O sonho como estado primordial da mente



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O SONHO COMO ESTADO PRIMORDIAL DA MENTE

A conduta analítica em face do narcisismo absoluto revelado no sonho.


Victor Manoel Andrade*

RESUMO


Freud parecia estar cônscio da natureza biológica do sonho, pois confidenciou a Fliess que a realização de desejo solucionava apenas o problema psicológico, mas não o biológico, que julgava dizer respeito à pré-história da mente. A descoberta recente da biologia do sonho levou alguns neurocientistas a considerar equivocadas as hipóteses de Freud, talvez por conhecerem sua obra superficialmente. Ao contrário de demolir a obra freudiana como pretendem alguns, a neurociência convalida algumas de suas hipóteses fundamentais, se nos ativermos à objetividade das descobertas laboratoriais e não levarmos em conta a incursão de neurocientistas na subjetividade, campo por excelência da psicanálise, com o qual não estão familiarizados. Há vários pontos de convergência entre Freud e a neurobiologia. A idéia de alguns neurocientistas de que o sonho é o estado primordial da mente, sendo a vigília a modificação desse estado por inputs trazidos do exterior, confirma a teoria do narcisismo primário, notadamente se tivermos em mente demonstrações de que o feto passa cerca de oito horas diárias em estado de sonho. A suposição de que as percepções sensoriais do movimento intra-útero são registradas no cérebro não só confirma o narcisismo absoluto intra-uterino, como reforça o conceito de ego corporal. Se estiverem corretas experiências biológicas que revelam ser o sonho resultante de disparos neuronais que convulsionam o cérebro e expõem toda a mente a um estado especial de consciência, diferente da de vigília, tudo o que está representado no cérebro, desde os primórdios, pode surgir no sonho e ser apreendido por quem conseguir entender seu significado. Esse nível de compreensão da tessitura do sonho enseja o rastreamento da estruturação do ego, desde a fase corporal-narcísica até a psíquico-objetal, abrindo perspectiva de aperfeiçoamento da técnica, pois orienta o analista sobre o melhor modo de conduzir-se na situação analítica. A tendência moderna é considerar a relação transferencial o instrumento fundamental para a mudança psíquica, sendo a interpretação fator complementar. Mas os componentes narcísicos originais do ego não surgem nem na relação transferencial nem nas associações, razão por que falhas básicas só são detectadas no material onírico. Embora esse material primitivo não seja interpretável verbalmente, por ser irresgatável para a consciência, o amplo conhecimento que fornece ao analista sobre o paciente, desde as etapas 'pré-históricas', lhe dá meios de conduzir-se com segurança no processo analítico, onde pode ser objeto empático capaz de acolher as necessidades narcísicas primárias do paciente. Com isto, oferece novo modelo de relação objetal, cuja introjeção tornará possível corrigir falha de objeto antigo não-empático. Mais tarde, em fase avançada do processo, pode transmitir ao paciente o conhecimento obtido dos sonhos, por meio de diálogo em forma de construção capaz de consolidar a organização do ego. Como ilustração, é relatado o caso de paciente cuja falha de estruturação do ego foi detectada por meio de sonhos repetitivos que provavelmente refletiam cenário intra-uterino.
ABSTRACT

O narcisismo absoluto é confirmado por neurocientistas que retratam o sonho como estado primordial cuja modificação por inputs externos produz a vigília. A relação transferencial não reproduz esse narcisismo original, só apreendido através do sonho. Este revela a estruturação da mente e orienta a conduta analítica, sobretudo na patologia narcísica.


1. Freud e os aspectos biológicos do sonho

Depois de decifrar o significado do sonho, Freud confidenciou a Fliess: "It seems to me that the theory of wish fulfillment has brought only the psychological solution and not the biological — or, rather, metapsychical — one" (1985 [1887-1904], pp. 301/2). Explicou que o fator biológico dizia respeito à pré-história da mente. Mesmo desconhecendo esses aspectos mais profundos, atribuiu ao sonho a função de ligar a energia livre, por meio da qual uma espécie de psicoterapia natural ocorreria a cada noite (1900, pp. 577/9). Visto que mais tarde a ligação de energia foi considerada uma função primária, anterior ao princípio do prazer, Freud via o sonho passando além da realização de desejo (1920g, p. 31/2). Embora a função de ligar seja anterior e mais básica, não retira a importância do principio do prazer surgido depois. Da mesma forma, os aspectos biológicos do sonho não eliminam o papel psicológico de realização de desejo.

