O valor do sofrimento



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Encontro28.07.2016
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Conversas sobre a Fé
O VALOR DO SOFRIMENTO
O sofrimento é sempre perturbador. Está presente na vida de cada pessoa, desde o nascimento à morte. Afecta as nossas dimensões física, afectiva, psíquica e espiritual. São muitos os nomes para designar os vários rostos com que se faz presente: dor, ferida, tristeza, amargura, drama, tragédia, inquietação, angústia, dilaceração, infelicidade, desilusão, ansiedade, desolação, fracasso, opressão, luto... As reacções humanas vão desde a resignação à revolta, do desespero à aceitação, da recusa à valorização. Normalmente, ninguém gosta do sofrimento e lida mal com ele enquanto ele perdura. Mais tarde, pode descobrir-se que trouxe algo de bom e útil para a pessoa e para os outros. Quando vivido no amor e no horizonte de uma vida com sentido, não é inútil. É claro que ninguém pode procurar o sofrimento pelo sofrimento, o que seria doentio, nem deixar de fazer o que está ao seu alcance para o aliviar e superar.

O psicólogo austríaco Viktor Frankl, sobrevivente do holocausto nazi, descobriu que quem tinha um sentido para a vida, percebendo uma certa presença mesmo que ignorada e escondida de Deus, era capaz de resistir ao sofrimento e de o viver também com sentido. Segundo ele, a dor não é o fracasso de uma vida sem sentido. A dor é um convite a dar sentido ao que parece una vida fracassada, mas não o é: tudo vale no horizonte do amor de Deus.

A fé cristã concentra toda a realidade do sofrimento numa palavra e num símbolo: a cruz. A cruz tem um rosto humano vivo e conta uma história: a de Jesus Cristo. Na pessoa e na história do sofrimento de Jesus se condensa e se revela o valor humano e divino do sofrimento: ele é instrumento e ponte para um novo nascimento; através dele a pessoa amadurece e descobre novos horizontes e possibilidades para a sua vida e para a dos outros. Por isso, Jesus disse que, para o seguir, é preciso tomar a própria cruz, isto quer dizer viver como ele viveu: no amor, na entrega de si mesmo.

Li recentemente a biografia do padre Jonas Abib, fundador da Comunidade Canção Nova. O tema do sofrimento foi-me sugerido pela sua história. Os momentos decisivos da sua vida foram marcados por situações difíceis de saúde nas quais tocou de perto o fracasso. Foi então que, inesperadamente, teve o seu encontro pessoal com Cristo e recebeu novo vigor espiritual que lhe abriu novos caminhos para a sua vida e ministério sacerdotal. O sofrimento preparou-lhe uma nova fecundidade e novas possibilidades para o serviço espiritual aos jovens, ao qual dedicou a sua vida.



O cristão descobre na fé o sentido, o valor e a fecundidade do sofrimento, quando assumido e vivido por amor. Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, escreveu: “O cristão ama a cruz, ama o sofrimento, mesmo entre lágrimas, porque sabe que tem valor. Não foi em vão que, entre os muitos meios de que Deus dispunha para salvar a humanidade, escolheu o sofrimento. Mas Ele – lembra-te –, depois de ter levado a cruz e de ser nela crucificado, ressuscitou. A ressurreição é também o nosso destino. Se aceitarmos com amor – em vez de o desprezarmos – o sofrimento que nos vem da nossa coerência cristã e todos os outros que a vida nos traz, havemos de experimentar, então, que a cruz é o caminho, já nesta Terra, para uma alegria nunca antes experimentada. A vida da nossa alma começará a crescer. O reino de Deus em nós adquirirá consistência. E lá fora, pouco a pouco, o mundo vai desaparecendo aos nossos olhos e parecer-nos-á de cartão. E já não vamos ter inveja de ninguém. E, como Cristo a quem seguimos, seremos luz e amor para as chagas sem número que dilaceram a humanidade de hoje.”(Palavra de Vida, Julho de 1978).

P. Jorge Guarda


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