O sentido histórico através dos quadrinhos: uma leitura crítica de charges da revista ‘o cruzeiro’.



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O SENTIDO HISTÓRICO ATRAVÉS DOS QUADRINHOS: UMA LEITURA CRÍTICA DE CHARGES DA REVISTA ‘O CRUZEIRO’. 

(ed.08/08/1959)

Eric Allen Bueno (Unicentro), Cláudio César de Andrade (Orientador – Dep. de Filosofia/ UNICENTRO), e-mail: mestreclaudio@uol.com.br

Palavras-chave: História, Quadrinhos, Mentalidades.
Resumo:

Esta é a primeira parte de um trabalho que busca entender a História do Brasil através dos quadrinhos, particularmente, as Charges de Carlos Estêvão, publicadas na revista ‘O Cruzeiro’. A análise enfocará vários aspectos, priorizando elementos sociais, políticos e culturais.


Introdução:

Entre as muitas fontes que dispomos para entender a História do Brasil, os quadrinhos, charges e cartuns são reveladores de cenários pouco explorados. Este trabalho procurará mostrar que através dos quadrinhos é possível entender a mentalidade, idéias vigentes na época e sua relação com o momento histórico.


Materiais e Métodos:

Para realização deste trabalho, utilizamos edições da revista ‘O Cruzeiro’ no período de 1955 a 1959, publicados pelo cartunista Carlos Estêvão. A análise busca entender a reconstrução e o contexto histórico, apoiado em referências bibliográficas, procurando depósitos de sentidos históricos a partir do presente.



Texto:

Os quadrinhos têm hoje uma importante participação cultural e se firmam como uma das características da sociedade do início do século XXI. Sua influência está presente em inúmeros aspectos do cotidiano que vão além do entretenimento como cinema, propaganda, jogos eletrônicos, revistas especializadas etc. Desde sua origem estão intimamente relacionados à transmissão de idéias e contagiando gerações em muitas dimensões, desde campanhas de saúde pública até justificativas de guerras. A utilização ideológica dos quadrinhos está fortemente relacionada ao momento histórico. Exemplo disto é que na Segunda Guerra Mundial foram utilizados pelos aliados como arma anti-comunista, com a criação de um personagem pitoresco que lutava contra os nazistas – ‘o Capitão América’. Outros personagens podem ser citados para ilustrar o forte papel na aculturação mundial e difusão das idéias capitalistas. Leia-se personagens de Disney, Na França, Asterix apareceu como um personagem folclórico que exaltava o nacionalismo. Na China dos anos de 1960, Mao Tsé-Tung também fazia uso destas abordagens, utilizando quadrinhos para orientar a população sobre os ideais revolucionários. Na argentina, Quino criava Mafalda, personagem que contestava o regime ditatorial de seu país e abordava temas ligados à censura, ao feminismo, às crises econômicas e políticas.

No Brasil, a produção dos quadrinhos sempre esteve limitada a questões editoriais, políticas, econômicas entre outras. Esta inserção ainda hoje verificável em um mercado editorial repleto de títulos estrangeiros. Todavia, os quadrinhos sempre estiveram presentes e contribuíram para a formação da cultura brasileira.

Mesmo tendo uma produção nacional limitada, os quadrinhos tiveram importante participação na construção do “ser brasileiro” que conhecemos hoje. E para entender como isso aconteceu, este trabalho investiga os aspectos históricos, tentando entender a conjuntura da formação da mentalidade do Brasileiro a partir dos quadrinhos.

Para tanto, nos utilizamos dos Quadrinhos de Carlos Estêvão na revista ‘O Cruzeiro’ entre 1955 a 1959. Esta revista ocupou importante espaço na cultura brasileira. Era a de maior circulação na época, com tiragem semanal superior a meio milhão de exemplares. No entanto, é preciso destacar que na época 80% da população era analfabeta e, portanto, a difusão das idéias aqui tratadas podem ter algumas limitações.

Na década de 50 o Brasil vivia sua “Era de Ouro”1 com uma economia crescente e uma relativa liberdade política. O que se traduziu nos quadrinhos citados, em uma postura de pouca preocupação política, sendo que um dos principais aspectos presentes era a forte influência estadunidense onde o uso de palavras em inglês e referências a filmes eram constantes. Mas, o que mais chama a atenção era a dominação masculina2, presente principalmente nas histórias que começavam como título “Ser Mulher...” mesmo quando se fazia o inverso no “Ser homem...” a mulher, na maioria dos casos, recebia um papel subalterno, sendo lhe atribuído o estigma de possuir pouca inteligência. Entretanto, em 1959 o autor criava histórias intituladas “Coisas do ano 2000” onde imaginava a sociedade e as “engenhocas” do futuro. Nesta visão de mundo, as mulheres teriam maior participação social (e até existe a troca de papéis como na edição de 07/02/1959) e as maquinas foram criadas com o intuito de melhorar a vida, mas o autor satirizava mostrando que não era bem assim que acontecia. Deste momento, intimamente ligado ao desenvolvimentismo de JK e a grande industrialização nacional, os quadrinhos já prenunciavam que a tecnologia por si só não fazia milagres, pois era feita por e para humanos, logo, era imperfeita (ed.17/01/1959 e 28/11/1959).

Outro aspecto interessante é a importância dos meios de comunicação na vida das pessoas. O rádio, o mais popular na época, acabava por ser satirizado tanto pelo fascínio que trazia (ed.28/01/1956) quanto por suas propagandas fora da realidade (ed.25/02/1956) o que acabava se repetindo posteriormente com a televisão, mas que ainda nesta é época era artigo de luxo. O jornal também era posto em dúvida sobre o que ele dizia e o que realmente acontecia, elemento explicito também nas histórias “As duas faces do Homem” onde o paradigma do discurso e da prática era representado brilhantemente (ed.03/05/1958).
Conclusão:

O presente trabalho compreendeu o discurso construído em torno do progresso entusiasta, próprio da época, e sua íntima relação com a dominação masculina. Evidenciou também uma forte americanização, manifestada por frases inglesas, no culto a seus ídolos e ao interesse por filmes de faroeste. Portanto, o período 1955-1959, caracterizou-se por uma fase onde a classe letrada vivia desinteressada em assuntos econômicos, tendo o foco principal nas relações de gênero e cultura.



Referências:

ALENCAR & SERPA, Marcelo Alencar & Dagmar Serpa.  As boas lições que aparecem nos gibis. revista: Nova escola, Ano XIII - Nº 11 - abril de 1998, Editora Abril.

BIBE-LUYTEN, Sonia M. O que é história em quadrinhos. 2ªed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BOURDIEU, Pierre . A dominação masculina.  5ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 15ªed. São Paulo: Edições Loyola,2007.

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes : o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das letras, 2006.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

HOBSBAWM, Eric J.  Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



MARX, K. & ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martin Claret, 2006.


1 HOBSBAWM, Eric J., Era dos Extremos.

2 BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina.





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