Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Iniciação

aos segredos

da antiga

sabedoria

siberiana

Círculo

de Xamãs
Olga Kharitidi
Tradução de PEDRO RIBEIRO
ROCCO

Rio de Janeiro - 2001

Título original - ENTERING THE CIRCLE

Ancient Secrets of Siberian Wisdom Discovered by a Russian Psychiatrist

Copyright © 1996 by Olga Kharitidi.

Todos os direitos reservados.

Publicado por acordo com a Harper San Francisco, uma divisão da HarperCollins Publishers, Inc.

Direitos mundiais para a língua portuguesa reservados com exclusividade à

EDITORA ROCCO LTDA.

Rua Rodrigo Silva, 26-5° andar

20011-440 - Rio de Janeiro, RJ

Tel.: 507-2000- Fax: 507-2244

e-mail: rocco@rocco.com.br

www.rocco.com.br

Printed in Brazil / Impresso no Brasil

preparação de originais MARIA ALICE PAES BARRETO

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte - Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.


Kharitidi, Olga

K9lc


Círculo de xamãs: iniciação aos segredos da antiga sabedoria siberiana / Olga Kharitidi; tradução de Pedro Ribeiro. - Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

(Arco do Tempo)


Tradução de: Entering the circle: ancient secrets of Siberian wisdom discovered by a Russian psychiatrist

ISBN 8~325-l237-2


1. Kharitidi, Olga. 2. Xamanismo. 3. Xamanismo - Sibéria (Rússia, Federação). I. Título. II. Série.

CDD -299.4

01-0210 CDU -299.4

Agradecimentos
Gostaria de expressar minha profunda gratidão e reconhecimento às pessoas que apoiaram meu trabalho e ajudaram no desenvolvimento de Círculo de Xamãs, cada uma à sua maneira. Agradeço de coração a Andrey Kogumayan, William H. Whitson, Marion Weber, Paula Gunn Allen, Maki Erdely, Wendy Gilliam, Dee Pye, Ansley, Kathy Sparkes, Rebecca Latimer, Winston O. Franklin, Barbara McNeiI, Carol Rachbari, Elisabeth Hebron, JaneAnn Dow; Douglas PriceWilliams, Carol Guion, e muitos outros que participaram da elaboração deste livro.

Minha gratidão especial para meu editor, Douglas H. Latimer, que, armado com seu profissionalismo e inesgotável senso de humor, foi capaz de transformar o diálogo supostamente difícil e emocionalmente desgastante entre autor e editor numa atividade de criatividade inspiradora.

Com meu amor e gratidão para toda minha família.

Se houvesse alguma coisa no ar

Se houvesse alguma coisa no vento

Se houvesse alguma coisa nas árvores ou arbustos

Que pudesse ser pronunciada e tenha sido ouvida pelos animais,

Que esse Conhecimento Sagrado retorne a nos.
Atharvaveda (VII 66)
De acordo com a tradição, este hino era oferecido para expiar possíveis quebras nas condições sob as quais a Sabedoria Sagrada poderia ser transferida.

Nota da autora
Este é um relato autobiográfico verídico de um período de minha vida em que uma estranha cadeia de circunstâncias me levou do meu trabalho em um hospital psiquiátrico em Novosibirsk, Sibéria, para uma série de notáveis experiências e revelações xamânicas na região historicamente mística das montanhas Altai. Com pequenas exceções, todos os eventos neste livro aconteceram como os descrevi. Só fiz algumas alterações para proteger a privacidade de minha família e de meus amigos. As seções em letras itálicas (escritas no tempo presente) foram tiradas diretamente de meus diários. Os diálogos foram recordados e depois registrados da maneira mais fiel possível. Os desenhos usados neste livro representam tatuagens de uma múmia desenterrada de uma antiga tumba nas montanhas Altai, assim como de outras obras de arte da mesma tumba.
Olga Kharitidi

Prólogo
A chuva finalmente parou e as nuvens rapidamente abandonaram o céu, levadas por fortes ventos do leste. Havia um silêncio e uma escuridão quase total do lado de fora da minha janela. Através da porta aberta da sacada, a fresca brisa noturna trazia da rua um aroma agradável de folhas molhadas e asfalto úmido ao meu apartamento.

