O sagrado feminino no ‘Código Da Vinci’



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O sagrado feminino no ‘Código Da Vinci’

Priscila de Souza Moreira*

Tânia Mara Silva Benfica

Tatiana Salzer Rodrigues



Introdução
O tão enigmático e instigante tema do feminino já se tornou alvo de estudo de diversos autores que atuam nos mais variados campos do saber. O leque de interessados no assunto abrange desde médicos, psicanalistas e profissionais da área Psi em geral, a profissionais ligados à arte e a cultura, como poetas, musicistas, escritores e artistas plásticos.

Um dos exemplos mais em voga no momento é o do escritor Dan Brown, autor do livro O Código da Vinci, obra recorde de vendas que já foi traduzida para aproximadamente 44 idiomas e lida por mais de 55 milhões de pessoas em todo o mundo.

O interesse do autor em desvendar os mistérios do sagrado feminino chama a atenção por ter desenvolvido um romance cujo tema central é justamente esse. A história tem como pano de fundo um misterioso assassinato ocorrido no Museu de Louvre em Paris, que traz à tona uma sinistra conspiração para revelar um segredo protegido por uma sociedade secreta desde os tempos de Jesus Cristo. A vítima é o respeitado curador do museu, Jacques Saunière, o último grande líder dessa antiga fraternidade, o Priorado de Sião, que já teve como membros Sir Issac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.

Momentos antes de morrer, Sauniére consegue deixar uma mensagem cifrada na cena do crime que apenas sua neta, a criptógrafa francesa Sophie Neveu, e Robert Langdon, um famoso professor de Simbologia de Harvard, podem desvendar.

Os dois transformam-se em suspeitos e detetives enquanto percorrem as ruas de Paris e Londres tentando decifrar um intricado quebra-cabeça que vai surgindo através de pistas deixadas pelo curador, a fim de que encontrem e protejam tal segredo milenar. Este segredo traz revelações bombásticas acerca da verdadeira história do Santo Graal e da vida de Jesus Cristo, e, como veremos mais adiante, sobre o sagrado feminino.

É a partir das mensagens cifradas de Saunière que o romance começa a abordar o tema do feminino. Como foi dito, antes de morrer o curador do Louvre deixa pistas no local do crime, e até mesmo em seu próprio corpo, pistas estas que têm intrínseca relação com o feminino. Ele desenha em seu abdômen a figura de um pentagrama que é um antigo símbolo religioso pagão, usado por aqueles que viviam no campo e que não haviam recebido ensinamentos cristãos.

Além disso, Saunière, antes de morrer, desenhou um círculo em volta de si e se colocou de maneira que pudesse criar uma réplica do O Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci.

O famosíssimo esboço consiste em um circulo perfeito (segundo a obra, símbolo feminino de proteção) no qual um homem nu se encontra inscrito com braços e pernas totalmente abertos. O livro, então, introduz a ligação entre Da Vinci e o feminino, mencionando que este pintor, assim como o curador do Louvre, também era um adorador da ordem divina da natureza, e um dos protetores do segredo que agora estava ameaçado. Com relação às obras de Leonardo da Vinci descritas no livro, quais sejam a Mona Lisa e a Ultima Ceia, veremos mais adiante como elas se relacionam com o sagrado feminino.

A obra menciona, ainda, outros símbolos que têm forte relação com o sagrado feminino e que mais adiante serão descritos de forma mais detalhada, como o significado no número PHI, o jogo de cartas de tarô, a rosa símbolo do Priorado, dentre outros.

