O sangue que circula entre nós: por uma etnografia do sangue (38, 42, 50). Sobre a técnica da transfusão sangüínea e o advento da circulação social do sangue. Daniel Alves de Jesus



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O sangue que circula entre nós: por uma etnografia do sangue (38, 42, 50).

Sobre a técnica da transfusão sangüínea e o advento da circulação social do sangue.

Daniel Alves de Jesus

Nos nossos dias o uso do sangue humano é uma realidade cotidiana que causaria, talvez, um estranhamento menor. Contudo, sabemos pouco sobre os processos necessários para que o sangue humano seja colocado em regime de circulação em nossas sociedades. A situação torna-se mais obscura quando se trata de indagar sobre os conhecimentos acerca dos processos e agenciamentos que foram acionados como campo de possibilidade, ou como gênese do modo de circulação social do sangue entre nós.

A circulação do sangue na sociedade está diretamente relacionada à técnica da transfusão sangüínea, aos hemocentros e a toda uma rede laboratorial, hospitalar e mesmo política e econômica. Ela depende ainda de uma gama enorme de profissionais altamente qualificados, das pessoas comuns que habitam principalmente os grandes centros urbanos, de toda a rede cotidiana de movimento e transporte das cidades e depende, é claro, do seu principal agente: o próprio sangue. Apesar de toda esta rede de conexões e entrelaçamentos de vários setores da sociedade, necessária para que o sangue possa circular e servir à manutenção dos corpos humanos, a transfusão sangüínea e o uso terapêutico e de pesquisa do sangue é relativamente recente e a sua história de disseminação e circulação social em larga escala se restringe à segunda metade do século XX. O desenvolvimento dos grandes hemocentros, juntamente com o sistema de circulação do sangue através da doação, remonta a um período mais recente ainda: no caso dos Estados Unidos, a partir do final da década de 1970; no caso do Brasil, a partir deste mesmo período sendo a doação do sangue legalizada apenas a partir de 1980. Antes disso, o sangue era vendido como uma mercadoria qualquer é passível de venda ou troca (Junqueira; et al., 2005).

Mesmo o sistema de doação sendo hodiernamente difundido em quase todo o mundo, existe uma bibliografia escassa sobre a história e a execução social contemporânea da transfusão de sangue e mais ainda sobre os modos e as transformações que aconteceram no pensamento, no comportamento e na cosmologia moderna para que o sangue pudesse circular pelas veias e artérias das várias sociedades e cidades modernizadas.

Desta maneira, o objetivo deste texto, que está baseado em parte de uma pesquisa em andamento, será apresentar a gênese de um processo que nomeio de “circulação social do sangue”, que visa apontar, mesmo dentro dos limites do curto escopo deste texto, para uma série de imbricações que vão desde uma mudança cosmológica impulsionada com o advento da ciência moderna, passando por implicações técnicas, científicas, morais e corporais que tendem a ser analisadas separadamente a partir do momento em que se toma uma partilha entre a natureza e a sociedade como um dado a priori. Meu intento neste texto é apresentar certa leitura das condições que tornaram possível colocar o sangue em um regime de circulação extracorporal, através do surgimento da técnica da transfusão, e de como a assimilação de tal prática técnico-científica esteve envolvida em um processo de composição social em nossas sociedades ocidentais (Latour, 2005), sem tomar a partilha entre natureza e cultura como um dado pressuposto seguindo os princípios de uma análise simétrica, segundo apresentada por Bruno Latour (2000a).

Dito isto, quando falo que existe uma “circulação social do sangue” refiro-me a todo um complexo relacional, criado em torno da técnica da transfusão sangüínea, que possibilita a saída do sangue do corpo de um doador fazendo-o passar pelos expedientes do laboratório e do hospital, até ele reencontrar, adiante, outros corpos aonde possa continuar o seu regime de circulação fisiológica no corpo humano. Para que este esquema montado em torno do sangue possa ser eficaz deve haver como que uma sinergia estável entre o corpo (representado pelo sangue), a técnica e todo um laborioso sistema de composição social em torno disto, que visa estabilizar o sangue fazendo-o “agir” segundo regras precisas e adequadas ao objetivo de repor indivíduos saudáveis à sociedade. Minha hipótese é que o sangue não circula socialmente sem mobilizar uma variedade de agentes humanos e não humanos que o transformam de modo radical, e que o transformam para que ele continue sendo sangue. Mas para que este sistema se tornasse estável e óbvio foi preciso haver intensas batalhas e controvérsias, rearranjos de ordem política, moral e cosmológica. A circulação social do sangue se tornou possível a partir do momento em que ambos, sangue e sociedade, passaram a agir segundo o modo de relação do movimento circulatório e do fluxo contínuo.

