O saber Local e os Caboclos Ribeirinhos em Comunidades Amazônicas



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III Encontro da Anppas

23 a 26 de maio de 2006

Brasília - DF

O Saber Local e os Caboclos Ribeirinhos em Comunidades Amazônicas

Antônio Carlos Witkoski – Universidade Federal do Amazonas

Therezinha de Jesus Pinto Fraxe – Universidade Federal do Amazonas

Sâmia Feitosa Miguez – Universidade Federal do Amazonas


RESUMO:

A pesquisa analisa os agentes da comercialização a partir do etnoconhecimento numa comunidade amazônica. A descoberta da dinâmica interna e da interdependência da economia do excedente em relação à economia de mercado é um dos caminhos para desvendar a significação do modo de vida econômico dos caboclos-ribeirinhos da Costa da Terra Nova, no Município do Careiro da Várzea. O elemento básico da descrição dessa economia camponesa (“campesinato tradicional) está na possibilidade de que uma mesma área geográfica, dedicando-se fundamentalmente à produção do sítio, da roça, do pousio ou da pescaria apresente um empreendimento mais rentável. Como ocorre esta comercialização? De que forma os valores de uso não produzidos nas comunidades, porém necessários, são adquiridos? Um dos veículos para a aquisição desses valores de uso (compra de mercadorias), assim como para o próprio processo de comercialização dos produtos camponeses, encontra-se nos agentes de comercialização – marreteiro, marreteiro da feira, regatão, patrão, “sem terra”etc. A rede de comercialização é tecida pelo saber local através das narrativas, histórias orais e histórias de vida.



1. Introdução

Este trabalho analisa a dinâmica da produção cultural dos caboclos-ribeirinhos, através do etnoconhecimento na Comunidade de São Francisco, na localidade Costa da Terra Nova, no Município do Careiro da Várzea, no Estado do Amazonas. Trabalhando o conceito de cultura como plural, procuramos mostrar a idéia de que os caboclos-ribeirinhos da várzea amazônica vivem uma multiplicidade de trocas – materiais e simbólicas – com a cidade de Manaus. As manifestações das práticas culturais do mundo ribeirinho espraiam-se pelo mundo urbano, assim como aquela é receptora das contribuições das práticas culturais urbanas. Interpenetram-se, embora o habitus estruturado de cada uma seja relativamente distinto.

Os ribeirinhos em questão estão incluídos dentro da noção que Williams (1992) desenvolve sobre as “culturas populares”. Eles construíram um modo de vida integrado pela agricultura e extrativismo vegetal ou animal, vivendo em função de produtos da floresta, dos rios e das terras molhadas da várzea amazônica. Uma cultura de profundas relações com a natureza, que perdura, consolida e fecunda o imaginário desse conjunto social, isto é, no âmbito de uma “cultura híbrida” com relação aos cânones urbanos, o caboclo busca desvendar os segredos de seu mundo, recorrendo a mitos, lendas, plantas medicinais, rezadeiras, assim como ao trabalho, ao labor e ao lazer; onde o homem viveu e ainda vive, em algumas áreas de forma tradicional, alimentado-se de pratos típicos, celebrando a vida nas festividades e danças originais, banhando-se prazerosamente nas águas dos rios e das chuvas, curando-se de suas doenças com as plantas e ervas das florestas.

2. Material e Métodos

A construção desse estudo permitiu ampliar o espectro do olhar para a relação caboclos-ribeirinhos/várzea, possibilitando a construção teórica e empírica do campesinato da várzea amazônica.

Na busca de novos dados, a pesquisa foi realizada em cinco fases distintas e complementares:

Na 1ª fase, fizemos um levantamento bibliográfico, buscando elementos teóricos sobre o campesinato. Esses elementos foram extraídos, principalmente de autores como Alexander Chayanov (1925/1974), Eric Wolf (1970), Ricardo Abromovay (1992), José de Souza Martins (1975/1990) e José Vicente Tavares (1984), assim como, através de literatura específica sobre a região.