O que importa mencionarmos neste momento é que, segundo o autor, o segredo protegido pela fraternidade pode mudar completamente a história da humanidade. Ele está relacionado à verdadeira historia do sagrado feminino e, por mais incrível que possa nos parecer, à verdadeira trajetória da vida de Cristo, que é delineada na obra de forma diversa da tradicional. Para Dan Brown, Jesus foi uma figura histórica de forte influência, um grande e poderoso homem, mas que não passava de um homem. Um profeta mortal. Além disso, ele teria vivido com Maria Madalena como um casal, tendo inclusive filhos com ela. Maria Madalena, segundo o livro, é quem deveria ser a responsável pela fundação da Igreja Cristã após a crucificação de Cristo. Parece, portanto, que Jesus era um feminista original que pretendia que o futuro de Sua Igreja ficasse nas mãos de Maria Madalena. Como Jesus e sua companheira tinham descendência real – Jesus descendia do rei Salomão e rei Davi e Maria Madalena da Casa de Benjamim – a união entre eles fundiu duas linhagens reais, criando assim um verdadeiro sangue real, que está na origem do nome do Santo Graal, Sangreal, que significa literalmente sangue real.(BROWN, 2004, p. 237)

A partir daí, Dan Brown introduz a idéia de que o Santo Graal não é o famoso Cálice de Cristo, usado por Jesus em sua última ceia. Ele seria, na verdade, uma forma simbólica de representar uma mulher, Maria Madalena, geradora da linhagem real, do sangue real, a própria deusa. O Santo Graal representa o sagrado feminino e a deusa, conceitos que se perderam nos dias de hoje, por terem sido eliminados pela Igreja Católica. Esta roubou da imagem da mulher a atribuição sagrada de ser exaltada por gerar a vida, tendo em vista que passou a venerar a figura de um homem com o verdadeiro Criador. Passou, então, a demonizar o sagrado feminino e considerá-lo impuro.

Desta forma, segundo a obra, o Graal simboliza a deusa perdida, e as lendas de buscas de cavaleiros pelo Graal perdido são, na verdade, histórias sobre buscas proibidas do sagrado feminino. Cavaleiros que alegavam estar procurando o cálice estavam usando um código para se protegerem da Igreja, que, com a fundação do cristianismo, havia subjugado as mulheres, banido a deusa, queimado os hereges e proibido a adoração do sagrado feminino pelos pagãos (BROWN, 2004, p. 112-113, 139, 152-155).

No tópico a seguir vamos fazer um paralelo entre o enfoque dado ao feminino pelo autor, e as explicações psicanalíticas para o tema, sendo importante ressaltar que nos baseamos numa obra de ficção, e que muito do que foi dito pelo autor com relação ao feminino pode não coincidir fielmente com a realidade histórica.

Porém, ao que tudo indica, Dan Brown procurou realizar uma vasta pesquisa sobre diversos assuntos contidos no livro. Já nos agradecimentos, por exemplo, ele faz referência a ajuda obtida em suas pesquisas pelo Museu de Louvre, pelo Ministério da Cultura da França, Biblioteca Nacional de Paris, Serviços de Estudos e Documentos de Pinturas do Louvre, dentre outros.

Além disso, o autor agradece a sua esposa, que é historiadora da arte e pintora, e muito o auxiliou nas pesquisas para o livro. Ele mesmo estudou História da Arte na Universidade de Sevilha, Espanha, onde começou a pesquisar seriamente os trabalhos de Leonardo da Vinci.

Finalmente, Brown faz questão de destacar no inicio do livro que todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos presentes no romance correspondem rigorosamente à realidade, e que o Priorado de Sião, sociedade responsável pela guarda do Graal, existe de fato (BROWN, 2004, p. 1-419).



A exaltação do feminino na antiguidade

Os antigos viam o mundo dividido em duas metades: a masculina e a feminina. Seus deuses e deusas agiam no sentido de manter um equilíbrio de poderes. Quando masculino e feminino, Yin e Yang, estavam equilibrados, havia harmonia no mundo. Quando se desequilibravam, estabelecia-se o caos. A exaltação ao feminino estava presente até mesmo no jogo de cartas medieval, onde haviam arcanos denominados A Papisa, A Imperatriz e A Estrela, tendo o Ouros como naipe representativo da divindade feminina (BROWN, 2004, p. 43).

