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O uso da comunicação social nas organizações do terceiro setor em Palmas/TO

Autores

Maiara Sobral Silva1

Verônica Dantas Meneses2
Resumo: O presente artigo procura abordar como as organizações que compõem o Terceiro Setor em Palmas estão se articulando na capital do Tocantins e quais suas características e principais tendências, entre elas, como está sendo articulada a comunicação social no setor. Palmas é uma cidade nova, composta por habitantes de diversos lugares, e este fator pode influir no perfil deste setor, apontando para a contribuição para um enraizamento social. Nesse sentido, aliado a observação do grande número de parcerias entre organizações da sociedade civil e os governos, a comunicação ganha um papel ainda mais importante tendo em vista que estas organizações necessitam de maior divulgação e inserção social, quer na busca das parcerias com o Estado e mesmo com o mercado, quer na articulação dos seus membros. É um estudo preliminar de verificação das articulações entre comunicação e terceiro setor e as parcerias com o Estado em Palmas.

Palavras – chave: Comunicação; Terceiro Setor e Visibilidade.


Introdução

A crescente estruturação das organizações da sociedade civil em busca de alternativas para sua manutenção nos atuais contextos econômicos e sociais, com vistas a buscar recursos para a sobrevivência e disputar visibilidade diante da sociedade cada vez mais competitiva, motivou esta pesquisa, fundamentada na caracterização, descrição do perfil e na reflexão das perspectivas futuras das organizações do Terceiro Setor em Palmas/ Tocantins.

Tocantins é um Estado novo, no entanto, possui na sua história, focos de efervescência política, social e cultural em que se destacam as manifestações separatistas do antes denominado Norte de Goiás, a formação cultural diversificada com a presença de comunidades indígenas, negras, rurais e migrantes sulistas, e ainda a forte atuação de grupos oligárquicos, que mantém uma situação de paternalismo político até os dias atuais.

Nesse contexto, Palmas, pelo caráter de sua criação, contempla grupos específicos de organizações que constituem o Terceiro Setor, as quais possuem especificidades que caracterizam e denunciam a história e as relações sociais da mais nova capital do país. A partir deste estudo, pretende-se estabelecer um perfil do terceiro setor em Palmas, a partir de concepções teóricas e pesquisas qualitativas e quantitativas que definirão quais são estas organizações, suas características e perspectivas.

Este estudo tem relevância, visto que, o Terceiro Setor é um objeto de estudo eminente no Brasil, já que este tem crescido de maneira rápida e articulada. A pesquisa trata do Tocantins como um todo, mas o foco principal é a capital Palmas, isto porque ela é uma cidade nova com habitantes de diversos lugares, pode – se assim mostrar que o setor estudado aprece como alternativa de enraizamento social.

Nota – se em Palmas uma característica burocrática do setor, pois quase todas as entidades têm ligação com Estado, desta forma movimentam dinheiro publico. Infelizmente o Terceiro Setor está suscetível a manobras de interesse pessoal, isto prejudica as instituições sérias, que realmente se preocupam em alavancar o setor e ajudar ao próximo.

As entidades aparecem como forma de auxìlio ao Estado, estas não pretendem preencher todos os vazios deixados pelo Estado, mas sim colaborar para o bem estar social de todos. Visto que as cidades estão em processo de inchaço e cada vez fica mais difícil para o governo manter a sustentabilidade de todos.

A pesquisa é inovadora e desafiadora, porque apesar de instigante o tema é muito abrangente, por conseqüência sua delimitação é complicada. Com estes estudos pretende – se inovar o campo de pesquisa palmense em Comunicação Social, assim como esclarecer as dúvidas da sociedade a respeito do assunto, que ainda é pouco discutido no meio social.


Retrospectiva histórica

O caminho percorrido pelo setor no Brasil e no mundo, evidencia a importância das instituições privadas, com finalidades públicas. O mesmo só passou a ser reconhecido através dos trabalhos das Ongs a partir dos anos 80 e ganha força mundial em 1990, quando as Nações Unidas promove uma série de Cúpulas Sociais para formulação de uma agenda social, com ênfase global. Segundo o sociólogo Silvio Caccia Bava o elemento de identidade dessas organizações é o fato de serem sem fins lucrativos, e que não se pautam pelas leis mercantis e caracterizam-se pela promoção de interesses coletivos (ABONG).