Quando digo que a circulação é mais do que um mero movimento, mas um modo de relação, é preciso entender em que condições o movimento circulatório surgiu para nós. Na história da medicina, William Harvey (1578-1657), médico e fisiologista inglês do século XVII, é lembrado como o descobridor da circulação do sangue. Esta leitura histórica é problemática, pois ela se assenta no pressuposto de uma separação ontológica radical entre a natureza e a sociedade. Harvey só “descobriu” a circulação do sangue porque esta já estava lá, à espera de um grande avanço da ciência no intento de desvelar os segredos recônditos de uma natureza que nada tem a ver com as incertezas e instabilidades da sociedade. Se abrirmos mão do pressuposto de uma separação radical entre a natureza e a sociedade veremos que a “descoberta” de Harvey remete a uma grande novidade não apenas para a sociedade da época, mas também para o sangue.

A presença do sangue em meio às sociedades humanas não é uma novidade. Desde a antigüidade até o período medieval o sangue sempre esteve associado, misticamente ou cientificamente, ao poder vital, à força da anima ou do espírito, seja humano ou animal. Se podemos afirmar de alguma maneira que existe uma história dos “objetos”1 (Latour, 1995), a história do sangue começa com a história dos humanos em sociedade. No entanto, quando Harvey apresenta ao mundo da época o sistema de circulação fisiológica do sangue, tanto para a sociedade como para o sangue, este esquema se tratava de uma novidade. Mais do que isso, ali surgia uma nova realidade física com poder de transformar radicalmente todo o seio das relações sociais a partir de então.

A novidade da circulação do sangue não foi aceita, a princípio, como algo óbvio. Quando Harvey apresentou os resultados da sua pesquisa ele havia simplesmente se levantado contra todo o arcabouço da realidade fisiológica vigente no ocidente desde a era antiga, afastando-se do arcabouço galênico2 e do mundo físico de Aristóteles, que eram o fundamento de base de toda explicação para o mundo dos corpos vivos e para o mundo físico. Harvey, assim como Pasteur séculos depois, teve também de convencer os seus pares da realidade do movimento circulatório do sangue. Mais do que isso, ele teve de recriar todo um novo espaço interno do corpo para que o sangue também pudesse entrar neste novo regime de movimento. Houve muitas controvérsias científicas no período, entre Harvey e os seus pares (Rebollo, 2002), antes da circulação do sangue ser aceita como uma realidade fisiológica para nós.

Até o século XVII a fisiologia, incluindo a fisiologia de Galeno e mesmo a fisiologia entendida e praticada pelo próprio Harvey até então, era seguidora da ciência de Aristóteles. Desde a Idade Clássica, todos os exercícios em física e fisiologia estavam subordinados à física aristotélica. Uma ciência não matemática altamente elaborada, com capacidade de dar sentido e organicidade às observações empíricas mais comuns, uma ciência totalmente qualitativa e voltada à taxonomia. Amparado no modelo de Aristóteles o corpo humano até a Idade Média era tido como algo que compartilhava de toda harmonia e equilíbrio do cosmo. Qualquer órgão ou fluido corporal tinha uma finalidade e um lugar exato no corpo assim como cada astro, árvore ou componente da natureza também tinha o seu devido lugar colaborando para um equilíbrio perene e estático. O modelo teleológico do cosmo era embasado teoricamente pelos princípios aristotélicos. Ao elaborar o modelo da circulação do sangue, Harvey rompe com o aristotelismo aplicando uma idéia de movimento similar ao da mecânica moderna. Movimento não é mais um estado transitório e fugaz, uma perturbação da ordem cósmica que coloca cada coisa em repouso, no seu devido lugar. Aplicando a nova dinâmica do movimento mecânico ao corpo, Harvey coloca a cinemática como essência da circulação do sangue. Por conseguinte, ele abandona toda preocupação finalista com relação ao corpo e passa a se preocupar com a dinâmica em si do movimento sangüíneo. O sangue circula agora, e devemos nos preocupar apenas com o “como” ele circula no corpo e não mais com os fins naturais ou espirituais que formariam o corpo até a Idade Média (Porto, 1994; Starobinski, 2002: 21-33).