A 2ª fase foi voltada para a identificação dos métodos a serem aplicados na pesquisa. Verificou-se, então, que a utilização da história oral (depoimentos orais) enquanto método, apoiada pela técnica de entrevista com roteiro prévio, era a melhor forma de coletar os dados qualitativos. Com efeito, “a história oral representa a melhor maneira de compreender a cultura do ‘lado de dentro’, como um conjunto vivo regido pela harmonia interna, não como um conjunto arbitrário de costumes e instituições, cuja realidade é apenas percebida.” (Camargo, 1984:9). Já o uso do questionário, acompanhado do diário de campo foi adotado para a coleta de dados quantitativos.

O questionário foi elaborado contendo perguntas exploratórias (abertas e fechadas). Seu objetivo foi captar as formas de organização do mundo econômico, social e político dos camponeses. Vejamos algumas dessas perguntas que contribuíram para a construção desse estudo.

O diário de campo foi outra técnica de fundamental importância adotada na pesquisa, principalmente na realização da seção sobre os processos de trabalho dos caboclos-ribeirinhos. Quando os acompanhávamos, em suas roças, e algumas vezes, nas ocasiões em que os encontrávamos desenvolvendo atividades de ajuda mútua, registrava esses momentos em meu diário de campo.

A 3a. fase foi a mais longa das fases de coleta de dados, pois a coleta de dados foi realizada tanto no período da enchente/cheia, como no período da vazente/seca. Tudo isso se fez necessário, tendo em vista que, o modo de vida dos caboclos-ribeirinhos da Costa da Terra Nova, Careiro da Várzea se transmuta porque, durante 4 a 5 meses do ano, ocorre o fenômeno de transformação de seu habitat na “paisagem anfíbia”. Portanto, para coadunar a sazonalidade do nível das águas com o tempo da permanência disponível para uma amostragem significativa, foram realizadas 5 (cinco) viagens ao local da pesquisa durante as estações cheias e secas.



3. Resultados e Discussões

3.1 Os agentes da comercialização

Na esfera da circulação dos produtos de origem agroflorestal, ocorre uma apropriação dos excedentes, por um conjunto de agentes de comercialização: marreteiro, marreteiro-feirante, regatão e patrão. É nas relações mantidas entre os ribeirinhos e os agentes de comercialização que está representado um dos momentos mais importantes, senão o mais importante, de subordinação do ribeirinho à “lógica” do capital comercial.

A atuação dos agentes de comercialização, principalmente dos marreteiros, é favorecida pela produtividade do trabalho familiar, alienada na comercialização dos produtos; ou seja, estima-se que há uma produção de excedentes propiciada pela extração de sobretrabalho familiar em ambiente favorável (várzeas férteis e próximas dos centros comerciais) e pela frugalidade da maneira de viver dos ribeirinhos familiares. Ambas as condições proporcionam a partilha dos excedentes por diferentes agentes do capital comercial.

Outro agente de comercialização, cuja participação mostra-se significativa, é a do marreteiro-da-feira. Seu aparecimento se dá quando os caboclos-ribeirinhos, com embarcação própria ou pagando a utilização do barco-recreio, vêem a possibilidade de eles próprios executarem a venda de seus produtos. A alocação dos caboclos-ribeirinhos às áreas de feiras-livres é, nos dias de hoje, bastante restrita. A sua permanência, apesar de ser financeiramente vantajosa, é diminuta na medida em que não podem se ausentar de suas áreas de produção por longos períodos.



São vários os agentes sociais que participam da comercialização e que podem ser chamados, genericamente, de intermediários. No QUADRO 1, pode-se observar a participação percentual dos marreteiros, marreteiros da feira, regatões, feirantes, patrões e outros.

QUADRO 1 – PARTICIPAÇÃO RELATIVA DE AGENTES DE


COMERCIALIZAÇÃO, EM QUATRO MICRORREGIÕES DO ESTA-

DO DO AMAZONAS, NO PERÍODO SECO E CHEIO DO RIO AMAZONAS (%)

COSTA DA TERRA NOVA/CAREIRO DA VÁRZEA

AGENTES DA COMERCIALIZAÇÃO





Marreteiro

marreteiro

da feira

sem terra” (feirantes)

patrão

regatão

outros

COMUNIDADE SÃO FRANCISCO

30,0

22,00

23,0

0,5

2,0

22,5

COMUNIDADE SÃO JOSÉ

35,0

35,0

15,0

10,0

2,0

3,0

COMUNIDADE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

35,0

25,0

22,0

0,6

2,0

15,4

Fonte: Dados da Pesquisa de Campo, 2000/2001.
Os regatões, que, na década de 1970 e meados dos anos 1980, tinham significativa participação na economia excedente da área estudada, são, nos dias atuais, agentes com pouca participação:

Hoje em dia, passa pouco regatão. Antigamente, há uns quinze ano atrás, era só o que tinha nesse beiradão. Dispois que começou a entrá o marreteiro, a gente sô vende pros marreteiros (Sr. José, 78 anos, Comunidade São Francisco/Careiro da Várzea).
Esses intermediários vendem aos caboclos produtos de uso doméstico e vestuário e, em troca, deles recebem seus produtos agrícolas. Como vendedores destes produtos, pela própria estrutura das relações que desenvolvem com os ribeirinhos (seus fregueses), o regatão que não consegue garantir o abastecimento a preços baixos, seja através de adiantamentos ou de outros compromissos, como por exemplo o pagamento em moeda, parece estar caminhando para um inevitável declínio.

Os patrões foram os agentes de comercialização que apresentaram menor participação relativa. Conforme o QUADRO 1, sugere-se que a alta representatividade dos patrões na Comunidade São José em 10%, explica-se pelo fato dos caboclos da Comunidade de São José, exercerem na grande maioria a atividade de pescadores e ficarem subordinados aos donos de frigoríficos, por eles identificados como patrões. Os patrões, a partir das relações de compadrio, utilizam, comumente, a prática do aviamento. O ribeirinho, via de regra, fica lhe devendo. Como eles não têm dinheiro para receber em troca de sua mercadoria, o patrão lhe entrega uma espécie de cesta básica (açúcar, sal, óleo e querosene), além das sementes a serem utilizadas nas próximas pescarias. Em troca, ele recebe do caboclo os peixes que estão em alta cotação no mercado, como: pirarucu, tambaqui etc.

O agente mais representativo na comercialização é denominado, regionalmente, de marreteiro. Com a maior participação nas transações comerciais, o marreteiro aparece em 30% nos depoimentos dos ribeirinhos de São Francisco. O marreteiro, normalmente, é o dono do meio de transporte usado para levar os produtos aos centros comerciais. Esta relação ocorre com práticas diferentes, dependendo do volume de recursos que o marreteiro possua e de seu grau de confiança nos caboclos, adquirido após vários anos de atuação nessas localidades. Uma dessas práticas se refere aos ilhéus que entregam sua produção em uma viagem e, na volta, recebem do marreteiro, o apurado na venda destes produtos. Na outra, o marreteiro paga na hora os produtos adquiridos do ribeirinho. Os ganhos destes se baseiam na diferença que conseguem estabelecer entre o preço do dia em que vendeu os produtos e o preço que pagam ao produtor no campo ou pela contabilidade facciosa, dos produtos necessários ao caboclo-ribeirinho.

Outro agente de comercialização cuja participação percentual médio é de 27,3% na Costa da Terra Nova e mostrou-se significativa foi a do feirante ou marreteiro-da-feira. A relação mantida com os caboclos se dá quando esses, com embarcação própria ou pagando barco recreio, vêm com o intuito de executar a venda de seus produtos.

A rede de intermediários é, assim, um componente forte para a não-percepção por parte dos ribeirinhos da apropriação dos seus excedentes gerados na produção. Não permite, também, a identificação da participação do capital industrial na região. O capital comercial, como promotor da circulação das mercadorias no esquema definido pela apropriação dos excedentes, é o responsável pela posição resultante de sua articulação implícita com o capital industrial, em seu movimento de acumulação e concentração.

3.2 O mercado em rede na Costa da Terra Nova

Um mercado reúne uma série de comunidades que estão espalhadas em torno de maneira periférica, como os planetas do sistema solar em torno do sol



Eric Wolf, Sociedades Camponesas.
A epígrafe de Wolf (1970) sugere que, periodicamente, os caboclos-ribeirinhos de várias comunidades rurais encontram-se no mercado trocando os frutos de seu trabalho. Fora dele, cada uma dessas comunidades tem vida própria, mantendo seu corpo de tradições e costumes.

Segundo Wolf (1970:63), esses indivíduos olham-se como estranhos, como membros de out-group, em agudo contraste com seu próprio in-group. Mas, o mercado periódico une esses grupos estanques, colocando, em certa medida, cada qual dependente das atividades de outro. Apesar das comunidades formarem grupos fora do mercado, na rede de troca cada comunidade é uma seção, e o ato da troca remete cada seção a todas as outras.