O conceito de movimento social vem sendo discutido ao longo da expansão do Terceiro Setor, são muitas críticas, reformulações, discussões, porém tomando o Brasil, por exemplo, “é inegável que deram origem a um expressivo campo ético – político, com importantes rebatimentos no processo político brasileiro” (DOIMO: 1995).

De que forma foi formada a identidade dos movimentos sociais brasileiros é um tópico muito debatido. Na época da ditadura os movimentos viviam na clandestinidade e após a abertura política os mesmos começaram a aliar – se com o estado em busca de melhorias, mas o problema é isto ocasiona uma troca de favorecimentos e muitas vezes o bem estar público não é o que importa.

Como no regime militar o estado era visto como tirano e perverso os convênios com este eram vistos como abomináveis, porém a partir de 1985 os movimentos iniciaram uma corrida por parcerias. Os acordos não devem ser crucificados, acontece que raramente as instituições públicas relacionam – se com o Terceiro Setor sem segundas intenções.

Assim a nomenclatura “novos sujeitos coletivos” que circulou pela década 70, como definição para os movimentos independentes e autônomos, cada dia perde mais em significação, pois a presença do estado é incontestável. Desta maneira a crise do termo movimento social é notória, porque com a evolução política, histórica e econômica ele foi ganhando novos significados e sujeitos, passando da época em que designava o movimento operário europeu até o presente, onde adquiriu formas generalizadas para significar “as novas experiências participativas não oriundas das relações produtivas”.




Terceiro Setor
As mudanças ocorridas no mundo com a globalização, o novo momento de ocidentalização e as forças do mercado têm criado situações cada vez mais conflitantes e excludentes (IANNI, 1993: 48). Para Zygmunt Bauman, nesse jogo, elite e periferia num contexto global estão internamente ligadas, e as conseqüências humanas, melhor, desumanas, provocadas pela primeira em relação à segunda são nefastas e grotescas (BAUMAN, 1999).

Nesse novo momento, os Estados perdem a sua soberania e as discussões, que antes pareciam tão individuais, ganham dimensão mundial; o capital absorve a cultura e a informação, que passam a circular de forma global e mercadológica. “Dissolvem-se fronteiras e desenraizam-se as coisas, as gentes e as idéias. Formam-se linguagens globais” (IANNI, 1993: 48). É nesse contexto se articula o Terceiro Setor, que atua num espaço híbrido entre o público e o privado buscando diminuir essas diferenças.

Segundo Castells (2000), a organização econômica da sociedade está enraizada em culturas e instituições, assim o Terceiro Setor não deve ser analisado apenas pelo prisma econômico ou social, pois este como qualquer forma de organização é muito mais complexo e dinâmico do que se imagina. Nesse sentido, buscamos o viés que estuda o setor de uma forma integrada ao contexto econômico-político e social, evitando as análises românticas que predominam ainda boa parte dos teóricos da área.

A expressão Terceiro Setor é utilizada para indicar grupos organizados da sociedade civil por meio de demandas e interesses comuns. São iniciativas privadas, mas com fins públicos e sem fins lucrativos. Neste meio, encontra-se além do Estado e do Mercado, as iniciativas privadas e sem fins lucrativos, que buscam a expansão do mercado. Fazem parte do setor organizações não-governamentais, associações, fundações, entidades filantrópicas, culturais, educativas e de classe etc. nesse sentido, é importante antes de qualquer estudo, analisar o setor por categorias, pois tratado de maneira geral ele reúne organização as mais divergentes como fundações filantrópicas e as vinculadas a empresas do mercado, movimentos sociais, sindicatos e até mesmo fundos de pensão.