A circulação do sangue então é explicada por Harvey através de uma série de imagens mecânicas, como bombas hidráulicas, válvulas, canais, foles, extraídas da engenharia hidráulica da época (Porto, 1994; Harvey, 1999 [1628]). Esta comparação do corpo com uma máquina é muito mais do que uma simples analogia. Não insinua, no entanto, que a natureza do corpo seja uma máquina, mas que o corpo não possui uma única natureza, um conjunto de propriedades específicas e inerentes a ele. É, pois, um novo corpo humano que surge na modernidade, e para os modernos, a partir de Harvey. A zona de limiaridade do corpo não é mais clara. Os limites do corpo estão em aberto. Para a fisiologia moderna, a partir de Harvey, o sangue deve ser “um fluido como outro qualquer”. E uma vez que sua circulação é contínua e sem princípios finalistas que a guiem, ele pode estar livre para circular.

Mas vamos nos ater com maior detalhe em um ponto que considero fundamental. Quando digo que, a partir do conjunto dos trabalhos em fisiologia no Século XVII em diante, o que se torna possível é falar de um novo corpo humano, um corpo ainda em aberto no que concerne a busca ou tentativa de impor-lhe limites e realidade exata (um corpo matematizável), não estou referindo-me a figuras de linguagem ou a exageros construcionistas. Harvey, para fazer valer o seu sistema da circulação do sangue no corpo, teve que criar todo um novo sistema fisiológico rompendo de vez com o antigo sistema fisiológico ligado à realidade de um corpo, por assim dizer, medieval.

Como eu disse anteriormente, no século XVII ainda reinava um sistema corporal amparado pela fisiologia e anatomia desenvolvida por Galeno. A fisiologia explicava as funções do corpo partindo de esquemas e processos distintos sediados nos chamados três principais “ventres” do corpo: o abdome, o tórax e a cabeça. Cada uma dessas partes tinha uma função vital e um órgão principal dominante. Cada uma das funções exercida por esses órgãos era feita através de um sistema de vasos que continham um fluido apropriado: a nutrição era sediada no fígado e dava origem ao sistema venoso; a função cabida ao movimento e à sensação era sediada no cérebro e dava origem ao sistema nervoso; e a função de dar vitalidade era, por sua vez, sediada no coração e dava origem ao sistema arterial (Rebollo, 2002; Souza, 1981; Guyénot, 1956; Hall, 1988).

Sem nos atermos em detalhes desnecessários para nosso interesse específico, delineio apenas o sistema sediado pelo coração. O coração era concebido como a parte mais quente do corpo. Ele era a sede natural do calor inato distribuído ao corpo através das artérias e controlado, ou moderado, pelo ar refrigerado dos pulmões. É aqui que entra uma das principais discordâncias de Harvey em relação ao sistema clássico galênico.

Se erroneamente tomarmos pelos padrões atuais o que Harvey de fato criou, nos parecerá bastante simples a sua “descoberta”: o coração bombeia sangue pelas artérias, recebe-o das veias, para então bombeá-lo. A questão é que este fato aparentemente simples, para ser comprovado na época do médico e fisiologista inglês, exigiu que todo o sistema fisiológico sobre o coração e, conseqüentemente, sobre os demais sistemas corporais fosse modificado. O que Harvey estava, de fato, a fazer era desafiar toda a concepção clássica de que o sangue fluía pelo corpo aquecido; de outra maneira, de que corpos diferentes continham variados graus de “calor innatus” (Rebollo, 2002). Por exemplo, corpos femininos eram menos quentes do que corpos masculinos, etc. (Laqueur, 2001). Contrariando a antiga teoria e a antiga cosmologia, Harvey afirmou que a circulação é que aquecia o corpo, de maneira mecânica, isto é, pelo vigor das batidas do coração, ao modo de uma bomba hidráulica. Desta maneira, o coração surgia, ali, como “a grande máquina da vida” (Sennett, 2006: 216). Com isto, além de impulsionar o surgimento de um novo corpo (corpo-máquina), Harvey também impulsionou o início de uma compreensão mais secular do corpo, que confrontava a noção antiga e medieval de que a fonte vital era a alma (anima).

