ObservaçÕes sobre o estudo da paleografia em portugal



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OBSERVAÇÕES SOBRE O ESTUDO DA PALEOGRAFIA EM PORTUGAL

Por


ANTÓNIO CRUZ

«Dou-lhe o nome de Observações, para que se me não possa exigir a Erudição, que é alheia do mesmo fim, que me proponho; não me obrigando a mais, que a produzir os Documentos e razões, que levam a estabelecer certa regra...»

João Pedro Ribeiro, no prólogo das Observações Históricas e Criticai para servirem de Memórias ao Sistema da Diplomática Portuguesa.

São tão informes quanto desambiciosas as Observações que vão ser feitas nas páginas seguintes. Ditou-as apenas o propósito de facilitar o estudo, servindo-lhes de guia, a todos os alunos da dis­ciplina de Paleografia e Diplomática da Faculdade de Letras ao Porto.

Na falta de um compêndio ou manual, devidamente actualizado, de autor português, e senão difícil a aquisição de obras de autores estrangeiros que se consagram a esta especialidade, até porque, na quase totalidade, estão esgotadas, julgamos necessário proceder assim e desde já pelo que diz respeito ao estudo da Paleografia e da Diplomática em Portugal. Ao menos, a sistematização há-de servir para mais fácil orientação de consultas a efectuar, e consequente-mente, como auxiliar do trabalho pessoal e esforço do próprio aluno.

Já assinalou o Prof. Rui de Azevedo (1) que os estudos da nossa

(1) Rui de Azevedo, Estudos de Diplomática Portuguesa. I. Documentos falsos de Santa Cruz de Coimbra (Lisboa, (1932).

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Diplomática e também, por afinidade, os de Paleografia, devemos acrescentar tiveram auspicioso inicio com João Pedro Ribeiro, a quem «não faltou saber e pendor docente para criar escola». Porém, o precioso espólio do Mestre, dado o contributo de estudos posteriores trazido à especialidade destas ciências, apresenta-se hoje como um conjunto de rudimentos carecidos, num ou noutro ponto, de aclarações e que também devem ser completados, na medida em que o mesmo contributo o permita ou imponha.

Há, de investigadores portugueses, estudos dispersos que são do foro da nossa Diplomática e da Paleografia. No lugar competente, serão recenseados, ao menos, os principais. Complementares dos trabalhos de João Pedro Ribeiro, interessam sobremaneira neste particular. Todavia, sendo muitos desses estudos a prova bastante aos conhecimentos, do aturado estudo e até da natural inclinação dos seus autores, nem um só, no seu conjunto e sistematização, é .ainda aquela «obra científica e didáctica portuguesa em que nos possamos apoiar», como também anota o Prof. Rui de Azevedo. De tão dispersos e de tão fragmentados que são, obrigam a trabalho de pesquisa muito demorado e impõem uma selecção posterior dos ensinamentos recolhidos, através do seu confronto e pela via da .utilidade. Ao cabo, tem de se concluir que é imprescindível também a consulta de autores estrangeiros, fazendo-o, no entanto, sob o risco de nem sempre as suas conclusões corresponderem ao que se observa nos diplomas e códices portugueses, e ainda e sempre com a maior das dificuldades, uma vez que a bibliografia sobre a matéria, não tendo nas bibliotecas públicas uma representação condigna, dificil­mente pode ser, hoje, actualizada ou completada, pela razão já acima exposta.

. Supomos explicado e justificado o propósito que nos moveu, quando nos decidimos a coligir estas informes e desambiciosas notas para servirem de introdução ao mesmo estudo da Paleografia. E não será preciso dizer, ao que julgamos, das razões que estão na origem, de certo desenvolvimento que foi dado, ainda que em breves Observações, à parte dedicada aos estudos da Diplomática e da Paleo­grafia em Portugal, depois de esquematizada a origem e evolução dos mesmos estudos, antes e após Mabillon.

1. A Diplomática, na definição de João Pedro Ribeiro, «é a Ciência dos Diplomas, isto é, a que nos ensina a avaliar com exactidão os antigos Diplomas, distinguindo os verdadeiros dos

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falsos, ou duvidosos» (1). Considera-a Manaresi como «a ciência que tem por objecto as atestações escritas, de conteúdo e signifi­cado jurídico (documenti)» (2). Recentemente, Georges Tessier, professor da École dês Chartes, de Paris, ao ocupar-se do objecto da Diplomática, precisou que lhe cabe descrever e explicar a forma dos actos escritos, para assim, julgar a autenticidade ou verosi­milhança de todas as modificações exibidas por esses actos e que tiveram origem nas circunstâncias inerentes à sua elaboração, na qualidade das pessoas a quem coube redigi-los e escrevê-los, nos modelos acessíveis aos notários ou escribas, e na própria cultura do meio, susceptível de influenciar as disposições neles contidas. O labor diplomático de uma sociedade pode assim reflectir, de certa maneira, o seu particular grau de civilização (3).