O surgimento deste setor rompe com a dicotomia entre público e privado, pois oferece serviços públicos baseando-se em iniciativas privadas. Nesse sentido, segundo Maria da Glória Gohn (1995), o que caracteriza este setor é um tipo de investimento social, e mais além, é a expressão da participação e da cidadania representada pelo envolvimento das pessoas em torno das discussões e soluções de suas demandas. O setor teve uma origem marcada pela filantropia, sobretudo proporcionada pela Igreja Católica, porém com a globalização e as mudanças ocorridas no mundo, ele tem modificado sua essência, tornando-se cada dia mais pluralizado e com funções e fins os mais diversificados.

O Terceiro Setor constitui no Brasil uma forma de ampliação da esfera pública. As Ongs são as principais responsáveis pela atual denominação desse novo espaço: terceiro setor, segundo a tradição norte-americana, e sociedade civil, de acordo com a tradição européia. Elas surgiram com uma atuação crítica servindo de apoio aos movimentos populares (ONGs-AMPs), a exemplo dos Centros de Educação Popular, Centros de Assessoria ou Centros de Apoio, a partir do golpe militar de 1964. Ligadas a grupos populares e com o apoio da solidariedade internacional, estas Ongs se desenvolveram no espaço entre a igreja católica, a universidade e os grupos de esquerda. Sua estrutura administrativa era informal, basicamente sustentada pelo trabalho voluntário (DOIMO, 1995; GOHN, 1997).

As características do modelo latino-americano no campo da teoria dos movimentos sociais até os anos 1970 perpassam pela preocupação com as mobilizações e a pouca teorização. As principais referências são: a teoria da modernização, da marginalidade social e da dependência, todas centradas na hegemonia das elites e nos processos de desenvolvimento (GOHN, 1997).

As categorias históricas destacadas nos estudos pós-70 dos movimentos sociais na América Latina são marcadas pelas particularidades da sua ocorrência, sobretudo a realidade latino-americana marcada pelo coronelismo, clientelismo e pelo patrimonialismo, que resultou em poucos espaços democráticos; com isso, explicam-se as diferentes formas das lutas sociais e dos movimentos, a maioria com conotação popular. Podemos destacar alguns períodos importantes de constituição do terceiro setor no espaço público. Gohn considera o período entre 1978 e 1989 no Brasil a era da participação, período marcado por tensões políticas provocadas pelo regime militar e, conseqüentemente, pela luta pela redemocratização do Brasil, quando predominavam os movimentos urbanos, dotados de práticas sociais e de princípios de organização comunitária, baseados na autonomia. Depois disso, até 1990, verifica-se um déficit tanto de mobilização como de produção teórica sobre eles.

Nos anos 1980, verifica-se uma maior estruturação das Ongs no sentido de atender aos requisitos das agências estrangeiras, cada vez mais exigentes. De meados de 1960 para fins de 1980 houve grandes mudanças no Brasil, com políticas, trabalhistas, econômicas e sociais. O processo de modernização também trouxe uma maior disposição a práticas associativas. Todos esses fatores, sobretudo a transição política, desenvolveram uma ação mais ativa e propositiva e a constituição de um espaço público específico (GOHN, 2000). O período de 1990 marca a presença de movimentos diversos, que buscam a defesa de grupos minoritários como as mulheres, o movimento ambiental, os direitos humanos etc.

As Ongs possibilitaram, portanto, a formação de um campo de ação social, este entendido como espaço de luta por capitais simbólicos e materiais. Gohn levantou a questão, em vários trabalhos, da diminuição das responsabilidades do Estado quanto às formas de participação dos cidadãos nas decisões estatais. A autora observa que o assistencialismo tem tomado um caráter oficial, ao invés de promover políticas públicas que de fato tragam benefícios mais gerais e estáveis, não apenas programas que “enfatizam apenas os deveres e ignoram os direitos dos cidadãos” (GOHN, 2000: 7). Nesse sentido, as próprias organizações não-governamentais, associações de bairro, sindicatos, estão praticando mais uma participação outorgada, como diz a autora, no lugar das práticas politizadas que caracterizaram os anos 1980.