Cada religião era baseada na ordem natural divina, onde a natureza era adorada, assim, a deusa Vênus e o planeta Vênus eram um só. A deusa era denominada de diversas formas, além de Vênus, era a Estrela Oriental, Ishtar, Astarte, termos estes ligados ao feminino, à Natureza e à Mãe Terra. Esse planeta a cada oito anos descreve um pentagrama no céu, sendo, portanto, Vênus e o pentagrama, considerados símbolos da perfeição, da beleza e das características cíclicas do amor sexual.

Para os adoradores da Natureza e da Mãe Terra, o pentagrama, símbolo religioso pré-cristão, representa o lado feminino de todas as coisas ou o sagrado feminino. Mais especificamente simboliza Vênus, a deusa do amor sexual e da beleza. Este ícone é composto por cinco linhas que, ao se interpenetrarem, dão forma a uma estrela de cinco pontas, sendo considerado mágico e divino por diferentes culturas. O pentagrama também é expressão da Divina Proporção ou número PHI, uma vez que esta diz da perfeição na criação do universo; plantas, animais e até seres humanos possuem propriedades dimensionais que se encaixam com exatidão à razão de PHI para um.

I - PENTRAMA

(Desenho Livre)


Além disso, o feminino estava estreitamente relacionado à sexualidade. Existiam rituais sexuais pagãos, como o Hieros Gamos, que data de mais de 2.000 anos, significando casamento sagrado, onde era exaltado o poder reprodutor feminino. Neste ritual, homens e mulheres, vestidos opostamente de preto e branco, com sapatos dourados, máscaras andróginas e segurando globos dourados, ficavam entoando cânticos ao redor de um casal que efetuava um ato sexual. Tal ritual, porém, estava para além do erotismo, era um ato espiritual.

Historicamente, o ato sexual estava relacionado ao divino. Os ritos sexuais eram considerados o único caminho, para o homem, entre a terra e o céu. Os antigos acreditavam que para que o masculino se tornasse espiritualmente completo, tinha antes que ter tido conhecimento carnal do feminino. Assim, a união sexual com a mulher era condição fundamental para que o homem se tornasse espiritualmente completo, atingindo a gnose, o conhecimento do divino (BROWN, 2004, p. 289-292).

Mesmo a tradição judaica primitiva envolvia o sexo ritualístico. Os primeiros judeus acreditavam que o Santo dos Santos do Templo de Salomão abrigava não só Deus, mas também a sua poderosa consorte feminina, Shekinah (BROWN, op. cit., p. 292). Inclusive, o tetragrama judaico para o nome sagrado de Deus YHWH (Jeová), indica uma união física entre masculino (Jah) e feminino (Havah).

A Bíblia, enquanto relato histórico de uma época conturbada, se desenvolveu através de traduções, acréscimos e revisões. Segundo o historiador Dan Brown, ela é uma colagem proposta pelo imperador romano Constantino, o Grande, sumo-sacerdote do culto de adoração ao sol. No século III, diante da ascensão dos cristãos e da ameaça de divisão de Roma devido aos conflitos entre estes o os pagãos, o imperador resolveu unificar Roma sob uma única religião: o Cristianismo. Por isso, os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis (BROWN, op. cit., p. 229-237).

Para reforçar a tradição cristã, Constantino promoveu o Concílio de Nicéia, no qual, dentre outros aspectos, especula-se que o que foi debatido foi a divindade de Jesus. A divindade de Cristo convinha ao Estado e à Igreja, uma vez que ela seria o único canal estabelecido de comunhão do homem com o sagrado, através do qual este conseguiria redenção. A Igreja Católica primitiva, predominantemente masculina, sentia sua ascensão ameaçada pelo poder da mulher e sua capacidade de gerar vida, já a muito considerada sagrada. Assim, o sagrado feminino foi demonizado e considerado impuro, a verdadeira história de Cristo foi escondida e os significados de vários símbolos pré-cristãos que tipificam o sagrado feminino foram deturpados. Aproximadamente no século IV d.C., como parte da campanha do Vaticano para erradicar as religiões pagãs e converter as massas ao Cristianismo, a Igreja promoveu uma campanha de desmoralização dos deuses e deusas pagãs, definindo seus símbolos divinos como malignos.

