O tédio mortal da modernidade



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Kurz, Robert. "O tédio mortal da modernidade." São Paulo: Folha de São Paulo, 28 de novembro de 1999.

FSP 28-11-99


O tédio mortal da modernidade

ROBERT KURZ


Será que ainda pode haver objetivos culturais para o século 21? Apesar da

crise social do globo, ou talvez justamente por causa dela, não se trata

mais, nesta virada do século, da conquista de novos horizontes. O poço de

desejos da infindável modernização, é bem verdade, continua a receber suas

moedinhas, mas pouquíssimos são os que ainda lhe dão crédito. Para começar

algo novo, necessário seria proceder a um apaixonado debate sobre os

projetos sociais a que se aspira. Mas as paixões sociais, políticas e

culturais parecem extintas, os discursos da mídia arrastam-se a custo,

pasmacentos. Nem no trato social nem na relação com a natureza são

formulados novos desafios. A idéia de uma grande "tarefa para a humanidade"

soa não só antiquada, mas também ingênua e até fora de cabimento.

O que hoje se louva como novo e promissor não é mais um conteúdo ou um fim

qualquer, mas a simples forma ou o simples meio, o aparato despido de todo

espírito. A Internet é o melhor exemplo para tanto. Quanto mais rapidamente

evolui a tecnologia da comunicação, menos conteúdo há que valha a pena ser

transmitido. Se o meio tecnológico rouba a posição ao conteúdo, a própria

"razão instrumental" conduz ao absurdo. No estágio final desse processo,

seres humanos munidos de perfeitos meios de comunicação nada mais terão a

dizer.


Essa ilimitada falta de conteúdo e objetivo anuncia o esgotamento

intelectual e cultural do sistema social dominante. Tal como o homem só pode

se constituir como indivíduo dentro da sociedade, como indivíduo ele só pode

cultivar conteúdos e objetivos sociais. O indivíduo voltado exclusivamente a

si mesmo é por força vazio, incapaz de forjar conteúdos próprios; seus

projetos se esvaem na trivialidade fútil. No fim do século 20 a modernidade

mergulhou num tédio mortal.

Nesse sentido, no próprio aspecto cultural a microeconomia extremista, a

atomização social e a perda de solidariedade já tiraram sua desforra do

capitalismo -porque se apartam umas das outras, as mônadas sociais já não

logram se impor objetivos comunitários, e porque já não têm uma relação de

conteúdo entre si, apartam-se cada vez mais umas das outras. Uma sociedade

incapaz de desafios comuns, todavia, está condenada ao definhamento.

Para poder formular um objetivo, um projeto comunitário, urgente é um "rumo"

cultural, uma orientação espácio-temporal da sociedade. Essa orientação não

repousa só na técnica ou na economia, mas também na psique social, na

imaginação comunitária, na relação entre os sexos e na "autoconsciência",

para não falar na relação com a história. Claro que o capitalismo moderno

possui também um tal rumo simbólico-cultural. Mas, como sistema mundial que

chegou a seus limites, agora ele já não consegue mais entrever objetivo

nenhum e perde assim toda a orientação no espaço e no tempo. A

tarefa -propagada sem trégua por toda a mídia- de se conformar ao processo

cego do mercado mundial não representa um objetivo substancial de

reconfiguração ativa, um "projeto humano" positivo; antes é a mera

apropriação mecânica de uma estrutura que há tempos se fez independente, que

a priori converte todo o conteúdo e assim todo o objetivo ou projeto ao

status da indiferença. Seja lá o que for, nada goza de sentido autônomo,

antes só fornece pasto ao imutável processo de valorização do capital.

Que a chamada pós-modernidade, nesse ponto decisivo, não haja superado a

modernidade nem criado nada de novo já se revela na falta de conteúdo de seu

próprio conceito, que só remete a um "futuro" vazio. A pós-modernidade, além

de não fornecer nenhuma orientação cultural, erige a falta de orientação em

virtude. O sistema produtor de mercadorias, petrificado numa pressa sem

alvo, tem de sobreviver a seu estado de esgotamento cultural a fim de seguir

rodando por inércia, eternidade afora. A teoria pós-moderna é de certa

maneira a caricatura de um guia, na medida em que aponta em todas as

direções ao mesmo tempo, sem fixar nenhum sentido.