A neurociência atual permite que a "solução metapsíquica" seja encontrada, revelando a pré-história da mente. Diante de observações laboratoriais, alguns neurocientistas julgaram as formulações psicológicas de Freud sem validade científica. Hobson, particularmente, acreditou ter demolido a obra de Freud. Na verdade, mostrou conhecê-la superficialmente: muitas de suas observações confirmam as descrições psicológicas, como veremos adiante. Antes, descreverei sucintamente o pensamento de neurocientistas que supuseram destruir a obra de Freud, para mostrar depois o equívoco dessa pretensão.
2. Neurobiologia do sonho

Hobson (1994) vê o sonho como conseqüência do sono REM, sendo este um processo fisiológico sem significação psicológica especial. Origina-se em disparos aleatórios de neurônios do tronco encefálico (ponte) que convulsionam o cérebro como um ataque epiléptico. Para ordenar o caos instaurado por esses disparos, o córtex engendra fantasias sob a forma de fabulações, à semelhança do que faz uma pessoa quando solicitada a dizer o que lhe sugerem manchas produzidas aleatoriamente (teste de Rorschah).

A hipótese de o sono REM ter surgido há cerca de 140 milhões de anos (Winson, 2002), apresentando-se em todos os mamíferos vivíparos, indica seu papel significativo na preservação da vida. Crick e Michison (1983) apontam como sua finalidade uma espécie de aprendizagem reversa, por meio da qual os animais se livram de informações inúteis para a vida. Seria uma espécie de otimização higiênica do sistema de informática do cérebro, sem a qual este não funcionaria direito. Essa limpeza seria fundamental, pois, como sugere Hobson, a mente é um conjunto de informações armazenadas no cérebro como os sinais do código Morse. Como bits de computadores, os sinais constituem representações de tudo que chega ao por meio dos inputs sensoriais. A consciência resultaria da percepção de algumas dessas informações.

Hobson (1994; 2001) descreve a mente e o cérebro como um sistema fechado, auto-suficiente na geração de energia e configurado geneticamente para produzir ações necessárias à preservação da vida. Quando a pré-programação efetiva uma ação (real), o movimento inerente à execução é percebido sensorialmente e inscrito como representação (virtual). Assim se constitui a célula germinal da mente. A presença do sonho nos mamíferos confirma a disposição genética, evidenciada na observação de que o feto passa cerca de oito horas por dia sonhando. Para Hobson, os movimentos fetais seriam um treinamento de ações pré-programadas geneticamente para se tornarem comportamentos a serviço da vida. Nestes termos, a ereção peniana intra-útero seria um exercício do planejamento genético ainda não propriamente sexual, mas necessário à função sexual futura. O mesmo pode ser dito do sorriso do feto em relação à comunicação afetiva futura. O sensório do nascituro seria expressão de uma tendência inata para registrar percepções como representações mentais.

Por sua vez, ao teorizarem que o crescimento das células e a multiplicação das sinapses formam representações espúrias que devem ser eliminadas pelo sonho, Crick e Michison admitem, ipso facto, que o desenvolvimento das células corporais pode ser representado no cérebro, mediante provavelmente uma espécie de propriocepção. Hobson (1994) sugere que as experiências diárias transformadas em memória definitiva durante o sono REM se juntam ao acervo de representações armazenadas desde a fase fetal. Especula que o sonho é uma espécie de experiência virtual, em que a ação futura é testada sem perigo de tornar-se realidade, uma vez que a ação muscular está interditada. "We dream so that we may learn (1994, p. 144); [the] REM sleep [is] the mother of all procedures (ib, p. 145).

