O tempo que se chama hoje



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Encontro18.07.2016
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EXPECTATIVAS E ESPERANÇAS DOS PASTORES SOBRE A CONTRIBUIÇÃO DOS MOVIMENTOS ECLESIAIS E DAS NOVAS COMUNIDADES PARA A IGREJA

NA AMÉRICA LATINA
Dom Alberto Taveira Corrêa,

Arcebispo de Palmas – TO




  1. O TEMPO QUE SE CHAMA HOJE 1:

Todos nós, chegados a esta cidade que nos recebe com magnífica hospitalidade, desejávamos antes saber do clima e das vestes que nos seriam adequadas à estação do ano. E o acolhimento que encontramos nestes dias nos fez ir além de sol ou chuva, frio ou calor, para chegar à nova estação da vida de Igreja, o tempo da nova Evangelização em nosso continente, como “discípulos e missionários de Jesus Cristo para que nossos povos nele tenham vida”. Esta é uma estação de florescimento na vida da Igreja: "Apareceram flores na nossa terra, voltou o tempo das canções" (Ct 2,12).


Há alguns anos atrás, o grande Papa Paulo VI fez a Igreja mudar o seu ângulo de visão do mundo. Com a Evangelii Nuntiandi, ajudou-nos a superar algumas perguntas sobre as imagens da Igreja do futuro ou, quem sabe, do ministério ordenado, projetando-nos para o grande desafio da Evangelização. “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade” 2. Naquela época, a Igreja foi provocada a sair de si. Muitos dos Movimentos de Novas Comunidades surgiram justamente do impulso dado por aquele magistral documento, uma das jóias da coroa da Igreja no século XX.
Em 1978, entramos na notável estação do pontificado de João Paulo II que, durante vinte e seis anos conduziu a Igreja com o ardor da nova Evangelização. Dele acolhemos palavras fortes na Exortação Pós-Sinodal sobre a Igreja na América: “A singularidade e novidade da situação em que o mundo e a Igreja se encontram... e as exigências que daí derivam, fazem com que a missão evangelizadora atualmente requeira também um novo programa que, no seu conjunto, pode definir-se “nova”... Desejo ardentemente convidar todos os membros do Povo de Deus, e de modo especial os que vivem no Continente americano — donde fiz, pela primeira vez, apelo a um compromisso novo no seu entusiasmo, nos seus métodos, na sua expressão — para assumirem este projeto e colaborarem nele”3.
Ainda João Paulo II viu algo de nova estação quando, em 1978, na Mensagem enviada ao Congresso que antecedeu o memorável encontro do Pentecostes com os Movimentos e as Novas Comunidades, afirmou: “Os Movimentos eclesiais representam um dos frutos mais significativos daquela primavera da Igreja anunciada pelo Concílio Vaticano II4.

Nosso Papa Bento XVI, no mesmo Congresso, também se refere às “estações”: “No início dos anos setenta... falavam de “inverno” na Igreja; na realidade parecia que, depois do grande florescimento decorrente do Concílio, houvesse gelo em vez de primavera, cansaço em lugar de um novo dinamismo... Mas eis que, de improviso, acontece algo que ninguém havia projetado. Eis que o Espírito Santo, por assim dizer, toma a palavra de novo. E em pessoas tão jovens brotava de novo a fé sem "se" nem "mas", sem subterfúgios nem escapatórias, vivida em sua integridade como dom, como um presente precioso que faz viver”5.


Não surpreende que, com este pano de fundo, o Papa, já nas primeiras semanas de seu Pontificado, tenha decidido convocar os Movimentos Eclesiais para a Vigília de Pentecostes neste ano de 20066.
Tal decisão, em certo sentido, era anunciada em seu primeiro encontro com o Clero Romano: “Falastes da Paróquia como estrutura fundamental, ajudada e enriquecida pelos Movimentos... Justamente durante o pontificado de João Paulo II se criou um fecundo relacionamento entre a estrutura paroquial e o elemento carismático, que oferece novas iniciativas, novas inspirações, nova animação. Todos os Párocos podem juntos ser realmente responsáveis pelo crescimento da Paróquia, assumindo todos os elementos que podem vir dos Movimentos e da realidade vivida na Igreja em diversas dimensões”.
Idêntica orientação aparece no discurso à Conferência Episcopal Italiana em 30 de maio de 2005: “É muito importante que se reforce a comunhão entre as estruturas paroquiais e as várias realidades carismáticas surgidas nos últimos decênios, para que a missão possa chegar a todos os ambientes de vida”.
Com decisão o Santo Padre atraiu as atenções para a realidade dos Movimentos na missa de conclusão da Jornada Mundial da Juventude, em Colônia, no dia 21 de agosto de 2005. Depois de ter recomendado a todo o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, observou: “Obviamente, os livros sozinhos não bastam. Formai comunidades baseadas na fé! Nos últimos decênios, surgiram Movimentos e Comunidades em cuja força o Evangelho se fazem sentir com vivacidade”.
E continuou o Papa: “a espontaneidade das novas comunidades é importante, mas é também importante conservar a comunhão com o Papa e os Bispos. São eles que confirmam quando se está vivendo naquela grande família de Deus que o Senhor fundou com os doze Apóstolos”.
Nosso hoje de Igreja na América Latina e no Caribe acolhe a realidade e os desafios da nova estação!


