O telefone e D. Pedro II



Baixar 14.03 Kb.
Encontro27.07.2016
Tamanho14.03 Kb.
O Telefone e D. Pedro II
Eu me pergunto se a palavra, ela própria, não poderia ser transmitida pela eletricidade; resumindo, se não se poderia falar em Viena e ser escutado em Paris. A coisa é viável, veja como: Imaginem que se fale próximo a uma placa móvel, flexível o bastante para que não se perca qualquer das vibrações produzidas pela voz, que esta placa estabeleça e interrompa, sucessivamente, a comunicação com uma pilha; poder-se-ia ter, a distância, uma outra placa que executaria, simultaneamente, as mesmas vibrações...
O autor dessa ideia estapafúrdia (para a época), publicada no jornal Ilustração - edição de 26 de agosto de 1854 -, em Paris, foi Charles Bourseul, agente da administração do Telégrafo no escritório da Bolsa. Pela primeira vez, apesar de o princípio descrito apenas se aproximar da solução futuramente encontrada, falava-se do que seria o telefone. Os chefes de Bourseul trataram logo de desviar suas atenções para outras atividades. Neste mesmo ano, curiosamente Antonio Meucci, na Itália, estudava a transmissão de sons. O italiano até chegou a depositar, em 1871, um pedido de patente nos Estados Unidos, não efetivado por não ter ele podido apresentar a caução exigida. Anos mais tarde, na Alemanha, Phillip Reis, professor de música e física em Friedrichdorf, inventou um aparelho que permitia a transmissão elétrica de notas musicais, dando-lhe o nome de... Telefone. Começava, assim, a realização do antigo sonho do homem de comunicar-se à distância pelo som.

Muitos foram os precursores, mas o inventor do telefone, aquele que primeiro depositou o pedido de patente às 14 horas do dia 14 de fevereiro de 1876, em Washington, foi Alexandre Graham Bell. Coincidentemente, neste mesmo dia, duas horas depois da saída de Graham Bell, um eletricista chamado Grey também depositou um pedido de patente para um aparelho que seria capaz de transmitir palavras.






Alexandre Graham Bell


Modelo antigo de telefone fechado e aberto
Por causa de 120 minutinhos, foi Bell quem obteve a patente para o invento, concedida no dia 7 de março daquele mesmo ano, sob o número 174.465.

Alexandre Graham Bell nasceu em Edinburgo, na Escócia, em 1847, e com 24 anos foi morar em Boston, nos Estados Unidos, onde passou a ensinar fisiologia vocal. Trabalhando com surdos-mudos, estudou os fenômenos acústicos e foi iniciado nos princípios da física pelo Dr. Clarence Blake. Em 1871, tomou conhecimento de várias pesquisas envolvendo transmissão de sons a distância, realizadas na Europa, e, depois de cinco anos de trabalho, conseguiu estabelecer uma comunicação através de uma linha de três quilômetros de fio.


D. Pedro II e Bell

O primeiro encontro do nosso Imperador D. Pedro II com Alexandre Graham Bell ocorreu em março de 1876, e o assunto tratado não foi o telefone. D. Pedro foi para os Estados Unidos com o propósito de participar, em junho daquele ano, da Exposição Comemorativa do Centésimo Aniversário da Declaração de Independência. Chegando ao país com antecedência, visitou Bell em Boston com a intenção de pedir-lhe conselhos sobre o funcionamento da primeira escola de surdos-mudos que abrira no Brasil.

No dia 25 de julho, num dos stands da Exposição, aconteceu o segundo e mais importante encontro de D. Pedro com o inventor do telefone. Há semanas, Graham Bell estava operando sua invenção, não conseguindo atrair qualquer atenção. Era o dia do julgamento, a Exposição fechada ao público, e uma comissão de juízes, a pedido de Gardiner Hubbard - um dos comissários da mostra - foi dar uma olhada no telefone de Bell. No grupo, estavam o físico norte-americano Joseph Henry, Sir William Thompson, matemático e físico, Elisha Grey e, entre outras autoridades, D. Pedro II. Um dos juízes apanhou o telefone-receptor, sem demonstrar grande interesse, e logo colocou-o de volta ao gancho. Alguns chegaram a rir da aparelhagem e teriam seguido em frente, não fosse D. Pedro II, que, reconhecendo o professor, cumprimentou-o e se dispôs a experimentar o telefone. Vendo o interesse do ilustre visitante, muitos se aproximaram e, depois do presidente da comissão julgadora, D. Pedro colocou a pequena caixa no ouvido e após ouvir a fala de Bell, exclamou o que ficaria na História: "Meu Deus! Isto fala!". E felicitou o inventor, apertando suas duas mãos calorosamente. Em seguida todos quiseram experimentar o invento, que ficou, então, consagrado.

