedece por medo e não por convicção, espreitando todas as ocasiões que se lhe ofereçam para iludir a vigilância do educador e satisfazer o seu capricho.

Neste período da educação da vontade deve haver o especial cuidado de não estimular o educando a trabalhar bastante e a cumprir o seu dever com o engodo no prêmio, nem também a abster-se do mal com o receio de ser castigado. Se queremos despertar e fortalecer nele o espírito de iniciativa, que não é mais nem menos do que o primeiro impulso duma vontade bem dirigida, convém acostumá-lo a cumprir sempre o seu dever, sem outra satisfação além da que intimamente virá a sentir por o ter cumprido.

É um disparate recorrer aos prêmios e aos castigos para formar o caráter e robustecer a vontade. É o pior processo que pode adotar-se em educação moral, e, todavia, é o que desde tempos imemoriais tem empregado a rotineira e vulgaríssima pedagogia, vazada em avariadíssimos moldes. O prêmio desperta o orgulho, a soberba e a vaidade. O castigo gera a hipocrisia, o ódio e dá origem à perda do conceito próprio. Deu-se com um indivíduo um caso rigorosamente autêntico que serve de exemplo ao que afirmamos. É ele mesmo que o relata da maneira seguinte:

“Antes de conhecer os verdadeiros princípios da educação moral, julgava eu, como ainda julga a maior parte dos pais e dos professores, que o prêmio das boas ações e o castigo das más era o melhor processo para conduzir os meus dois filhos ao caminho do bem.”

“Nesta ilusão, disse-lhes um dia: – Ouçam o que lhes digo: de hoje em diante, vou proceder para convosco como um comerciante procede no seu negócio. Vou abrir-vos uma conta corrente das vossas ações. No Haver assentarei as que forem boas e no Deve as que forem más. Por cada dia em que não tiverdes cometido falta alguma, dar-vos-ei um tostão durante um mês, e por cada má ação que praticardes descontar-vos-ei dez tostões.”

Os dois rapazes ficaram contentíssimos com a proposta, e durante o primeiro mês tiveram um comportamento exemplar; mas, nos últimos dias do mês seguinte, o mais velho chegou-se ao pé de mim e disse-me com a maior desfaçatez:

– Papá, venho dizer-lhe que hoje cometi uma má ação. Estive a jogar toda a manhã o bilhar, em vez de ir para a escola. Como o professor é seu amigo e lhe falará a respeito da falta que eu dei, antes que ele lho diga, digo-lho eu. Ora segundo os meus cálculos, eu tenho direito a 28 tostões. Desconte-me 10 e ainda me fica a dever 18.

O desembaraço com que o rapaz disse tudo isto, com uma lógica irrefutável, convenceu-me da imprudência que eu tive em fazer do comportamento de meus filhos uma conta corrente de prêmios e castigos. Desde então, seja qual for o regime desta natureza, creio que todos, pouco mais ou menos, dão resultados inteiramente opostos à educação da vontade.

Evidentemente, assim é. A experiência a cada passo está demonstrando isto mesmo. Adquiridos que sejam os hábitos virtuosos durante o período infantil, por meio da disciplinação da vontade, há-de esta ir-se habituando a atuar espontaneamente, acompanhada da sabedoria, único meio de estimular a iniciativa individual, que é o gérmen de todo o empreendimento elevado.

Diz Kant muito acertadamente:

“Sem moral, o homem que aparenta de religioso não é mais do que um cortesão por mercê celestial. A moral prática ensina a criança a substituir pelo temor da própria consciência o castigo infligido pelos homens, a opinião alheia pela dignidade própria, o brilho das palavras pelo valor intrínseco das ações, e o religiosismo fanático e insociável pelo ar sereno e piedoso das maneiras.”

Depois se conclui que a educação moral não é mais que a educação da vontade e da sensibilidade, as duas potências da alma, cujo desenvolvimento normal determina os costumes, os hábitos e maneiras de proceder que são a norma reguladora das nossas ações.

Assim como a educação intelectual tem por objeto exercitar o entendimento na investigação da verdade, libertando-a do erro, e o fim da educação física é dar robustecimento ao corpo, preservando-o da fraqueza, assim também a educação moral exercita a vontade na prática do bem, libertando-a do mal. Não basta ser forte nem tampouco ser sábio; é necessário também ser bom, pois de nada servem, afinal, a saúde e a ciência, se não tiverem por complemento a virtude.

A prática do mal como a do bem chamam-se respectivamente vício e virtude, que se acham na mesma relação em que estão a fraqueza e a força na educação física, e o erro e a verdade na educação intelectual.

Havendo disciplina na primeira infância e direção na adolescência, adquirirá a vontade o suficiente desenvolvimento em plena virilidade para constituir uma poderosa força anímica. Como todas as forças, porém, nenhum valor terá, se não for aplicada a determinado ponto de atuação.

Um pequeno de oito anos, desses que, sem serem nenhuns prodígios, têm a suficiente precocidade intelectual para confundir com as suas perguntas as pessoas mais velhas, conversava um dia com o pai, um engenheiro de reconhecida nomeada, acerca das lições que o professor dava aos alunos do Colégio onde ele andava, e dizia assim:

“Ontem, o professor falou a respeito das propriedades do vapor de água, dizendo-nos que tinha uma força tom grande que arrasta velozmente os comboios de mercadorias e de passageiros, cujo peso total é de centenas de toneladas. Mas a mim parece-me que nem sempre o vapor tem a força que dizem, porque, quando o comboio passa todos os dias pela sanja da minha rua, veja que o vapor que sai pela chaminé da locomotiva se desfaz como as nuvens sem empregar a menor força.”

– Essa tem muita graça! Pois está claro. Onde é que tu viste a potência sem resistência? A força do vapor tem de aplicar-se ao êmbolo que move a biela, a qual, por sua vez, imprime movimento às rodas; e como a ação do vapor sobre o êmbolo é contínua, eis a razão por que as rodas não deixam de mover-se, enquanto se mover a biela acionada pelo êmbolo. Isto pode servir-te de exemplo para compreenderes o que te disse outro dia. A vontade também é uma força, mas para nada te servirá, se a deixares inativa, isto é, se a não aplicares ao ponto de ação mais de harmonia com os teus conhecimentos.

Tinha razão o hábil engenheiro. A vontade será uma força quando, por meia da educação, atingir o maior grau de desenvolvimento; mas essa força será tão ineficaz como o vapor de água espalhado na atmosfera ou a eletricidade neutralizada no ambiente, se não a soubermos aplicar à obra da nossa vida.

Vemos, portanto, que a repetida máxima de querer é poder merece ser objeto dum estudo muito demorado. Sem vontade não se pode querer, no sentido moral da palavra, único a que a máxima se refere. É que, se nós confundirmos a vontade com o desejo e quisermos obter alguma coisa que vá de encontra às leis de Deus e da natureza, não poderemos consegui-lo se contra nós se erguer uma vontade alheia em harmonia com a lei divina. Neste caso, terá realização o axioma dinâmico de que uma força maior vence outra menor; e, como a vontade é dinamicamente superior ao desejo, concluiremos que, para podermos realizar o que quisermos em conformidade com a lei, é indispensável habilitarmo-nos primeiro com uma eficaz educação moral que robusteça a vontade e aniquile o desejo.



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