Apaguei a luz e caminhei até a sacada para uma última olhada no céu noturno. A cidade inteira estava diante de mim, lembrando um gigantesco navio de passageiros com luzes fortes brilhando das escotilhas. Porém, na realidade esta cidade aparentemente vasta e luminosa era só um pequeno fragmento terrestre, suas luzes insignificantes sob milhares de estrelas resplandecentes que piscavam sobre a noite límpida e pacífica.



Subitamente, enquanto eu estava no parapeito da minha estreita sacada, respirando o ar suave e fragrante, uma das estrelas pareceu crescer e brilhar mais do que as outras. Então foi como se o céu fosse rasgado, girando violentamente como se o cone de um gigantesco tornado estivesse se aproximando cada vez mais, preenchendo meu campo de visão.
Sinto um enorme poder desconhecido se aproximando, e sei que estou sendo chamada mais uma vez para outro lugar, para outra época. É tarde demais para escapar ou até mesmo para sentir medo, muito embora a essa altura eu esteja tão acostumada ao "extraordinário" que talvez não ficasse assustada mesmo se houvesse tempo para isso.

Num piscar de olhos, toda a cena muda. No lugar onde um momento antes havia apenas o límpido céu noturno, agora a brilhante luz diurna enche meus olhos. Estou flutuando muito acima do chão, num lugar que nunca vi antes. Minha mente está funcionando de uma maneira diferente agora, como se eu fosse uma nova pessoa, sem lembrança alguma do passado. Não estou com medo algum, apenas consciente e receptiva. Sei que fui trazida a este lugar com uma finalidade. Confio neste conhecimento e espero.

Enquanto me aproximo flutuando do chão, posso ver uma planície verdejante abaixo de mim. A grama tem o verde da primavera, é alta e cheia de vida recém-nascida, ondulando na brisa. Posso sentir a sua fragrância, e esta sensação puramente física me ajuda a deixar de lado outros pensamentos e me deixa centrada aqui.

Subitamente, barulhentas batidas de tambor vindas da minha direita chamam a minha atenção. Meu olfato já me enraizou neste novo lugar, e agora minha audição aprofunda minha conexão com ele. Meu corpo se move facilmente no ar, e me volto para a direita, na direção das batidas de tambor. Nunca poderia imaginar aquela cena diante de mim.

Dez homens, entre vinte e cinco e quarenta anos, cabelos presos em longos rabos-de-cavalo, estão dançando abaixo de mim num círculo. Suas roupas me parecem estranhas, com suaves tons castanhos decorados com padrões geométricos diferentes de qualquer coisa que eu já houvesse visto. O som do tambor é constante, e muito embora os movimentos dos homens sejam graciosos, existe uma inconfundível urgência na sua dança. À medida que me aproximo para olhá-los mais de perto, percebo que há uma mulher deitada no meio do círculo. Os homens se movem e giram dançando ao redor dela, com um ar de grande intensidade nos seus rostos. Não escuto som algum, a não ser as insistentes batidas do tambor.

De início não compreendo por que os homens pareciam tão estranhos para mim, mas à medida que noto mais e mais detalhes, percebo que seus rostos mostram uma consciência e ligação com sua cerimônia que as pessoas do nosso mundo moderno perderam. Compreendo que eles são seres antigos, e que estou experimentando algo que aconteceu há muitos milhares de anos.

Ainda estou flutuando acima do círculo de dança, descendo gradualmente rumo à finalidade da minha vinda. A mulher que é o ponto focal da dança e do batuque torna-se mais visível à medida que eu desço. Sua figura sem vida é incrivelmente bela. A simplicidade do seu vestido cinza-amarelado faz um forte contraste com as jóias elaboradas que enfeitam seu pescoço e corpete. Embora os colares sejam toscamente confeccionados, as jóias que brilham neles são belíssimas. Sei que ela acabou de morrer.

Olho ao meu redor numa tentativa de decifrar o que está acontecendo e o que estou fazendo aqui. Meus olhos são atraídos para uma velha. Ela está sentada numa pequena caixa de madeira próxima a uma estrutura semelhante a um yurt, uma tenda mongol, com um teto pontudo feito de grama trançada. Ela está fumando um cachimbo, movendo os olhos constantemente do círculo de dança para o céu, com sua presença em toda parte ao mesmo tempo. A sua idade física parece próxima a cem anos, mas a sua aparência não tem idade. Sua pele é escura e enrugada, como pergaminho pintado exposto ao sol constante durante muitas vidas. Seus olhos são estreitos, como os de muitos mongóis da atualidade. Eles se estreitam mais ainda enquanto ela traga a fumaça de seu cachimbo.