O sonho seria então o estado primordial da mente, que se modificaria pelos inputs sensoriais. Esta posição é compartilhada por Llinás e Pare, para quem a relação do sistema nervoso central com a realidade externa é apenas indireta: "dreaming and wakefulness are so similar from electrophysiological and neurological points of view that wakefulness may be described as a dreamlike state modulated by sensory input” (1996, p. 6).


3. Convergências e divergências entre a psicanálise e a neurobiologia

Referi-me a cientistas que estudaram o sonho do ponto de vista do sono REM, apesar da evidência de que o fenômeno onírico não se restringe a esse estado. Solms (1997; 2003) rejeita que o sonho seja causado pelo sono REM, localizando-o em circuitos corticais ligados ao sistema límbico, em posição oposta à dos autores supracitados. Apesar de isto ser verdade, não me parece invalidar a participação do fenômeno REM no sonho. Ademais, Crick e Michison não só admitem o sonho NREM, mas também consideram a participação cortical no sonho REM. Hobson também atribui ao córtex a ordenação do caos provocado pelos neurônios da ponte. Suponho que Solms refuta a tese dos que limitam o sonho ao sono REM com o intuito de desfazer a pretensão desses pesquisadores de invalidar a interpretação freudiana. Mas esses autores, sem perceberem, confirmam algumas das postulações mais fundamentais de Freud de modo até certo ponto surpreendente.

Há que considerar que a psicanálise é uma doutrina psicológica que estuda fenômenos inconscientes por ela descobertos há mais de um século, cuja existência só agora está sendo constatada pela neurociência. Apesar de se referirem ao mesmo fenômeno, as duas ciências usam instrumentos diferentes e inconfundíveis. A neurociência não vai além de dizer que certa área do cérebro está em funcionamento quando alguém tem uma impressão subjetiva; no máximo, poderá chegar à sofisticação de revelar diferenças de níveis de potenciais elétricos, ou mesmo quantificar íons geradores da eletricidade correspondente aos bits da alma. Mas não é de supor que possa revelar a experiência da subjetividade em si: isto é assunto da psicologia.

Consideremos a seguinte afirmação de Hobson: "Movement is the key to learning. (...) For babies to survive in the world, they need to be born knowing how to do certain things. (...) Instincts are more or less collections of procedures" (1994, p. 143). Pretende dizer que as codificações formadoras das primeiras representações surgem das ações por meio das quais disposições genéticas são postas em prática — as representações são produto do movimento. Portanto, apesar de existirem previamente, as inscrições genéticas só se exteriorizam e se tornam observáveis através de atos instintivos. Mas esses atos implicam interação com objetos, e o registro mnêmico dessa interação modela a mente do bebê desde o nascimento, como Freud mostrou ao traçar a gênese do desejo (1900, pp. 564/7). Essa mesma interação é usada pelo analista para penetrar na subjetividade do paciente; ou seja, um método intersubjetivo é o instrumento usado para revelar a mente intra-subjetiva. A neurociência se ocupa dos aspectos anatomo-fisiológicos e neuroquímicos desses fenômenos, sem atingir seus matizes subjetivos. No que concerne à subjetividade, só quem transita no mundo psíquico parece apto a usar dados neurocientíficos para retificar suas observações. Quando o neurocientista tenta desqualificar o especialista em psicologia profunda, de um modo geral revela desconhecimento da subjetividade e, sobretudo, da intersubjetividade.

É certo que as observações subjetivas estão sujeitas a incorreções, devendo valer-se de dados objetivos capazes de balizá-las e confirmá-las. Entretanto, é pouco provável que estejam globalmente incorretas quando se mantêm por mais de um século e são testadas clinicamente em todos os quadrantes do planeta. Por serem corretos, a neurociência me parece validar conceitos metapsicológicos fundamentais de Freud, como se verá a seguir.
4. O narcisismo primário como estado primordial da mente

O sistema fechado proposto que pressupõe uma mente fetal, com células geradoras de energia própria, confirma o narcisismo primário conceituado por Freud. A idéia de que as representações se iniciam com o movimento fetal reforça o conceito de ego corporal e contribui para compreendê-lo melhor, além de abrir largo campo para examiná-lo como ego psíquico. A confirmação do narcisismo original é auspiciosa para a psicanálise, pois sua revelação no sonho permite acompanhar a evolução para a etapa objetal, bem como usar instrumental técnico confiável para o manejo da patologia narcísica.