Para exemplificar com maior clareza esses dois grupos interligados ao mercado em rede da Costa da Terra Nova – o grupo de caboclos que residem na cidade de Manaus, oriundos da Costa da Terra Nova – na grande maioria são os marreteiros-da-feira. Eles saíram da comunidade rural, mas vivem daquilo que os caboclos produzem, comprando ou intermediando os produtos camponeses. Para o outro grupo que vende na feira Manaus-Moderna – os sem-terra, mas moram na Costa da Terra Nova, tomo emprestado duas categorias utilizadas por Elias (2000): o establishment e os outsiders.

Quando os caboclos-ribeirinhos da Costa da Terra Nova estão na condição de “sem-terra” na feira Manaus-Moderna eles, aparentemente, são os outsiders. Isto porque, para aqueles que possuem boxes, e, até mesmo, para os simples consumidores que vão à feira, percebem, pela falta de estrutura física, que os caboclos-ribeirinhos da Costa da Terra Nova estão em desigualdade com os estabelecidos estruturalmente na feira. No entanto, nada disso tem valor para os “sem-terra”. Na realidade eles são um grupo altamente organizado. Na comunidade, como eles não passam pela mão de atravessadores – marreteiros, patrões, marreteiros-da-feira – eles ocupam posições de prestígio. Os 42 (quarenta e dois) caboclos-ribeirinhos que vendem em seus caixotes na Feira Manaus Moderna se percebem e são reconhecidos nas comunidades em que fazem parte. Já os marreteiros-da-feira, que moram na cidade de Manaus, quando chegam em São Francisco, não fazem mais parte da comunidade, são os out-groups, são os outsiders mostrando a transitória das categorias:

Eu vendo os meus produtos para o meu irmão que é marreteiro. De quinze em quinze dias ele vem buscá tanto os meus como de alguns vizinho, ele não paga na hora, só paga dispois que vende. A gente calcula que ele e os outros marreteiros ficam com 50% do valor dos nossos produtos. A gente sabe que está sendo, vamos dizer, roubado, mas a gente não tem alternativa. É por isso que quando tem festa, é época de muita fruta, muito peixe e eles aparecem por aqui, a gente sente que eles não pertencem mais a nossa comunidade. Eles fazem parte de outro grupo (Sr. Francisco Batista Alves, 41 anos, agricultor).
A explicitação dos mercados secionais, aqui, precede a definição de mercado em rede. Esta afirmação é fundamental por dois motivos: primeiro, porque, apesar de o mercado secional não possuir a representatividade que tem o mercado em rede, há 42 ribeirinhos que levam seus produtos diretamente à feira Manaus Moderna ou outros ribeirinhos, que não fazem parte da organização dos sem-terra, mas levam seus produtos para serem vendidos diretamente na Manaus Moderna ou em feiras dos centros urbanos mais próximos; para fundamentar a “produção simples de mercadoria”, enfatizo que, apesar do caráter incompleto dos mercados em rede, as feiras-livres, como exemplos de mercado sazonal, são uma realidade presente no Estado do Amazonas, da qual alguns ribeirinhos fazem parte, seja diretamente ou via agentes de comercialização.

E. Wolf (1970:65), tomando emprestado a idéia de Barnes, diz que a definição de mercado em rede significa: Um conjunto de pontos, alguns dos quais ajuntados por linhas. Os pontos nessa imagem são as pessoas, ou, algumas vezes, grupos, e as linhas indicam que as pessoas estão interagindo... Uma rede desse tipo não possui limites externos nem divisões internas bem delimitadas, pois cada pessoa se vê como o centro de um conjunto de amigos.

Assim, não estamos referindo-nos exatamente a parentes, amigos ou a vizinhos, mas aos ribeirinhos e agentes da comercialização (produtores e consumidores), unidos pela troca econômica. Enquanto os laços de parentesco, amizade ou vizinhança são do tipo duradouro (ou seja, permanecem, ao menos, durante uma parte substancial da vida de um indivíduo), os laços econômicos de que falo são, provavelmente, temporários. O caboclo pode oferecer seus produtos ao marreteiro numa semana, na próxima semana, a um patrão ou regatão, na outra, ao marreteiro-da-feira, e assim por diante.

