Ofenísia soares freire: profesorra, escritora e jornalista sergipana- uma intelectual da educaçÃO (1941-1966)



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OFENÍSIA SOARES FREIRE: PROFESORRA, ESCRITORA E JORNALISTA SERGIPANA- UMA INTELECTUAL DA EDUCAÇÃO (1941-1966)

Ieda Maria Leal Vilela

Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe NPGED/UFS e Grupo de Pesquisa História das Práticas Educacionais /UNIT/SE

Eixo Temático nº 05 – Impressos, Intelectuais e História d Educação

E- mail- imvilela@yahoo.com.br

Palavras- Chave: Trajetória de Vida; História da Educação: História Cultural.


O presente artigo integra uma pesquisa mais ampla, em fase de desenvolvimento, cujo objetivo é investigar e analisar a trajetória da professora Ofenísia Soares Freire, através do processo histórico-sociológico de sua formação docente e cultural, intitulada “A Presença de Ofenísia Soares Freire na História da Educação Feminina em Sergipe: a trajetória da educadora e escritora (1941-1966).” Este artigo tem o recorte temporal delineado entre os anos de 1941 a 1966. Foi estabelecido como marco inicial o ano de 1941, em decorrência da nomeação e ingresso da professora no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, fundado em 1870, primeiro colégio secundário do Estado de Sergipe, para ministrar aulas de Língua Portuguesa, Teoria Literária e Literatura Portuguesa e Brasileira. E como marco final, o ano de 1966, pois, foi o ano de sua aposentadoria, como docente de tal Colégio. A metodologia utilizada para a elaboração deste trabalho será a da abordagem biográfica, e a fundamentação teórica dar-se-á através dos pressupostos teórico-metodológicos, a partir das categorias de análise que constituem o entendimento e compreensão da Nova História Cultural, Historia da Educação e da Abordagem Biográfica. A abordagem é feita em conformidade com os conceitos de representação e materialidade de Roger Chartier1e de civilização de Norbert Elias e da noção de documento- monumento de Jacques Le Goff.

Assim, no dizer de Freitas (2006:146), a utilização da abordagem biográfica está enquadrada na perspectiva da análise histórica- sociológico, elaborada a partir da complementaridade de outras fontes.

Porquanto, para a investigação e análise da trajetória de vida da Professora Ofenísia, neste recorte temporal, utilizar-se-ão como fontes, não só as fontes tradicionais, mas, também, os documentos oriundos de fontes não tradicionais. Ademais, no dizer de Lopes e Galvão (2001), até pouco tempo atrás, essas fontes não eram consideradas, de certa forma, científicas e confiáveis, no entanto, nos dias atuais, passaram a constituir indícios para reconstrução de um passado. Ademais, a partir da utilização de tais fontes, a pesquisa em História da Educação teve seu campo teórico-metodológico ampliado, uma vez que tem adotado os pressupostos teóricos da Nova História e da História Cultural como sua matriz historiográfica. A história nova nasceu, em parte, se contrapondo a história positivista do século XIX, entretanto, parte das conquistas técnicas do método positivista, permaneceram. (LE GOFF, 2005, p. 2-12).

Dessa forma, não só a legislação educacional, os relatórios e mensagens governamentais, educacionais e provinciais , assim como planos de aula, dados estatísticos, diários de classe, atas de reuniões pedagógicas, programas e planos de curso, legitimam o acervo documental para o estudo de trajetórias e histórias de vida de educadores e educadoras. Assim, outros testemunhos, traços e vestígios deixados por esses educadores são, também, considerados documentos, fontes históricas. “Nesse sentido assinala Borges, que a vida de uma pessoa é pesquisada “por intermédio das vozes que nos chegam do passado, dos fragmentos de sua existência que ficaram registrados, ou seja, por meio das chamadas fontes documentais” (BORGES, 2006, p.212). Logo, ressalta a autora, que para compreender a vida de uma pessoa, é de fundamental importância à discussão sobre os questionamentos referentes à memória, a gênese familiar, a ancestralidade e também, sobre gênero