A tempestade neuronal epileptiforme do fenômeno REM descrita por Hobson implica revolvimento de amplo conjunto de representações, abrangendo estruturas corticais e aquelas correspondentes a planejamentos inscritos como desejos não realizados, como o próprio autor mostra ao dizer que o sonho é um "physiological Rorschah test" onde os desejos são projetados (1994, p. 93). O fato de outras representações estarem incluídas não exclui a presença desses desejos. Acresce que Freud não se ateve à realização de desejo; tinha noção da função mais ampla do sonho, como foi dito antes.

Se levarmos em conta a observação de que durante o sonho todo o conteúdo de representações entra em efervescência para a absorção de novas memórias surgidas durante o dia, temos que a cada noite toda a mente nos é apresentada caoticamente, sendo seu conteúdo passível de compreensão por quem se dedicar a decifrá-lo a partir da fabulação feita pelo córtex como forma de ordenar o caos, como observou Hobson. É irrelevante para o psicanalista se a compreensão de alguns neurocientistas sobre o significado subjetivo dos sonhos coincide ou não com a sua: a subjetividade é nosso campo e não temos por que hesitar em explorá-lo. É alvissareira a confirmação da possibilidade de acesso, por meio do sonho, a amplo conjunto de representações. Todavia, outras descobertas neurocientíficas nos advertem de que devemos fazer correções na interpretação e no exame de aspectos inconscientes relacionados a estados não-verbais.

A neurociência tem mostrado haver duas espécies de memória: a explícita, passível de evocação, e a implícita, que não pode tornar-se consciente. Por isso, devemos perder a esperança de fazermos o paciente ter consciência de algumas de suas representações. Se persistirmos nesse erro estaremos apenas fornecendo novas representações verbais diferentes das primitivas, não-verbais. O próprio Freud (1937d) já se referia à impossibilidade de interpretações e construções fazerem o paciente se lembrar de alguns eventos de sua história. Fonagy (1999) tratou do assunto, quando retirou da interpretação o papel principal da ação terapêutica, atribuindo-o à aquisição de novo modelo de relação objetal. A tendência da psicanálise contemporânea parece ser privilegiar a intersubjetividade, na medida em que as limitações da interpretação do reprimido tornaram-se evidentes, ao mesmo tempo em que a relação surgida da transferência tem-se mostrado o instrumento mais eficaz de mudança psíquica.
5. A expressão do narcisismo primário no sonho.

Se a interpretação tem limitações, a relação intersubjetiva transferencial como fator de conhecimento intra-subjetivo também as possui, por não oferecer o acesso adequado ao núcleo narcísico original. Por mais que as representações pré-verbais das relações objetais primitivas sejam atuadas no setting, componentes anobjetais da suma intimidade do sujeito não surgem na atuação transferencial. Por constituírem os estados iniciais da mente, esses aspectos narcísicos só podem ser detectados no sonho, que é a mente primordial. É verdade que fazem parte de uma memória irremediavelmente inconsciente, daí ser inútil interpretá-los. Entretanto, sua apreensão fornece informação inestimável sobre o núcleo da personalidade, ensejando a orientação da conduta do analista; em certas circunstâncias, pode ser obtido até um discernimento entre o que é inerente ao paciente e o que foi adquirido na relação objetal. Essa compreensão enseja uma percepção aguda do processo analítico, podendo estabelecer estratégia realista quanto ao rumo da análise. Embora o narcisismo primário só tenha manifestação plena no útero, continua fazendo parte da personalidade adulta em estado latente, podendo regredir à condição originária em situação normal (sonho) e patológica (psicose), como mostra Freud (1917d [1915]).

