O universo tátil



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Encontro29.07.2016
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O universo tátil
Joana Belarmino.
Eu queria iniciar a minha fala convidando os presentes a visualizarem uma situação que provavelmente muitos aqui já vivenciaram. Imaginem que vocês estão em uma exposição de arte em que um artista realizou uma produção inteiramente voltada a pessoas cegas. Associações e escolas organizam grupos de pessoas cegas, a mídia acorre ao evento, exaltando a iniciativa do artista. No entanto, com raras exceções, no geral, o que se assiste nessas exposições é uma cena em que idealizadores do projeto sorriem para a mídia, explicando a sua “produção tátil”, enquanto que pessoas cegas desapontadas tateiam as criações, mantendo com as mesmas uma comunicação incompleta, ou mesmo se quer atinando com o sentido das obras.

Por quais razões essas situações são tão freqüentes? O artista plástico teria fracassado no seu intento por não conhecer a fundo os mecanismos para a tradução de suas obras em uma linguagem tátil? As pessoas cegas levadas àquela exposição teriam sido convenientemente estimuladas tatilmente desde a infância?

As duas indagações podem conter um fundo de verdade; no entanto, a cena aqui imaginada é apenas um dos muitos exemplos demonstrativos de que o universo tátil ainda é muito pouco conhecido em sua complexidade, sua riqueza e sua importância na vida das pessoas cegas. Sabe-se que 80 por cento dos estímulos do ambiente que chegam ao nosso cérebro são captados pelo olho. Pode-se mesmo afirmar, que no geral, as culturas humanas são “visuocêntricas”. Nem sempre nos damos conta, no entanto, em todos os momentos das nossas vidas vivenciamos experiências táteis, sejam elas intracorporais, (sensações de dor, formigamentos, desejo sexual), sejam sensações externas, de temperatura, de forma, de textura. Nosso corpo todo é uma grande plataforma de comunicação com o ambiente e com o nosso cérebro, comunicação que se refina e se qualifica nas terminações nervosas, sobretudo das pontas dos dedos. Mas não damos muita importância a isso, seja no nosso quotidiano, seja do ponto de vista da perspectiva científica.

É patente o esforço da filosofia, desde a tradição grega, no sentido de associar conhecimento à visão e de demonstrar que os olhos são o espelho da alma humana.

Se dermos uma olhada em bons livros da atualidade que se dedicam à pesquisa biológica, à pesquisa antropológica e neurocientífica, sobretudo àquelas obras que se ocupam em discutir a questão da origem da vida na terra, encontraremos em quase todos esses livros, um ou mais capítulos dedicados ao olho, essa engenhosa ferramenta engendrada pela natureza para todas as espécies do reino animal.

Obviamente que o complexo tátil também é referido nessas obras a partir de citações sucintas, que acentuam sua condição de sistema complementar ao sistema da visão. No seio dessas chamadas culturas visuocêntricas, há, porém, grupos de indivíduos que estruturam o seu “perceber” e “estar” no mundo pela via desse complexo tátil que a ciência chama de “somato-sensitivo”. Falo daquelas pessoas que por razões as mais variadas, causas genéticas, causas acidentais e outras, estão privadas do sentido da visão.

O complexo tátil é, para essas pessoas, o canal central de percepção do mundo, a estratégia fundamental que lhes permite estruturar os esquemas mentais do seu contexto sócio-cultural. O esquecimento ou atitudes que visem relegar essa realidade a um segundo plano, podem comprometer irremediavelmente projetos que envolvam ações pedagógico/educativas, ações de orientação e mobilidade, ações de reabilitação, ações que visem a tradução de imagens para a linguagem tátil.

Para o neurocientista Antonio Damásio, esse complexo tátil que envolve corpo e cérebro em comunicação com o ambiente compreende três subdivisões básicas: a divisão do meio interno e visceral, responsável pelas sensações internas do nosso corpo comunicadas ao cérebro; a divisão vestibular e músculo-esquelética, que leva ao cérebro informações sobre temperatura ambiente e outras sensações externas da pele; e a divisão do tato discriminativo, concentrada, sobretudo, nas mãos e nas pontas dos dedos.

É para essa terceira subdivisão, a do tato discriminativo, que quero voltar a minha atenção nesse painel. Quero me deter particularmente, em um aspecto dessa temática que não tem sido convenientemente investigado pela pesquisa científica, pela pesquisa bioantropológica e neurocientífica, pela própria pesquisa biológica.