Tal estudo realizar-se-á através do processo histórico-sociológico de sua formação cultural, suas representações e práticas pedagógicas, assim como a representação da configuração do trabalho docente no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, onde lecionou, durante vinte e cinco anos. Destarte, em relação a esse projeto mais amplo, o presente artigo representa o seu primeiro resultado, que visa analisar a trajetória pessoal e profissional da Professora Ofenísia no seu contexto. Assim, encontra-se ancorado no campo da História da Educação, que tem utilizado como matriz historiográfica, a Nova História Cultural. A partir da utilização de documentos e fontes não tradicionais a pesquisa e os estudos de História da Educação tiveram seu campo teórico-metodológico ampliado. Destarte, conforme Le Goff (2003), a memória coletiva e sua forma científica, a história, se utilizam de dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos, que podem se apresentar sob dois enfoques principais, ou seja, os monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador. Logo, os estudos de história são realizados tomando como ponto de partida à memória. Então, é a partir da memória que esses estudos serão realizados. Daí a necessidade de problematizar as fontes, bem como analisar a biografia como fonte de relevância para o desenvolvimento de tais estudos realizados sob a perspectiva da abordagem biográfica. Assevera Vavy Pacheco Borges3, ao fazer referência sobre o estudo biográfico, no sentido do senso comum, que “a biografia é hoje, certamente, considerada uma fonte para se conhecer a História. A razão mais evidente para se ler uma biografia é saber sobre uma pessoa, mas também sobre a época, sobre a sociedade em que ela viveu (p.212). Dessa forma, a biografia tem sido considerada uma fonte importante de conhecimento, não só do indivíduo, do ser humano, como também, do contexto social, cultural no qual o biografado viveu. Ademais, as abordagens biográficas são contribuições importantes para reafirmar o indivíduo como sujeito de sua própria história. Nesse contexto ressalta o Professor Jorge Carvalho do Nascimento, que “as análises memorialísticas estão para além de simples biografia dando voz aos intelectuais estudados” (Nascimento, 2007:7), logo, segundo o autor, tais análises têm um valor maior do que uma simples biografia. Norbert Elias (1995) que trabalhou com pesquisa biográfica, esclarece que seu estudo sobre Mozart, não se configura como uma narrativa histórica, mas sim, a elaboração de um método técnico com a finalidade de verificar a configuração de uma pessoa. Ressalta Borges2 que o historiador medievalista francês, Le Goff, autor entre outras obras de “Francisco de Assis” e a “Biografia de São Luis”, em entrevista concedida à “Folha de São Paulo”, discorreu o seu reconhecimento sobre a importância da biografia. Passa, assim, a considerar a biografia como o coroamento do trabalho do historiador de ofício.

Ademais, com a análise biográfica, contextualizada, da Professora Ofenísia Soares Freire, se pretende recuperar aspectos da sociedade, da política educacional e da educação feminina, no lapso temporal a ser estudado. A professora Ofenísia, já naquela época, década de 1960, selecionava textos literários para ler em suas aulas, e analisar com seus alunos. E com isso, desenvolver o espírito crítico-analítico de seus alunos. Como destaca seu ex-aluno, o escritor e jornalista Luiz Antonio Barreto, que ela tinha o livro didático, tão somente, como livro-texto de referência, na medida em que o conteúdo utilizado estava nos textos que escolhia para trabalhar com seus alunos, desenvolvendo a crítica-analítica através de suas reflexões e ensinamentos para concluir suas aulas (BARRETO, 2007:64-67).

Partindo-se do pressuposto que tal estudo e análise da trajetória de professora Ofenísia possibilitem a relação entre história e vida, analisar sua relevância e presença no campo cultural, educacional, assim como sua contribuição para a educação reveste-se de grande importância, como também, evidenciar a representatividade dessa educadora para a educação no Estado de Sergipe.

