O sr. Lael Varella (Bloco/pfl-mg). Pronuncia o seguinte discurso em 10-04-2002



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O Sr. Lael Varella (Bloco/PFL-MG).

Pronuncia o seguinte discurso em 10-04-2002.


Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados.

A nação ainda está chocada com a invasão da Fazenda Córrego da Ponte, de propriedade da família do presidente Fernando Henrique. O impacto foi forte pelo seu simbolismo. As cenas transmitidas pelas TVs, na sala de estar, líderes dos sem terra, propositadamente sujos, escarrapachados no sofá com os pés sobre a mesa de centro. Até o quarto do casal foi motivo de zombaria. Simbolicamente, o interior sagrado dos lares brasileiros foi devassado e posto a mercê de vândalos e bandidos.

E não ficou nisso. Foram filmadas cenas de bebedeira e, durante toda a madrugada, os sem-terra cantaram na varanda da fazenda, consumindo tudo o que havia no estoque de bebidas alcoólicas: uísque, cachaça, cerveja, vinho da melhor qualidade, inclusive um “Chateau Petrus” avaliado em seis mil reais. No final do rega-bofe, beberam até vinagre.

A novidade não está no vandalismo nem no crime de esbulho do qual o MST já se tornou especialista. A novidade está na audácia de atingir uma propriedade da família do presidente, e, de maneira pública, transmitida para todo o Brasil. Eles não queriam terra, mas atingir a autoridade suprema da nação. Como eles conseguiram isso?

Já disse muitas outras ocasiões desta Tribuna e lamento ter de repetir: Não fosse a fraqueza desta mesma autoridade – por ocasião das primeiras invasões – quando preferiu adotar a política de concessões ao invés de tê-las enquadrado como crime conforme manda a lei, certamente teríamos evitado os dissabores tanto públicos quanto privados.

Concedendo ao subversivo MST o tratamento de movimento social e enchendo-o de dinheiro e regalias, e cerrando as portas dos guichês oficiais para os verdadeiros produtores rurais, no mais das vezes tratados como sanguessugas do País, nossas autoridades não fizeram senão semear vento. Mais do que normal, politicamente, que agora tenha colhido a tempestade.

Não considero, portanto – na ótica vesga da esquerda – um erro político do MST dentro do processo revolucionário global. Com efeito, sua inteligentzia sabe da necessidade de algumas tomadas de posição radicais para que outros setores esquerdistas possam parecer moderados. A marcha pela destruição do sagrado direito de propriedade deu um grande passo. E da ordem constituída também.

Sr. Presidente, para os grandes males, grandes remédios. E, no mais das vezes, os médicos especialistas recorrem às cirurgias. Como o processo revolucionário, à maneira de um câncer, encontra-se muito mais enraizado do que podemos imaginar só vejo uma solução: erradicar este mal que vai gangrenando a sociedade.

Ouçamos, Sr. Presidente, a notícia sobre a educação ministrada pelo MST: “Documentos internos do MST mostram que o futuro do movimento tende a uma posição mais radical. Quatro eixos a definem: enfrentar e derrotar diretamente o Estado e o modelo econômico; deixar de ser apenas sem-terra para tornar-se ‘lutador do povo’; ocupar novos espaços no cenário da luta de classes; fazer a reforma agrária não mais por razões econômicas, mas por razões políticas e ideológicas”.

Trechos da publicação Pedagogia do MST: acompanhamento das escolas, de julho de 2001, definem seu perfil: “O MST é o grande educador dos sem-terra, e o MST educa os sem-terra inserindo-os no movimento da história. É esse movimento que vem fazendo do trabalhador sem-terra um lutador do povo”. “Ser sem-terra hoje é bem mais que ser um trabalhador ou uma trabalhadora que não tem terra ou mesmo que luta por ela. Sem-terra é uma identidade historicamente construída”.

“O que educa os sem-terra é o próprio movimento da luta, em suas contradições, enfrentamentos, conquistas e derrotas. A pedagogia da luta educa para uma postura diante da vida que é fundamental para a identidade de um lutador do povo. Nada é impossível de mudar e quanto mais inconformada com o atual estado de coisas, mais humana é a pessoa”.

O documento Levante-se, vamos à luta!, de julho de 2000, define os principais inimigos que o MST precisa enfrentar e derrotar. São eles: o modelo econômico imposto ao país, os latifundiários e grandes proprietários de terra, o complexo agroindustrial multinacional, o governo Fernando Henrique Cardoso e o modelo tecnológico.

“Nessa luta temos inimigos poderosos que estão tentando nos derrotar e nos destruir há muito tempo. Entre nós e eles há uma verdadeira luta de classes permanente. Eles têm o projeto deles para a agricultura e para o país. E nós temos o nosso. Então, agora, é projeto contra projeto”, diz um trecho do documento.

O Movimento Camponês no Brasil e a Luta pela Reforma Agrária, de janeiro de 1999, apresenta quatro textos para debate: um do sociólogo José de Souza Martins, outro do economista e integrante da direção nacional João Pedro Stédile, outro sobre os “Desafios Gerais do Movimento Camponês Latino-americano”, e mais um do ex-dirigente e agora apenas militante do MST baiano Ademar Bogo, escritor, poeta e autor da letra do Hino do MST.

O artigo de Bogo é o que mais avança em relação às propostas para o futuro. Chama-se Lições históricas das lutas e dos movimentos pela reforma agrária. Ele defende o seguinte: “organizar trabalhadores excluídos apenas para ocupar a terra para trabalhar é uma relação já superada que não se sustentará”. Bogo “comprova” a superação dessa fase da luta com duas razões.

Primeira: “a facilidade de ocupar latifúndios, tendo em vista a queda do preço da terra (...) Hoje qualquer liderança um pouco esclarecida consegue liderar ocupações por todo o país”. Segunda: “A disputa fundamental hoje não se dá entre os sem-terra e os fazendeiros, mas sim entre os sem-terra e o Estado, pois na década de 90 inauguramos uma nova fase na luta de classes, que se caracteriza pela disputa de projetos políticos”. (O Estado de S. Paulo, 7 de abril de 2002).



Sr. Presidente, há cinco anos, li um comentário sobre a situação do Oriente Médio a partir do que era ensinado nas escolas palestinas. As negociações entre os líderes árabes e israelenses poderiam caminhar, mas o futuro apontava para o confronto, uma vez que o ensino era baseado no ódio e na guerra. Se atitudes eficientes e eficazes não forem tomadas contra o MST, a paz de nossa terra adorada estará comprometida.

Delenda Reforma Agrária! É preciso acabar com essa Reforma Agrária e implantar urgentemente uma política agrícola em nosso País.


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