O teatro das operaçÕes e o porão da memória caderno de impressões prof. Dênis Melo Universidade Estadual Vale do Acaraú



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O TEATRO DAS OPERAÇÕES E O PORÃO DA MEMÓRIA

CADERNO DE IMPRESSÕES
Prof. Dênis Melo - Universidade Estadual Vale do Acaraú


A cidade de Sobral, margeada por um lado pelo Rio Acaraú, um mundo de sortilégios e encantos, um caminho de águas que desemboca na cidade de Acaraú, cidade importante para Sobral no auge do Ciclo do Couro, e por outro, pela robustez da Serra da Meruoca, quase que etérea em sua beleza, em sua heráldica figura que em sua altura e significância para o micro-clima da região, contempla a cidade de Sobral, que serpenteia no vale, seguindo o Acaraú, diluindo-se entre os serrotes...


Mas Sobral também tem outras margens, outros caminhos que alimentam a sua história e forjam a dinâmica de sua identidade sempre mutável. A Sobral de cenas fortes, não é ( sendo ao mesmo tempo) a mesma cidade que tempera as suas tradições no caldeirão vigoroso de sua contemporaneidade. Uma cidade cujo passado alimenta quase que de forma obsessiva todos os “feitos” de seu presente, não poderia ser pensada senão como uma cidade enraizada numa perspectiva temporal mítica e exemplar. Prova disso é Dom José, primeiro bispo da cidade, constantemente evocado em meio aos discursos oficiais e não oficiais, como o “maior benfeitor de Sobral”... Os Estados Unidos de Sobral é a mesma cidade que faz o boi dançar pelas ruas e praças da cidade, como um ritual de celebração de uma história fincada no charque e nos caminhos das boiadas... Como esquecer que somos parte de uma história cuja base é o sal e o couro? O couro que veste o vaqueiro em suas andanças e pegas de boi, e que metaforicamente representa entre nós a síntese do cavaleiro medieval encouraçado, valente e ao mesmo tempo temente a Deus...

A Sobral das muitas bandas de rock hoje em dia, repercute certamente nas primeiras bandas de música da cidade, como a do maestro José Pedro. É preciso celebrar uma cidade cujo ritmo tem em sua essência os velhos batuques dos escravos que, escondidos entre as lagoas do Junco, entoavam suas melodias lacrimosas e ao mesmo tempo belicosas, e que entre sustos e medos da polícia, lembravam, ainda que de forma indesejada por parte de uma pequena elite da cidade, que as batidas dos atabaques ritmavam as abatidas do coração de uma cidade negra, belamente negra em sua história...

Sobral é plural demais para ser lembrada ou decantada em apenas um ritmo, uma voz, uma possibilidade, uma história. Sobral é um feixe de sentimentos, uma usina de emoções. É uma cidade vivida e uma cidade sonhada. Ancião com mais de dois séculos, no entanto, uma eterna Fênix em sua beleza e altivez. Por isso consideramos injusto repetir que Sobral é “terra de Dom José”, porque reconhecemos que esta terra é de muito mais gente. Sobral é do negro Cosme e de Dom José, de Zé Sabóia e Deolindo Barreto, de Sinhá Sabóia e de Maria Tomázia... Mas é também de dona Carmita, moradora do Parque Silvana, doceira, antiga moradora do Teatro São João, delicada e terna, quase uma fada em meio às suas panelas de doces e confeites...

A Sobral de Domingos Olímpio e de Cordeiro de Andrade, dois grandes escritores da cidade, é também a cidade de Gastão Portela, cronista privilegiado, que ocupou a Cadeira 22 da Academia Sobralense de Estudos e Letras cujo patrono é o Barão de Sobral. Gastão Portela fez de sua pena uma luz capaz de acender o lugar dos humildes moradores da cidade. Mas Sobral também é de um poeta atual, professor e amador das letras, Inocêncio de Melo, cuja palavra é o arame sobre o qual caminha sempre vertiginoso mas sóbrio...

Sobral é uma cidade de contrastes, e não poderia ser diferente. Platão já sentenciava na Grécia Clássica, que uma “cidade, por menor que seja, guarda dentro dela sempre outras cidades”. Talvez o equilíbrio entre o passado e o futuro, entre a tradição e contemporaneidade, precise de alguns reparos. Quem sabe encarar a tradição que escapa, ou melhor, se esquiva entre as peças sublimes do Museu Dom José, seja uma possibilidade nova que se abre para nós, afinal de contas o “folclore” ou a “cultura popular” presentes no museu, apenas se esquivam do visitante e nada mais do que isso...

