O sonho de Bartolomeu de Gusmão, pioneiro da aviação em Portugal: história e ficção, tecnologia e alquimia em Memorial do Convento



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Encontro27.07.2016
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Actividade 2

O sonho de Bartolomeu de Gusmão, pioneiro da aviação em Portugal: história e ficção, tecnologia e alquimia em Memorial do Convento.

O título Memorial do Convento sugere memórias de um passado delimitado pela construção do convento de Mafra, com o que de grandioso e de trágico representou como símbolo do país.

Trata-se de uma narrativa histórica que percorre um período de vinte e oito anos da História portuguesa, entre 1711 (data da promessa do Rei) e 1739 (data do último auto-de-fé, onde foi queimado Baltasar), no reinado de D. João V, entrelaçando personagens e acontecimentos verídicos com seres conseguidos pela ficção. Saramago fundamenta-se na realidade histórica da Inquisição, da família real, do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e de muitas das figuras da intelectualidade e da política portuguesas, embora ficcionasse a sua acção.

«Era uma vez um rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.». Saramago, com estas palavras, que se encontram na contracapa do livro, apresenta-nos o que o livro retrata, enumera as acções principais da obra. Uma das acções principais é a construção da Passarola por Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, Blimunda e Baltasar.

As personagens da obra dividem-se em referenciais e ficcionais. As referenciais são aquelas que pertenceram efectivamente à História, sendo estes os representantes da classe dominante e do alto clero, onde se encontram três personagens importantes no desenrolar da acção da Passarola: D. João V; Domenico Scarlatti (músico contratado pelo rei para ensinar Maria Bárbara); e o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, sendo este uma das personagens mais importantes, pois foi ele que desenhou a passarola e desenvolveu o projecto. As ficcionais são aquelas criadas pelo autor e que, no caso presente, têm relevo superior, pertencendo à classe mais baixa, o povo, sendo as principais Baltasar e Blimunda.

Blimunda, como referido no parágrafo acima, é uma personagem fictícia. Saramago numa entrevista ao Jornal de Letras do dia 15 de Maio de 1990 diz: «(…) seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em sim mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei de Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si só a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo.», e diz também numa outra entrevista ao Expresso no dia 16 de Janeiro de 1991 «Essa senhora faz-se a si própria. Nunca a projectei assim ou assim. Foi no processo de escrita que a personagem se foi formando. E ela surgiu-me como uma força que a partir de certa altura me limitei a acompanhar.». Esta personagem ajudou o padre Bartolomeu na construção da Passarola recolhendo duas mil vontades para que a máquina pudesse voar, e para isso, Blimunda foi a procissão do Corpo de Deus onde ficou doente, «uma extrema magreza, uma palidez profunda que lhe tornava transparente a pele» (capítulo XV, epidemia da cólera e da febre amarela e a recolha das “vontades” por Blimunda); e procurou durante nove anos Baltasar.

Baltasar pode ser considerado um herói. É-nos apresentado no capítulo IV como um soldado na guerra de sucessão espanhola, de onde foi expulso “por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala”, que mata um homem que o quis roubar e fica amigo de João Elvas. Conheceu Blimunda na procissão de um auto-de-fé em Lisboa, apaixonaram-se e viveram uma história exemplar de amor e de paixão. Baltasar participa na construção da Passarola do padre Bartolomeu. Trabalhou na construção do Convento como servente ou a fazer carretos com os carros de mão. Morre queimado na fogueira do auto-de-fé.

D. João V foi um rei absolutista. É uma personagem histórica e não fictícia e quando o estudamos na escola apenas se diz que construiu o Convento de Mafra e José Saramago faz com se veja a verdadeira pessoa que ele foi. Um rei vaidoso, servido por inúmeros criados. Um rei megalómano, infantil, devasso, ignorante, que não hesita a utilizar o povo, o dinheiro e a posição para satisfazer as suas vontades. Garante construir o Convento de Mafra assim que tiver um filho: «Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos» (capítulo I).

Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão é também uma personagem referencial. O autor desta obra personaliza-o com características relacionadas com a personagem histórica, por exemplo, a relação com a corte e as academias e o doutoramento em Cânones («Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de Coimbra, já é doutor em cânones, confirmado de Gusmão por apelido onomástico e forma escrita» (capítulo XIV)), as viagens ao Brasil e à Holanda e a construção da Passarola, pois o principal objectivo desta personagem era a construção da máquina voadora. Historicamente, Bartolomeu de Gusmão foi clérigo e inventor do aeróstato, nasceu por volta de 1685, no Brasil. Estudou no seminário da Companhia de Jesus, na Baía. Mais tarde, veio para Portugal, já sacerdote, e matriculou-se na Faculdade de Cânones da Universidade de Coimbra. Em 1709, apresentou ao rei D. João V uma petição em que anunciava ter descoberto um "instrumento para se andar pelo ar", a Passarola, pela qual mostrou interesse. Mas as experiências ficaram aquém das expectativas e acabaram por desmotivar Bartolomeu do prosseguimento das suas invenções. Por essa razão, continuou o curso universitário em Coimbra, obtendo o seu doutoramento em Cânones. Apesar das honras acumuladas, acabou por ter que partir para Espanha, em fuga da Inquisição, em 1724. Morreu em Toledo nesse mesmo ano. A verdade é que, embora tenha realizado uma nova ascensão em Outubro de 1709, desta vez ao ar livre, o padre nunca chegou a construir o engenho com que sonhava, por falta de conhecimentos científicos e técnicos devido às doutrinas aristotélicas que ignoravam os avanços que se estavam a fazer nas ciências físicas. Talvez tenha sido para alargar os seus conhecimentos que Gusmão, entre 1713 e 1716, viajou pela Europa, tendo chegado a registar, na Holanda, uma máquina para drenar a água que alagava os barcos

Ficticiamente, o padre une-se a Baltasar e Blimunda porque os três têm o forte desejo de voar. A construção da máquina voadora divide-se em três partes: a ida de Bartolomeu à Holanda em busca do éter, “as mãos” de Baltasar na construção do projecto e a magia de Blimunda que se encarrega de recolher duas mil vontades. A este segredo juntou-se também Domenico Scarlatti, que quis tocar cravo quando estivesse a voar na passarola. Na realidade, a Passarola foi uma máquina voadora que teve licença a 19 de Abril de 1709. Nesse mesmo ano, a 8 de Agosto, na sala dos embaixadores da Casa da Índia, apresentou a sua primeira experiência, elevando 4 metros um pequeno balão de papel, cheio de ar quente. Após Leonardo da Vinci, no século XVI, ter inventado a primeira máquina voadora, o padre Bartolomeu consegue criar, pela primeira vez na história da aviação, um aeróstato, a primeira máquina que se eleva no ar. Em Memorial do Convento, José Saramago vai recordar o sonho e a construção da Passarola voadora pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, considerando que, para a Inquisição e outras autoridades da Igreja do século XVIII, eram pecados a ambição e o orgulho em fazer uma máquina voar.

O nome passarola surgiu num dos poemas satíricos de Tomás Pinto Brandão, este que foi um dos maiores críticos do padre Bartolomeu Lourenço. Poema este que diz: “Esta maroma escondida/ Que abala toda a cidade/ Esta mentira verdade/ Ou esta dúvida crida; / esta exalação nascida/ no Português firmamento:/este nunca visto intento/ do padre Bartolomeu/ assim fora santo eu/ como ela é coisa de vento./ Esta fera passarola/ Que leva, por mais que brame,/ Trezentos mil réis de arame/ Somente para a gaiola:/ Esta urdida paviola/ Ou este tecido enredo/ Esta das mulheres medo/ E enfim dos homens espanto;/ Assim fora eu cedo santo/ Como se há-de acabar cedo.”

As personagens servem a própria intenção do autor na necessidade de repensar os acontecimentos e as figuras históricas à luz de uma nova realidade criada no presente e pressentida no futuro. Em Memorial do Convento, o romance histórico convive e entretece-se com o universo mágico criado pela ficção.


Bibliografia:




  • http://www.youtube.com/watch?v=W0JeJU71A08&feature=related

  • http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Passarola.png

  • http://www.infopedia.pt/$passarola-voadora

  • http://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu_de_Gusm%C3%A3o

  • http://www.infopedia.pt/diciope.jsp?dicio=0&Entrada=passarola&Expoente=0&op=DefExpoente

  • http://www.infopedia.pt/$bartolomeu-de-gusmao

  • http://josesaramago.blogspot.com/

  • http://ciberjornal.files.wordpress.com/2009/01/memorial-do-convento-contextualizacao.pdf

  • http://abrancoalmeida.com/2009/08/08/bartolomeu-de-gusmao/

  • PINTO, Elisa Costa; BAPTISTA, Vera Saraiva; FONSECA, Paula da, Plural 12º; Lisboa Editora.

  • REIS, Fernando Egídio; SANTOS, Maria Manuel Ventura; GONÇALVES, Maria Neves Leal, Memorial do Convento de José Saramago: o texto em análise, Texto Editores.

  • MOREIRA, Vasco e PIMENTA, Hilário, Português 12: preparação para o Exame Nacional 2011, Porto Editora.

Trabalho de investigação de:

Ana Rita Pereira

Nº3, 12ºL

Disciplina: Português

29 de Maio de 2011



Corrigido a 5 de Junho de 2011


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