Falo dessa percepção tátil do mundo, praticada ao longo das culturas humanas pelos indivíduos cegos, e que nos últimos 170 anos, experimentou uma espécie de salto de qualidade, foi convocada a um exercício muito mais complexo do que aqueles gestos quotidianos de discriminar objetos, texturas e formas; foi convocada a reabilitar indivíduos, a libertá-los da bolha de ignorância e exclusão em que se achavam mergulhados, para assentá-los de vez no âmago de uma cultura: a cultura letrada; para instrumentalizá-los com uma ferramenta fundamental: uma complexa interface de comunicação com essa cultura, uma tradução das múltiplas linguagens da cultura escrita a uma linguagem tangível ao tato discriminativo.

Estou falando da conquista do sistema Braille, método natural e direto de leitura e escrita das pessoas cegas, surgido no mundo a pouco mais de 170 anos, mas que se mantém até nossos dias como a mais completa ferramenta de que dispõem esses indivíduos para o acesso à cultura escrita.

É comum afirmar-se que o sistema Braille promoveu uma verdadeira revolução na vida das pessoas cegas. Conhecemos de perto o capítulo das chamadas conquistas sociais; sabemos que o Braille qualificou sobremaneira a posição desses indivíduos no espaço social mais amplo, permitindo-lhes aceder à esferas as mais variadas, no âmbito profissional, intelectual, estético, afetivo, etc.

Para além dessas conquistas sociais, é necessário que apreciemos, no entanto, um outro tipo de revolução advinda com o invento de Braille.

Falo de uma revolução menos visível, porém, bem mais complexa, por que exige o olhar atento de um conjunto de ciências preocupadas com a evolução da vida na terra, e com as soluções bioantropológicas que qualificam e refinam a permanência dos seres da espécie humana no planeta.

Falo, pois, da revolução bioantropológica que o sistema dos seis pontos de Braille disparou nos cérebros das pessoas cegas, revolução esta que do ponto de vista do tempo gasto pela natureza para gestar a evolução das espécies se processa num tempo imensamente curto. Porque é certo que transcorreram milhares e milhares de anos em que se produziu um profundo hiato, um fosso aparentemente intransponível entre a cultura da escrita e os indivíduos cegos. Milhares e milhares de anos, até que surgisse a solução adequada que viesse por fim a esse hiato e fosse apresentada a solução que permitiria aos cegos de todo o mundo, o acesso à cultura escrita. Ainda não são passados duzentos anos do advento do Braille; Ainda não são passados duzentos anos daquele momento primordial em que pela primeira vez uma pessoa cega pôde tocar num arranjo duro de pontos e decifrar ali uma palavra. Num dia qualquer da segunda década do século XIX, um garoto franzino tocou pela primeira vez num arranjo duro de seis pontos justapostos e deflagrou com seu gesto, o nascimento de um acontecimento primordial na vida das pessoas cegas. Aliás, permitam-me um parêntesis. Por diversas vezes, em diversos lugares, tive que descrever, no plano das idéias, esse acontecimento primordial do invento de Braille. Em cada uma dessas ocasiões, do mesmo modo que ocorre agora, a emoção que experimentei e experimento é sempre genuína e indescritível.

Que diálogo teria se estabelecido entre a sua mão e o seu cérebro? Que tipos de sinapses e conexões compareceram em seu neocórtex, no ato primeiro da decifração desses seis pontos em letras e palavras? Qual o endereço neuronal dessa transação entre mão e cérebro, a partir dessa nova interface de tradução do mundo da escrita? Em que medida nossos cérebros são hoje mais funcionais, mais competentes, do que os cérebros anteriores ao invento do Braille, em que dormia a possibilidade dessas conexões novas disparadas a partir da leitura e da escrita em relevo?

Todas essas perguntas são fascinantes, e exigem mesmo que lhes seja dada a devida atenção, por parte das ciências competentes. No entanto, ainda que não possuamos o mapa completo dessa revolução bioantropológica, podemos extrair de tudo isso uma conclusão fundamental:

A célula de Braille qualificou e refinou o universo tátil, convidou-o à uma empreitada muito mais complexa do que aquelas tarefas mecânicas de discriminar objetos, ou de desenvolver habilidades manuais para o encaixe de peças, serviços de tecelagens e outros; convidou-o ao exercício de engendrar e decodificar a competente plataforma que de agora em diante permitiria aos indivíduos cegos o registro e o acesso à memória cultural escrita, tida talvez como um dos maiores legados da humanidade.

É, sobretudo, com a instituição do “indivíduo cego leitor”, que fica demonstrada a qualidade dessa ferramenta, no sentido de valorização e refinamento do sentido do tato. Num processo de alfabetização normal, o cérebro de uma criança cega aprende cedo a gramática própria do método, combinando espaços em branco e pontos em relevo; antes de ler as primeiras sílabas, frases e palavras, o cérebro do pequeno leitor conhece as palavras básicas formadas pela combinação do relevo e do vazio. O dedo toca suavemente as letras e realiza numa codificação nova, o velho exercício de outros homens leitores que já a milhares de anos habitavam o mundo da cultura. Leitores cegos de livros de verdade, não mais em madeira ou fundidos em metal, mas impressos em papel, reproduzindo em relevo, a codificação tradicional da “cultura livresca”.