Nós estamos enredando tantas palavras sobre a cidade de Sobral, porque mais uma vez a tradição e a contemporaneidade duelam no teatro de operações da cidade. Talvez a palavra não seja bem duelo, mas não podemos negar que constantemente as várias cidades presentes dentro de qualquer cidade, se insurgem umas contra as outras. Estamos envolvidos numa tarefa saborosa, organizada e idealizada pela Secretaria de Cultura de Sobral. Trata-se do Projeto Porão da Memória, a ser instalado no porão do Teatro São João, com o objetivo de contar a história daquele espaço a partir das memórias daqueles que participaram de sua existência ao longo do tempo. Trabalharemos com imagens, fotografias, recortes de jornais, textos, áudio. Mas por que porão? Talvez pensar no significado da palavra nos ajude a responder a pergunta. Porão, do antigo prão, derivado do latim planus – a-um: (Náut.) qualquer espaço compreendido entre o convés mais baixo e o teto do duplo-fundo, ou entre o convés mais baixo e o fundo. “Parte de uma casa , entre o chão e o primeiro pavimento”. Porão, num primeiro momento nos lembra algo profundo, profundidade, mas uma profundidade que encontra um chão. Se concordarmos com Paulo Freire, para quem só é possível amar aquilo que os nossos pés pisam, então o sentido do “porão” nesse projeto aponta para o apego à terra que a gente conhece e pisa todos os dias. O Porão da Memória é um projeto que pretende aprofundar o conhecimento sobre o Teatro São João, na certeza de que a sua história guarda uma profundidade ainda desconhecida por muitos sobralenses.

A construção do Teatro São João veio reafirmar na cidade o encanto da população pelas representações teatrais. Em vista do tamanho do Teatro Apolo, pensou-se em construir uma casa de espetáculo bem maior, o que foi feito a partir da organização da “ União Sobralense” . Vale ressaltar que mesmo depois que as obras do Teatro São começaram, o Teatro Apolo continuou a ser ocupado pelos artistas e público sobralenses.

A equipe da Secretaria da Cultura, capitaneada pela Secretaria Rejane Reinaldo e coordenadora Telma Mendes, formada pela Norma Suely e Delizier, arregimentada por Hudson Costa, Professor e Fotógrafo e Denis Melo, Historiador, planejaram as suas ações subsidiada pelo conhecimento do Secretário adjunto de Cultura, senhor Raimundo Aragão. Juntos fizemos os mapas, traçamos as rotas, escrevemos no chão e decidimos que terra pisar...

Os primeiros contatos foram feitos com o Sr. José Wilson Brasil,(.....) por um motivo muito óbvio: ele é considerado uma das pessoas mais vividas da cidade. Chegamos à sua casa, uma casa muito simples situada na Vila Cisne, numa tarde do dia (.............)Tarde de calor intenso. Ele estava nos aguardando na calçada, vestindo um pijama azul... Entramos em sua casa, sentamos na sala e começamos a conversar. Sobre uma mesinha, no meio da sala, estava um livro sobre a história de Sobral – Sobral, História e Vida. Pensamos naquele momento que aquele livro de história local autorizava e legitimava a pessoa e ao mesmo tempo justificava a nossa presença e a nossa escolha. O livro não foi aberto uma única vez, e não precisava, porque o Sr. José Wilson em sua vivacidade e simpatia, falava de uma cidade que ele conhecia da vida e dos livros. Num primeiro momento foi muito difícil separar o que era dele e o que era dos livros. Falou de sua vida de músico e nos mostrou uma relíquia: a sua flauta doce. Ele havia freqüentado muitas vezes o Teatro São João, tocando outras vezes, mas a certeza que tínhamos era que o teatro representou para ele um espaço de rápidos e pequenos encontros, mas uma fotografia na parede nos chamou atenção: era uma fotografia bastante antiga do Teatro São João emoldurada, ocupando e disputando espaço com fotografias de bandas e membros da família. Portanto, superada a certeza inicial, concluímos que o Teatro pertencia a família do Sr. José Wilson Brasil... Era um irmão mais velhos, posto que sisudo e reticente...

