O teatro da memória e da história



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O passado patrimônio


No caso de Cunhaú, assiste-se a uma reavaliação contemporânea das heranças étnicas do passado histórico, à luz da proposta teológica. O passado, tombado materialmente no espaço da capela e tornado patrimônio15, transita entre os domínios laico, da historiografia, e religioso, da cúria diocesana potiguar.

A intelligentsia e o clero norte-riograndenses fazem a divisão dos bens, delimitando o quinhão a que cada grupo tem direito. Assim, hegemonicamente representados, os grupos de ascendência européia suplantam a presença coadjuvante de referências étnicas, tanto a indígena, quanto a do negro africano. No caso de Cunhaú é mostrada a parcialização na definição do passado-patrimônio, marcando, de modo particular, a representação da participação de uma das etnias-tronco formadoras da referência identitária nacional. Uma referência há muito discutida e, por vezes, informadora de idéias romantizadas a respeito do “caráter nacional” e da emergência de seus símbolos identitários.

A invenção do passado e a construção de identidades, obedecendo a máximas culturalistas de definições de padrões de sociedade, tem fomentado a emergência de referências identitárias que, muitas vezes, folclorizam a história e os seus personagens. No “teatro da memória”, surgido em Cunhaú, as modalidades de reinvenção da história e do passado, trazem à tona estas questões. O passado reconstruído é povoado por atores “históricos” que encarnam as imagens dos beatos luso-brasileiros. Estes, reconhecidos nos documentos historiográficos e relatos dos cronistas seiscentistas, emergem como os representantes sagrados do passado local. Eles são cultuados pelo clero, conforme dito anteriormente, como os primeiros habitantes de Cunhaú. Na devoção que surge em torno dos “ancestrais povoadores do lugar”, estes são louvados como os “Mártires da fé e filhos do Rio Grande”.

O espaço de Cunhaú e o culto aos seus mártires, na região do antigo engenho colonial, fazem ascender do passado um bem simbólico religioso nas práticas presentes de devoção e promoção dos martírios. O legado do passado colonial do lugar é reavaliado funcionalmente pelas leituras históricas das ações dos seus personagens com vistas à beatificação. Assim o evento histórico é capitalizado como um bem de atração religiosa com ressonância no plano econômico. As cenas do martírio atraem os peregrinos, demandando a emergência dos milagres, o aumento da devoção e a ampliação de um incipiente mercado do sagrado, através da venda de medalhinha, gadjetes, terços, lenços com inscrições dos mártires, camisetas, etc. No inventário deste mercado de bens é instituído o mercado simbólico do sagrado que define as divisas “divinas” e mercadológicas que o clero local almeja.16 Desse modo, é promovido o culto local que possui os seus próprios personagens santificados, mostrando um exemplo de construção “institucional” de uma autoctonia santificada. Com isso, a conservação do rebanho católico não necessitaria da importação de santos ou de milagres alógenos.

No caso de Cunhaú, observa-se uma tentativa de construção de um lugar de memória. Um lugar que, segundo as palavras da historiadora francesa Mona Ozouf, tem a função de guardar e fundar a memória (CHANET,1993,p.23). Assim, a presença do passado colonial em representações inscritas nas cenas do martírio dramatizado e no espaço transforma as marcas da ancestralidade em valores identitários presentes. O espaço da capela, dessa forma, é qualitativamente diferenciado de outros e marcado por representações coletivas que integram identidades sociais (DURKHEIM e MAUSS,1993). Assim, a beatificação dos mártires de Cunhaú sacramentou a relação estabelecida entre memória, patrimônio e identidade. A monumentalidade e patrimonialização do passado, estratégias de construção de “lugares de memória”, foram aí sancionados como fato religioso.

Portanto, um inventário religioso do passado é instituído no caso de Cunhaú, definindo uma “instituição de memória” particular com a emergência e celebração da trama dos martírios. É a própria teatralização do passado nas cenas do martírio de Cunhaú que forma essa instituição. Assim, um teatro da fé, da memória e também da história, informa a idéia de patrimonialização dos eventos históricos que marcaram o passado colonial de Cunhaú. As comemorações em homenagem aos mártires poderiam se traduzir como formas particulares de cultuar um passado reconstruído a partir das cenas coloniais do martírio. O passado patrimônio, presentemente construído, é, como já mostrado, o evocador deste mito fundante, no qual são descritas as ações dos ancestrais. Nesta representação social de origem, a sacralização da memória é instituída em torno da imagem dos mártires católicos que, por sua vez, são ressemantizados nas representações narrativas dos moradores locais. Assim, o modelo dos mártires, reescrito e reelaborado no universo de dados da tradição oral do lugar, traz à luz os personagens “antagonizados” na trama religiosa. Vê-se, dessa forma, a emergência de uma lógica mestiça de santificação do espaço e de seus personagens.