Um biólogo alemão criou um conceito interessante para caracterizar o ambiente que é percebido e estruturado pelas espécies vivas, a partir das suas percepções particulares, as quais são construídas a partir dos seus condicionamentos biológicos e contextuais. Esse ambiente percebido é chamado pelo biólogo de “Umwelt”, e em seus estudos ele demonstra como algumas espécies vivas, ou mesmo grupos de indivíduos dentro de uma espécie, a partir de características sui generis, têm refinado e qualificado esse seu “Umwelt”, a partir de estratégias que ampliam a sua percepção de mundo.

Numa reapropriação do conceito biológico, a teoria geral dos sistemas sustenta que os organismos vivos são sistemas abertos e dinâmicos, que vivenciam uma troca permanente de matéria e energia com o meio ambiente, o que os obriga a estratégias permanentes que lhes possibilitem codificar e descodificar o fluxo informacional gerado entre si e o ambiente.

Obviamente que ao tempo de Luís Braille sequer haviam sido postuladas as teorias cibernéticas, teorias dos sistemas e da informação, mas é singular a sintonia que se descobre entre a célula básica do seu sistema e o espírito de um tempo em que se desvendavam as linguagens binárias e se verificavam as primeiras descobertas e as concepções científicas que consolidariam a chamada “sociedade tecnológica”, se quisermos, a “sociedade informacional”.

Se prosseguirmos em nossa análise, aliando o invento de Braille ao projeto global da cultura humana no planeta, veremos, pois, que essa conquista bioantropológica amplia-se ainda mais, convertendo-se mesmo em uma conquista ecológica e cósmica.

A ciência tem admitido que quanto mais o homem for capaz de transcender os limites do seu cérebro, quanto mais ele colocar a disposição da cultura, plataformas de memorização extra-cerebrais, quanto mais ele for capaz de qualificar e refinar o seu “Umwelt”, mais ele estará assegurando a permanência da sua espécie no planeta. A garantia da permanência da espécie no planeta não se dará senão, sem ferramentas que qualificam e refinam o nosso corpo biológico e o nosso “estar” e “ser” nesse mundo. E o que é a história das descobertas técnicas senão a história dessa evolução firmada na qualificação e no refinamento desse nosso “estar” no mundo?

A matriz dos pontos de Braille, esse pequeno filete de seis pontos justapostos, é uma peça fundamental nesse processo. Ela nos torna visíveis dentro de uma cultura onde se quer nos convidavam a sermos coadjuvantes. Ela nos convoca ao exercício da filosofia, da poética, da música, da matemática, da cartografia, da literatura, agora não mais pela via do discurso oral, mas com poder de co-participação na elaboração e no acesso ao registro escrito de todas essas dimensões da cultura; ela nos permite mesmo pensar na idéia da cegueira não apenas nos seus aspectos limitativos, mas, sobretudo, nos leva a percebê-la como uma forma de visão, não mais uma espécie de visão mágica, “adivinhatória” e por si só excludente, mas uma visão particular do mundo, que a partir da leitura e da escrita, se refina e se qualifica, alcançando no limiar do terceiro milênio, importantes conquistas também no âmbito das interfaces tecnológicas.

Foram somente seis pontos que deram começo a essa revolução. Uma revolução que do ponto de vista do tempo evolutivo global da vida na terra é infimamente curto. pois se afirma que começamos com o big bang; por milhões e milhões de anos, a terra revoltou-se em ciclos revolucionários de choques com asteróides e cometas; a vida pode ter surgido desse caldo primordial que era um jeito líquido da terra em sua luta para se estabelecer como planeta.

De revolução em revolução, estamos nós aqui, a confrontar dois mundos tão diversos. O mundo pré-braille e o mundo pós-braille. Estamos, pois, a falar da revolução particular que afetou as pessoas cegas. Uma revolução que ainda não completou duzentos anos, e está se processando agora, enquanto leio essa página, tão sutil quanto a brisa que toca de leve as folhas das árvores, mas fundamental para que pudéssemos forjar também a nossa assinatura em relevo no livro da vida.

Referências bibliográficas
BELARMINO, Joana. Associativismo e Política: A luta dos grupos estigmatizados pela cidadania plena. João Pessoa: Editora Idéia, 1997.

______. O que vê a cegueira? Revista Benjamin Constant, n. 18, ago. 2000.

DAMÁSIO, Antônio. O Mistério da Consciência: Do corpo e das emoções ao conhecimento de si. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

______. O Erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.



EPSTEIN, Isaac. (Org.). Cibernética e Comunicação. São Paulo: Cultrix, 1973.


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