Entrevistamos em seguida o Sr. Marcos da Cruz, pioneiro da radiofonia sobralense, colecionador de documentos, fotografias e articulista em alguns jornais da cidade. Fomos recebidos por ele com muita simpatia. Sua voz grave e firme, seu corpo forte apesar de vergado nos dava a impressão de estarmos diante de um personagem de ficção. Com uma bermuda que ia até os joelhos, uma camisa branca de mangas compridas, ele nos ofereceu o sofá de sua casa, uma casa grande e confortável, e sua vida...

Marcos da Cruz, cujo nome verdadeiro é Francisco Marques da Cruz, foi autor e ator de rádio-teatro, escreveu, atuou e dirigiu dezenas e dezenas de peças. Performático e loquaz, habilidoso no falar, contou a sua vida de artista como se ainda estivesse atuando. Quase que nenhuma palavra pronunciada por ele era destituída de uma ação corporal. Ele inclusive pedia auxílio com uma das meninas da secretaria para “contracenar” com ele em alguma de suas lembranças. Ele também apresentou programas de auditório, inclusive muitos no Teatro São João, tendo freqüentado o Cine-Teatro São João, chegando a lembrar de um ator americano Eddie Polo, que fez muito sucesso entre os jovens, motivando inclusive várias imitações na cidade.

A entrevista com o Sr. Marcos da Cruz foi longa, foram necessários dois dias e dois cds para efetivar a nossa tarefa. Mas poderia ter sido mais, porque as suas memórias eram vivas, a quantidade de documentos que exibia, ensejava vários questionamentos. O Teatro São João assomava em suas narrativas nas bordas de sua vida de radialista, de autor de textos para o rádio-teatro e em sua vida de apresentador de programas de auditório.

O próximo entrevistado foi o Sr. Camilo Lélis Mendes Sousa, conhecido como Pipiu Liberato. Nascido na cidade de Santana, seu pais vieram para Sobral numa canoa através do Rio Acaraú quando ele era ainda muito pequeno. A entrevista foi em sua casa elegante mas bastante simples, situada à rua Oriano Mendes. Quando chegamos a sua casa ele estava acompanhado de uma de suas filhas. A princípio tímido, rapidamente tornou-se expansivo, abrindo para nós uma caixa em guardava várias fotografias de sua vida. Ele trabalhava no teatro como contra-regra até o dia em que, por falta de ator, teve que atuar num espetáculo famosíssimo na cidade chamado Os Dois Soldados. No momento em que narrava a sua participação no espetáculo, começou a chorar diante da lembrança do texto, chegando inclusive a confessar que muitas pessoas choravam durante as apresentações. O seu Pipiu é facilmente identificado pelas ruas da cidade, pois é um senhor longelíneo, cabelos brancos e veste sempre branco...

Dona Zuleica, entrevistada por nós, é secretária da Cúria Diocesana, onde convive de forma gentil e entusiasmada com vários estudantes da Universidade Estadual Vale do Acaraú, uma vez que a secretaria da Cúria possui cópias preciosas do Jornal Correio da Semana, além de guardar também vários exemplares de Livros de Batismos, fundamentais para o entendimento de nossa História Local e Regional. Fomos recebidos em sua casa à rua (....), numa tarde quente. Sentamos numa área interna e conversamos sobre a sua participação como atriz em alguns espetáculos no Teatro São João, notadamente no Teatro Escola Sobralense, grupo de amadores sob a direção do padre Marconi. Atuou ainda no espetáculo Luzia Homem, escrito e dirigido pelo professor Pedro. Depois da conversa fomos convidados para um chá. E ali, entre plantas e uma gruta construída para abrigar Nossa Senhora (...), que experimentamos o sabor das palavras de dona Zuleica, mulher refinada e inteligente, simpática e atenciosa...

Dona Maria do Carmo, conhecida como Carmita, antiga moradora do Teatro São João, mas atualmente residindo da rua Alfa, no Parque Silvana, periferia de Sobral, nos recebeu em sua casa numa manhã do dia 04 de outubro. Uma casa muito simples mas acolhedora. A data da entrevista foi muito significativa para dona Carmita, uma vez que coincidiu com a Festa de São Francisco, ocasião em que a mesma faz doces para serem vendidos durante as novenas. E foi assim que a encontramos, entre palavras e doces, assados e cozidos, na brandura de seu fogão, na cozinha de sua casa. Ofereceu-nos bolos e cocadas. Conversou sobre o tempo em que morou no teatro junto com outras famílias, abrigada ali pelo então prefeito José Parente Prado. Doceira de fala mansa e compassada, diz que aprendeu a fazer doce observando sua mãe.