Conforme assevera Almeida, nas primeiras décadas do século passado os movimentos feministas já reivindicavam o acesso à educação e o direito ao voto, a exemplo do que estava acontecendo na Europa. Então no cerne dessa luta pelos seus direitos, a mulher, destaca a autora, defendia, também, a aquisição de maiores conhecimentos que possibilitasse sua inserção no espaço público e o desempenho de uma profissão remunerada, logo, assim, conquistaria mais autonomia financeira e, consequentemente, liberdade. Muito embora, a educação, ainda, representasse um veículo pelo qual a cultura e a religião inculcavam seus valores e transmitiam a ideologia da época (ALMEIDA, 2007).



A professora Ofenísia estudou as primeiras letras na cidade de Estância, sua cidade natal, vindo para Aracaju aos onze anos de idade para completar seus estudos na Escola Sant’ana, cuja proprietária era professora Quitina Diniz, primeira deputada estadual de Sergipe, no entanto a professora alegou que a menina Ofenísia já estava pronta, não tinha o quê ensiná-la no curso primário, teria que estudar na Escola Normal, hoje Instituto de Educação Rui Barbosa, mas, para isso teria que permanecer interna como pensionista no Colégio Sant’ Anna. Entrementes, a menina Ofenísia contava com apenas 11 anos de idade e para ingressar na Escola Normal, segundo a própria professora e escritora Ofenísia Freire, em depoimento concedido em 1992 a Freitas (2003), contou como conseguiu ingressar para a Escola Normal, contando com o auxílio da Professora Quintina Diniz, na época Diretora daquela Instituição de Ensino,
...naquele tempo exigia-se a idade de quatorze anos... Não sei se foi erro, ou se foi certo, que a Diretora do Colégio que era uma grande senhora, Dona Quintina Diniz, onde eu era interna na no Colégio Sant Anna, na Rua de Maroim. Ela disse: ‘ Esta menina está pronta demais! Não tenho mais o que ensinar no curso primário!’ Ela precisa ir para escola normal! [...] ela precisa ter idade, porque na escola Normal só se entrava com 14 anos’ Então meu pai providenciou uma nova certidão de idade, com mais três anos para mim... Minha idade oficial é uma não é... Eu entrei com 11 anos na Escola normal e sai com 16 anos... Porque naquele tempo eram cinco anos de Escola Normal! (apud Freitas, 2003: 111).
Contudo, afirma a Professora Anamaria Bueno G. de Freitas (2003), que a alteração da data de nascimento era uma das estratégias utilizadas pelas famílias a fim de que suas filhas, apesar de não contarem com a idade exigida, ingressassem na Escola Normal. Essas meninas, provavelmente, recebiam aulas particulares, ministradas por professoras ou Preceptoras. A figura da Preceptora constituiu uma valorosa e grande contribuição para a educação feminina no período oitocentista brasileiro, embora não tivesse surgido no período republicano, pois nos meados dos oitocentos já era uma presença freqüente no âmbito doméstico das famílias brasileiras componentes das classes mais privilegiadas, financeiramente, do século XIX. Assim, a Preceptora, segundo definição de Ritzkat (2007), tratava-se de uma mulher que ensinava em domicílio ou que habitava com a família dos alunos para fazer companhia e ministrar aulas para as crianças. Muitas vezes eram jovens, bem nascidas, oriundas da aristocracia empobrecida, principalmente, provenientes da Europa, geralmente da Alemanha e que se empregavam como Preceptora ou governante, em casas de famílias abastadas. Até o final do século XIX, houve um grande desenvolvimento dessa profissão, na medida em que os pais de família desejavam dar uma educação mais esmerada aos seus filhos. No Nordeste do Brasil, era muito comum a presença dessas preceptoras nas casas das famílias mais abastadas, também em Sergipe.

Assevera Albuquerque (2005), que nas primeiras décadas do oitocentos a presença das professoras estrangeiras em Sergipe, ainda, era muito diminuta, no entanto, na segunda metade daquele século, elas já faziam parte daquele contexto, lecionando para os filhos e filhas dos componentes da elite financeira.