Agora que o sangue pode circular nos corpos, a partir dos trabalhos desenvolvidos por Harvey, a primeira circulação do sangue é uma realidade sem retorno para os modernos. O que Harvey não tinha em mente era o quanto as suas pesquisas iriam modificar e influenciar a vida dos modernos, a economia, a política, o processo de urbanização e crescimento das cidades modernas. Pouco tempo depois do início da circulação do sangue no corpo, a primeira tentativa de colocá-lo em um registro de circulação fora do corpo se daria ainda no século XVII. Através de uma mudança radical da relação do corpo com a técnica inicia-se a tentativa de construção de uma associação entre o sangue e a sociedade.

Esta assimilação apresentada por Harvey entre o movimento circulatório do sangue no corpo e a nova mecânica do movimento, inclusive com as suas analogias entre o funcionamento interno do corpo com máquinas hidráulicas, permite o surgimento de um novo agenciamento entre corpo e máquina e entre a relação do sangue com os “humanos em sociedade”. Logo após a estabilização do aceite da circulação sangüínea pelos pares de Harvey, começam as tentativas de se colocar o sangue em circulação social através da técnica de transfusão. Aqui um apontamento aparentemente banal será crucial para a manutenção de todo o esquema de circulação social do sangue que irá surgir à duras penas. Refiro-me ao ponto em que Harvey afirma que o sangue, para circular, deve ser tratado como um “fluido qualquer”. Este pressuposto é a base de um novo processo de objetificação do sangue. Ora, antes de Harvey o sangue nunca foi uma substância qualquer. Ele tinha o poder de determinar linhagens de reis, transportar características inerentes a personalidade da pessoa que o possui, um determinador da pessoa, do ente humano. Se Harvey precisou dizer que o sangue deveria ser tratado como um fluido qualquer é porque de fato ele não era um mero objeto. O sangue “deve” ser uma mera substância, mas ele não “é”. E todo o trabalho exercido sobre o sangue nos laboratórios atuais tem como objetivo manter o máximo possível a substancialidade material e objetificada do sangue. Todo o sucesso da técnica da transfusão dependerá de um ajuste entre a relação do “sangue objetificado” com as pessoas em sociedade. A primeira tentativa de se colocar o sangue em regime de circulação social falha, como veremos a seguir, em detrimento deste ajuste, ou melhor, da falta deste ajuste.

Uma nova relação com a técnica: sobre a circulação social do sangue.

O século XVII é conhecido, dentro do período canonizado como a revolução científica, como o século da física. A partir dos avanços anteriores de Copérnico, Kepler e Galileu, uma nova cosmologia e uma nova relação do homem ocidental com a natureza se inicia. A natureza passa agora, grosso modo, a ser compreendida através de métodos quantitativos, por ela ser passível de matematização nos moldes do novo arcabouço cosmológico em nascimento. O que poucos comentam é sobre uma revolução quase silenciosa: a revolução da fisiologia, da biologia. É certo que ela foi mais lenta em um processo de agregação de valores científicos ditos modernos, alcançando seu ápice apenas com a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Mas a revolução biológica já tinha começado e Harvey havia dado um passo fundamental nesse processo. Ele foi talvez o primeiro a aplicar um método quantitativo em fisiologia, ao dizer que havia uma quantidade regular e uniforme de sangue circulando em cada corpo e que era possível medir a quantidade desse sangue em cada ente. Ele aceitou a realidade das observações empíricas com relação ao comportamento do sangue e do sistema cardiovascular casando a nova noção do movimento da física moderna com o corpo humano. Um corpo também pode ser medido, um corpo pode funcionar aos moldes da mecânica. A partir deste período as técnicas corporais entre os modernos nunca mais serão as mesmas. A idéia do corpo máquina, como já dito, não quer dizer que o corpo não é natural, mas que há “outras naturezas”. Um corpo é sempre natural, mas também fruto da sociedade que o cria, que o fabrica no decorrer de sua história.