Com efeito, para Wolf, os laços econômicos, representados pela imagem do mercado em rede, são bem mais variáveis que os formados por uma rede de parentesco. Esses últimos são laços entre duas pessoas específicas e são, relativamente, exclusivos. Já os laços de mercado em rede são, inerentemente, sujeitos ao ingresso de terceiros, como outros produtores, intermediários ou consumidores. O homem que vende num “mercado em rede” é amigo ou inimigo de todos. Afetivamente, a relação é bastante neutra. Além disso, está sujeita a infinitas complicações.

Como os caboclos não são especializados em único produto, o mercado em rede, aqui, não se dá como na maioria das “sociedades ribeirinhas” que operam nesse mercado. Como afirma Wolf (1970:66), um simples mercado em rede pode existir onde um ribeirinho vende porcos, outros suéters de lã, um terceiro pregos para botas, um quarto limas; e depois o vendedor de porcos compra lima, o vendedor de suéters de lã adquire pregos [...] As relações estão sempre sujeitas à entrada de terceiros e por esse motivo são sempre capazes de se tornarem cada vez mais complexas.

Os ribeirinhos vendem os produtos dos diversos ecótipos em que trabalham e compram, através do mercado em rede, produtos que nem eles, nem seus vizinhos produzem. Os agentes da comercialização, por isso, assumem um papel fundamental, adquirindo, em outros setores da sociedade global, esses produtos (vestuário, óleo, remédios, café, açúcar, querosene etc.) a fim de revendê-los ao ribeirinho. Cada um desses produtos pode, inclusive, ter sido originário (matéria-prima) de mãos ribeirinhas de outras regiões, estados ou nações.

Essas cadeias de troca envolvem não somente um número crescente de intermediários mas, também, adicionam ao movimento horizontal bens e serviços aos membros de uma população ribeirinha. Através deles, os bens passam, do campo às vilas, das vilas às cidades do interior, das cidades aos portos, dos portos aos mercados da capital (Manaus), ou até mesmo a outros países, como foi o caso, por muitos anos, das fibras (malva e juta). Outro exemplo desta divisão internacional do trabalho, na região amazônica, foi o da borracha (látex) – extraída pelos ribeirinhos e levada tanto à Europa como a outros continentes. A pesca do peixe liso, atualmente, em época de vazante, é o grande exemplo dessa cadeia de troca.

A pescaria do peixe liso, em época de vazante, vem se tornando comum nos paranás, rios e ressacas próximas às comunidades, estimuladas pelos frigoríficos, que, em geral, fornecem gelo, caixas de poliestireno e que financiam a construção de caixas isotérmicas a pequenas embarcações. O compromisso do ribeirinho é vender o pescado somente ao frigorífico – os peixes grandes já eviscerados e descabeçados. Um dos donos de frigorífico, interrogado quanto a esse tipo de fidelidade comercial, afirma:



Nós oferecemos um bom negócio aos ribeirinhos, nós lhes damos a caixa de isopor e o gelo. E nada mais justo de exigir que eles vendam somente para o frigorífico, pois eles não têm como comprar a geleira e o gelo, pelo que sei é um custo muito para eles (Sr. Raimundo José, dono de frigorífico, Careiro/AM).
O próprio dono do frigorífico informou-me que tais peixes, os maiores e os mais bonitos, são vendidos, na maioria das vezes, para a Bolívia, para Benjamim Constant (AM) e Perú.

Nessa perspectiva, as trocas em um mercado local, dos bens produzidos também localmente, formam apenas um pequeno setor de trocas, no mercado regional. As permutas regionais são, apenas, uma pequena amostra da rede nacional de troca, que é uma pequena parcela dos mercados internacionais. O ribeirinho pode, então, encontrar-se lidando não apenas com um grande número de intermediários e beneficiadores, mas envolvendo-se em um sistema de mercado com vários níveis de dimensões, cada vez mais avantajadas.