A sua participação na cerimônia não inclui a movimentação física dos outros. O ritmo de seu corpo é muito mais lento do que o dos dançarinos. Ela respira calmamente, e às vezes levanta a cabeça lentamente para o céu, como se estivesse esperando alguma coisa. No momento em que penso nisso, ela olha diretamente para mim e fico sabendo que me viu. Há um poder no fato de ser reconhecida por essa mulher; e ele cria uma estranha mistura de alegria e medo dentro de mim.

Continuo a flutuar levemente acima do chão. Uma questão se forma em minha mente enquanto sinto a mulher me focalizar e se concentrar em mim. "Quem sou eu, e o que estou fazendo aqui?" Então o ritmo do tambor pára abruptamente, e os homens param de dançar como se fossem um único corpo, eles olham para mim e começam a cantar. A linguagem deles me é desconhecida, mas de algum modo, entre as coisas que gritam reconheço as palavras, "Deusa Branca! A Deusa Branca está aqui!" Não é através de uma compreensão da linguagem deles que reconheço essas palavras. Elas são de algum modo embebidas no meu ser, junto com o olhar penetrante da mulher idosa, que me dá a sensação de ondas me atravessando sem parar.

Minha atenção é subitamente redirecionada para os homens, que se moveram num círculo maior ao redor da bela garota, abrindo espaço para eu descer com facilidade ao lado dela. As suas cabeças estão inclinadas para cima, olhando para mim, e sinto a expectativa deles diante do que está por vir. Nada me surpreende. Se a surpresa estiver por vir, será mais tarde, quando eu me encontrar de pé novamente na minha sacada.

O corpo em que estou flutuando é um enorme corpo feminino, dez vezes o tamanho normal. Branca e sem peso, sou como uma nuvem. Sei do fundo do meu ser que fui trazida aqui para trazer esta mulher morta de volta à vida.

Pouso no chão. Enquanto estendo o braço na direção do corpo dela, toco as espessas tranças negras que emolduram os dois lados do seu rosto moreno e de feições suaves. Posso sentir que, dentro do seu corpo, ela está flutuando em algum tipo de fronteira entre a vida e a morte, e sei que está em meu poder pender a balança para a vida. Tomo o seu tronco exânime nos meus braços e a levanto até que esteja sentada. De algum modo, sei que ela deve ser mantida nesta posição para que o fluxo da vida retorne ao seu corpo. Quando ela for capaz de sentar-se por conta própria, saberei que retornou totalmente.

Minhas mãos começam a se mover ao redor da sua cabeça e seios. Minhas mãos se movem por conta própria, na batida de um antigo ritual, e agora estou consciente de que esses mesmos movimentos e gestos foram feitos há milhares de anos por outros. Os movimentos estão restaurando e equilibrando a sua energia, e quando tudo parece completo, eu a solto. Agora ela retorna lentamente por conta própria, nadando temporariamente entre camadas de inconsciência e de consciência, o seu corpo se curando seguindo um caminho oferecido através de mim por alguma força desconhecida.

Com meu trabalho terminado, sou elevada por uma energia invisível e flutuo novamente acima da cena. Vôo cada vez mais alto. No momento em que tudo abaixo de mim se dissolve na distância, vejo novamente os olhos da anciã. Ela ainda está olhando para mim, ainda está fumando o seu cachimbo, totalmente consciente da minha presença e de quem eu sou. Vejo gratidão em seu rosto. No momento de mudança em que tudo se dissolve, reconheço a velha como Umai, minha velha amiga e mestra, em ainda outra manifestação.
Então estou novamente de pé na minha sacada, o céu noturno ainda brilhando diante de mim. A transição entre a minha jornada e o retorno à "realidade", se de fato uma é mais real que a outra, é rápida e completa. Muito embora eu seja uma mulher que vive no moderno século XX, agora aprendi a aceitar essas experiências que já foram tão desconhecidas para mim.

Subitamente, escuto dentro da minha cabeça as palavras, "Essas pessoas viveram em um passado muito distante. Nos seus rituais e cerimônias, executados há muitos milhares de anos, elas sabiam precisamente como ultrapassar as barreiras do espaço e do tempo. Elas podiam alcançar a energia de pessoas vivendo no futuro, e sabiam como integrar essa energia as suas cerimônias."

Lembro-me de como o cone no céu parecia no início da minha jornada e como a minha experiência mudara quando me vi flutuando sobre aquela terra antiga. Ouvi a mesma voz dizer, "Eles sabiam como viajar nas naves de Belovodia", e vislumbro um pequeno ponto de luz movendo-se rapidamente pelo céu escuro. Ele desaparece depois de alguns segundos. Depois do sumiço, continuo a olhar para a miríade de estrelas, entre as quais oculta-se mais um mistério.

Agora a jornada está totalmente acabada, e estou mais uma vez no meu pequeno apartamento no meio da Sibéria. Tudo começou há mais de um ano, quando despertei numa manhã aparentemente normal de inverno e saí para trabalhar, sem saber que toda a minha vida estava prestes a mudar. Lembro-me daquele dia tão claramente como se fosse ontem.



1
Nessa manhã específica, como em quase todas as outras manhãs, o meu despertador disparou exatamente às seis horas. O ônibus que me levaria ao hospital psiquiátrico onde eu trabalhava partia exatamente uma hora depois, de uma estação de metrô a alguns quarteirões de distância. Era o último ônibus que me faria chegar na hora, e eu não podia perdê-lo.

Hoje foi especialmente difícil conseguir sair da cama. O meu apartamento estava ainda mais frio do que o normal, e o céu lá fora ainda estava escuro, com sombrias nuvens de neve obscurecendo as estrelas que poderiam ter deixado a noite mais clara. O frio extremo no meu quarto era um sinal seguro de algum problema com o forno principal, e isso significava que eu poderia ficar sem aquecimento novamente durante dias. Pensando em tudo isso, me arrastei relutantemente para fora dos meus cobertores quentinhos e me preparei para um longo dia de trabalho. Depois de um rápido desjejum de torradas e café, mais para me aquecer do que para me alimentar, terminei minhas tarefas matinais.

Suspirei enquanto trancava a porta do meu apartamento, pensando na longa viagem que tinha que suportar toda manhã para chegar no trabalho que eu adorava. Entrei na rua gelada e escorregadia, meu hálito gelado formando um caminho diante de mim no ar parado. Nevara durante a noite inteira, e o zelador ainda não saíra naquela manhã fria para limpar com a pá os montes de neve dos caminhos ao redor do prédio. Foi difícil atravessar os montes de neve e os ventos gélidos. Senti um arrepio gelado atravessar meu corpo, tanto da sensação dessa manhã cinzenta e de algum modo ameaçadora quanto do vento e da neve. Os prédios altos que me cercavam pareciam grandes monstros sombrios e sem alma. Só umas poucas janelas estavam iluminadas entre centenas, cada janela um sinal de vida humana nessa selva de pedra siberiana.

A estação de metrô estava a uma caminhada de quinze minutos. Andei rapidamente e com minha cabeça abaixada, me protegendo o máximo possível do vento. A neve úmida parecia apenas suave e bela; enquanto cobria o meu rosto, mãos e roupas e chegava até a pele descoberta do meu pescoço, novamente senti um arrepio gelado atravessar meu corpo.

Meus passos apressados criaram um ritmo, ao qual adicionei meu cântico usual para as manhãs de inverno. As palavras eram ditas sob minha respiração, no ritmo cantado dos pregadores e feiticeiros: "Eu quero um lugar sentada hoje. Eu quero um lugar sentada hoje!" Nesta época do ano eu teria muita sorte em me sentar no ônibus, e desesperadamente precisava do cochilo que daria se tivesse chance.

Não deu certo. Cheguei na estação só para encontrar uma longa fila de pessoas já esperando, semelhantes a fantasmas dentro de suas silhuetas brancas como neve. A neve que caía lentamente brilhava na pálida luz branca dos postes e nos faróis vermelhos de aparições brancas com a forma de carros, seus motores silenciados pelo vento. Nesta manhã, enquanto me aproximava da multidão, ela se fundiu numa nuvem de hálitos comuns translúcidos, semelhante a um dragão de curvas sinuosas, arrotando fumaça de tabaco e amaldiçoando em alta voz o vento frio e o ônibus atrasado.