Após a conclusão do Curso Normal, já diplomada professora, Ofenísia regressara para sua cidade natal, indo morar com seus pais. No entanto, deparou-se com um obstáculo, pois as professoras formadas no nível técnico, na Escola Normal, teriam que lecionar nos primeiros dois anos de sua carreira em escolas dos povoados do interior sergipano. Dessa forma criou-se um impasse, tendo em vista que o seu pai não permitiu que a filha se ausentasse, por ser muito jovem, apesar de formada, da cidade de Estância. Decorrente desse fato, Ofenísia só lecionou dois anos após sua formatura, ao ser criado, dentro do próprio município, um povoado, por iniciativa do então prefeito da cidade, objetivando resolver tal impasse e atender à Portaria do Governador do Estado. Então, em uma pequena escola de um povoado que foi recém-criado “Caminho do Porto,” na sala de uma casa de família, pertencente às pessoas simples. Logo, Ofenísia começou a exercer sua função de professora. Na frente da casa, o nome da Escola pintado na parede, “Nossa Senhora Auxiliadora.” Posteriormente ensinou em outros colégios, como no Grupo Escolar Gumercindo Bessa e no Colégio Sagrado Coração de Jesus (Jornal da Cidade, 2007).

Casou-se como Senhor Filemon Franco Freire, funcionário público estadual, Secretário do Tesouro Estadual do Governo de Seixas Dórea, vindo residir em Aracaju no final da década de 1930 (PINA, 2007). No final dessa década de 1930, ocorrera no Brasil fatos importantes e decisivos que marcaram não só o setor educacional como também os setores social, econômico e político do país. Durante o processo de industrialização, urbanização e modernização surgem uma série de leis, objetivando organizar a educação primária, secundária e superior no Brasil e nos seus respectivos estados. Ainda em sua cidade natal, mês de agosto de 1933, a Professora Ofenísia, uma jovem de apenas 20 anos de idade, fizera um discurso de saudação ao chefe do Governo Provisório da República, Getúlio Vargas e sua comitiva, quando de sua visita a Sergipe, em nome da mulher estanciana, a convite do Intendente Municipal de Estância, Francisco de Araujo Macedo, eis um trecho do discurso,


Como todos outros os rincões do nosso Brasil por aí esparsos, qual mais emocionante, qual mais feliz à espera da brilhante comitiva que ora os deslumbra. Sergipe, pigmeu gigante glorioso, se movimenta se apressa, e se engalana paro o grande acontecimento. E Estância, retalho pequenino desse Sergipe adorado. Estância – cidade da terra Sergipana – oferece-vos nossa humílima, a mais manifestação a mais eloqüente prova de seu entusiasmo, de sua gratidão e de sua solidariedade. E vimos nós, mulheres estancianas, guiadas pela insuplantável fidalguia de nosso Prefeito, Francisco de Araújo Macedo, esse homem dínamo, vontade e ação, vimos nós, ilustre e eminentíssimo senhor cumprimenta-vos pela Estância, pela alma de seu povo que vos sal unánimo; desse povo que vê em vosso perfil de muralha e de granito, de bravura e de nobreza, o Brasil redivivo, o Brasil liberto, o Brasil alevantado pelo o ideal mais nobre de todos ideais...

Dr. Getúlio Vargas- no dia 21 de outubro de 1930, data que culminou a brilhante epopéia revolucionária, V. Excelência com os vossos companheiros de luta criaram para os brasileiros uma nova e luminosa era; construiu uma nova pátria que tem como alicerce a imolação de um mártir, traçou com vosso esforço incansável de batalhador napoleônico a página mais bela história do Brasil! (FREIRE, Ofenísia. Estância: Jornal A Razão, 1933)


