O teatro da memória e da história


Um problema de fronteiras



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Um problema de fronteiras


Trabalhar com as formas representativas de um evento histórico distanciado no tempo, como indicado acima, coloca o problema metodológico e teórico de consorciar, em alguma medida, a consulta a documentos e a pesquisa empírica de campo. Isto significa, em determinados momentos, transitar entre a seara da disciplina histórica, reconhecendo fontes e documentos historiográficos que trataram da guerra de Pernambuco e descreveram os martírios seiscentistas do Rio Grande, e aquela da análise “sincrônica” de dados etnográficos nas observações in loco, entrevistas e anotações de campo.

Uma região de fronteira entre a História e a Antropologia, como sugere Lilia Schwarcz (2000,p.11-31), é um local intermediário de difícil definição, caracterizando-se como uma região marcada tanto por “práticas de boa vizinhança”, quanto por litígios. Com efeito, a delimitação de fronteiras disciplinares tem sido, nos últimos anos, alvo de recorrentes discussões. Surgem as áreas de estudo de objetos fronteiriços, promovendo o enfrentamento de posturas metodológicas e o reconhecimento dos princípios epistemológicos que orientam a produção do corpus de conhecimento nas disciplinas em diálogo. Mas, se é preciso perceber os canais de comunicação entre os saberes, faz-se necessário também não perder de vista “os nossos próprios caminhos”. Os antropólogos, de certo modo, perseguem objetivos distintos daqueles dos historiadores, ainda que se debrucem sobre objetos conceitualmente similares.

Assim, o “olhar distanciado” do antropólogo, reivindicado por Claude Lévi-Strauss (1986), por sua vez, não deveria perder de vista o reino das relações sociais sincrônicas. De acordo com o antropólogo estruturalista francês mais destacado, as relações entre a História e a Antropologia podem ser duplamente caracterizadas: primeiro, a sua visão “térmica” da história que qualifica como “quentes” ou “frias” as diversas sociedades humanas diante de suas explicações “conscientes” do devir histórico (LÉVI-STRAUSS,1989,p.259-60); segundo, uma certa perspectivação complementar das duas disciplinas, na qual a ciência histórica organizaria seus dados em relação às expressões conscientes da vida social, ao passo que a “etnologia” o faria em relação às condições inconscientes (LÉVI-STRAUSS,1976,p.34).

Na atualidade, no entanto, é vista uma tendência de estreitamento de preocupações disciplinares sobre temas que se tornam recorrentes em mais de uma área de conhecimento. As reflexões sobre o cotidiano, vida privada e memória tem já há algumas décadas, preocupado os historiadores. Por outro lado, emergem, no panorama de estudos antropológicos, os trabalhos que se inscrevem no plano de uma “antropologia histórica”, ocupando-se de temas ligados à memória e à representação do passado.10 “As mentalidades”, os costumes e a tradição oral, áreas concebidas como classicamente de interesse antropológico, tem sido também objeto de reflexão de historiadores, sobretudo a partir dos debates em torno de uma Nova História.11

Promovendo o que Peter Burke chama de “a revolução francesa da historiografia”, a École des Annales, que emergeria na França do final dos anos 20, tornou-se ponto de inflexão no tratamento teórico e metodológico dos estudos diacrônicos, anunciando as perspectivas de uma “história nova”. A École desvirtua o sentido tradicional dos estudos históricos do registro cronológico dos fatos e dos feitos dos “grandes homens”, fazendo a “história” voltar-se para a observação das formas cotidianas de interação social dos indivíduos. Assim é marcada a passagem de uma história événementielle, de orientação política, como modelo de produção do conhecimento historiográfico, para as sugestões sócio-antropológicas de uma “nova história cultural”. Mantendo diálogo de corredores com os sociólogos e antropólogos franceses, como Durkheim e Mauss, os historiadores da primeira geração do movimento dos Annales são influenciados pelas idéias pioneiras da “escola sociológica francesa”, divulgadas no L’Année Sociologique.

Desse modo, a emergência de novos objetos de pesquisa na História – fazendo-a debruçar-se sobre os seus métodos e formas de construção do conhecimento –, assim como as recentes aberturas da Antropologia para a diacronia e a localidade de tempos e de saberes, tem alargado, nos últimos anos, o espaço deste diálogo. Isto tem ocorrido mesmo a despeito de toda a influência “sincrônica” que o paradigma estruturalista tenha exercido no panorama da disciplina antropológica. Para além da adoção de puros “modelos estatísticos”, usando uma terminologia lévi-straussiana, a presença da diacronia na antropologia se manifesta em estudos que consideram o caráter fundante e “estrutural” dos acontecimentos e das ações dos indivíduos. É anunciado um retorno às idéias da sociologia compreensiva weberiana, com o uso de sua noção de ação social em trabalhos como os de Clifford Geertz (1989), que abre, contemporaneamente, a discussão para a localidade das temporalidades humanas. Com a emergência dos estudos etno-históricos, surgidos no contexto de descolonização, voltando-se para as realidades locais, é ensaiada esta aproximação entre trabalho de gabinete nos arquivos e coleta de dados etnográficos.

Uma “antropologia histórica”, como a ensaiada por Marshall Sahlins (1990), ou uma “história antropológica”, propalada por historiadores como Fernand Braudel (1978), Jacques Le Goff (1996) ou Carlo Ginzburg (1991) colocam em evidência as diferentes possibilidades desse diálogo. Como visto, em uma investigação sobre os modos de representação do passado, partindo do relato histórico de um evento consagrado pela igreja e a historiografia potiguares, este consórcio de dados históricos com o aporte etnográfico é apontado como uma pista viável para se perceber as estratégias de reconstrução do passado por meio de performances culturais presentes. Desse modo, confrontando os dados, seguindo os passos dos romeiros e escutando as histórias do lugar, pode-se chegar a perceber quais são as imagens do passado reescritas pelas ações do presente.

Foi mostrado que em uma memória que dá nova unidade à dimensão temporal, os dados da tradição oral da região reinterpretam, de modo particular, o enredo encenado do passado. Nas duas formas de representação do pretérito, perenizadas na sacralização de seus personagens ou em suas manifestações sobrenaturais no espaço, as alteridades históricas são ressemantizadas. O português torna-se autóctone, o holandês faz as vezes do agente colonial, os indígenas selvagens são os mercenários cruéis e os negros ressuscitam nas almas que povoam o espaço.

A trama do martírio encenado é, dessa forma, observada em seus atos cênicos constitutivos. Assim, é observado o modo de como estas representações do passado, atualizando o evento histórico, avaliam as heranças de um tempo pretérito como um bem simbólico no presente. A observação da construção de uma trama histórica, performada em cenas presentes e constituída como móvel da pesquisa, é refletida no conjunto das imagens acionadas do passado. Um passado revisitado e revivido nas performances de um martírio encenado.




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