É o mais amplo o conceito de Diplomática, na definição de Tessier, de passo que não lhe são atribuídos, quanto ao seu objecto, os limites de um quadro puramente histórico, uma vez que, no tempo e no espaço, e considerando também a própria forma de que se revestem os testemunhos que a Diplomática tem de julgar, eles não são os limites consagrados.

Para melhor nos apercebermos da evolução do conceito e objecto da Diplomática, balizada por meio das definições que lhe foram dadas em três épocas diferentes, é de referir a própria etimologia da palavra Diploma (que quer dizer, ensinava João Pedro Ribeiro, «cousa dobrada em duas») bem como a mesma evolução que conheceu o respectivo significado.

2ía primitiva acepção, era o diploma o conjunto de duas tabui-nhas ou, em tempo futuro, de duas placas de bronze ligadas entre si, nas quais os romanos transcreviam, o texto das constituições

(1) João Pedro Ribeiro, Dissertações cronológicas e críticas, tomo IV (Lisboa, 1867, 2.a edição).

Foi este portuense o primeiro investigador a dedicar-se ao estudo da Diplomática como ciência auxiliar da História, considerando como ramos da mesma ciência, e incluídas no seu âmbito, a Paleografia e a Esfragística.

(2) Manaresi, artigo Diplomática, na Enciclopédia Italiana, vol. XII. Giacomo Bas-


capé, também diplomatista italiano, considera esse artigo, consagrado à Diplomática
geral e especial, como a mais moderna e apurada exposição sobre a matéria da parte
de um autor italiano. Assim o afirma no prefácio da edição de 1942 do Tratado de
Cesare Paoli intitulado Diplomática. . :

(3) Georges Tessier, La Diplomatique, Paris, 1952. Colecção «Que sais-je?».

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imperiais, de toda a vez que era atribuído o direito de cidadania a um militar que se distinguira pelos seus feitos honrosos. Sue-tónio classifica já de diplomas todos os actos imperiais. Por seu lado. Cícero designa assim as cartas particulares. Daqui se infere que o diploma, por esse tempo, era o documento dobrado em dois.

Com os alvores do Renascimento, os humanistas, sobretudo os historiadores, ressuscitaram um vocábulo que a Idade Média ignorou. A palavra Diploma passou a servir então para designar, num sentido genérico, todo o acto escrito que assenta num for­mulário e que dimana de uma chancelaria, eclesiástica ou civil, ou que foi lavrado por determinação ou com a intervenção de pessoa qualificada.

2. Foi o beneditino francês D. Bernardo de Montfaucon, em 1708, o primeiro a usar, mesmo no título de uma obra, a palavra Paleografia, quando intitulou de Palaeographia Graeca sive de ortu et progressi literaum o seu estudo de diversos códices gregos que, para o efeito, agrupou cronologicamente (4). Porque assinalou, relativamente a cada um desses códices, o tipo de letra por ele exibido, porque cuidou de identificar o respectivo autor e porque juntou, a todas estas, algumas outras informações de natureza vária, o sábio beneditino lançou assim os íundamentos de uma nova ciência, delimitando à Paleografia um campo de acção bem, estremado do que cabe à Diplomática, posto que, por vezes, a parecer incluso neste.

Iniciava-se, por este modo, o movimento que devia conduzir à autonomia da Paleografia como ciência, desintegrando-a, tal e qual como veio a acontecer depois e relativamente a outras ciências, dos domínios da Diplomática. E se através da etimologia vimos a concluir que ela se refere a escrita antiga, daí deduzi-mos que a mesma palavra designa aquela ciência que se consagra ao estudo de qualquer escrita antiga e de todas elas, sem restrição

(4) Refere Alphonse Dain, no capítulo Iniroduction à Ia Paléographie do volume UHistoire et sés méthodes (Paris, 1961) que Montfaucon empregou, e então verdadeira­mente pela primeira vez, o termo Paleografia numa carta sua de 14 de Janeiro de 1708, ao referir o título da obra que foi publicada nesse mesmo ano.

O autor, como haverá o ensejo de referir outro lugar, era monge da congregação de S. Mauro: Presbyter & Monachus Benedictinus é Congregatione S. Mauri — centava ele ao seu nome, na dedicatória da sua Paleographia Graeca.

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de lugar ou tempo e também independentemente do próprio suporte da mesma escrita.

Nesta acepção, havia de ser considerado como mais amplo o objecto da Paleografia: tanto lhe cabia o estudo, em ordem à sua interpretação e transcrição, de um papiro, de um pergaminho ou de um texto manuscrito sobre papel, como de um outro fixado sobre placas de madeira ou bronze ou cinzelado no mármore; de um texto grafado em sinais cuniformes, como de outros que o tenham sido em hieróglifos ou sobre tabuinhas enceradas.

Todavia, sempre foi determinada alguma restrição ao campo da Paleografia, ainda que mais de ordem subjectiva do que por outra razão. E assim, já o portuense João Pedro Ribeiro a definia como «aquela parte da Diplomática que pelo carácter ou letra, em que se acham escritos os Documentos antigos, nos ensina a julgar da sua idade e veracidade, e ainda a determinar o terri­tório ou Nação a que pertencem» (5).

Porque teve em atenção o princípio de que à Paleografia, como ciência, cabia o estudo de toda e qualquer escrita, Muñoz y Rivero estabeleceu que esse mesmo estudo visava dois fins principais: lei1 e interpretar as escritas antigas e ainda conhecer de todos aqueles 'elementos, relativamente a cada período, que permitam julgar da autenticidade ou falsidade de um documento, assinalando também uma data a todos os que a não exibam.

Compreendendo assim, o estudo de toda a classe de monumentos escritos — quer se trate de documentos, quer de moedas, medalhas, inscrições, selos, etc. — a Paleografia, segundo Muñoz y Rivero, poder-se-á dividir em:



  1. elementar — quando analisa os elementos gráficos de cada
    época e país, em ordem a reunir os elementos necessários
    para a sua interpretação; ou

  2. crítica — se, partindo desses elementos, julga da autenti-

(5) V. João Pedro Ribeiro, Dissertações, na dissertação XV:Sobre a Paleografia de Portugal.

A restrição fundamenta-se na própria noção de Documento que o autor exprime, fazendo-o nestes termos:



«O Monumento e Documento é acompanhado de letras, e a sua matéria os distingue entre si, sendo a dos Documentos ordinariamente as peles dos animais e o papel».

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cidade ou falsidade dos documentos respectivos, assina­lando-lhes uma data a partir do carácter da escrita.

Atendendo ainda ao seu objecto, a Paleografia pode também ser classificada por esta forma, de acordo com o pensamento de Muñoz y Rivero:



  1. Diplomática — quando estuda a escrita própria dos diplo­-
    mas ou documentos, não devendo, porém, confundir-se com
    a Diplomática na acepção da ciência que se ocupa do estudo
    das características dos mesmos diplomas ou documentos;

  2. Bibliográfica — quando estuda a escrita própria dos códices
    e outros livros manuscritos, podendo então considerar-se
    como um ramo da Bibliografia;

  3. Numismática — quando estuda as legendas ou inscrições
    das moedas e das medalhas, devendo então considerar-se
    uma parte integrante da mesma Numismática, na acepção
    de ciência dedicada a tal especialidade;

  4. Epigráfica — quando estuda a escrita das inscrições antigas,
    gravadas em matéria dura, devendo considerar-se, como
    tal, um ramo da própria ciência da Epigrafia (6).

Justificando a sua teoria, no particular das divisões e classifi­cações que estabeleceu, o tratadista espanhol Muñoz y Rivero faz uma observação expressa nestes termos:

«Esta divisão da Paleografia, posto que tenha sido com­batida por alguns (que supõem que no estudo paleográfico não cabe estabelecer distinção entre a escrita de uma lápide, de um documento ou de um livro da mesma época e nacio­nalidade) encontra-se devidamente justificada pela circuns­tância, quase constante na história da escrita, de ser muito diferente a escrita do documento, do livro, da moeda e da inscrição contemporâneos. Assim, observe-se, por exemplo, que na época romana é usada a letra capital para as lápides,





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(6) Muñoz y Rivero, Manual de Paleografia Diplomática Española, Madrid, 1917. 2a edição.

predominando a uncial nos códices e a minúscula nos documen­tos; que nos séculos VII a XII, a forma assentada da letra visigótica redonda predomina na Espanha, nos códices, sobre a cursiva, que é de uso mais frequente nos documentos; e que nos séculos XVI a XVII são usadas, nestes, as letras processual e cortesã, assim como a itálica nos livros manus­critos».

Numa evolução posterior do conceito que dominava no seu tempo e assim foi expresso por Muñoz y Rivero, entendeu-se como objecto da Paleografia a leitura e interpretação da escrita dos textos de carácter diplomático ou literário (documentos e códices), tendo em consideração a letra, as abreviaturas, os sinais auxiliares, etc.; a localização dos mesmos textos no tempo e no espaço; e ainda a crítica de quaisquer erros ou adulterações por eles exibidos. A Paleografia conquistava assim, gradualmente, os foros de verdadeira ciência das escritas antigas.

Resultou desta evolução, como já foi sublinhado por Alphonse Dain (7), que a Paleografia tem, hoje, um, sentido mais geral, uma vez que o seu objecto passou a ser tudo quanto interessa ao conhecimento da origem, natureza e desenvolvimento da escrita.

A Paleografia tem de estudar, portanto, o suporte da própria escrita, ou seja a matéria sobre a qual se fixou um texto, bem como os instrumentos que permitiram essa fixação. E ainda como ciência que viu ampliado o seu campo de acção, cabe-lhe estudar todo e qualquer documento escrito, e assim também, os manus­critos existentes, regra geral, nas bibliotecas.

Nesta acepção, que não conhece, a bem dizer, quaisquer limites, quer no tempo, quer no espaço, a Paleografia há-de estudar todos os sinais convencionais que permitem a fixação e conservação da língua de um povo. E assim a língua falada como a cantada — pois que também há a ciência denominada Paleografia Musical.

Dain admite, por fim, que o próprio âmbito da Paleografia, por força da evolução sofrida, agora aos poucos se restringe, uma vez que a mesma evolução vai contribuindo para a génese de outras ciências. Ao lado da ciência da escrita e seu suporte, que

(') Alphonse Dain, cap. e obr. citados.

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é a Paleografia, surgiu, há pouco mais de vinte anos, uma ciência nova, a Codicologia — cabendo-lhe o estudo do códice ou livro manuscrito e considerando-o, para o efeito, na sua origem, no uso que teve, na colecção em que se integrou ou integra, etc..

3. Poder-se-á dizer que os precursores da Diplomática, mesmo na acepção em que hoje a consideramos como ciência, foram todos aqueles que algum dia e antes de Mabillon carece­ram de analisar qualquer documento, nas suas características internas como nas externas, paira averiguar da sua autenticidade.

Impondo-se combater as falsificações, que se multiplicam, sobretudo, desde os séculos XII ao XIV, quem tentado ou obri­gado a fazê-lo tinha de empreender esse exame e por tal via iniciar-se no conhecimento de pormenores em que haviam de assentar, depois, certas normas, quando de um exame posterior. Despertava assim, se não uma ciência, ao menos o sentido crítico. Coincidiu com esse despertar a renovação dos métodos de inves­tigação e a reforma da própria construção histórica.

O mesmo espírito crítico, depois de incidir sobre documentos de autenticidade duvidosa, foi origem de discussões que se travaram nos fins do séc. XVI e princípios do seguinte, quando se recorria já, por sistema, às fontes documentais e eira necessário inter­pretá-las, para bem as utilizar. Foram, essas as chamadas Bella diplomática, que tendo sido iniciadas com as disputas de carácter jurídico ou genealógico, logo se transferiram ao campo da História.

Entretanto, e na sequência de toda uma obra que visava o renascimento da própria Ordem Beneditina, foi criada a congre­gação de São Mauro, que tinha a casa-mãe em S. Germain des Prés, onde os maurinos iniciaram a pesquisa e interpretação daquelas fontes que interessavam ao estudo da História, da Paleo­grafia e da Hagiografia, submetendo-as à crítica. Por outro lado, a Companhia de Jesus iniciava, simultaneamente, a recolha de subsídios que; se destinavam a escrever e ilustrar os Acta Sane-. torum, graças à iniciativa do Padre João Bolland. Reunidos outros jesuítas à volta do culto sacerdote, paira de colaboração empreen­derem a magna empresa, logo formaram escola e vieram a ser conhecidos como bolandistas.

Pelo seu espírito crítico, destacou-se, no grupo dos bolandistas,



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o Padre Daniel Papenbroek. Foi ele o verdadeiro iniciador da crítica científica., no seio da escola do Padre João Bolland. Não hesitou em distinguir, sempre que havia lugar a tanto, as lendas, ainda que piedosas, dos factos averiguados e comprovados. E porque nas suas investigações deparou com documentos con­temporâneos dos reis merovíngios, levou então para além dos limites do aceitável o mesmo espírito crítico, quando, apoiado nele, concluiu pela pretensa falsidade de todos esses documentos, e também logo e por extensão de todo e qualquer outro documento antigo. O seu raciocínio conduzia a uma suspeita, relativamente à autenticidade dos documentos existentes nos cartórios dos mosteiros. Suspeita essa que abrangia, portanto, os diplomas que tinham sido utilizados pelo beneditino Doublet para escrever, em 1624, a Histoire de Vabbaye de Saint-Denys en France. Entre­tanto, o mesmo Papenbroek tornava públicas as suas conclusões, dúvidas e suspeitas, através do estudo intitulado Propyleum antiquarium circa e acri falsi discrimen in vetustis membranis, impresso em 1675.

3.1. Coube a D. João Mabillon a tarefa de contraditar as apressadas e infundadas conclusões de Papenbroek, aclarando-lhe também as dúvidas e removendo de vez as suspeitas que ele levantou. Tão sábio quanto humilde — é o mais douto de todos

os escritores da França, na opinião de Richelieu — esse monge de Saint-Germain des Prés iniciou o seu trabalho e consumiu

nele seis anos. Com paciência, com serenidade, com austeridade, só obediente à sua consciência, dominou todas as questões, ainda as que se arrastavam há longo tempo, e logo estruturou, desde os seus fundamentos, uma nova ciência, fazendo-o através da sua obra definitiva De re Diplomática libri VI, impressa em 1681. E uma ciência, consoante a explicação dada no mesmo título da obra de Mabillon, que se ocupava da antiguidade dos ins­trumentos ou documentos, da matéria, escrita e estilo que lhes eram próprios, dos selos, monogramas, subscrições ou notas cronológicas que exibiam, e, assim, uma ciência que interessava sobremaneira a tudo quanto era pertinente à disciplina forense ou histórica.

As regras a que Mabillon julgava necessário submeter um

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documento, em ordem a ajuizar da sua autenticidade, eram as seguintes (8):

1.a — O crítico deve agir com cautela e erudição, moderação e prudência, não intentando a apreciação e julgamento de um documento sem o conhecer de modo suficiente.

2.a Não basta o carácter paleográflco de um dioloma (i.é. «diploma») ou qualquer outro elemento, singularmente considerado, para bem ajuizar da sua autenticidade.

3.a — Sem prova em contrário, é de concluir sempre pela auten­ticidade de um documento, nomeadamente quando ela é consagrada pelo tempo.

4.a — Qualquer erro ou variedade que se verifique na redacção de um diploma, uma vez que não o afecte apreciavelmente, em nada contribui para negar a sua autenticidade, pois que se tornaram correntes omissões ou lapsos do género.

5.a — Adições breves ou intercalações, quando destinadas a aclarar e que figuram nas cópias dos diplomas, ou nos seus originais, ainda que inoportunas ou equívocas, podem não obstar à legitimidade do texto e não deve o crítico, portanto, considerá-las como importantes.

6.a — Quando é evidente a diferença entre o texto de um diploma e a lição dos historiadores ou de inscrições contempo­râneas, será de preferir o testemunho do diploma.

7.a — Porque são ordinários e próprios da condição humana, não se deve a dolo ou falsidade de amanuenses e copistas os erros acidentais exibidos pelos diplomas.

A obra de Mabillon atendia, portanto, a todo e qualquer aspecto oferecido pelo documento, pelo que foi também a origem da Paleo­grafia como ciência, em oposição à arte empírica da leitura de textos antigos que foi dominante nos tempos anteriores. Porém, ainda a Paleografia, nessa obra, não é mais do que um ramo da Diplomática, sua directa e primeira auxiliar no exame e crítica dos textos. E assim, num conceito global da Diplomática se

(8) Mabillon, De ré Diplomática libri VI [...] Editio secunda ab ipso Auctore recognita, emendata & aucta. Paris, 1709.

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incluíam, e logo se estudavam, a técnica paleográfica, a morfo­logia e a evolução histórica das formas gráficas, bem como a crítica de toda a espécie de características de um texto, como anotou, após outros tratadistas, o Prof. espanhol António Floriano Cumbreño. Não tardaram, no entanto, os primeiros sintomas de libertação da Paleografia, como já houve ensejo de referir — e a propósito do Tratado de Montfaucon. Acentua-se a separação no Lexicon Diplomaticum de Walter (1745-1747) e mais ainda, posteriormente, no Novo Tratado dos mauristas Dom Toustain e Don Tassin.

3.2. Sob o domínio de novos conhecimentos adquiridos através do estudo a que se dedicaram os seus continuadores e também, por essa via, conduzidos a outro conceito que não o seu, reco­nhecemos hoje alguma imperfeição na obra de Mabillon. Todavia, uma tal conclusão em nada concorre para a diminuir, pois que mais não ambiciona do que completá-la ou esclarecê-la num ou outro pormenor. Não foi outra, de resto, a preocupação dos bene­ditinos, após a publicação do De ré Diplomática. Para bem ava­liar das tarefas a que se consagram, apenas no séc. XVIII, os monges de São Mauro e outros da mesma congregação, bastará referir, pela ordem cronológica das edições respectivas, algumas das obras que publicaram:

Palaeographia graeca sive de ortu et progressu literarum. Por Bernardo de Montfaucon. Paris, 1708.

L’Art de verifier les dates des faits historiques, des chartes, des chroniques, et autres anciens monumens, depuis Ia naissance de Notre-Seigneur... Paris, 1750.

Nouveau Traité de Diplomatique... Por Dom Toustain e Dom Tassin. Paris, 1750-1756.

Dietionnaire raisoné de Diplomatique... Por Dom de Vaines. Paris, 1773-1774.

Mabillon iniciara, na verdade, uma escola de diplomatistas, definindo-lhe rumo. B não apenas no seio da congregação a que pertencia ou no seu país, uma vez que lhe seguiram o exemplo, aproveitando-se da sua lição, investigadores ingleses, como Madoy e Hickes; italianos, e assim Maffei e Muratori; alemães, estes

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deveras preocupados em aplicar os princípios da Diplomática aos estudos da História do Direito; e também espanhóis e por­tugueses.

O Conceito de Diplomática manteve-se o mesmo, de início
e da parte dos discípulos ou continuadores de Mabillon. Corrigindo,
num ou noutro pormenor, o mestre e patriarca, todos se man-
tinham fiéis ao programa delineado: e assim, cabia no âmbito
da Diplomática o estudo de todo o pormenor relativo à forma
gráfica ou técnica paleográfica da sua interpretação. Só os novos
tratadistas,
designação esta que foi dada aos autores do Nouveau
Traité de Diplomatique,
vieram a acentuar a separação que havia
entre a Diplomática e a Paleografia, separação essa já esboçada
por outros autores que os precederam. Dobrado o século XVIII,
a evolução completava-se, vindo a conceder à Paleografia foros
reais de ciência autónoma. Coube a una francês, Natalis de Wailly,
com os seus Eléments de Paleógraphie, publicados em 1838, essa
missão, que consagrou o seu labor de mestre da École des Chartes, fundada em 1821.

Com o trabalho de Wailly, operou-se como que uma renovação da escola francesa, fundada por Mabillon. Na verdade, a partir da publicação dos seus Eléments de Paléographie, esta ciência interessa sobremaneira aos investigadores franceses, mas é a Diplomática a ciência que serve de tema por excelência à prosse­cução de estudos especiais. Marca, sem dúvida, evolução notável, nesse campo, o Manuel de Diplomatique, de Giry, publicado em 1894 e ainda hoje considerado a obra clássica por excelência, nesta especialidade. Trinta anos decorridos, aparecia o Manuel de Paléographie latine et française (Paris, 1924) de Maurice Prou: obra fundamental, tem de ser indicada, ainda em nossos dias, como aquela a que sempre há-de recorrer todo o que estiver interessado em estudos da especialidade. Finalmente em 1929, aparecia, póstumo, o primeiro volume do Manuel de Diplomatique française et pontificale, de Bouard.

Os mais recentes dos trabalhos da escola francesa são o pequeno volume La Diplomatique, do Prof. Georges Tessier (Paris, 1952, colecção «Que sais-je?») e o estudo fundamental La Paléographie Romaine, do Prof. Jean Mallon (Madrid, 1952). Um e outro destes autores publicaram ainda outros trabalhos da especialidade, dos quais importa referir, ao menos, os capítulos que subscrevem

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