É também, na década de 1930, que ocorreu o início da publicização da educação,quando as camadas populares ingressaram, aos poucos, nos processos formais de educação, mesmo sem conseguir aí permanecer. O Brasil, nesse período, passou por duas ditaduras: a do Estado Novo, de 1937 a 1945; e a Militar, de 1965 a 1985. Nessa época, destaca Lopes e Galvão2, que apesar de tais acontecimentos, a educação era considerada como um elemento de grande relevância para a formação de novas gerações, como também a sua inserção em uma ordem política e econômica, a qual, então, deveria ser incontestável. Assim, no ano de 1941, em pleno “Estado Novo” na chamada “Era Vargas”, a professora é nomeada para o Colégio Atheneu Sergipense a fim de ministrar aulas de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Brasileira e Teoria Literária, onde permaneceu até a data de sua aposentadoria, 1966. Foi também professora fundadora do curso secundário do Colégio Jackson Figueiredo, que começou a funcionar em 01 de fevereiro de 1938, sob a direção do professor Benedito Alves de Oliveira e sua esposa, Judite Rocha de Oliveira, no inicio funcionou na Rua Itabaianinha, posteriormente, em um prédio situado na Praça Olímpio Campos, no centro de Aracaju. Lecionou, também, no Colégio Tobias Barreto, ambos, então, da rede particular de ensino, em Aracaju, posteriormente vendidos para o Estado.

Ofenísia, além do mais, atuou na imprensa, publicando artigos em jornais, revistas e impressos em geral, sobre temas diversos, principalmente, literatura e aspectos biográficos de educadoras e escritores e poetas sergipanos, como Gilberto Amado, escritor, memorialista, ensaísta e ficcionista sergipano, nascido, também, na cidade de Estância. Foi Secretário das Nações Unidas,em 1948, época em que prestou uma homenagem ao seu estado, Sergipe, estabelecendo o aniversário da ONU para data de 24 de outubro, data então comemorada, durante muitos anos, em Sergipe, como o marco de sua emancipação política do Estado da Bahia.

Hermes Fontes, escritor, jornalista, poeta e caricaturista, natural da cidade de Boquim, em Sergipe, porém radicada durante muitos anos no estado do Rio de Janeiro. Publicou inúmeros livros, sendo A Fonte da Mata, em homenagem a sua cidade natal, seu último livro, publicado no ano de sua trágica morte, em 1930. No Passeio Público, no Rio de Janeiro, foi erigido seu busto, em 1936, por iniciativa do escritor Austregésilo de Athayde.

Etelvina Amália de Siqueira, natural da cidade de Itabaiana, Sergipe, em 1872 era educadora, poeta e escritora, envolvida com a questão da libertação dos escravos, era considerada pela professora Ofenísia como, “a pioneira das intelectuais sergipanas”, entre outros escritores de igual importância.

A professora sempre preocupada com a questão de gênero, em ascensão com o Movimento Feminista nos anos de 1970, destacou a presença da mulher em Os Lusíadas, nos “Dez Cantos” que compõem o poema épico de Camões, escritor de sua predileção. E no ano de 1972, começou a publicar em periódico sergipano, com o objetivo de prestar uma homenagem ao quarto centenário da primeira edição de Os Lusíadas. Nesses artigos, destacava a presença da mulher nesses “cantos”.

Posteriormente, no ano do quarto centenário de morte do escritor português Luis de Camões, 1980, a professora reuniu tais artigos e publicou o seu primeiro e único livro-“Presença Feminina em Os Lusíadas”. Esses artigos eram veiculados através do “Jornal da Cidade”, como destacou em nota explicativa à primeira edição de seu livro, na sua 2ª edição em 2000. A própria professora, “Quis agora, o ano do quarto centenário da morte de Camões, enfeixar sob um volume aqueles artigos, em homenagem à Mulher e ao Poeta de minha predileção, que a fez presente em todos os Cantos de seu poema imperecível (FREIRE, 1980:4). Nesse mesmo ano, a professora vai ocupar a cadeira número 16, para qual foi eleita, na Academia Sergipana de Letras. Passa a ocupar a vaga do poeta Abelardo Romero. Essa cadeira 16 tem o poeta Pedro Calazans como seu patrono e o poeta Hermes Fontes, como seu fundador.