Seu Gerardo Afonso de Sousa, conhecido como Gerardo Quedê, morador da rua das Pedrinhas, bairro das Pedrinhas, já próximo ao Rio Acaraú. Seu Gerardo é serralheiro, estando a oficina localizada em sua própria casa, faz portões e grades de ferro. Olhando ao redor de sua casa é possível ver a arte de suas mãos, pois em praticamente todas as casas as grandes pontificam o trabalho de suas mãos. Ele é um dos mais assíduos freqüentadores do Teatro São João e do antigo Cine Teatro São João, que começou a freqüentar desde os 9 anos de idade. Lembra-se de forma vivida de suas idas ao Cine Teatro, onde costuma ficar na “geral”, parte popular do cine, que tinha ainda, segundo ele, a platéia e a “frisa”. Calmo e generoso desfiou para nós suas memórias, como se estivesse traçando mentalmente as dobras sinuosas de uma grade de ferro.

O Sr. João Barbosa Cavalcante, seu Barbozinha, foi entrevistado por nós no palco do Teatro São João no dia 11 de outubro de 2007. Advogado e bancário aposentado foi um dos mais ativos e respeitados atores da cidade de Sobral a partir da década de 50 do século passado. Atualmente é articulista de alguns jornais da cidade onde costuma escrever sobre suas memórias. Dono de um acervo muito importante para o entendimento da história do teatro sobralense depois da metade do século passado, seu Barbozinha, como é conhecido, doou várias de suas fotografias para a Secretaria de Cultura do Município de Sobral. Foi um dos mais brilhantes e atuantes atores do Teatro Escola Sobralense, onde teve a honra de atuar e trabalhar ao lado de dois dos mais ilustres e importantes homens do teatro sobralense, respectivamente Hugo Vinãs e Clotário Aguiar.

Dono de uma memória privilegiada, falou de vários espetáculos em que participou, chamando atenção para os espetáculos Os Dois Soldados e Almas do Outro Mundo.

Seu Barbozinha tem uma narrativa fluente, firme e linear. No começo da entrevista ele não se mostrou muito tocado, mas quando começou a ver algumas fotografias de seus espetáculos, doadas por ele mesmo ao teatro, uma emoção um pouco tênue tomou conta de sua narrativa, mas nada maior do que a emoção que sentiu quando percebeu, depois de uma pergunta por um técnico do teatro – Maicon – sobre a iluminação de seus espetáculos, quando percebeu que faltava agora ao Teatro São João o terceiro piso. Vivamente emocionado, vislumbrou o teatro e como que, abrindo os olhos, sentiu que o passado havia sido diferente, e que essa diferença não estava apenas no tempo, mas também na arquitetura do teatro, agora “disforme” em sua lembrança, faltando um pedaço...

O professor Pedro foi diretor do Teatro São João durante muitos anos. Estivemos em sua residência – uma república de estudantes – no dia 29 de novembro de 2007, à tarde. Fomos recebidos por sua esposa que nos acompanhou até uma sala espaçosa. O professor Pedro é holandês, homem cosmopolita e culto, poliglota e exigente, sofreu os horrores da II Guerra antes de vir para o Brasil como padre. Hoje está casado, tem filhos e uma vida secular. Adaptou para o teatro o livro de Domingos Olímpio Luzia Homem. Diz ser autor dos Estatutos do Teatro São João.



Entrevistamos no dia (...) Rogênio Martins, Carlos Rodrigues, Valdelice Costa e Lita Ribeiro, atores, diretores e atrizes que tiveram uma participação fundamental no movimento teatral da cidade de Sobral na década de 80 do século passado, quando a partir de movimentos organizados pela Igreja Católica, vários grupos cênicos despontaram na cidade. Por outro lado, o clima político do período também influenciou na escolha e montagem dos espetáculos, uma vez que o Brasil vivia a fase final da Ditadura Militar, e o engajamento político dava a tônica em algumas manifestações culturais em Sobral, entre elas o teatro. As entrevistas foram realizadas na Casa da Cultura em um dia de sábado à tarde.


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