É fácil ver que a nova orientação simbólico-cultural e os novos objetivos

culturais só podem ser plasmados pela crítica radical da ordem social

esgotada; e a crítica radical é justamente o que a pós-modernidade descarta

como impensável. Ora, a crítica socialista da sociedade, com o seu objeto,

só se esgotou, de fato, porque ela própria era a quintessência do

capitalismo. Por constituir o capitalismo estatal do Leste um mero

subproduto do capitalismo privado do Ocidente, com este também repartiu a

sua imaginação cultural e o seu código simbólico. A crítica social dos

séculos 19 e 20 se deteve no limiar do moderno sistema produtor de

mercadorias; ela própria era uma herdeira da "razão instrumental", pela qual

acabou sendo presa e engolida.

Se uma nova orientação cultural só há de ser obtida mediante uma crítica

radical da sociedade, o inverso é, portanto, igualmente válido: que uma tal

crítica da ordem reinante no século 21 só pode ser formulada a par de uma

codificação simbólica essencialmente diversa do sentimento espácio-temporal.

Quem quiser romper o "terror da economia" deve também infringir com plena

consciência o código simbólico do capitalismo; a crítica da economia

política só pode ser levada a cabo se for acompanhada de uma crítica da

ordem simbólica e do rumo cultural inerente a este sistema, ou seja, se

desviar a atenção e as esperanças para outra direção e sobretudo

revolucionar a "imagem do mundo".

Até agora tal problema foi tão pouco tematizado, com fundamento e

abrangência, quanto a crítica das categorias econômicas; é por isso que a

esquerda se encontra outra vez na defensiva, embora o esgotamento do mundo

capitalista salte à luz com nitidez tanto maior. Em que consiste, enfim, a

orientação cultural agora obsoleta do capitalismo? No eixo temporal, ela é

sem dúvida uma dinâmica voltada unilateralmente para o futuro. A

modernização é sinônimo de depreciação permanente do passado, da história.

"O novo", a moda, o desenvolvimento econômico infindo, a perpétua mobilidade

como um valor em si mesmo vigoram independentemente de sua qualidade. O

conceito moderno de história, tal como a filosofia do iluminismo o forjou, é

determinado por esse código, no qual a humanidade aparece de certo modo como

um foguete em vôo que percorre sua órbita num movimento histórico

ascendente, mecânico. Nessa inquietude vã, o passado surge apenas como

restos calcinados do presente, e o presente, como restos do futuro.

A suposta imagem reacionária antagônica, a de uma idealização imaginária do

passado, não é mais que a outra face da mesma moeda. Nela não se apreende o

valor próprio das culturas passadas nem o aspecto destrutivo da dinâmica

capitalista; antes é sempre mistificada, projetada no passado, a relação

capitalista de domínio impessoal. É seu próprio passado que o capitalismo

idealiza nas modernas ideologias conservadoras e reacionárias, com a

intenção de banir as consequências catastróficas de sua dinâmica cega e

reprimir seus antagonismos sociais internos. Quanto a essa idealização,

trata-se na verdade de um modo diverso de depreciar a história. Pessimismo

cultural reacionário e ideologia liberal progressista representam os dois

pólos culturais do mesmo repúdio capitalista à história, que aliás são

intercambiáveis: o pensamento fascista contém ambos os aspectos em igual

dosagem.

Na pós-modernidade, essa polaridade de "progresso" e "reação" imanente ao

capitalismo caiu por terra, o que de bom grado se festeja como a superação

do antagonismo entre "esquerda" e "direita", mas que, na verdade, ao lado do

esgotamento cultural, anuncia também o esgotamento político e ideológico do

capitalismo. O "progresso" burguês caiu num movimento circular, vazio de

sentido, com o que se identificou a "reação". A depreciação do passado só

ocorre agora de uma única e mesma maneira, transformando também a história,

as culturas, as idéias e as relações passadas em mercadorias que podem ser

consumidas -supõe-se- a bel-prazer.

Uma tal contemporaneidade calculada, que embebe todo o espaço da história

humana na luz fria do mercado e suprime todas as diferenciações quanto mais

se fala de "diferença", empresta à cultura comercial pós-moderna uma

semelhança aflitiva com a ação de macacos que brincassem numa biblioteca e,

aos guinchos, fizessem uma embrulhada com os livros.

Uma nova orientação da cultura, ligada à crítica radical do capitalismo, só

pode consistir em dar um basta à permanente depreciação da história, não no

sentido da idealização de um passado qualquer, nem como seu consumo, mas

como busca crítica dos rastros que o capitalismo apagou sistematicamente.

Trata-se de dar a conhecer a história do disciplinamento moderno e do

amestramento humano, a transformação da vida em repositório de imperativos

econômicos, a fim de pôr em xeque a aparente naturalidade desse modo de

vida. Hoje, ao serem questionados sobre os seus deslizes passados e as

respectivas causas, qualquer empresário, político ou jogador de futebol

responde sempre com a frase estereotipada: "O que passou passou". A inversão

dessa perspectiva seria, de certa forma, uma "crítica do capitalismo voltada

para trás", uma orientação simbólica com a retrospectiva crítica como norte,

uma recusa da lei capitalista do movimento, um "tiro no relógio" (Walter

Benjamin).

Para conquistar um outro futuro, o passado soterrado é paradoxalmente mais

importante que o futuro esvaziado. O progresso emancipatório só pode ser

salvo caso o pensamento crítico se emancipe do código simbólico da filosofia

iluminista burguesa, isto é, de um conceito de história que implique uma

orientação futura permanente, "automática", guiada pela "mão invisível" da

economia. Hoje é progressista estacar o passo e voltar-se para trás, a fim

de olhar em retrospecto as ruínas da modernidade. Trata-se, portanto, de uma

nova compreensão da história, uma vira-volta da imagem histórica mundial. A

sociedade só pode voltar a si quando nutrir certa paixão por uma arqueologia

radicalmente crítica da modernidade esgotada.

Uma tal inversão de perspectiva traria também consequências para a

orientação psíquica. Isso porque a guinada crítico-emancipatória para trás,

a fim de assegurar-se no passado, significa ainda uma mudança na relação

simbólico-cultural entre "interior" e "exterior". No capitalismo, o ser

humano é "guiado externamente" pelos critérios do prestígio e da bela

aparência, tal como são sugeridos pela publicidade, pelas embalagens, pela

autopromoção.

Também nesse particular, entretanto, a inversão do rumo cultural não

favoreceria o reverso reacionário da medalha, uma mistificadora "vida

íntima" ou uma "contemplação esotérica" apta a se refugiar num imaginário

"eu", ao abrigo das contradições sociais. Ao contrário, a "introspecção"

emancipatória consistiria em revelar a história recalcada e a falsa

objetivação das coerções capitalistas também na psique e na linguagem de

certa forma, como uma "arqueologia íntima" da modernização, tanto no plano

pessoal quanto no sociopsicológico, a fim de tornar patente o processo da

"introspecção" psíquica dessas coerções. A psicanálise, que os precipitados

diziam morta, e a crítica linguística feminista encerram inesgotáveis

possibilidades para tal recodificação.

Finalmente, a própria orientação no espaço dessa radical mudança

simbólico-cultural de paradigma não pode passar em brancas nuvens. Tal como

a dinâmica capitalista é temporalmente cega ao futuro, espacialmente ela é

orientada "para cima". Já na virada do século passado, o poeta futurista

Marinetti desejaria que o automóvel decolasse como um foguete; e poucas

décadas mais tarde um homem pousou, de fato, na Lua. Que essa imaginação

"alteada" do capitalismo se defina por padrões masculinos já se revela,

tocando as raias do ridículo, no próprio formato do foguete como símbolo do

falo. A orientação pelo espaço aéreo e sideral, que não por acaso se funde

com traços militares, contém a imagem de uma sexualidade masculina que de

certo modo "alçou vôo".

Mas também esse código simbólico há muito se esgotou. A viagem espacial

tornou-se tão monótona quanto o futuro vazio do mercado. Nos planetas em

alça de mira só se acham desertos físico-químicos. E mesmo sua exploração

capitalista como fonte de recursos permanece ilusória, pois os custos de

transporte sorveriam as cifras estratosféricas do possível butim. A

tecnologia de combustíveis fósseis em que se baseia o modo de produção

capitalista é primitiva demais para uma "aurora no espaço". O cabo Canaveral

e Baikonur são hoje ruínas da civilização masculina orientada pela produção

de mercadorias, apenas ainda não se deram conta disso.

Uma radical recodificação simbólica da relação com o espaço trará a vista

"para baixo" (pois não é só no sentido arqueológico que nossa história se

encontra sob nossos pés), com vistas a desafios e exigências tecnológicas da

reprodução social. Além do interior da Terra, boa parte da superfície

terrestre ainda resta inexplorada, sejam o subsolo ou as profundezas

oceânicas. Que o dispêndio de recursos e de aptidões para um tal propósito

seja mínimo em comparação às viagens aéreas e espaciais revela a profunda

dependência do desenvolvimento técnico-científico por códigos simbólicos

obsoletos do capitalismo. Se o ser humano é um ente cultural, terá ele de

buscar uma nova orientação cultural no espaço, no tempo e na psique; e, no

século 21, talvez essa guinada revolucione tanto a sociedade quanto a crise



social e econômica.
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