  1. O QUE OS BISPOS ESPERAM DOS MOVIMENTOS E NOVAS COMUNIDADES?

A partir das breves referências ao magistério da Igreja, procuro identificar algumas tarefas que considero importantes, cujo conteúdo emerge justamente dos textos citados. Esperamos dos Movimentos e novas Comunidades:




    1. Evangelizar”! O surgimento dos Movimentos e das Novas Comunidades na Igreja pede que todas acolham de novo o desafio da Evangelização. Saiam de si mesmas e olhem para o mundo. Digam com o apóstolo: “Anunciar o Evangelho não é glória para mim; é uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho! (I Cor 9, 16)”. Nenhuma realidade da Igreja foi suscitada para os cristãos se olharem no espelho, mas para participarem do zelo pelo Evangelho, olhando para frente e para o alto.




    1. Compromisso novo no seu entusiasmo, nos seus métodos, na sua expressão”. Se os Movimentos e Comunidades são “novos”, haverão se exercitar a criatividade, deixando-se conduzir em sua oração e discernimento, para colocar à disposição da Igreja o que entenderam do novo de Deus para o nosso tempo. Não esperamos de vocês apenas uma repetição do que outras formas de dedicação a Deus oferecem. Tenham a coragem de ousar!




    1. Os Movimentos eclesiais representam um dos frutos mais significativos daquela primavera da Igreja anunciada pelo Concílio Vaticano II”. Se pelos frutos se conhece a árvore (Mt 7,20), já é possível verificar, pela história já significativa de muitas das novas realidades eclesiais, o que floresceu no campo da Igreja. Por outro lado, acrescento que um dos rebentos mais significativos (primavera!!!) é a alegria. Ouso dizer que os Movimentos e Novas Comunidades têm como tarefa a alegria que é um dos frutos da ação do Espírito. “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 22-25). Comuniquem a todos a perene jovialidade da Igreja.




    1. A fé sem ‘se’ nem ‘mas’ ”. Não é difícil percebeu que muitas das dificuldades encontradas pelos Movimentos e Novas Comunidades vêm da falta de testemunho de seus responsáveis e de seus membros. Isso conduz a uma perigosa generalização, na qual se julga o conjunto daquela realidade de Igreja. Esperamos de todos, como de resto esperamos de todos os segmentos de Igreja, um esforço imenso de superação das eventuais dificuldades. Cuidem de tornar prioritária a estrada mestra da santidade, segundo a recomendação do número 31 da Novo Millenio Ineunte: “É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta medida alta da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção. Mas é claro também que os percursos da santidade são pessoais e exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja”.

    2. O elemento carismático, que oferece novas iniciativas, novas inspirações, nova animação”. O que vocês têm de melhor é o próprio carisma! E Carisma não é dado para a vaidade própria. Carisma é dom que está em nós para os outros!




    1. Conservar a comunhão com o Papa e os Bispos”. Sejam fiéis à inspiração do Senhor, submetam-na ao Bispo, em sua Diocese de origem. Quando um Bispo acolhe uma realidade de Igreja, saibam que, malgrado nossos limites pessoais, ali está presente o exercício de um Carisma próprio do Episcopado, o discernimento.




    1. Referindo-se ao relacionamento entre os Movimentos e as Igrejas locais, no citado Congresso, o então Cardeal Ratzinger observou que“ existiram e existem também dificuldades sérias. Os Movimentos, de fato, mostravam sinais de uma condição ainda infantil. Colheram a força do Espírito, mas este Espírito age por meio dos homens e não os livra por encanto de suas fraquezas. Houve tendências ao exclusivismo, a acentuações unilaterais, com as conseqüentes dificuldades para a inserção nas Igrejas locais. De seu zelo juvenil, muitos tiravam conclusão de que a Igreja devesse elevar-se ao seu modelo e ao seu nível e não vice-versa... Aconteceram choques dos quais, de vários modos, foram responsáveis ambas as partes. Fez-se necessário refletir como as duas realidades...pudessem estabelecer um relacionamento justo” 7. Os bispos esperam dos Movimentos e Novas Comunidades um caminho de amadurecimento, na superação de exclusivismos e no estabelecimento de um fecundo caminho de diálogo.