O Priorado de Sião é uma das mais antigas sociedades secretas que presta culto de adoração à deusa pagã, reverencia o sagrado feminino, e existiria para proteger um segredo. Documentos que corroboravam com este segredo foram encontrados nas ruínas do templo de Herodes pela Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, uma ramificação militar do Priorado de Sião. Esta ordem, mais conhecida como Cavaleiros Templários, usou do disfarce de proteger a Terra Santa para encobrir sua verdadeira missão. Seu símbolo era a flor-de-lis combinada com as iniciais P.S.

Desde que encontraram o que procuravam, os Templários obtiveram privilégios religiosos e políticos ilimitados através da publicação de uma bula papal inédita do Papa Inocêncio II, conquistando força política, criando o sistema bancário moderno e acumulando muitos bens. No início do século XIV, devido ao tamanho poder que os Cavaleiros Templários haviam alcançado, o Papa Clemente V e o rei da França ordenaram aos soldados em toda a Europa que os executassem, acusando-os de hereges, adoradores do demônio.

No entanto, a fraternidade não foi totalmente exterminada e os documentos relativos ao seu segredo, provavelmente foram transferidos de lugar em lugar. Todo o conjunto de documentos, seu poder e o segredo que revelam receberam o nome de Sangreal ou Santo Graal, que significa sangue real (BROWN, op. cit., p. 239-245). O Graal é literalmente o símbolo da feminilidade representando o sagrado feminino em sua capacidade criadora, e a deusa. A Rosa e a Cruz também são símbolos do Priorado.

A Rosa é um símbolo através do qual exércitos e religiões se inspiraram, assim como as sociedades secretas. A palavra rosa é idêntica em vários idiomas: inglês, francês, alemão, entre outros e, ainda, é um anagrama de Eros, o deus grego do amor sexual. A Rosa de cinco pétalas representa o Graal no Priorado. Juntamente com o Cálice e o Santo Graal, a Rosa é um dos diversos pseudônimos de Maria Madalena. Segundo Brown, ainda hoje o Priorado de Sião venera Maria Madalena, como deusa, o Santo Graal, a Rosa e a Divina Mãe. O ícone tem vínculos com o pentagrama de cinco pontas de Vênus e com a rosa-dos-ventos, apresentando, assim, uma ligação com orientação, direção. Nos cultos primitivos à deusa, as cinco pétalas representam as cinco fases da vida feminina – nascimento, menstruação, maternidade, menopausa e morte. A imagem da flor se abrindo evoca a genitália feminina, a flor sublime através da qual toda a humanidade entra no mundo (BROWN, 2004, p. 43-45; 240-241).

A Cruz quadrada precede a cristandade em cerca de 1500 anos. É considerada pacífica e seus elementos vertical e horizontal equilibrados passam a idéia de união natural de masculino e feminino, harmonia, portanto, coerente com a filosofia do Priorado.

Segundo o autor do livro, Maria Madalena representava uma ameaça destruidora, e, sendo assim, a Igreja perpetuou sua imagem como prostituta e ocultou as provas do casamento de Cristo. Porém, antes de Maria Madalena ser braço direito de Jesus, ela já tinha poder, pois era da tribo de Benjamim. A linhagem real criada a partir da união de Jesus com Maria Madalena preocupava a Igreja devido a seu poderio político com o potencial de reclamar legitimamente o direito ao trono e restaurar a linhagem de reis como era nos tempos de Salomão. Ela foi o cálice (útero feminino), que concebeu a descendência do sangue real de Cristo.
O feminino segundo o referencial psicanalítico
Essa visão de feminino, remetida ao místico, que se apresenta no livro de Brown, nos parece ir ao encontro de teorizações de Lacan sobre o gozo. Lacan vai propor a existência de uma dualidade de gozos, existindo de um lado um gozo fálico, sexual, e de outro, um gozo Outro, relacionado ao feminino, a um gozo-a-mais, que estaria para além do gozo fálico, da potência vital (MAURANO, 2004, inédito, p. 29-38). Supomos que esse gozo Outro suposto por Lacan ao feminino, pode relacionar-se ao que Brown descreve como uma concepção existente na antiguidade, de que a comunhão com a mulher traria para o homem, a possibilidade de um instante de êxtase, caracterizado por um esvaziamento da mente, breve vácuo mental, e a conseqüente capacidade de ver Deus (BROWN, 2004, p. 289-292).

