O teatro da memória e da história



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O teatro da memória e da história:

Alguns problemas de alteridade nas representações do passado presentes no culto aos mártires de Cunhaú - RN1


Luiz Antônio de Oliveira

Mestre em Antropologia pelo programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE. Pesquisador na Base de Pesquisa Cultura, Ideologia e Representações Sociais, do Departamento de Antropologia da UFRN.

E-mail: luizantov@bol.com.br

Resumo


No litoral sul do Rio Grande do Norte, surge um novo santuário com a promoção do culto a personagens históricos, ‘os mártires de Cunhaú“. Neste trabalho é pretendido mostrar como este relato foi elaborado e se constituiu numa trama histórico-religiosa, na qual o passado é teatralizado. Nesta trama, os “santos locais” se tornaram bem aventurados por contraste com as ações antagonistas dos seus agressores, fabricando “alteridades históricas”. Na tradição oral do lugar que examinamos, o modelo eclesiástico dos mártires tende a ser reelaborado pela referência a outros personagens da colonização, que “aparecem” nos monumentos ou na natureza.
Palavras-chave: Memória, história, antropologia

Introdução


A formação de uma trama histórica e religiosa, tecida como composição teatral que encena o passado local, tem palco em duas localidades do interior do Rio Grande do Norte. O culto aos mártires de Cunhaú e Uruaçu, mortos na primeira metade do século XVII e beatificados em março de 2000, celebrando em atos dramáticos as suas mortes, reescreve o fato histórico do martírio. O passado, dessa forma recriado em performances culturais presentes, é tornado cartão postal das cidades que abrigam as terras beatificadas. Estas, por sua vez, emergem como centros de peregrinação religiosa no Estado. Centrando a minha observação no caso de Cunhaú, no litoral sul do Rio Grande do Norte, vejo como este exemplo de uma “construção narrativa do passado” procura fomentar uma “memória histórica” do fato celebrado. Um fato capitalizado na promoção religiosa do passado colonial potiguar. Cunhaú, dessa forma, é consagrado como relicário histórico-religioso do passado heróico do Estado.

Assim sendo, o enredar do tempo, celebrando o evento instituidor da história local, se constituiu como o leitimotiv desta investigação, que objetivou mostrar, por meio de um caso concreto, como o passado pode ser performaticamente recriado. Pregado como exemplo religioso primordial pela Igreja e como marco histórico do passado colonial do Estado pelos historiadores, o relato do martírio é “perenizado” nas celebrações anuais, ocorridas no local, no dia 16 de julho – data que a historiografia consagrou para o martírio de Cunhaú. Surgindo como um dos mais novos centros de romaria no Estado, a atual fazenda Cunhaú, localizada no município de Canguaretama, a cerca de oitenta quilômetros de Natal, atrai, todos os anos, milhares de peregrinos que presenciam a peça teatral “O Morticínio de Cunhaú”. Na ocasião, o martírio seiscentista passa a ser “revivido” nas performances dos atores de Canguaretama.

Há duas naturezas de dados colhidos. Assim, de um lado, aparecem aqueles reunidos nas observações in loco, na coleta das produções narrativas locais e no acompanhamento das festividades do dia 16 de julho, que informam as descrições da encenação “presente” do passado. De outro lado, a consulta de fontes historiográficas, bem como do resumo dos estudos históricos que instruíram o processo de beatificação, visaram “reconstituir” as cenas pretéritas ora revisitadas. Desse modo, na análise das informações foi sentida a necessidade de um tratamento metodológico interdisciplinar, que combinasse as perspectivas “sincrônica” das observações “de campo” e “diacrônica” da leitura dos cronistas e demais fontes secundárias. O trabalho com fontes historiográficas, por sua vez, coloca, para um “pesquisador do campo”, o desafio metodológico de empreender uma “leitura” do passado a partir dos documentos escritos. Este problema se fez presente nos diversos momentos em que se buscou “reconstituir” as cenas históricas do martírio. Buscando contorná-lo, passei a considerar que os documentos coloniais que descrevem o evento fundante do passado local poderiam ser lidos como registros escritos de tradições orais, enaltecendo, em perspectiva apologética, a atitude heróica dos antepassados frente à perseguição protestante. Ficou evidenciado, desse modo, que a interpretação primeira já trazida na pena dos cronistas, em seu olhar coevo e partidariamente motivado, foi matizada pelo contexto colonial de disputas territoriais.

Na coleta dos dados “etnográficos” – em relação aos quais costumamos nos colocar como “testemunhas oculares” – supostamente estaríamos livres da “falácia referencial” que ameaçaria o trabalho do historiador. Mas, o “texto etnográfico”, lembrariam os antropólogos pós-modernos, também se constitui como um discurso indireto, construído pelo pesquisador e ainda marcado por usos políticos da diferença.2

Duas questões principais, abordadas ao longo do texto, são os problemas relacionados às formas de reconstrução do passado e à fabricação de alteridades na celebração de uma memória dos mártires. Há, no caso de Cunhaú, e possivelmente de Uruaçu – que não foi contemplado nesta pesquisa –,estratégias de “construção de alteridades históricas”, em que as representações do passado projetam, em um tempo pretérito e espaço sobrenatural, sob a forma de ações antagonistas nos relatos históricos e orais, as figuras do índio e do holandês. Sendo assim, o uso do termo “alteridades históricas” visa problematizar os sentidos atinentes à questão da construção das identidades locais e de suas representações no passado. Este aspecto assume peculiar importância quando observado a partir de um ângulo que torne manifesta a comunicação entre uma demárche antropológica e histórica de análise destas representações. Foi dessa forma apresentada, no texto, uma área de fronteiras disciplinares entre a história e a antropologia. Fronteiras, aliás, pouco precisas, marcadas por delimitações que tendem a se cruzar em vários momentos. É a partir deste ângulo “interdisciplinar” que é contada a “História” dos mártires, observadas as celebrações dramatizadas e apreendidos os aspectos simbólicos da representação da história local, acionados no culto nascente dos mártires de Cunhaú.

Assim, fica evidenciado que um dos objetivos da investigação foi apreender como estas lógicas de representação do passado, atemporalizando o evento histórico, avaliam as heranças de um tempo pretérito como um bem simbólico no presente. O inventário destes bens, com a beatificação dos mártires e a construção dos antagonismos das alteridades históricas, torna manifestas as estratégias de um mercado de símbolos, conforme sugere Bourdieu (1992). O fato histórico, capitalizado de modo particular, encerra também a idéia de um passado patrimônio que, inscrito no espaço, irá corroborar a percepção de emergência de um “lugar de memória” no santuário beatificado de Cunhaú. A espera dos milagres, a devoção dos fiéis e a dramatização do martírio, mostradas como modos de resentificação do passado no culto aos mártires, dessa forma, emergem como estratégias “performáticas” de construção da memória do lugar.






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