Nesse sentido, quando Marcel Mauss (1974) reflete sobre as técnicas corporais ele já nos aponta não um corpo humano apenas in natura, mas desde o princípio um corpo humano particularizado pela sociedade que o molda e transforma, cada uma a seu modo, pelo uso da técnica.

Este apontamento de Mauss nos permite superar uma fronteira dualista que coloca o instrumento como antecessor da técnica, que seria um meio, ou ponte, que ligaria os termos opostos homem e natureza. No lugar disto, veríamos um agenciamento mútuo entre o homem e o instrumento, uma sinergia, ou rede que associa “os homens e as naturezas” e todo o cosmo (Deleuze & Guattari, 1976: 505). Neste ponto é importante a compreensão de que o corpo humano não é um mero dado natural universal, mas uma construção particular de cada cultura em associação com a matéria corporal e o uso da técnica.

Não devemos, contudo, reduzir tal compreensão na forma de um relativismo cultural. A ênfase aqui está dada nas associações possíveis entre homens e coisas descartando como um dado a priori a cisão radical entre natureza e sociedade como sendo universal. Desta maneira, se temos antes das técnicas com instrumentos o conjunto das técnicas corporais, como também que existe técnicas corporais que supõem instrumentos é porque não há uma oposição ontológica entre corpos e instrumentos, mas um agenciamento mútuo em rede. Se tomarmos as visões dualistas como pressuposto, tais agenciamentos nos escapam.

Contudo, será inegável a centralidade que o uso da técnica ocupa nas sociedades modernas ocidentalizadas. A técnica e o corpo na modernidade alcançarão tamanha sinergia que não ficará claro, em muitos pontos, onde começa e termina o corpo, onde começa e termina a máquina. Esta noção do corpo-máquina será implementada pela mudança cosmológica impulsionada pela dita revolução científica (Brüseke, 2002; Novaes, 2003).

Disto que acabou de ser dito podemos depreender ainda uma importante observação: se não devemos tomar como um dado a priori uma cisão entre natureza e sociedade, assim como também uma oposição entre corpo e instrumento, devemos tomar cuidado para não considerarmos de antemão dados que hoje nos parecem óbvios. Explicarei melhor: cada fato, hoje já dado como óbvio, ao ser aberto (como uma caixa-preta) apresenta a sua história e a sua construção que, geralmente, se deu através de lutas, controvérsias e, é claro, de uma novidade (e não de uma obviedade) no momento de seu estabelecimento. Tomemos como exemplo a realidade do uso moderno do sangue. Todos nós sabemos, isto é óbvio, que o sangue que circula entre nós é apenas o sangue humano. Só se pode receber e dar sangue de um humano para outro humano. Mas isto não foi sempre assim. O estabelecimento desta atual obviedade se deu a um elevado custo e a uma série de experimentos e controvérsias científicas, técnicas, religiosas e filosóficas. Até mesmo o que é ou não humano deve ser escolhido, discutido previamente. Nada está dado de antemão. O início do uso da técnica da transfusão sangüínea também nos ensina isto.

Uma geração posterior a Harvey, em 1667, o modelo da circulação do sangue já começa a produzir seus frutos. Harvey “coordena o sistema arterial e o sistema venoso; permite uma concepção do conjunto do corpo e da sua nutrição. Homens curiosos de tudo como Christopher Wren, o futuro arquiteto da catedral de Saint-Paul, exercitam-se lançando nas veias dos animais leite, óleo, vinho ou ópio” em inúmeras experimentações (Moulin, 1997: 276 e 277). Uma vez que a circulação do sangue começa a fazer parte da comunidade científica da época, a tentativa de colocar o sangue em circulação na sociedade já pode ser experimentada. A transfusão começa neste período.

Na primeira transfusão humana em um inglês, chamado Arthur Coga, em junho de 1667, foi sangue de carneiro que foi utilizado. Este não morreu, ou porque a quantidade de sangue transfundida foi ínfima para se causar uma reação de hemólise, ou porque talvez não tenha recebido sangue algum, sendo assim uma farsa. Tal sorte não obteve em França certo senhor de Saint-Amant que em sua segunda transfusão, feita com sangue de cordeiro, manifestou de forma clara o que chamamos hoje de uma reação de incompatibilidade: grande calor no braço, opressão no tórax, vômito, no dia seguinte a urina estava negra, morreu em seguida (Ibidem, 1997).

Esta escolha pelo sangue animal no lugar de sangue humano nas primeiras transfusões tem a ver, no meu ponto de vista, com uma incongruência e com uma transformação no agenciamento do sangue. Neste início do processo de circulação social do sangue o panorama é o seguinte: apesar da fisiologia de Harvey pedir o tratamento objetificado do sangue ele, o sangue, ainda é agenciado conforme o modelo da realidade fisiológica medieval. Existe neste período uma instabilidade no mundo devido a uma sobreposição entre uma realidade física medieval que insiste em perdurar e uma nova realidade em aberto, na qual gera um espaço de incertezas pela falta de inúmeros fatos ainda não gerados e, portanto, não passíveis de conhecimento. Por exemplo, pode o sangue animal ser usado em humanos? Naquela época essa pressuposição levou a medicina ao erro do uso de sangue animal em transfusões em humanos. Por sua vez, o “sangue humano” ainda não podia ser tratado como objeto passível de manipulação. Este, amparado nos moldes clássicos ainda vigentes, era detentor de características próprias da pessoa que o porta: o sangue é pessoal e não um “fluido qualquer”. Ainda não estava decidido o lugar que o sangue humano deveria ocupar neste novo modo de relação com a sociedade, o modo de relação da circulação social. Apesar dos médicos e fisiologistas da época terem se lançado sobre a técnica da transfusão para colocar o sangue entre a sociedade, a sociedade (incluindo a ciência prática da época) agia pelos moldes de sua composição social ainda vigente. O “espírito” medieval ainda estava presente, pois não se decompõe um sistema social estabelecido, da noite para o dia. Para o sangue humano poder circular livremente pela sociedade ambos, sangue e sociedade, têm que se compor em um novo arranjo de relações sociais que ainda era nascente. A primeira tentativa de usar a técnica da transfusão sangüínea falhou, pois ela pede um modo de ação ao sangue que ainda não era possível. Tendo falhado essa primeira tentativa de colocar o sangue em movimento na sociedade, a transfusão será retomada apenas no início do século XIX e sua história será lenta e controversa.

Poderíamos então, aos olhos de hoje, indagar: por que transfundir sangue animal em um ser humano? Não seria uma loucura fazer tal coisa? Sim, se julgarmos tolamente os fatos do passado tomando-os pelos padrões de comportamento hodiernos. Não, se tentarmos analisar os fatos do passado simetricamente, isto é, levar em consideração as relações entre os homens e as coisas no período em que surge a técnica de transfusão do sangue. Controvérsias só se tornam fatos e obviedades após longas instabilidades sociais e cosmológicas associadas a elas. Por exemplo, se hoje está em discussão pública para nós, se a vida deve iniciar no momento da concepção ou a partir do surgimento do feto; se não decidimos se o efeito estufa é um fenômeno natural ou social, ou talvez os dois simultaneamente; se não sabemos de antemão uma série de questões por estas serem controvérsias em franca disputa, naquele período o uso de sangue humano não era uma questão óbvia. O uso do sangue humano tinha restrições como temos hoje, por exemplo, restrições para usar fetos para a produção de células-tronco, etc.

Apesar da circulação do sangue já ser reconhecida e da técnica da transfusão sangüínea já ser testada, as concepções e a cosmologia do mundo cotidiano do século XVII ainda eram medievais o suficiente para impedir, naquele momento, a circulação social do sangue. Foi preciso que as cidades, as pessoas, todos os corpos, a economia e a política passassem a funcionar em um registro de circulação semelhante ao da circulação do sangue, como Harvey havia mostrado. Além disso, era preciso conhecer e propor uma nova relação com o sangue. Sim, após Harvey surge um novo agente: o sangue que agora circula no corpo precisa ser conhecido não mais nos antigos moldes da fisiologia e medicina clássica. É necessário tentar conhecê-lo e subordiná-lo ao modo da ciência moderna.