Tal estado também seria possível de ser atingido através da meditação, efetuada pelos gurus, atingindo o estado de Nirvana, verdadeiro orgasmo espiritual. (BROWN, 2004). Tal estado de Nirvana nos remete ao seminário 20 de Lacan, onde o autor aborda a questão do gozo dos místicos, e diz que este estaria relacionado ao gozo Outro (LACAN apud MAURANO, 2004, inédito, p. 29-30). Segundo Sérgio Telles, o conceito do gozo místico, se aproxima notavelmente da “visão analítica do desejo, do gozo, do Princípio de Nirvana, da pulsão de morte, essa descarga absoluta de tensões, que tem como modelo a vida uterina.” (TELLES, 1988, p.7)

O feminino comportaria, assim, um gozo suposto existir, relacionado à infinitude, à transcendência e ao místico. No fim do desejo, ao tocar um Nada, que é tudo o que resta, encontra-se A/mulher. Com o conceito de A/mulher, Lacan designa o enigma absoluto da mulher, situando-a num plano outro que o da castração, relacionado ao ilimitado. Lacan ressalta que tanto os homens quanto às mulheres estariam na referência fálica, e que o feminino a que se refere, conseqüentemente não é sinônimo de uma característica pertencente à mulher (LACAN apud MAURANO, 2004, inédito, p. 29-30).

Neste mesmo sentido, Lacan fala da inexistência da relação sexual, pois não há de fato relação complementar entre os sexos, dado que o feminino ao qual ele se refere está fora da ordem sexual, é alheio à ordem fálica, revelando-a como insatisfatória. O gozo fálico estaria ocupado da satisfação de si mesmo, já o gozo Outro vai além da afirmação de si, sendo melhor caracterizado pela entrega, pela desubjetivação.

O sexo, enquanto meio de geração de novas vidas, para os antigos, era considerado milagroso, e havia crença de que só um Deus teria a possibilidade de realizar milagres. A mulher, enquanto geradora de vida, ao possuir um útero, era então considerada uma deusa. “A relação sexual era a união respeitosa entre as duas metades do espírito humano – a masculina e a feminina –, por meio da qual o macho podia encontrar integridade espiritual e comunhão com Deus” (BROWN, 2004, p. 291). Com isso parece que temos aqui a menção a uma situação na qual a insuficiência da satisfação obtida via o sexual, busca apoio num mais além do sexual, onde a mística e o feminino se encontram.

O feminino na arte e na obra de Leonardo da Vinci

Dan Brown, ao escrever O Código Da Vinci mistura realidade e ficção e propõe que Leonardo Da Vinci seria sabedor do local onde estaria escondido o Santo Graal e teria deixado pistas ocultas em suas obras. O que vai nos interessar neste trabalho é que a partir daí, o autor vai fazer uma leitura de elementos de algumas das obras de Da Vinci que estariam relacionadas à exaltação do feminino.

Da Vinci nasceu em Vinci, na Itália, em 1452, se tornando um genial pintor, escultor, engenheiro, arquiteto e cientista. Segundo Brown (2004, p. 51-52; 162-163; 219), Da Vinci seria um adorador da ordem divina da natureza e um adepto da religião da deusa. Sua obra Homem Vitruviano, ícone da cultura moderna, retrata a imagem de um círculo perfeito no centro do qual está um homem nu, com os braços e as pernas bem abertos, no formato de um pentagrama. A nudez presente na obra nos remete à nudez de Vênus, enquanto deusa da sexualidade humana, e o círculo, símbolo feminino de proteção, completa a mensagem da harmonia entre feminino e masculino que Da Vinci pretendia passar. A correlação entre esse símbolo e o sagrado feminino é difundida de modo amplo entre historiadores da arte e simbologistas, associada ao enlace entre masculino e feminino.