Observamos, também, quando entrevistávamos os “sem-terra” e os ribeirinhos que vendiam força de trabalho temporários aos donos de frigoríficos, que os caboclos, envolvidos em sistemas mais complexos, descobriram que os preços não são mais regulados pelos costumes e exigências locais, outrora determinados pelas relações pluridimensionadas de seu mundo local. Atualmente, são determinados pelas exigências maiores de procura e de estoque, que eles, apesar de compreenderem, não concordam:

Aqui, a gente num têm custume de comê peixe-liso, peixe-féra, né. A gente sô pesca de modo a entregar no frigorífico e recebê aquele dinheirinho, né. Isso quando pagam a gente. Às vezes, a gente sô leva prá casa o peixe de couro prá bóia da família, né. A gente num sabe quanto custa um peixe-fera, mas os homens lá, sô aceita se fô peixe-fera e bem grande, né. A gente num sabe prá quê que eles querem, né, mas é um modo de miorá a vida da gente (Sr. José do Nascimento Ferreira, 69 anos, agricultor e pescador – Careiro da Várzea/AM).
Como o ribeirinho opera dentro de um sistema paleotécnico no qual se alimenta de parte do que produz, continua a produzir para a subsistência, apesar de outros tipos de determinantes aparecerem no mercado.
4. Considerações Finais
Verificou-se na comunidade analisada a formação de sistemas de dependência ecológica, por meio dos quais a vida do grupo de vizinhança, perdendo a sua autonomia, passa a depender de novas esferas de relações, conforme o setor de vida considerado. Enquanto certas atividades, como o trabalho agrícola, requerem o estabelecimento de relações intragrupais, já a vida religiosa leva ao contato entre comunidades. A obtenção de bens de consumo amplia o campo interativo, que então é centralizado pela vida. Nos casos de compra de objetos menos corriqueiros – espingarda ou relógio –, o âmbito é ainda mais amplo, criando dependências várias em relação aos centros regionais, de raio menor, como Careiro da Várzea, e de raio maior, como Manaus. E por eles se estabelece o contacto indireto com os centros distribuidores de produtos manufaturados, consumidores de produtos regionais.

O desenvolvimento das relações comerciais ilustra claramente a mudança da dependência ecológica. Antes, os raros bens propriamente comerciais (bugigangas, tecidos, utensílios domésticos) adquiriam-se de patrões, regatões.

Mais tarde, além do comércio nas vilas, surgem vendas, “tabernas” das próprias comunidades, que são também um pouco lojas, onde se podem encontrar não apenas secos e molhados, mas algumas fazendas, armarinhos e ferragens. Nesta etapa, forma-se uma mobilização parcial nas relações comerciais dos grupos de vizinhança.

Em contraste com as concepções ocidentais sobre sua pequenez, os caboclos da Comunidade São Francisco embarcaram em um processo inédito de “ampliação do mundo”. Em vez de recursos fixos e insuficientes, eles ganharam acesso aos produtos de uma divisão de trabalho internacional, pois seus lares estão unidos à cidade de Manaus, esta ao mundo por um intercâmbio de pessoal (sem esquecer as comunicações por telefone, voadeira, correio naval) à Ilha que ainda é à base de sua identidade e seu destino. As trocas são bilaterais, são algo semelhante à reciprocidade costumeira entre parentes, mostrando aspectos de um sistema de prestações totais que acrescenta valores sociais às transações; com os caboclos-ribeirinhos vendendo, na Feira Manaus Moderna, o quiabo, a chicória e outras mercadorias, em caixas de madeira, à frente do banheiro da Feira Manaus Moderna, pois os 72 ribeirinhos da Costa da Terra Nova, Careiro da Várzea – AM que vão vender seus produtos na Feira Manaus Moderna não possuem boxes e por isso são chamados de “os sem-terra”. Essa denominação de “Os sem-terra”, segundo relatos dos ribeirinhos feirantes, faz que ocorra uma atração maior de consumidores aos seus produtos, isto porque o valor dos seus produtos é menor do que aqueles que estão nos boxes dos outros feirantes. A venda é tão rápida que durante uma manhã eles fazem rodízio de dois turnos entre sete ribeirinhos feirantes, o que os diferencia dos demais feirantes da Feira Manaus Moderna. Isto por que os preços de seus produtos é 50% menores em relação aos feirantes que vendem em boxes.