  1. IGREJA PARTICULAR, MOVIMENTOS ECLESIAIS E NOVAS COMUNIDADES:

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) publicou nos últimos dias um Subsídio Doutrinal elaborado pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé.


Apenas para saborear um pouco a preciosidade do texto, apresento aqui um parágrafo que pode ajudar no relacionamento dos Movimentos e Novas Comunidades com as Igrejas particulares: “O Carisma autêntico trará sempre uma dose genuína de novidade na vida espiritual da Igreja, com operosidade peculiar e reveladora de fidelidade ao Senhor e de docilidade ao Espírito Santo. Essa autenticidade e essa eclesialidade se verificam à medida que a vivência do carisma se torna força e fecundidade para a ação evangelizadora na Igreja particular em que o movimento eclesial e a nova comunidade se inserem”.


  1. RECIPROCIDADE:

A via mestra passa pelo mandamento novo. O Cardeal Ratzinger, em 1998, citava o grande Servo de Deus João Paulo II: “Na grande Encíclica missionária Redemptoris Missio 8, João Paulo II escreve: “Estão presentes na Igreja vários tipos de serviços, funções, ministérios e formas de animação da vida cristã. Recordo, como novidade surgida em não poucas Igrejas nos tempos recentes, o grande desenvolvimento dos “Movimentos eclesiais”, dotados de dinamismo missionário. Quando se inserem com humildade na vida das Igrejas locais e são acolhidos cordialmente pelos bispos e sacerdotes nas estruturas diocesanas e paroquiais, os Movimentos representam um verdadeiro dom de Deus para a nova Evangelização e para a atividade missionária propriamente dita. Recomendo, polis, que sejam difundidos e acolhida que sejam valorizados para dar novo vigor, especialmente entre os jovens, à vida cristã e à Evangelização, numa visão pluralista dos modos de associar-se e de exprimir-se”.


De fato, seremos reconhecidos como discípulos de Jesus se nos amarmos uns aos outros. Inserção e reconhecimento cordial parecem-me duas palavras chaves para o processo a ser vivido.
Tomo a liberdade de contar uma breve experiência. Venho de um Movimento Eclesial, o Movimento dos Focolares. Dele participo ao lado de muitos outros Bispos. Ao mesmo tempo, sou assistente espiritual, em nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) do Conselho Nacional da Renovação Carismática Católica e tenho laços muito profundos com algumas das Novas Comunidades. Sou arcebispo de uma jovem Igreja, que está para completar dez anos, na qual estão presentes e atuantes os Movimentos mais significativos existentes no Brasil. Em nossa Arquidiocese de Palmas, há dezoito Congregações religiosas de vida ativa ou contemplativa e são quatorze as Novas Comunidades, quarenta e três os sacerdotes e dez diáconos.
Assumimos juntos os desafios missionários da implantação de uma Igreja. Superamos os preconceitos e os medos, provocados pelos desafios da Evangelização. Há dez dias, numa reunião com superiores e superioras religiosos, foi pedida a realização de encontros periódicos com as Novas Comunidades, porque também a vida religiosa quer conhecer e valorizar as novas realidades suscitadas pelo Espírito. Com as Comunidades, realizamos convivências periódicas de formação e partilha, com cerca de cento e cinqüenta missionários.
Os membros dos Movimentos e Novas Comunidades estão presentes nos Conselhos Arquidiocesanos e Paroquiais e são considerados em alta estima pelo Povo de Deus. Graças às Novas Comunidades, nossa Igreja, ainda pequena em suas estruturas, já conta com sacerdotes missionários, formados na Arquidiocese e enviados em missão, a partir de um acordo de cooperação com a Comunidade Canção Nova (quinze sacerdotes) e a Comunidade Obra de Maria (quatro sacerdotes), para falar daquelas que aqui se fazem representar.
Pela graça do Carisma da Unidade, no Movimento dos Focolares, aprendi a reconhecer e a valorizar a diversidade de dons na Igreja. E quanto mais sou Bispo da Igreja Católica, feliz em minha vocação, mais admiro a vocação das outras pessoas e agradeço ao Senhor pela ação do Espírito Santo, ao qual é consagrada a Arquidiocese de Palmas.



1 Cf. Hb 3, 13-15.

2 Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi, 14.

3 Ecclesia in America 66

4 Mensagem ao Congresso mundial dos Movimentos Eclesiais, n. 2.

5 Joseph Ratzinger, Congresso mundial dos Movimentos eclesiais, “Os movimentos eclesiais e sua colocação teológica”.

6 Cf. Silvano Cola, “La sinfonia della vita ecclesiale”.

7 Joseph Ratzinger, Congresso mundial dos Movimentos eclesiais, “Os movimentos eclesiais e sua colocação teológica”.

8 RM 72.



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