O telefone só seria apresentado à Europa na Exposição Universal, em 1878. Bem antes disso, em 1877, graças a D. Pedro II, o primeiro aparelho foi instalado no Brasil, no Rio de Janeiro, na casa comercial O Grande Mágico, de Antônio Ribeiro Chaves, localizada no Beco do Desvio, nº 86 (hoje Rua do Ouvidor). Era uma loja de aparelhos elétricos e novidades, e o telefone ligava o estabelecimento ao quartel do Corpo de Bombeiros. Em seguida outro aparelho foi instalado na firma Fernando Rodde e Cia e logo depois a Companhia Telegráfica Western instalou alguns telefones para uso interno. Em 1878, a loja de Antônio Chaves já tinha linhas para a Chefia de Polícia, a Corte e o Jornal do Commércio. O governo imperial mandou instalar aparelhos ligando as repartições públicas ao Palácio da Quinta da Boa Vista e à Quinta do Caju, residência de verão do Imperador. Por decisão do conselho do Estado, em 1881 ficou resolvido que o telefone seria exclusivo do governo, sendo este responsável pela instalação do serviço em qualquer lugar do país. Finalmente, em 1891, já no Brasil República, os serviços de telefone foram distribuídos da seguinte maneira: o município cuidaria dos serviços municipais, o estado dos serviços intermunicipais e o governo federal dos interestaduais e internacionais.




Graham Bell demonstrando sua invenção
Oficialmente, o telefone foi apresentado à Europa na Exposição Universal de 1878, em Paris, e mesmo aí D. Pedro II teve que interferir para o invento ser incluído na Seção de Eletricidade da mostra. Apesar do sucesso da exposição, não houve interesse do governo francês, e apenas o exército daquele país fez alguns testes sobre sua utilização. Um ano depois, três empresas privadas solicitaram concessão para criar uma rede telefônica. Em 1880, duas delas se fundiram para organizar a Companhia Telefônica, e a terceira cedeu seus direitos ao Banco Franco-Egípcio. Na metade do ano, a França conseguiu ter 306 assinantes, e uma outra fusão determinou o surgimento da Sociedade Geral dos Telefones, desenvolvendo-se rapidamente e conseguindo a primeira ligação de longa distância, Paris-Saint Quentin.

Uma ideia genial quem teve foi Clément Ader, com o teatrofone, que ligou por telefone a Ópera de Paris aoTeatro Francês, permitindo aos assinantes ouvir a interpretação dos grandes astros direto do palco. Foi tão grande o sucesso, que muitos assinantes, que utilizavam os sistemas Bell, Gower e Edison, adquiriram o microfone Ader. Em 1892, Ader e Berthon desenvolveram os primeiros aparelhos com fone e microfone acoplados. O governo francês estatizou os serviços de telefone em 1889, por decisão da Assembléia Nacional, colocando-os sob a direção dos Correios e Telégrafos.



A primeira central telefônica surgiu em 1889, quando o norte-americano Almon B. Strowger requereu uma patente para a central e fundou uma sociedade - Strowger Automatic Telefhone, atendendo inicialmente 75 assinantes. A primeira central telefônica da Europa foi criada na Alemanha, em 1908, com 900 assinantes. Em 1912, a França adotou as centrais tefefônicas, utilizando o sistema de Strowger. Com a automatização, o sistema de pedido de ligação, que era nominativo (o usuário tendo que pedir para falar com tal pessoa) precisou ser trocado para números, o que provocou essa pérola de um cronista de um jornal parisiense: "Para o prazer do Sr. Ministro dos Correios e Telégrafos e a despeito de nosso estado civil, não nos chamaremos mais Pedro, Paulo ou João, mas 100, 22 ou 366. Seremos numerados como os carneiros, os fiacres (carruagens de aluguel) parisienses e os condenados a trabalhos forçados..."

Em 1924, entrou em funcionamento, em Dieppe, um computador automático tipo Ericsson com a capacidade de mil linhas, ficando tal sistema em serviço até 1960. Depois disso, os avanços da ciência e a tecnologia nos alçaram aos satélites de comunicação e celulares, sendo possível fazer e receber ligação de qualquer lugar do planeta. Mas isso não é mais história: é realidade e devemos agradecer a Alexandre Graham Bell bem como (por que não?) ao nosso D. Pedro II.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal