O trabalho do homem: desencadeador de saúde ou de doençA/sofrimento?



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O TRABALHO DO HOMEM: DESENCADEADOR DE SAÚDE OU DE DOENÇA/SOFRIMENTO?

Desde o início da existência humana, o trabalho fez-se presente, seja como atividade braçal e/ou atividade intelectual, porém o crescimento do homem, o desenvolvimento social, econômico e tecnológico tornou-se reflexo das mudanças provocadas pela própria evolução humana.

O trabalho, na história das sociedades, assumiu vários significados, e aqui apresentar-se-á, duas grandes versões, sendo a primeira sugerida por Mills (apud BORSOI, 1992) que os sintetiza da seguinte forma:


  • Gregos antigos: o trabalho embrutecia o espírito, tornava o homem incapaz para a prática da virtude, por isso, o trabalho mecânico era realizado por escravos;

  • Hebreus: o trabalho era um meio de expiação do pecado, era visto como labuta penosa à qual o homem fora condenado pelo pecado;

  • Rabinismo: o trabalho seria um exercício útil, não só flagelo da alma, e o reino de Deus seria o lugar do ócio abençoado;

  • Catolicismo: a) trabalho como punição para o pecado, saúde do corpo e da alma, meio de afastamento de maus pensamentos provocados pelo ócio;

"Para o homem Ele disse: Porque ouviste a voz da mulher e comeste da árvore, cujo fruto te proibi comer, amaldiçoada será a terra por tua causa. Com fadiga tirarás dela o alimento durante toda a vida. Produzirá para ti espinhos e abrolhos e tu comerás das ervas do campo. Comerás o pão com o suor do rosto, até voltares à terra, donde foste tirado. Pois tu és pó e ao pó hás de voltar".

(GÊNESES,3,17-19)

b) Santo Agostinho: trabalho obrigatório para os monges, necessário apenas para a satisfação das necessidades da comunidade, deveria ser mediado pela oração;



  • Protestantismo: a) Lutero: trabalho “é a base e a chave da vida”, modo de servir a Deus, meio de salvação, profissão e vocação; b) Calvino: trabalho é predestinado, é vontade de Deus, os frutos do trabalho não devem ser cobiçados, mas reinvestidos para incentivar mais trabalho, trabalho obstinado, maior alívio da culpa/condenação = vida santa e piedosa;

  • Renascimento: trabalho é estímulo para o desenvolvimento do homem e não obstáculo; através do trabalho o homem se torna criador. a) Da Vinci: exaltação do trabalho criador, trabalho = arte; 2) Bruno: glorificação do trabalho como arma contra a adversidade e instrumento de conquista;

  • Século XIX: inspiração na visão renascentista do homem como utilizador de instrumentos; divisão de trabalho; distribuição do produto; significado intrínseco do trabalho como atividade humana intencional.

  • Posteriormente, o trabalho perde tanto o significado de ato compulsório como o de arte e passa a ser um mal necessário, adquirindo uma conotação desagradável (características de tormento).

  • “Trabajo” (Espanha); “Travail” (França); “Travaglio” (Itália).

Pensando o trabalho, porém, em sua segunda versão, isto é, a partir de sua organização, encontra-se desde os antigos escritos da História da Humanidade, relatos dando testemunho de que o trabalho, dentro de determinadas condições, serve de instrumento de dominação e mais, se revela num instrumento de produzir sofrimento, dor e morte.

Mitodologicamente também se falava do trabalho, das formas de convivência, desenvolvimento e organização, de onde foram extraídos alguns princípios contidos nas relações interpessoais e o surgimento da necessidade do trabalho. Baseando-se em Guimarães (1992), falar-se-á do capítulo I das Metamorfoses em OVÍDIO, que explica as origens do mundo, do homem e das quatro idades que marcaram sua passagem pela Terra, sempre em narrativa poética. Descreve como aconteceu desde o princípio do mundo até a separação entre céu e terra, desta às águas, rios, montanhas e mares, ventos e nuvens, cada qual com poderes específicos e funções equilibradas.

Sempre sua descrição esbarra com a contradição entre a harmonia, o equilíbrio e luta. O homem foi criado como a necessidade de se criar um ser vivente mais nobre, mais dotado de espírito, sublime e que fosse capaz de exercer domínio sobre os restantes seres criados... "enquanto os primeiros estão naturalmente inclinados olhando para a terra, os homens foram feitos com o rosto levantado de forma a poder olhar para o céu e para as estrelas".

Descrevendo o mito das idades do mundo, OVÍDIO fala sobre a idade do ouro, onde não havia "castigo, nem terror, nem juizes e vítimas, soldados ou batalhas... A terra produzia tudo, sem a necessidade de arar os campos ou plantar sementes". A idade do ouro terminou com a morte de Saturno, destronado por seu filho Júpiter, que ao sucedê-lo, diminuiu a duração dos tempos em quatro estações - "inverno, verão, outonos inseguros e fugazes primaveras". Foi a partir daí que surgiu a fome, o frio, tiveram que procurar abrigo e trabalhar para se alimentar pela primeira vez.

A próxima idade é a da prata da qual "sucederam-se a do bronze e a do duro ferro, irrompendo toda a classe de perversidades, em uma idade do mais vil metal: fugiram a honradez, a verdade, a boa fé, e em seu lugar vieram os enganos, as maquinações, a violência, e a criminosa paixão de possuir... Apareceu a guerra".

Bonança e adversidade estão também presentes nesse trecho, caracterizando as quatro estações e ressaltando a noção de trabalho, que nada mais é do que agir sobre a natureza para dela extrair o sustento e a sobrevivência, isto é, a cada mudança de idade, o homem precisou aprender a viver e a sobreviver.

Quando a primavera terminou, foi sucedida pelo verão rigoroso, e após o outono, veio o forte inverno, para o qual os homens precisaram buscar abrigos e providenciar alimentos. Os princípios desta tarefa conotam a noção de trabalho com sofrimento permanecem, apesar de com o tempo se terem tornado mais sofisticados. Na medida em que os homens se viram obrigados a trabalhar, observou-se a organização e burocratização deste trabalho, acompanhado de uma "supressão do desejo", pela necessidade real de subsistir. Guatarri e Rolnik (1986 apud GUIMARÃES, 1992) já afirmavam que o DESEJO permeia o campo social, tanto em práticas imediatas quanto em projetos ambiciosos, e denominavam DESEJO a "todas as formas de vontade de viver, de vontade de criar, de vontade de amar, de vontade de inventar uma outra sociedade, outra percepção de mundo, outros valores". Em qualquer dimensão que se considere o DESEJO, ele nunca é uma energia indiferenciada, nem uma função da desordem. É sempre o modo de produção e de construção de algo.
Visto desta forma, o desejo é importante e necessário, assim como também a consciência e a manifestação da vontade quando se fala em construção do conhecimento, em construção do saber, em trabalhar, entre outras esferas, deixando claro o quanto se precisa ter esse alimento fundamental para se realizar as tarefas às quais o indivíduo se propõe.

Quando não há essa energia, ou quando o desejo encontra-se escondido ou reprimido, tudo que diz respeito à atuação do indivíduo, fica prejudicada, e se pode perguntar: o que aconteceu com a criatividade, com o entusiasmo, com o espírito inventivo, com a curiosidade, "motores impulsionadores da renovação e da mudança"?; como lidar também com as contradições, os medos, as desordens das organizações, os limites entre o possível e o impossível?


Acredita-se que o que se precisa pensar aqui é na necessidade de se readquirir o prazer e ter consciência do significado do seu trabalho e de sua vida. Segundo Guimarães (1992), proceder com a reapropriação por parte de cada um dos aspectos de sua vida, de seu trabalho, rompendo com o fechado, com o bloqueado, de forma a permitir a emergência de tudo aquilo que é próprio das pessoas.

Em outras palavras, lembrando Dejours (1986), substituir o medo pela coragem, o sofrimento pela recuperação da dignidade e da condição de cidadania.