Considerando que o sonho se passa na ausência da participação da realidade externa, é nele que o narcisismo original se apresenta, revelando como a mente primitiva se constituiu. Como vimos, ela surgiu do narcisismo absoluto modificado pelos inputs trazidos pelos objetos, como Freud mostrou desde o início e neurocientistas confirmam sem se darem conta. Acompanhando essa trajetória de gênese e desenvolvimento, pode-se ter idéia do peso dos fatores narcísico e objetal na personalidade. Embora o acompanhamento possa, em parte, ser feito pela empatia surgida na relação objetal, bem como pela interpretação de elementos fornecidos pelas associações livres, o rastreamento completo só se realiza por meio da decifração do sonho.
6. A consciência onírica e a fantasia inconsciente

Hobson mostra que sonho e vigília constituem dois diferentes estados de consciência, que têm eletrofisiologia similar. A consciência onírica parece fato indisputável, pois, quando se acorda durante o sonho, tem-se certeza de que o cenário onírico é real — só depois é que a certeza se transforma em impressão. Mesmo que a consciência de vigília esteja predominando ao despertar e seja responsável pela contextualização do que se passou no sonho, há uma idéia clara de ter-se estado numa realidade diferente da de vigília. Neste caso, à semelhança do que Freud chamou de 'sentimento inconsciente de culpa', poder-se-ia, paradoxalmente, denominar a consciência onírica de 'consciência inconsciente', já que só reconhecemos como genuína a consciência de vigília. Parece razoável estender o estado de 'consciência inconsciente' ao inconsciente de um modo geral, e ao do ego em particular, pois é um "inconsciente pré-consciente". O inconsciente do ego corresponderia à fase primitiva em que o pensamento de processo secundário, apesar de já ter superado o processo primário do automatismo prazer-desprazer, ainda não se ligara aos registros verbais que facultariam sua percepção pela consciência (Freud, 1900, p. 574) — a fantasia inconsciente estaria incluída no pensamento inconsciente do ego (Freud, 1915e, 1920g e 1923b).

A fantasia inconsciente é o material por excelência da investigação psicanalítica, já que ela é o portal de acesso a praticamente todos os estados mentais. Como estágio inicial da regressão, por ela passam os desejos provindos das partes mais evoluídas em trajetória regressiva, bem como os das camadas mais primitivas (Freud, 1914c). É ponto onde se entrecruzam o sonho, o sintoma, a sublimação, o pensamento verbal: é o lócus de processamento da criatividade, em que a consciência parece não ter papel determinante.

Em vista disto, a fantasia inconsciente é o protótipo do pensamento inconsciente, ainda não verbal, fazendo fronteira com o devaneio e o pensamento consciente. Parece originar-se no período em que o bebê entende a linguagem verbal sem ser ainda capaz de falar, quando as representações concretas ainda são o componente predominante. Como Freud mostrou, o mergulho regressivo para o sonho surge daí: o desejo onírico é uma fantasia inconsciente. Por isso, a palavra no sonho é concreta e sem conteúdo semântico (1900; 1917c [1915]). Através do sonho temos acesso à fantasia inconsciente. Esta abre caminho para que o pensamento inconsciente ligado à palavra ouvida possa tornar-se consciente, na medida em que a palavra ouvida pode estabelecer uma ponte com a palavra falada. Esta é a via pela qual o inconsciente mostrado pelo sonho pode tornar-se consciente.


7. Mais além da fantasia inconsciente

O sonho não mostra só a fantasia inconsciente: revela toda a mente, desde seus primeiros passos. Entretanto, pouquíssimas das feições oníricas chegam à consciência. Como mostram Crick e Michison, o sonho é inconsciente pelos padrões da vigília, e uma parte mínima só se torna consciente se houver um despertar durante seu transcurso. Quando acordados e em condição de saúde, só temos conhecimento do que nos revela a consciência de vigília. Adormecidos, não temos acesso à consciência onírica. Por isso, o sonho tornado consciente pelo despertar não corresponde a sua matéria prima, pois esta é imediatamente traduzida para a linguagem da vigília. No entanto, essa pequena amostra, analisada diariamente, é suficiente para dar uma amostragem do que permanece inconsciente. Mas como foi visto acima, só são passíveis de tornar-se conscientes pela interpretação verbal os pensamentos oníricos surgidos como fantasia inconsciente. Miríades de dados oníricos extremamente bizarros ficam fora desse âmbito e não se tornam conscientes pela interpretação, por dizerem respeito a representações muito distantes do nível verbal, estando mais próximas do sensorial, ou seja, do ego corporal.

Portanto, além dos aspectos do sonho correspondentes à fantasia inconsciente, que têm sido o objetivo principal da psicanálise, há os que, embora não se tornem conscientes, são valiosos para a condução do processo psicanalítico. Mesmo sendo inútil interpretá-los, fornecem ao analista uma bússola valiosa para a orientação da trajetória da análise, dando idéia da constituição da mente do paciente. A esse respeito, trago um caso clínico em que sonhos desempenharam importante papel para a compreensão da personalidade do paciente, não obstante a inutilidade da interpretação de conteúdos relacionados a estados primitivos.

8. Ilustração clínica


Paciente com personalidade narcísica e baixa auto-estima manifestava-se com sentimento de inferioridade por nunca ter aprendido a andar de bicicleta. O desenvolvimento de sentimento místico foi a forma encontrada para sentir-se valorizado. Mas ver pessoas comuns andando de bicicleta deixava-o humilhado. A conotação sexual dessa inibição transparecia em material edipiano profuso, mas tentativas de interpretação resultaram inúteis. Às vezes admitia o acerto de algumas interpretações, mas sem convicção, apenas por dedução intelectual. Ainda assim, a admissão intelectual trazia-lhe culpa e tristeza. Em vez de interpretações, o paciente carecia de estabelecer novo padrão de relação objetal, para substituir objetos maus introjetados como precursores de superego extremamente severo.

Suas limitações não se resumiam à bicicleta. Apesar de culto e competente profissionalmente, costumava ser demitido dos empregos por seu temperamento cordial ser considerado incompatível com a competição agressiva requerida por suas atividades. Não conseguia escrever um livro esboçado há muitos anos. Produzia pequenos textos avulsos de poesia e filosofia mística, destinando-os à admiração dos amigos próximos, sem publicá-los.

Não apresentava sintomas específicos, apenas vaga sensação de irrealização que tornava seu semblante ao mesmo tempo tristonho e terno. Tratava-me como companheiro de uma aventura intelectual, tentando desviar-me para discussões místico-filosóficas, que remetiam a estado narcísico inafetivo, apesar de protestos de amizade e admiração por mim. Nada em sua conduta na análise revelava por que o andar de bicicleta trazia tão expressivo sentimento de não-realização.

Sonhos que se passavam no mesmo lugar trouxeram-me a compreensão do simbolismo do andar de bicicleta. Era um porão pouco iluminado, situado abaixo do nível da rua, onde objetos indistintos o impediam de caminhar, como se as pernas estivessem presas, sem que soubesse explicar por quê. Em outro dia o mesmo ambiente ressurgia, agora com uma voz feminina sendo ouvida, que não sabia se era da mãe ou da irmã, tendo a impressão de que vinha da rua. Mas pouco podia dizer a respeito, por ser tudo muito indistinto: as vozes eram apenas sons cujo significado não compreendia. Outra vez era impedido de caminhar por suas pernas estarem presas a vasos existentes no porão, que continham plantas atrofiadas em razão da falta de luz. Solicitado a fazer associações sobre imagens tão imprecisas, limitava-se a fazer divagações, dizendo, por exemplo, que porão devia representar o inconsciente e que devia estar sonhando aquilo porque a análise buscava o inconsciente.

Às vezes dizia coisas pertinentes, mas não as sentia genuinamente, daí não produzir qualquer insight. Mas dizê-lo representava alguma coisa, da mesma forma que a aparente ausência de sentido do peso dado ao andar de bicicleta simbolizava algo. Só que era um simbolismo concreto inerente ao que Freud chamou de representação-coisa, que desconhece o verbal, de um inconsciente que não passou por repressão. Por isso, a interpretação desse material não é suficiente para fazê-lo deixar de ser inconsciente. Mas o conhecimento desse registro irrevogavelmente inconsciente é fundamental para que o analista se situe diante da história do paciente e oriente suas intervenções analíticas a partir dele. No caso em questão, o sonho do porão mostrava provavelmente situação intra-uterina pouco propícia à liberdade de movimento das pernas (objetos que dificultavam a locomoção), sem que o ambiente externo pudesse interferir (voz feminina indistinta num nível superior ao do porão). O vaso com plantas atrofiadas sugeria limitação de desenvolvimento, enquanto que a dificuldade de equilíbrio no andar de bicicleta parecia ligada à diferença de gravidade entre o interior do líquido amniótico e o ambiente aéreo. Por outro lado, o andar de bicicleta é um ato automático, assim como nadar, tocar piano, etc., cuja execução não depende de evocação do processo de aprendizagem; faz parte de um tipo da memória implícita de procedimento. É possível que o sonho revelasse algum fato que tenha prejudicado microscopicamente o funcionamento dessa parte do cérebro, ou seja, com repercussão no ego corporal.