Na natureza há o número PHI, que representa a divina proporção reinante na mesma. A obra Homem Vitruviano foi assim chamada em homenagem a Marcus Vitruvius, nome de destaque na arquitetura romana, que escreveu um texto sobre a divina proporção. Da Vinci era um grande conhecedor do corpo humano em sua estrutura, chegando a exumar cadáveres, medindo suas proporções e demonstrando a existência de razões proporcionais entre seus elementos, equivalentes a PHI (BROWN, p. 94).

II - HOMEM VITRUVIANO

Disponível: site Wikipédia.


A Mona Lisa era considerada por da Vinci a sua mais perfeita obra, a mais sublime expressão da beleza feminina. O fundo atrás do rosto dela é desigual, apresentando uma discrepância gritante. A linha do horizonte que Da Vinci pintou à esquerda se encontra num nível bem mais baixo que a da direita, fazendo-na parecer muito maior da esquerda do que da direita daí o fato de muitos considerarem o seu rosto um mistério. Historicamente, os conceitos de masculino e feminino estão ligados aos lados, o esquerdo é o feminino e o direito masculino. Como Da Vinci seria um grande fã dos princípios femininos, fez a Mona Lisa parecer maior quando vista da esquerda que da direita. Ele sempre considerava o equilíbrio entre o feminino e o masculino. Acreditava que a alma não podia ser iluminada a não ser que os elementos masculinos e femininos estivessem presentes nela. A análise da obra mostra a presença tanto de traços femininos quanto masculinos, numa fusão que remete à androginia, o que endossa dimensão enigmática do sorriso presente na obra. Isso se reflete no próprio título da obra, onde há a mescla do nome do Deus da fertilidade masculina, Amon, e da Deusa egípsia da fertilidade, Ísis, cujo pictograma antigo era L’ISA, assim, temos AMON L’ISA, anagrama da união divina do masculino com o feminino (BROWN, 2004, p. 116-123 ).
III – A MONA LISA

Disponível: site Wikipédia.

Também o afresco de Da Vinci, A Última Ceia, representa um importante tributo ao sagrado feminino. Tal obra é vista como possuindo elementos ocultos. Retrata a reunião de Jesus e seus discípulos em torno de uma mesa, quando Jesus revela que seria traído por um deles. Dan Browm propõe que o Santo Graal estaria representado não propriamente como O Cálice de Cristo, já que cada personagem retratado era possuidor de uma taça, e sim por através de uma simbologia própria. (BROWN, 2004, p. 229-237).
IV – A ÚLTIMA CEIA

Disponível: site Wikipédia.


Os ícones freqüentemente utilizados para representar o masculino e o feminino, aquele remetendo a um escudo e uma lança e este a um espelho, onde a beleza é refletida, teriam origem em símbolos astronômicos dos planetas Marte e Vênus. O símbolo masculino seria também representado por um falo rudimentar, ícone denominado a lâmina, símbolo de agressão e masculinidade; e o feminino, bem se caracteriza pela forma de um cálice, lembra um receptáculo, um útero feminino, representando feminilidade, maturidade feminina e fertilidade (Browm, 2004, p. 225-227). Estes símbolos remetem a uma identificação do feminino com a passividade e do masculino com a atividade, o que é interessante, mas deve ser considerado levando em conta a observação do próprio Freud, no texto Feminilidade (1932, p. 113-116), no qual indica que a feminilidade teria como característica psicológica uma preferência por fins passivos, mas alerta que fazer coincidir o feminino com passividade seria errôneo, já que já que muitas vezes para se chegar a um fim passivo é necessário uma grande carga de atividade.Da mesma forma, também seria um erro fazer coincidir o masculino com a atividade.
IV – O CÁLICE E A LÂMINA