Assinala Figueiredo (1980), na apresentação do seu livro,
Professora e Escritora, síntese feliz de erudição e cultura, realidade e imaginação, conhecimento vivo e cidadania atuante, Ofenísia Soares Freire aí está. Presença sabida e pacificamente marcante na sociedade sergipana. Ela precisa ser lida, especialmente pela mulher desfigurada, agredida, deformada pela sociedade de consumo, mulher que vive angustiada pela nostalgia da grandeza e poesia, nessas condições, irrealizada. Está aí um trabalho que, dentre outras qualidades, não peca pela economia de inteligência e ternura. (FIGUEIREDO, 1980:14).
A contribuição dessa educadora para a educação e cultura, provavelmente, tenha ultrapassado os limites da educação escolar. Conforme afirmou sua ex- amiga e ex-colega do Colégio Atheneu Sergipense e da Academia Sergipana de Letras, a professora, escritora, poeta e acadêmica Maria Ligia Madureira Pina (1994), “Ofenísia lecionou em vários colégios da rede pública e particular, se aposentou pelo Colégio Estadual Atheneu Sergipense, por tempo de serviço. Era oradora, escritora e jornalista (PINA, 1994:392). O Professor Jorge Carvalho do Nascimento diz que a professora,
Ofenísia Soares Freire é a professora que educou várias gerações de sergipanos aprofundando-os nos segredos da língua portuguesa. Mulher, símbolo de lutas e resistências políticas com forte visão humanista, é reconhecida como profissional da educação e militante das causas da cultura, sempre em defesa da cidadania. (Nascimento, 1980, trecho da orelha do livro, “Presença Feminina Em Os Lusíadas”).

O professo José Anderson Nascimento4, Presidente da Academia Sergipana de Letras, de quem a professora Ofenísia Soares Freire foi sua Vice-Presidente, até o ano de seu falecimento, prefaciou a 2ª edição do seu livro, destacando a importância da educadora nos meios educacionais e culturais de Sergipe, assim,


O livro “Presença Feminina em Os Lusíadas” de autoria da professora e acadêmica Ofenísia Soares Freire, uma das figuras mais representativas da educação e da cultura em Sergipe - acolhida por literatos, quer no Brasil, quer- no estrangeiro e também por academias, universidades e institutos de letras, dentre os mais ilustres, valoriza a mulher em todos dez cantos de Os Lusíadas. “... nas magistrais páginas de seu livro, a professora Ofenísia Freire, como é mais conhecida nos meio acadêmicos, enfoca com muita perfeição; o poema épico de Camões, publicado em 1572, uma das obras primas da literatura universal (NASCIMENTO, Anderson Nascimento. Prefácio à primeira edição do livro Presença Feminina em Os Lusíadas, 2000).
A professora Ofenísia, embora tenha se aposentado muito cedo, o que foi bastante comentado nos principais jornais da época, jamais se desligou, totalmente, do magistério haja vista que no seu discurso de posse na Academia Sergipana de Letras, trazia, ainda, viva a lembrança de seus ex-alunos ao se expressar assim no seu comovente discurso,
Eu me liguei ao magistério como a era se enrosca ao tronco robusto de uma árvore. Em meu pensamento vive a lembrança de meus alunos. Muitos deles contemplam aqui neste momento, de forma que meu discurso, pronunciado diante da alta cúpula da intelectualidade sergipana, traz-me, não obstante, a sensação de estar no recinto de uma sala de aula (FREIRE, 1980:67).
Logo, reconstruir a trajetória de vida dessa educadora, através de uma abordagem biográfica, reveste-se de grande importância, sem, contudo tender para uma biografia de caráter laudatório. Ademais, tal estudo representa um desafio, um grande desafio. Como disse Le Goff (2003), em uma entrevista concedida à jornalista Label France em 1996, logo após o lançamento de seu livro, Luís IX, “... a escolha de uma biografia é sempre um desafio” “... por outro lado, acho que só se pode escrever uma boa biografia se esta for sobre um personagem de quem se acredita ser capaz de chegar bem perto (LE GOFF apud FRANCE, 1996). Logo, a abordagem biográfica utilizada para a reconstituição de trajetórias de vida, decorre da relevância e da larga utilização dessa metodologia para se compreender as relações entre os processos familiares, os de escolarização, os sociais, os de profissionalização e o processo de construção da identidade de gênero.
Considerações Finais
Reconstituir a trajetória dessa professora que lecionou mais de 40 anos, sendo vinte e cinco anos de sua vida, dedicados, especificamente, ao Colégio Atheneu quando, então, lecionou às diversas gerações. Era, além do mais, era uma pessoa comprometida com a questão da educação, cultura e também, envolvida no processo de redemocratização do país, na medida em que se candidatou em 1947, à deputada estadual e federal pelo Partido Comunista Brasileiro. E, acrescente-se, ainda, o fato do seu interesse e preocupação, desde a década de 1970, quando ocorreu no Brasil à reestruturação de grupos feministas e surgiram diversos movimentos de mulheres, também em Aracaju. Nessa época, já voltava suas vistas para o papel e desempenho da mulher na sociedade, assim como, para as questões das relações de gênero. Uma vez que, seus artigos publicados na imprensa periódica de Aracaju trataram de tais questionamentos, mais precisamente, através do “Jornal da Cidade”, como destaca o professor Jorge Carvalho do Nascimento (2007), “... inspirada a partir da atenção com que trata as questões de gênero, Ofenísia Freire nos oferece um estudo cuidadoso acerca do caráter renascentista e dos modelos clássicos do poema camoniano (NASCIMENTO apud BARRETO, 2007:70). Assim esse estudo representa uma maneira de reconhecer a grande contribuição dada por essa intelectual às gerações do passado, as gerações do presente, as do futuro, e as que virão num futuro mais distante. Logo, identificar os pontos da trajetória da professora Ofenísia, que podem apresentar marcos relevante para a formação profissional das novas gerações de professores, é um dos objetivos fundamentais dessa pesquisa.