De forma superficial, podemos dizer que os movimentos procuram organizar-se mais coletivamente e chamar a atenção nacional. A ampliação do acesso à informação tem mudado os cenários de luta de antes. E a mídia tem impulsionado freqüentemente novos temas e campanhas; ela, agora, fazendo o agendamento dos temas sociais. Hoje, palavras como solidariedade, voluntarismo, substituem a defesa da mobilização mais engajada e politizada (GOHN, 2000).

Outra tendência é a organização de grupos na sociedade que buscam uma alternativa aos conflitos e aos problemas do mundo globalizado. Castells nos fala de um recomunitarismo, no qual as pessoas se organizam e compartilham valores comuns. Em Palmas, essa tendência parece ser mais evidenciada, pois as pessoas procuram se reunir em grupos com valores e interesses comuns a fim de criar uma relação maior de pertencimento e enraizamento ao lugar, aliviar a distância de seu lugar de origem e a ausência do convívio familiar.

Hoje, o quadro também aponta para a crescente organização em torno de redes de trabalho, estruturadas em torno de temas como voluntariado, responsabilidade social, princípio da empresa cidadã etc. A articulação deste setor em redes está ganhando um papel preponderante na organização das atividades do Terceiro Setor atualmente. Sobre esse assunto, uma pesquisa realizada em ONGs associadas a ABONG (Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais) entre agosto e novembro de 2001 evidenciou ser a associação importante como espaço de articulação: 83,67%; intervenção no espaço/debate público: 76,02%; articulação de informações/contatos: 65,82% e representação das associadas: 64,29%. Os principais campos de articulação citados são os fóruns (78,06%), as redes (71,43%) e os conselhos paritários (45,92%).

Com isto, a tarefa agora implica “reconhecer, entender e encontrar as formas de relacionamento entre agentes com lógicas distintas de atuação em torno de objetivos comuns, sem perda de identidade e desvio de suas missões institucionais” (BNDES, 2001: 27). A interação de ações e agentes sociais tendencia a noção de co-responsabilidade quanto aos complexos problemas sociais brasileiros. Isso se evidencia na formação de parcerias entre diversas ONGs e associações sobretudo com os governos.

Portanto, é explicável a crescente criação de vários cursos e instrumentos voltados para o planejamento, a gestão e o marketing de instituições do terceiro setor; para estratégias de captação de recursos; para sistematização de metodologias utilizadas nestas instituições; para a divulgação e avaliação das experiências (BNDES, 2001: 09).

Assim sendo, mesmo crescendo de maneira acelerada, hoje envolvendo inclusive movimentação de recursos financeiros, o Terceiro Setor enfrenta problemas, tais como a deficiência de sustentabilidade de recursos financeiros, pois possui caráter sem fins lucrativos além do que, hoje, existe um número grande de organizações disputando limitados recursos, como também, o pequeno número de voluntários, a burocracia e indefinição de sua base legal, e até mesmo à ingerência interna ou a utilização destes espaços para interesses particulares.





      1. Parcerias e demandas locais

Apesar da difusão da idéia de que as parecerias do terceiro setor com o Estado, não se pode perder de vista a contribuição que estas organizações podem dar a fim de melhor direcionar e viabilizar projetos atendendo de forma mais efetiva às demandas locais. Estas são ações pontuais, que possuem inúmeros exemplos positivos no Brasil, que não necessariamente contemplam a perspectiva da desobrigação do Estado de suas funções, mas apontam para o envolvimento das comunidades na definição das políticas públicas que melhor atendam suas expectativas, configurando-se num exercício de cidadania e autogestão (GOHN, 2000).

Nesse sentido, as peculiaridades locais constituem-se essencial na configuração das demandas e parcerias feitas pela sociedade civil com a institucionalidade pública e com o mercado.

Tocantins é um estado novo, no entanto, já possui em sua história focos de efervescência política, social e cultural em que se destacam as manifestações separatistas do antes denominado Norte de Goiás. A formação cultural diversificada com a presença de comunidades indígenas, quilombolas, rurais e de migrantes silistas, aliada à forte atuação de grupos oligárquicos, que mantém uma situação de paternalismo até os dias atuais, configura-se num contexto peculiar para a formação organizativa da sociedade civil.