(Desenho Livre)


Segundo Brown, a descrição do Santo Graal como cálice seria apenas uma metáfora, seu verdadeiro significado seria uma mulher, Maria Madalena, figurando à direita de Jesus, em A Última Ceia e com as cores de roupa invertidas em relação às de Jesus, formando imagens especulares, Yin e Yang, que quando observados em conjunto gerariam a imagem do símbolo feminino e um grande M, talvez de Matrimônio ou de Maria Madalena (BROWN, 2004, p. 229-237).

O autor propõe que a história do Graal – e, portanto do feminino – estaria sendo transmitida ao longo da história por simbolismos e metáforas, através das expressões artísticas, assim, obras artes literatura, música, livros e filmes buscariam veladamente que o sagrado feminino proibido fosse restaurado. Da Vinci, Botticelli, Poussin, Bernini, Mozart e Victor Hugo, e mesmo Walt Disney, além de contemporâneos, se utilizariam recursos para reverenciar o feminino em suas produções. MAURANO (2005), nos lembra que


a beleza se harmoniza com o que é da ordem do divino, coloca-se (...) como meio de transporte que faz essa comunicação. Faz-se simultaneamente acolhimento do precário e expressão de expansão. (MAURANO, 2005, p. 3).

Assim, o feminino também estaria presente nas mais diversas expressões da arte, através da beleza, como possibilidade de se ultrapassar o registro fálico e operar com a dimensão do infinito, indo na direção de uma gozo de outra natureza, gozo Outro, remetendo à pulsão de morte, que é essencial à criação. A arte vem a ser a estratégia que faz o não ser vir a ser. Implica uma passagem pelo nada, pelo não ser, com a possibilidade de vir a ser.



Considerações finais

O estudo do livro O Código da Vinci em sua relação com o feminino nos serviu para melhor atrelarmos diversos postulados da psicanálise sobre o tema do feminino. O feminino realmente é alvo de interesse e de pesquisas por muitos autores, ainda que estes não trabalhem diretamente com a psicanálise. Os segredos do feminino instigam os estudiosos, justamente por apresentar um grande mistério e uma enorme beleza. Ainda que se trate de uma obra de ficção, como é o caso do livro em debate, podemos perceber ligações com o que ele prega sobre a feminilidade e os ensinamentos de Freud e Lacan.

Segundo Dan Brown, o segredo do Priorado de Sião, era a proteção dos documentos do Sangreal, o sepulcro de Maria Madalena e sua linhagem, que vive em perpétuo risco. O autor fala do sagrado feminino como algo capaz de salvar o mundo e a humanidade da destruição, do caos. Segundo ele, se este for restaurado o mundo será capaz de encontrar um equilíbrio, como supostamente ocorria na época do culto as religiões ligadas à natureza (BROWN, 2004, p. 43).

Obviamente que para a psicanálise, não se trata de salvação via o feminino, mas este não deixa de colocar-se com um ponto de visada que se situa mais além do Complexo de Édipo, mais além da afirmação fálica de si mesmo. Sendo assim, que seja bem vindo o Sagrado Feminino.


Bibliografia:
BROWN, Dan. O Código Da Vinci. Rio de janeiro: Sextante, 2004.

FREUD, Sigmund. Conferência XXIII: Feminilidade. Edições Estandarte Brasileira das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXII, 1932.

MAURANO, Denise. Torções do gozo: o barroco á luz da psicanálise. Tese de Pós-Doutorado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, inédito, 2004.

______. O feminino no seio da cultura. Diário do Nordeste - Cultura, Fortaleza, 08/05/2005.

TELLES, Sergio. O gozo místico. Folha de São Paulo. São Paulo, 22 out 1988.



LEONARDO DA VINCI. Disponível em Wikipédia, a enciclopédia livre URL: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Leonardo_da_Vinci.> Acesso em: 22 jul. 2006.


* Graduandas do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora.


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