Ademais, as trajetórias de vida das pessoas podem modelar e forjar o seu perfil, sua identidade, no entanto não podem ser construídas no isolamento, mas só socialmente; para isso é preciso à acumulação de diversos componentes e toda rede de relações sociais construídas pelo indivíduo em interação com outras pessoas, assim tal interação é construída através da educação escolar, familiar, formação profissional/intelectual, a militância nos movimentos sociais, a mobilidade na vida formal, entre outros fatores. Assim, a aquisição decorrente de tais fatores em interação, remete a duas categorias conceituais que Bourdieu (1989), chama de hábito e campus, e resultam na formação do capital cultural e social do indivíduo. Tais categorias conceituais serão utilizadas no estudo, ora em andamento, para compreender o capital cultural dessa educadora, como também a construção de sua identidade de gênero, numa época em que a mulher tinha que transpor inúmeros obstáculos, barreiras e preconceitos para fazer a travessia entre o mundo privado e o público. E ela, certamente, fez essa travessia.


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1- CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. M. Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

2-BORGES, V.P. Conf. Op.cit. p. 212

3-BORGES, V. P. Para esclarecimento, vide Grandezas e Misérias da Biografia .In: PINSKY. C. B. Fontes Historicas. S. Paulo: Ed. Contexto,2006.

4-NASCIMENTO Anderson Carvalho. Prefácio à 2ª edição de Presença Feminina em Os Lusíadas.
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________. Tecendo Memórias, História e Saberes: Aspectos Biográficos da Educadora Ofenísia Soares Freire. In: EPPEN: Educação, Direitos Humanos Inclusão Social: CD-ROM, ISBN978=85-7745382-5. Universidade Federal da Paraíba: João Pessoa, 2009.

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__________________. Professora e Escritora Ofenísia Soares Freire: “A mestra de todos nós”. In: X Encontro de Pesquisa da ANPED Centro-Oeste. Desafios da Produção e Divulgação do Conhecimento. Anais e CD-ROM, ISBN 21774936 Uberlândia, Minas Gerais: Universidade Federal de Uberlândia, 2010.

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Depoimentos e Entrevistas


FREIRE, Ivan. Entrevista concedida à Autora em 21/01/2009

PINA, Maria Ligia Madureira. Entrevista conceda à Autora em 6/06/2008



SOUZA, Manuel Alves. Depoimento concedido à Autora em 30 /06/2009

VIEIRA NETO, José. Depoimento concedido à Autora em 08/06/2008


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