Percebe-se, com o desenvolvimento deste trabalho, que esse contexto favorece o surgimento de organizações engajadas, que buscam construir uma identidade, mas também que caminha atrelada ao poder público.

Num primeiro momento o perfil do setor ainda está sendo traçado, porém já se percebe que este tem terreno propício para desenvolver-se em Palmas. A cidade ainda está em fase de construção de sua identidade cultural, e por isso não possui muitos movimentos antigos, tudo é ligeiramente novo.

Em Palmas, muitas associações desenvolvem parcerias com a institucionalidade pública, de acordo com dados preliminares obtidos na pesquisa. Isso mostra que houve uma tendência de articulação desses grupos na criação do estado e da capital. Da mesma forma, já havia movimentos organizados na região, inclusive de defesa da autonomia do Estado o que configura uma certa inserção política.

Nesse sentido, observa-se que na cidade de Palmas, capital do Tocantins, Região Norte do Brasil, uma cidade nova com habitantes de diversos lugares do Brasil e de países como Cuba, Peru e Angola, estas parcerias podem influir no perfil deste setor, apontando para uma contribuição para um enraizamento social, um esforço mútuo para o desenvolvimento da região e para manter laços mais próximos entre os grupos. Nota–se em Palmas uma característica burocrática do setor, pois há um grande número de entidades com articulação com o Estado, desta forma movimentam dinheiro público.
Em Palmas, o número de convênios firmado é em torno de quinze. Elas seguem certos critérios, sobretudo anexar toda documentação legal e um projeto além de passarem por um processo de monitoramento pelas assistentes sociais e prestação de contas no final do convênio3.

Em Palmas, a Secretaria de Assistência Social implementam três redes de co–financiamento (PAC- criança, APEI – idoso e PPD – deficiente). O estabelecimento de convênios com o terceiro Setor é visto como uma forma de o estado alcançar melhor as demandas, inclusive promovendo treinamento às ongs parceiras. Entretanto, observa-se o fato de muitas organizações no Tocantins não promoverem a autosustentabilidade, esperando a manutenção do governo. O que a institucionalidade pública espera é que elas possam ter autonomia financeira, assim, tornando-se parceira influente nas ações do Estado.

De acordo com a Secretaria de Estado da Ação Social e do trabalho, o braço do estado não alcança a todos, dessa forma, as parcerias são importantes. Contudo, é justamente esse aspecto que justifica a postura de que o Estado acaba por delegar à sociedade a responsabilidade em torno de suas próprias demandas.

As parcerias tingem várias ramificações de assistência (criança, idoso, portador de necessidades especiais) bem como ONGs que trabalham com a geração de renda. O governo geralmente contribui na manutenção, alimentação, mas não costumam ceder funcionários, e isso pode ser reflexo da estrutura administrativa do estado ainda em organização.

Percebe-se com isso, a necessidade de inserir este tema na agenda do cidadão palmense, quiçá do tocantinense, isto porque é importante entender o Terceiro Setor e seus desdobramentos, tendo em vista que a sociedade civil começa a perceber a sua participação efetiva no desenvolvimento de sua capital, colaborando com os governos ou mesmo desenvolvendo projetos em suas localidades.
Comunicação no Terceiro Setor: busca de parcerias e credibilidade

O papel da Comunicação

O papel mediador e a influência da mídia na sociedade contemporânea já é consenso no meio acadêmico. Hoje, diversos estudos remetem a um processo de recepção mais complexo, à medida que se percebe que a mensagem é completada de formas variadas pelos receptores, de forma que falar em cultura de massa perversa e de mão-única torna-se um engano. Estudos citados por Castells sobre os efeitos da propaganda na mídia apontam que “não há prova na mídia de impactos específicos dos anúncios sobre o comportamento real” (CASTELLS, op.cit.: 359).