Esse fluxo de objetos e alimentos que segue da Comunidade São Francisco para a cidade de Manaus e o fluxo contrário de dinheiro e de objetos como fogões, televisores e motores de popa, fazem que os indivíduos em questão exerçam sua cidadania numa velocidade e profundidade maior que os demais caboclos-ribeirinhos que vivem em comunidades longínquas e com pouca escolaridade. Aquilo que aparece como “remessas” e “pagamentos” é apenas a dimensão material de uma circulação de pessoas, direitos e cuidados entre a cidade de Manaus e os lares de São Francisco.

Muito semelhante ao que ocorre em Tonga, Auckland e Honolulu, primorosamente estudadas por Sahlins (1997), verificamos similitudes no Estado do Amazonas, no Município do Careiro da Várzea, no lugar da Costa da Terra Nova, Comunidade São Francisco.

A modernização, com efeito, não tem sido a única opção, sequer na cidade de Manaus. O efeito inverso, a “caboclização” da modernidade é, no mínimo, tão acentuado quanto o primeiro – na cidade como no campo. Na complexa dialética da circulação cultural entre a terra natal e os lares alhures, as práticas e relações tradicionais ganham novas funções e talvez novas formas situacionais.

Considerada como uma totalidade, a sociedade translocal nesta pesquisa, em suas comunidades caboclas-ribeirinhas é orientada para elas. Os imigrantes identificam-se com seus parentes na região de origem, e é a partir dessa identificação que se associam transitivamente entre si no estrangeiro. Esses habitantes da cidade e do mundo exterior permanecem ligados aos seus parentes na terra natal, especialmente por entenderem que seu futuro depende dos direitos que mantêm em seu lugar de origem. Assim, o fluxo de bens materiais favorece em geral os que ficaram em casa: estes se beneficiam dos ganhos obtidos e das mercadorias adquiridas por seus parentes na economia comercial externa. Nas palavras de um pesquisador, a aldeia consegue reverter a “função parasita tradicionalmente atribuída às cidades” (Hugo, 1978: 264). Sob esse aspecto, portanto, a ordem indígena engloba a moderna.

Enfatizo que as sociedades transculturais têm seu foco na terra natal, e que sua forma de vida possui um caráter espacialmente centrado, para me contrapor a uma tendência a se falar em “desterritorialização” e em uma ligação “meramente simbólica” ou “imaginária” dos povos da diáspora com seus lugares de origem. A condição originária da terra natal também é pertinente: a estrutura tem dimensões temporais bem como espaciais.

A sociedade transcultural implica uma certa superioridade do setor moderno e externo. Além das virtudes materiais dos bens estrangeiros, os objetos e experiências do mundo exterior são incorporados nas comunidades natais como poderes culturais. Eles exercem influência positiva sobre as relações locais, desempenhando papéis críticos para a reprodução das sociedades natais. As migrações estrangeiras articulam-se assim às ambições locais. Tudo isso pode ser visto de maneira precisa nos casos em que as trocas entre os lares alhures e o povo da terra natal são assimiladas às práticas tradicionais de reciprocidade.

Com efeito, foi o que verifiquei na comunidade São Francisco, o “tradicional” e o “moderno“ caminhando cotidianamente juntos. Seja entre as parteiras e o médico – que visita a comunidade a cada 30 dias –, seja entre os filhos que estudam em Manaus e seus pais que residem na Costa da Terra Nova; seja entre os Sem-Terra (outsiders) na Feira Manaus Moderna ou os “Sem-Terra” estabelecidos na Costa da Terra Nova, trazendo TV, rádio, fogão, telefone, motores etc.... e levando quiabo, chicória e manga para venderem em Manaus; seja na substituição dos balões (bolas) pelas bandeirinhas picotadas de papel-jornal nas festas de santo ou em outras festas.

As teorias do “contato cultural”, utilizando a expressão de Canclini (1996), têm sido estudadas quase sempre através de contrastes entre os grupos apenas pelo que os diferencia. O problema reside no fato de que a maioria das situações de interculturalidade se configura, hoje, não só através das diferenças entre culturas desenvolvidas separadamente, mas também pelas maneiras desiguais com que os grupos se apropriam de elementos de várias sociedades, combinando-as e transformando-os. Quando a circulação cada vez mais livre e freqüente de pessoas, capitais e mensagens relaciona cotidianamente os caboclos-ribeirinhos com muitas culturas, suas identidades já não podem ser definidas pela associação exclusiva a uma comunidade. O objeto desse estudo não foi, então, apenas a diferença, mas também a hibridização.



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