Transmitir ao paciente minha interpretação desses sonhos em nada contribuiria para desenvolver-lhe o ego e melhorar-lhe a auto-estima. Apenas forneceria subsídios para futuras conversas sobre psicanálise, não só comigo, como em palestras que proferia. Mas esse conhecimento é um guia importante para o analista observar a história mais remota do paciente. Se houve alguma barreira ao desenvolvimento natural intra-uterino, ou algum acontecimento perinatal de relevo, o déficit parece não ter amenizado por uma acolhida adequada pelo objeto. Com efeito, os pais não tinham uma vida harmônica, em virtude do alcoolismo paterno. Acresce que o pai morreu precocemente, quando o filho ainda era criança. Neste caso, a análise deveria ser direcionada para privilegiar uma relação objetal que acolhesse o narcisismo místico do paciente, entendendo o “sentimento oceânico” [sic] a que sempre se referia, como desejo de retorno ao útero (Freud, 1929). O trauma inconsciente primitivo, que se repete compulsivamente, não se torna consciente por qualquer meio, mas seus efeitos podem ser neutralizados por ambiente que se comporta diante dele de forma acolhedora, fornecendo-lhe um novo modelo a ser internalizado como objeto bom que irá favorecer a ligação da energia livre.

A compreensão de que o andar de bicicleta reproduzia situações anteriores ligadas à necessidade de fusão mística com o analista devia ser o fio condutor da análise, sendo secundárias interpretações visando ao conteúdo ideativo de nível verbal. Só muito mais tarde explicações sobre as necessidades de repetição tornar-se-iam importantes para integrar e sintetizar o desenvolvimento obtido através da compreensão empática. Entretanto, não se podia esperar que tais esclarecimentos contribuíssem para recuperar as lembranças para a consciência — sendo memórias implícitas, são irrecuperáveis. Depois que a transferência positiva se torna estável o suficiente para estabelecer uma confiança básica no analista, as construções e esclarecimentos didáticos passam a ter peso de certeza para o paciente, funcionando como poder sugestivo, como mostrou Freud (1920g; (1937d).
9. Conclusão
Ao mostrar que no sonho há atividade cerebral similar à de vigília, por meio da qual o acervo de lembranças estáveis é acrescido das experiências diurnas, a neurociência, ao contrário de desacreditar as hipóteses freudianas, dá margem a que sejam validadas em sua perspectiva psicológica. A hipótese neurocientífica da mente como sistema fechado, do qual o sonho é o estado primordial, confirma o conceito de narcisismo primário, ao mesmo tempo em que faculta sua detecção através do sonho, mesmo que só se manifeste plenamente na condição pré-natal. Ainda que o estado fetal, similarmente às memórias pré-verbais posteriores, configure um inconsciente original (não-reprimido) irrecuperável para a consciência de vigília, sua apreensão por meio da consciência onírica dá ao analista subsídios para ajuizar a estruturação mental do paciente, capacitando-o a orientar sua atitude analítica. Essa orientação propicia ao analista comportar-se como objeto empático capaz de acolher as necessidades narcísicas primárias do paciente. Com isto, oferece novo modelo de relação objetal com que será possível reestruturar a mente do paciente. Sobre essa base afetiva, interpretações e construções que incluam esclarecimentos sobre a história e a pré-história do paciente podem consolidar a organização do ego numa perspectiva afetivo-cognitiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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* Membro da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. E-mail: victormanoel@alternex.com.br.


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