O desenvolvimento econômico e cultural atual, através dos discursos da mídia, produz não apenas mercadorias, mas sobretudo, subjetividades. A força da cultura nos medias tem criado relações de significações e novos significados. Isto não implica dizer que a mídia seja a responsável unicamente pela violência e todo tipo de agressão que vemos, sobretudo, na TV, pois ela é produção da própria sociedade e reflete sua situação conflituosa e depressiva (GOHN, 2000; THOMPSON, 1999; MEDEIROS, 1999; MATTELART, 1996).

Marques de Melo (1989) acredita que os mass media possam funcionar como multiplicadores dos esforços desse setor para o desenvolvimento econômico e social. Mas também podem funcionar como o seu contrário. Portanto, deve o Estado obter certo controle dos media através de políticas nacionais de comunicação. Para os meios de comunicação de massa, apoiar a democracia ou não é uma questão de quem oferece mais. A exemplo de quando o regime militar começou a obscurecer a liberdade da imprensa: estava na hora de não mais apoiá-lo.

Além disso, a vulnerabilidade política e cultural dos países da América Latina possibilita a apropriação generalizada dos meios de comunicação, constituindo um aspecto fundamental na manutenção do status quo. Também porque as iniciativas no campo das comunicações partem do poder privado. Com isso é quase impossível criar um sistema de comunicação pluralista, democrático, que atenda aos interesses públicos e não ao interesse do público definido pela sociedade de consumo (MARQUES DE MELO, 1989).

A inserção da imprensa na defesa, quer de grupos marginalizados em geral ou de fatos polêmicos cristalizados dentro da sociedade pela classe dominante, apresenta relatos na Europa desde o século XIX. Embora, a posição de certos jornais nestas denúncias tenha originado o jornalismo sensacionalista cujos jornais mais populares são os seus maiores seguidores.

O fato é que a comunicação possui diversos usos nas organizações e tem sido descobertas também pelos veículos comunitários, organizações não-governamentais, associações etc., saindo de um espaço amador para outro mais estratégico.

Sendo assim, de acordo com a análise de Castells, por ser produzida em contextos locais, a mídia é a expressão de nossa cultura, e funciona pelo que a mídia proporciona. Castells afirma que mesmo numa sociedade organizada em torno da grande mídia, os meios alternativos de produção de mensagens, às margens da grande mídia, ficam sempre restritos a redes interpessoais. Dessa forma, fica fácil de a receita dos mídias - que não representam apenas dinheiro e poder, mas misturam informação, entretenimentos, negócios, relaxamento etc., tomarem conta do inconsciente coletivo.

Muitas vezes, percebe-se que o papel da comunicação no terceiro setor é essencialmente a aprimoração e inovação nas formas de captação de recursos - ainda que isto seja um dos maiores desafios para as organizações do terceiro setor na atualidade (ADULIS, 2002). O sucesso dependerá do relacionamento estabelecido com os doadores, clientes potenciais como em um negócio comercial. Isto significa que as causas defendidas não são tratadas no seu fundamental, na conjectura em que se formou, mas superficialmente, levando em conta apenas o princípio de que as organizações merecem, pelo caráter de suas causas, receber apoio. Apoio este que, segundo Adulis, deve ser conquistado: “nenhum negociante de êxito trata seus clientes como se eles tivessem a obrigação de comprar”.

Adulis ainda salienta que se torna essencial que a entidade desenvolva programas de comunicação que propiciem um clima favorável para doações, mas sobretudo que favoreça relacionamentos duradouros através de uma comunicação que busque aumentar a consciência destes doadores potenciais sobre a organização, suas atividades e os problemas que a entidade procura solucionar através de suas ações. Ao utilizar-se folhetos, livros, boletins, cria-se também uma assessoria capaz de divulgar a entidade e seus programas junto aos órgãos de imprensa, conquistando espaços de publicidade e fortalecendo os esforços de captação de recursos.

O momento mais expressivo do início da relação da comunicação com os movimentos sociais no Brasil surge por volta da década de 60, vinculado àquele desenvolvido pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), movimento da Igreja Católica de iniciativa pastoral cuja metodologia se baseia na proposição da ação transformadora da realidade opressora em que vivem os marginalizados, a partir da dinâmica ver-julgar-agir.