Considerações últimas


O caráter epopéico dos acontecimentos é refletido em uma concepção dos eventos como fenômenos de longa duração, sobretudo, na justificatifiva da “fama de santidade” dos mártires, evocada pela diocese metropolitana de Natal. Na concepção braudeliana de “longue durée”, da história quase imóvel ou dos “ciclos sem fim recomeçados”, parecem querer situar-se, então, as explicações e justificativas eclesiásticas do fato (BRAUDEL,1978). A longa duração de mais de trezentos e cinquenta anos da memória do martírio teria sido perdurada pela condição divina de seus personagens. É subentendida, então, uma veneração à memória dos mártires de extensão secular. Mas, semelhante ao modelo de “tradição inventada” de Hobsbawn (1997), este culto aos mártires, atravessando mais de três séculos sem cair no esquecimento, parece recuar, manifestamente, um pouco menos que isso. Na primeira metade do século XX, formam-se pequenas peregrinações aos locais dos martírios, fomentadas, quer por prelados simpáticos à questão, quer por leigos entusiastas pelo “conhecimento da história”. Com isso, pode ser vista em Cunhaú uma busca material pelo passado martirizado, guardado sob as parades arruinadas da capela do engenho colonial. Nesta revisita religiosa dos eventos, as páginas históricas do martírio, pregadas em púlpito, são tornadas alegoria de evangelização nas prédicas dos primeiros sacerdotes a peregrinarem para Cunhaú. Inaugurando uma maior promoção do “exemplo cristão” do Estado, os Congressos Eucarísticos Paroquiais realizados em Canguaretama, em 1945 e 1995, e o Congresso Eucarístico Nacional de 1991, sediado em Natal, se constituíram em grandes divulgadores da causa dos mártires.

A condição mestiça do hagiário católico local emerge nos discursos populares que “santificam” outros personagens, também “naturais do lugar”. As almas dos antigos moradores de Cunhaú, como os escravos negros e “caboclos” assassinados por um cruel senhor de engenho, se manifestam no mesmo espaço beatificado “pelo sangue dos mártires”. A presença destas “almas penadas” em Cunhaú parecem corroborar uma lógica de naturalização da condição santificada, povoando o espaço local com seres sobrenaturais ao lado dos “santos” beatificados do lugar. Assim, referenciando outros personagens da colonização, como os negros e os índios, as representações narrativas do passado reinterpretam o modelo eclesiástico do passado martirizado. Incluindo estas figuras “marginais” da história, os relatos orais trazem ainda a figura do holandês, personagem colonial por excelência, evocada nos relatos sobre os “subterrâneos” construídos e tesouros encantados nas terras de Cunhaú. Tesouros que abundam na região, manifestando-se em vários locais que circundam o vale santificado. Este erário colonial parece ser guardado pelas almas penadas e os próprios mártires. Na Lagoa do Tacho, próximo à capela, os tesouros do cruel senhor do engenho Cunhaú, Dendê Arcoverde, estão ao lado do corpo de um dos martirizados que teria sido jogado em suas águas. Aqui o mito “reconta a história”, livrando um dos mártires do apetite canibal dos indígenas selvagens. Neste mesmo espaço em que a potência divina parece alocada, outras manifestações sobrenaturais assustam os moradores da localidade.

Se por um lado há uma autoctonia santificada, celebrando um hagiário mestiço, por outro lado, é construída uma natureza de alteridade histórica no relato “oficial” do passado. Neste modelo, como foi visto, há a reconstrução unilinear do pretérito na promoção do enredo do martírio, reproduzindo as “cores coloniais” do relato dos cronistas que descreveram a guerra de Pernambuco e o “massacre de Cunhaú”. Assim, a presença lusa é beatificada pela ação antagonista dos “vilões” da história, isto é, os autóctones ou mestiços. Dessa forma sentenciados no tribunal da beatificação, os indígenas são caracterizados pela condição selvagem de seu estado natural, justificando o matiz “colonial” da narrativa consagrada do martírio. Esta justificativa faz coro com os documentos historiográficos dos primeiros momentos “do contato”, que narram cenas de ataques dos nativos aos primeiros colonizadores. Nestes ataques, emergem cenas de canibalismo e martírio dos personagens coloniais em um Novo Mundo “infernizado” pela presença herética de nativos pagãos (SOUZA, 1989).

Como visto, estas imagens informam a idéia de bem simbólico religioso no caso de Cunhaú, constituidor da noção de passado patrimônio das heranças coloniais, ascendendo no presente com a beatificação dos mártires. Nas estratégias de promoção do culto aos mártires de Cunhaú, capitalizando este bem religioso instituidor de um novo santuário e centro de peregrinação no Rio Grande do Norte, podem ser vistos em atuação os mecanismos de construção de um “lugar de memória”. Assim, neste lugar, a celebração do passado também institui a forma de sua representação.

Do conjunto de imagens construídas e formas de representação do pretérito postas em cena em Cunhaú, vê-se a fecundidade de um “campo” sendo formado, em que as relações entre o passado e o presente são estabelecidas em termos dialéticos. A busca de um passado beatificado e a naturalização da santidade, juntando os diferentes personagens da colonização, mostram diversas possibilidades de interação entre os elementos intercambiados, assim como das perspectivas de abordagem desta relação. Uma interface entre a démarche antropológica e histórica aqui proposta, permite pensar em que termos se dá a construção dos diferentes relatos sobre o retorno dos ancestrais. A questão fronteiriça das formas de representação do tempo pretérito, pensados metodologicamente como “objetos” da História e da Antropologia, poderá favorecer também a apreensão dos mecanismos de apagamento ou esquecimento de alguns de nossos personagens ancestrais.




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