O trabalho aparece, muitas vezes, como uma possibilidade aniqüiladora da saúde e da dignidade do trabalhador, além de se prestar como instrumento de poder, de opressão social e política. Além disso, o trabalho é um campo estudado pelos diversos ramos da ciência, constituindo-se hoje em uma área multidisciplinar.
Segundo Albornoz (1994 apud MAURO, GIGLIO & GUIMARÃES, 1999) em todas as línguas da civilização européia o trabalho tem mais de uma significação. Em português, a palavra trabalhar, apesar da existência do sinônimo labor, suporta ambas as significações: a de realizar uma obra que expresse o sujeito, que dê reconhecimento social e permaneça além do nível individual da sua vida, e a de esforço rotineiro e repetitivo, sem liberdade, de resultado consumível e de incômodo inevitável.
A Constituição Federal do Brasil, art. 160, Parágrafo II, estabelece que "O trabalho é uma atividade central do homem e sem ele, o homem não tem existência digna, desde que o possa realizar em qualquer das suas modalidades éticas".
O trabalho é, em geral, definido como uma atividade específica da espécie humana, pela relação que estabelece entre o homem e a natureza. Tem um caráter humanizador, uma vez que, através desta relação, o homem se distingue do animal ao produzir seus meios de subsistência.

Foi o Taylorismo, no final do século XIX que veio comprometer este caráter humanizador, quando, preocupado com o aumento da produtividade, aperfeiçoa a divisão social do trabalho: instala-se a divisão das funções (tarefas) e a conseqüente fragmentação do trabalho.

A fragmentação das atividades que ocorreu nas fábricas facilitou ao capitalista ser o único a Ter o controle do produto final. O trabalhador perdeu o controle sobre o que produz, perdeu a noção de totalidade; perdeu também o produto de seu trabalho, que não mais lhe pertence, gerando a alienação.

Dejours (1987 apud MAURO, GIGLIO & GUIMARÃES, 1999) também chama a atenção para o regime taylorista imposto ao trabalhador, que bloqueia o funcionamento espontâneo da atividade mental (quando o trabalhador não tem controle sobre o processo de trabalho; quando há falta de identificação com o conteúdo da tarefa; quando as tarefas são repetitivas, monótonas), gerando um sofrimento mental ante a impossibilidade de sublimação da frustração.

O trabalho perdeu, então, o vínculo com as outras atividades do homem, sendo que o trabalhador já não mais detém o conhecimento do processo de trabalho, ficando prejudicado no convívio com as pessoas.

Segundo ainda Dejours, o trabalho é a ocasião do sujeito prosseguir seu questionamento interior e traçar sua história, inserindo-se em relações sociais para as quais pode transferir o questionamento do seu passado e de sua história afetiva. Traz a possibilidade de jogar com o sofrimento, levar a descobertas e criações socialmente úteis e trazer em contrapartida o reconhecimento e a identidade.



Portanto, o prazer no trabalho é um produto derivado do sofrimento, que adquire um novo sentido, dando acesso a uma história, a uma renovação. Pela série encadeada de suas descobertas ou de suas invenções, o sujeito se experimenta e se transforma. Assim, é um erro querer eliminar os sofrimento do trabalho. Antes, deveria proporcionar condições aos trabalhadores de poder gerir seu próprio sofrimento em proveito de sua saúde e, conseqüentemente, em proveito de sua produtividade (MAURO, GIGLIO & GUIMARÃES, 1999).

Para que isso seja possível é necessário que o homem escolha o trabalho a realizar, que ele não seja imposto; deve também ser resultado de suas possibilidades e deve estimulá-las; a criatividade será aqui utilizada no trabalho, e se desenvolverá em função dele; deve ainda ser útil ao indivíduo e à sociedade, de modo que o trabalhador possa sentir-se AUTOR de algo. Deverá o trabalhador também ser o SUJEITO, o PROTAGONISTA de toda investigação que se fizer sobre o trabalho, pois ele não é mais como parte de um conjunto mecânico, como uma variável a ser adaptada aos processos e às relações de produção historicamente dada, como na administração taylorista.


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