Após ter falhado as primeiras tentativas de colocar o sangue em um regime de circulação social, a transfusão retorna como possibilidade no século XIX com uma variante capital: é preciso limitar-se necessariamente ao emprego de sangue humano. Mas para que a transfusão seja uma prática executável depende-se da ação controlada de um ator fundamental, o próprio sangue. Para se controlar o sangue, para usá-lo, saber mais sobre seu comportamento, era necessário “domesticá-lo”, torná-lo dócil, bem no sentido que Foucault aplica ao termo (Foucault, 2000). E esta tarefa só é possível quando a medicina torna-se científica. Como demonstrou ainda Foucault, foi necessário ocorrer uma revolução ampla na medicina, como toda uma “reorganização do campo hospitalar, uma nova definição do estatuto do doente na sociedade e a instauração de uma determinada relação entre a assistência e a experiência, os socorros e o saber; foi preciso situar o doente em um espaço coletivo e homogêneo. Também foi preciso abrir a linguagem a todo um domínio novo: o de uma correlação contínua e objetivamente fundada entre o visível e o enunciável” (Foucault, 1998: 226). É necessário que haja uma confiança completa na experiência com a natureza fisiológica humana aliada a uma nova forma de ver e conhecer o corpo; tudo isto entremeado a um grande desenvolvimento da tecnologia voltada para o domínio e o conhecimento molecular do físico, incluindo o sangue. A partir dessa mudança radical da medicina, em relação à época de Harvey, o sangue passaria paulatinamente a ser conhecido, manipulado, transformado até o ponto em que se torna um objeto ou material de troca, passível de circular entre as pessoas.

Contudo, levando-se em conta todas as questões até aqui apresentadas, o fator mais importante para que o sangue pudesse entrar em circulação intensa na sociedade foi a transformação simultânea ocorrida entre uma mudança epistêmica na medicina, onde se passa a ver o sangue como um componente natural e, portanto, separado dos aspectos morais, religiosos e simbólicos que ainda cerceavam o problema do uso do sangue; e em conseqüência disto uma intensa prática laboratorial, aliada ao desenvolvimento contínuo de novas tecnologias do próprio laboratório, para se compreender as ínfimas partes de composição da matéria sangüínea decompondo-a em seus elementos (hemácias, plasma, plaquetas, leucócitos, etc.). O que ocorreria então, na prática, seria uma nova concepção do sangue. Este deixaria, temporariamente (enquanto estivesse em circulação fora do corpo), de ser parte de nós tornando-se um material simultaneamente composto de natureza e cultura (Latour, 2000a); uma vez que este sangue que circula fora do corpo não é completamente idêntico ao sangue natural, pois este foi manipulado, separado, purificado pelo “aparato cultural” do laboratório, porém, a sua origem e produção se deram aquém da manufatura e produção humana, nas regularidades autônomas da natureza física do corpo humano; para novamente, após a sua circulação na sociedade, voltar a ser “natural”, transfundido em outra pessoa.

Muito além disto, assim como o sangue deve circular em um corpo funcional, onde cada órgão tem a sua função incluindo o próprio sangue, assim como este corpo deve ser passível de controle, regularidade mecânica, passível de quantificação, um corpo mais homogêneo e individualizado, assim como o sangue necessita de canais (veias e artérias) interligados como uma grande rede comunicadora; era necessário, para que o sangue circulasse nas nossas sociedades, que estas se assemelhassem a este novo corpo moderno. Não é gratuito que o sangue apenas inicie sua circulação na sociedade quando o mundo ocidental entra também no grande registro da circulação e do fluxo contínuo entre pessoas e objetos. Circulação do livre mercado, da informação, da política, das pessoas quase autômatos das grandes metrópoles, estes “seres de passagem” (Simmel, 2005).

