O sentinela Flamejante Léo Heigilis



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Encontro21.07.2016
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O Sentinela Flamejante

Léo Heigilis


Sentado em frente a uma banca de jornal recordo-me do quanto eu adorava quadrinhos de super-heróis, quando ainda adolescente. Naquele tempo, esperava ansiosamente pela revista, cuja publicação era mensal; todos os dias, ao voltar da escola, passava pela banca que ficava próxima à minha casa e submetia Seu Benjamin, o jornaleiro, à uma irracional sequência de perguntas: queria saber se o gibi já havia chegado, quanto tempo levaria, o porquê da demora. A improvável hipótese de uma antecipação na entrega em nada me abatia, e às vezes eu era capaz de voltar diversas vezes ao longo do dia, sempre repetindo ao bom homem as mesmas perguntas descabidas. Quando a entrega era feita, Seu Benjamin, ao me avistar na rua, pegava uma revistinha e, com ela entre dos dedos, acenava para mim; mesmo estando eu a duas quadras de distância podia ver seu sorriso de satisfação e, muito provavelmente, de alívio. Pelo menos por alguns poucos dias ele estaria do livre do meu interrogatório.

Eu começava a tão esperada leitura ainda dentro da banca; enquanto caminhava, atacava os quadrinhos com voracidade, devorando um a um os balõezinhos de texto. Muitas vezes, já estava no meio da história quando chegava em casa; assim que eu entrava, me dirigia como se fosse um robô para a sala, jogava minha mochila de lado e me esticava no sofá, tudo sem desviar o olhar da revista. Nem o canto estridente dos pardais, nem o estardalhaço que minha irmãzinha fazia com seus brinquedos ou os protestos de minha mãe para que eu tirasse os pés ainda calçados de cima das almofadas eram capazes de penetrar os escudos protetores da minha complexa mente adolescente e sonhadora. Durante a leitura, os heróis e seus combates tomavam completamente meu coração, e a emoção que eu sentia ao contemplar seus incríveis atos era algo que agora, passados tantos anos, posso seguramente definir como indescritível.

Tão logo eu terminava de ler a história, corria para trás da minha casa, onde havia um pequeno quintal; em seguida estendia no gramado uma toalha de banho apanhada no varal e sobre ela me deitava, com as pernas estendidas, a barriga para cima, os olhos fechados. Por alguns instantes, repassava em minha mente toda a história que acabara de ler, e novamente ficava ofegante ao relembrar o fantástico roteiro. Começava então a me imaginar lutando ao lado dos meus heróis, possuindo poderes iguais ou até melhores que os seus. Meu corpo franzino subitamente se tornava másculo e musculoso, meus cabelos cresciam em comprimento e ganhavam um brilho dourado. Tornava-me indestrutível, e era admirado até mesmo pelos outros heróis, que nos meus sonhos me chamavam de “Sentinela Flamejante”, nome que eu mesmo havia criado. Diante das mais terríveis ameaças, o “Sentinela Flamejante” fazia piadas, as garotas o adoravam. Nesses momentos, eu, que morria de medo de sapos e até de galinhas, sentia-me a criatura mais corajosa de todo Universo.

Hoje sei o que realmente me atraía naquelas histórias: não eram os heróis, com seus músculos, seus uniformes e suas garotas. Não, os heróis eram apenas coadjuvantes, dispostos em torno daquilo que realmente me fascinava: a idéia de que existia alguém capaz salvar o mundo de qualquer ameaça. Para mim, era necessário acreditar nisso: todos os dias, nos noticiários que meu pai assistia, somente viam-se tragédias e desastres, e as previsões não muito agradáveis dos jornalistas só não me angustiavam mais do que os comentários pessimistas que papai, involuntariamente, fazia em voz alta. Nessa época, ainda mais terrível que as imagens de incessantes guerras no Oriente Médio, das manifestações populares violentamente reprimidas, da fome na Etiópia e das centenas de baleias mortas nas praias congeladas era o temor generalizado de que certo dia, ao acordar de mau humor, um russo ou um americano pudessem, com o simples apertar de um botão, dar início à uma Guerra Nuclear que viria a destruir todo o planeta. Eu realmente precisava acreditar que alguém iria proteger a todos, dar um rumo diferente para a humanidade, que caminhava a passos largos para um triste fim. Quando eu me deitava no gramado do meu quintal, e me inebriava com sonhos e com a luz do sol que me atravessava as pálpebras, me sentia seguro. Sentia-me capaz de proteger a todos que amava, capaz de impedir que qualquer entidade nefasta rompesse o frágil equilíbrio da vida.

Certo dia, inesperadamente, me percebi já um adulto, e notei que os quadrinhos já não surtiam mais o mesmo efeito sobre mim. Ainda tentei dar continuidade à minha coleção, mas aquelas histórias, que antes me pareciam espetaculares, tornaram-se aos meus olhos disparatadas e sem sentido. Nesse instante, diante da ausência de sonhos consoladores que minha fase adulta me trouxera, decidi tomar uma decisão, modéstia à parte, extremamente nobre: mesmo sem super poderes, estava disposto a enfrentar o que fosse necessário para proteger aqueles que eu amava, lutar por um mundo melhor. Já não era mais possível viver à sombra de perspectivas tenebrosas, sem liberdade nem esperanças. Tornei-me então ecologista, ativista político, líder estudantil, enfermeiro voluntário. Defendi o direito à vida dos animais em extinção, lutei pela Democracia tomando parte em diversas passeatas, participei ativamente em inúmeras campanhas humanitárias. Tornei-me um herói de carne de osso, não tão forte e corajoso como dos quadrinhos, mas certamente com a mesma disposição que os fortões das historinhas demonstravam ao defender a justiça.

Com o passar do tempo, americanos e russos apertaram as mãos, a fome deixou de ser vista com tanta naturalidade por aqueles que não a sentem e o descaso com o meio ambiente se tornou motivo de repúdio para a maioria das pessoas. Muitas coisas foram mudando para melhor, e sei que minha pequena parcela de ajuda, somada às pequenas parcelas de outros milhões iguais a mim, foram em grande parte responsáveis por essas mudanças. Esse fato até poderia ser o bastante para que eu pudesse sentir a sensação de dever cumprido; contudo não era. Apesar de todos os meus esforços, achava-me pequeno, sentia que ainda faltava algo, talvez o mais importante. Eu ainda sonhava em fazer algo realmente fantástico. Até que um certo dia, eu o fiz.

Neste instante, sentado no banco de uma praça, ele me olha de longe e sorri. Ironicamente, veste uma roupinha do superman, abre os braços e corre em minha direção. No meio do caminho, pára e se abaixa; pega uma saquinho jogado no chão e o coloca na lixeira. Em seguida volta a correr, chega até mim e envolve meu pescoço com seus bracinhos finos. Ele não é alto nem musculoso, tem menos de um metro de altura, mas hoje entendo que é dele que o mundo depende. Ele será um homem honrado, leal e corajoso, e assim terei cumprido a minha parte. Esse será meu legado, minha contribuição para o futuro da humanidade. Meu sonho estará nele, e em seu filhos, e nos que se seguirem a eles, até que miséria, a injustiça e a intolerância sejam erradicados.

Levanto-me, pego-o nos braços e o coloco sentado em cima dos meus ombros. Jogo a cabeça para trás e o observo, ainda sorrindo. Seu sorriso faz com que eu me sinta um super-herói.

Fecho os olhos e por alguns segundos volto a sonhar.

Eu sou o Sentinela Flamejante.



O Sentinela Flamejante – Léo Heigilis



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