O movimento sindicalista dos metalúrgicos do ABC Paulista, que teve seu marco com as greves de 1979/80, mobilizando todo o Brasil, é considerado por Patrícia Kay (1999), entre outros autores, o boom dos movimentos sociais e ONGs, mas também, é o primeiro relato mais elaborado divulgado do uso dos mass media por uma dessas entidades. Com a parceria entre a Associação de AutoGestão e a imprensa na região, percebe-se que o papel da comunicação não pode ficar no amadorismo deste setor ou à mercê da boa vontade e interesse dos mídias.

Há que se intensificar uma interação maior entre o chamado terceiro setor e os meios de comunicação de massa, bem como implementar a dimensão e atuação dos meios alternativos desses grupos e instituições. Kay conclui que é essencial o agir estratégico das ONGs, buscando condições favoráveis ao elevar o problema a um certo consenso social, conquistando a visualização pela mídia.

Um exemplo mais atual característico desse envolvimento de movimentos é o MST. Gohn faz uma análise da participação da mídia na sua trajetória, que muitas vezes pode dar oportunidades que não são aproveitadas pela sociedade civil, mas não na maioria dos casos:


o MST envolveu-se, via mídia, em uma série de polêmicas e perdeu a oportunidade de aproveitar a conjuntura de opinião pública favorável à causa dos sem-terra. Mas a perda da oportunidade de politização do que ocorre no cotidiano do movimento não foi devido a destemperos e inabilidade de algumas de suas lideranças, como a mídia procurou demonstrar. Ela ocorreu devido a própria mídia, ao tipo de notícia que ela tem priorizado, de destaque aos bastidores comezinhos da política nacional, da espetacularização no tratamento de fatos menores, da eliminação de toda forma de notícia de caráter mais reflexivo (GOHN, 2000: 147).
Observando esta análise, aliada a interesses políticos e econômicos, de fato percebe-se, não se poderia criar uma atmosfera favorável às reivindicações do Movimento. Da mesma forma, tais interesses nem sempre se coadunam com os novos agendadores dos “temas e problemas da sociedade”: marketeiros, novelistas, produtores, novos formadores e controladores da opinião pública. (TRAQUINA, 2001).

Para Oliveira, “talvez o maior desafio do homem contemporâneo vivente do espaço urbano, sobretudo das metrópoles, seja o de relacionar-se, de modo crítico, com o estranho, o heterogêneo, o não-familiar”. De forma que se faz necessário que os diversos segmentos sociais se apropriem dos dispositivos de comunicação de baixa potência criando um espaço interativo de comunicação “de/para dentro e fora do espaço urbano”.

Assim, cabe a reflexão de Giannotti: “Como fazer a disputa de hegemonia com nossos inimigos de classe? Sem jornal, sem rádio, sem televisão, realmente fica difícil”. Apesar de não mencionar que em pouco tempo a configuração do campo midiático no Brasil poderá se transformar, tornando o uso simples da televisão e do rádio obsoletos em função das tecnologias que chegam, Giannotti considera, no entanto, que os meios de comunicação contra-hegemônicos, caso da imprensa sindical, precisam estar preparados para usar as armas da grande mídia, sobretudo: ter clareza do que se deseja; cuidar do uso compreensível da linguagem; e buscar uma comunicação realmente atrativa. Rubim (2002: 28) complementa: “com isso, potencializam sua intervenção política, pois ampliam sua zona de atuação, suas modalidades de atividades ou leque de alianças e apoios e suas fontes de legitimidade”.

A comunicação comunitária, dialógica, proposta tem como pressuposto o agir comunicativo desenvolvido por Habermas que, por sua vez, pressupõe um sentido comunitariamente partilhado. Esta ética habermasiana, conforme Sodré, é filosófica e terapêutica. Uma terapia necessária, pois, em primeiro lugar, talvez falte ao homem conduzir-se à comunicação consigo mesmo, a auto-reflexão, para que encontre meios de entender e comunicar-se com o outro (AVELINE, 2001; SODRÉ, 1998).