Mais do que tudo o que disse até aqui, a relação entre o sangue humano e o trabalho de objetificação constante feito pelo laboratório dos hemocentros aparece, para uma análise atual do processo de circulação social do sangue, como a base de todo o funcionamento estável deste processo. O que quero dizer é que fazer o sangue ser uma substância como outra qualquer é um trabalho diário exercido pelo expediente do laboratório. No meu entender, todo o processo de transformação que o sangue passa em meio ao laboratório é um esforço para estabilizá-lo como sangue, no sentido que a fisiologia dá a ele: uma substância passível de manipulação e de uso. Mas os detalhes deste processo estão sendo analisados por mim em uma pesquisa em andamento, uma etnografia do sangue e dos processos de composição social atuantes em torno da circulação social do sangue.

Tendo chegado até este ponto, e apesar do curto escopo do texto, pudemos ver um pouco dos meandros mais complexos de como uma prática atual como a transfusão de sangue pôde, ao longo de alguns séculos, tornar-se presente, “óbvia” e cotidiana em nossas sociedades atuais. Vimos também que, mesmo tendo o hábito de observarmos e analisarmos determinadas práticas sociais isoladamente, como se tais existissem por si só, apenas é possível compreendê-las com maior profundidade se levarmos em consideração toda a gama de conexões e eixos relacionais associadas a tal prática. A transfusão de sangue, como vimos, depende não apenas do laboratório, de médicos e demais profissionais capacitados, de pessoas dispostas a doá-lo e a recebê-lo. A transfusão depende, também, de toda a malha urbana das cidades, dependeu de mudanças sociais, naturais, técnicas e cosmológicas profundas no decorrer da curta história, ainda em andamento, do chamado mundo moderno.

A transfusão sangüínea está associada ainda a uma modificação profunda das bases do que consideramos como o corpo na modernidade. Harvey gerou muito mais mudanças do que poderia imaginar. Um corpo humano que agora não tinha mais limites prontamente dados pela natureza, mas também pela máquina, pela técnica moderna. Estranha relação onde o discurso científico e filosófico do ocidente privilegia uma separação radical entre natureza e sociedade, corpos e instrumento. Mas, na prática, vemos um grande conjunto de misturas e relações onde não podemos afirmar, baseados em tais práticas (como a própria transfusão), onde começa e termina o corpo. Um corpo em profunda conexão com a máquina, a técnica, a cidade. Um corpo, na prática, simultaneamente composto pela natureza e pela sociedade, sem barreiras ontológicas. Tudo está interligado. Não devemos ver apenas organismo, ou apenas linguagem, ou apenas o simbólico. Mas reconhecer que em cada corpo existe a manufatura do social e em cada sociedade existe a natureza dos corpos. Depois da transfusão sangüínea fica mais claro que, ao contrário do que muitos teóricos dizem, a marca da modernidade talvez seja a fluidez do seu cotidiano, do seu cosmo. Tudo flui. Tudo deve fluir como o sangue. Talvez Heráclito ainda permaneça, apesar do rio que corre com suas pegadas.



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1 Se existe uma “história do sangue”, nos moldes como Latour coloca que existe uma história dos objetos, a história do sangue (ao contrário da história do ácido láctico que começaria com Pasteur, segundo Latour) existe desde os primeiros humanos em sociedade, mas a história da objetificação do sangue inicia a partir de Harvey, como veremos adiante (Cf.: Latour, 1984; 1995) .

2 Refiro-me a Galeno, médico que teria vivido no século II da era cristã, em Roma. Galeno ficou famoso por ter desenvolvido manuais de fisiologia que detalhavam o funcionamento e as partes anatômicas do corpo humano, a partir de uma medicina ainda embasada nos trabalhos de Hipócrates (médico grego considerado pelo mundo ocidental como o pai da medicina) e na chamada física de Aristóteles. Em um tempo onde não se permitia, por razões religiosas, abrir corpos humanos, Galeno pôde fazer as suas observações internas do corpo ao tratar de gladiadores na Roma antiga. Sendo médico de gladiadores, Galeno tinha a sua disposição uma ampla gama de observações que poderiam ser feitas em corpos partidos, membros e ventres abertos, etc. Estes estudos e os conhecimentos deixados por Galeno foram a base da fisiologia humana até o fim da Idade Média.


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