Os movimentos sociais e demais organizações da sociedade civil cada vez mais buscam se organizar em busca da credibilidade perante a sociedade, a mídia e os governos. Viver do amadorismo não cabe mais na atualidade. Sobre o caso específico dos movimentos ambientalistas, André trigueiro pontua:
esse é um ponto fundamental na área da comunicação, porque obriga os profissionais de mídia a perceberem a realidade de uma forma inteiramente nova e, sob alguns aspectos, revolucionária: no mundo moderno, onde o conhecimento encontra-se fragmentado, compartimentado em áreas que muitas vezes não se comunicam, a discussão ambiental resgata o sentido holístico, o caráter multidisciplinar que permeia todas as áreas do conhecimento, e nos induz a uma leitura da realidade onde tudo está conectado, interligado, relacionado (TRIGUEIRO, 2003: 77).
Nesse sentido, é imprescindível que o comunicador de uma ONG consiga transitar pelos mais variados setores da sociedade de forma legítima. Na verdade, esse é outro aspecto do discurso ambientalista: a transversalidade, pois ela tende a aumentar a capacidade mobilizatória da informação.

Apesar de buscar se inserir na pauta dos grandes meios, a comunicação nas organizações não-governamentais têm ao seu lado uma grande arma, como já nos referimos acima: trabalhar próximas às realidades localizadas. Assim, é essencial desenvolver meios comunitários e mais próximos dos públicos atingidos por determinado problema. Esse contato direto, aos poucos, poderá se tornar algo maior além de fomentar maior engajamento das pessoas envolvidas.

Acima de tudo, as Ongs precisam aprender a disputar o espaço e o tempo na mídia, com fontes confiáveis, assuntos de interesse e destaque para a credibilidade do seu trabalho. Nesse sentido, busca-se atender aos requisitos do fazer jornalístico, de forma profissional e ética. Nesse sentido, apontaremos, sobretudo para o uso das fontes.


                  1. As fontes

As fontes são a base do jornalismo, sem elas não há notícia. Nesse sentido, o jornalismo necessita dar voz a bons e novos protagonistas. Uma ONG, por exemplo, pode ser fonte de diversas formas: protagonizando um fato, fornecendo subsídios ou dados que enriquecem determinado fato, indicando outros interlocutores etc. Uma fonte despreparada pode comprometer a credibilidade tanto como protagonista de fatos quanto na condição de referência em relação a determinados assuntos.
Considerações Finais

Palmas por ser uma cidade nova, falta o enraizamento de seus munícipes que Manuel Castells tanto cita, por isso aparece como um objeto de estudo novo e interessante, pois analisar o Terceiro Setor como forma de promover vínculos e raízes é confirmar a necessidade humana de conviver socialmente.

O Terceiro Setor cresceu de forma espetacular no Brasil e no mundo, é impressionante que em nosso país o percentual de participação na atingiu números considerados de países desenvolvidos. Assim o mesmo surge como “queridinho” do momento, este se tornou um setor visado, pois proporciona diversas áreas de trabalho e convivência social.

É necessário resgatar o teor social do setor, pois o mesmo já está se corrompendo num mundo capitalista e burocrático. A liberdade de imprensa é almejada por todos e é uma bandeira de luta antiga, pelo visto a liberdade do Terceiro Setor se transformará em outra bandeira e a comunicação neste meio deve ser utilizada de maneira criteriosa, com o enfoque de mostrar para a sociedade os dois lados: bom e ruim do setor.

Portanto a democracia participativa deveria complementar a representativa, já que a democracia deve ser a base comum de toda sociedade, incluindo estas organizações.


Referências:

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1 Aluna de Iniciação Científica no curso de Comunicação Social: Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins – UFT.

2 Jornalista, Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFSE), professora no curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins – UFT.

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3Fonte: Secretaria de estado da Ação Social do Tocantins. Entrevista com o coordenador de convênios Herton Estevão Mota Brito, em março de 2006.



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