Eu deveria saber que não havia esperança de conseguir um assento ou de dar um cochilo nessa época do ano, por causa de todos os homens que viajavam para fora da cidade até o rio gelado para pescar. A cada dia o meu ônibus atravessava o rio Ob, um dos maiores rios da Sibéria. O seu leito largo e poderoso dividia minha cidade, Novosibirsk, em duas partes. Três longas pontes foram construídas para conectar os vários distritos da cidade. Foi depois da construção da primeira ponte, no final do último século, que a cidade começou a crescer. No inverno, o Ob é coberto com gelo espesso, e os homens que gostam de pescar podem caminhar até o meio do rio para cortar aberturas arredondadas. Então podem ficar sentados com seus camaradas, contando histórias e fofocando no gelo durante horas, esperando pela primeira mordida de um peixe faminto. A rota de ônibus segue a costa do Ob até imediatamente antes de chegar ao meu hospital, e hoje, como praticamente todo dia de inverno, os pescadores madrugadores enchiam o ônibus inteiro com seu equipamento volumoso, sentando nos melhores lugares, vestindo longos e escuros casacos invernais e falando em vozes altas e rascantes pontuadas por blasfêmias.

Eu trabalhava num grande hospital psiquiátrico com milhares de pacientes. O hospital ficava fora da cidade, porque sempre foi considerado mais seguro localizar essas instituições longe das áreas populosas. Depois do que parecia muito mais de duas horas de pé, balançando para frente e para trás, mas de outro modo imobilizada pela multidão opressiva no ônibus congelante e sem aquecimento, finalmente alcancei minha parada no hospital. Saí e caminhei rapidamente, tentando restaurar a sensação aos meus pés entorpecidos.

A cada dia, o mesmo quadro desanimador me saudava: treze prédios de um andar construídos no estilo de velhos quartéis de madeira, pintados de uma cor verde-amarelada, com barras de ferro pesadas e cheias de ferrugem cobrindo suas pequenas janelas. Este lugar oferecia a parte mais importante da minha vida; este era o meu hospital.

Caminhando pelo pátio do hospital, vi cerca de vinte pessoas deixando o edifício que servia como cozinha. Elas carregavam pesados baldes de metal cheios de desjejum, e se apressavam de volta para suas enfermarias numa inútil tentativa de manter o chá e seu grude aquecidos. Eu mal podia vê-las porque ainda estava muito escuro, mas podia escutar seus passos claramente na neve gelada, acompanhados pelos sons metálicos de suas bandejas enquanto tomavam caminhos distintos para seus diferentes prédios. O mesmo grude era servido todos os dias. Era a única comida disponível para nós. As grandes bandejas de metal, com suas duas alças de metal e tampas chatas, me lembravam do que poderia ser usado para alimentar prisioneiros.

Havia alguns pacientes cujo estado mental permitia que fizessem trabalhos braçais no terreno do hospital. Esses poucos privilegiados usavam agasalhos cinzentos de mangas longas com seus números impressos nas costas. As cabeças das mulheres estavam cobertas por lenços; os homens tinham cabeças raspadas. Alguns deles eram meus pacientes há muito tempo. Apesar da escuridão, muitos deles me reconheciam e gritavam saudações amigáveis. Outros, novos e desconhecidos para mim, ficavam em silêncio.

Cheguei na minha enfermaria e me preparei para a conferência matinal diária. Eu sempre ia a essas conferências sentindo-me tensa. Os enfermeiros me informavam sobre os eventos da noite, e eu tinha que estar pronta para qualquer coisa. Hoje não foi diferente, e fiquei antecipando os muitos problemas possíveis que poderiam ter surgido.

Em primeiro lugar, escutei pelo relato noturno que um servente que eu contratara há pouco mais que um mês se embebedara e surrara impiedosamente um paciente inofensivo e senil que tinha apenas se recusado a executar um pedido insignificante. O servente chutara repetidas vezes o pobre velho com suas pesadas botas militares, mandando-o para a clínica cirúrgica de emergência com uma ruptura no baço.

Eu esperava que o pobre coitado sobrevivesse. De algum modo sentia que o que acontecera era minha culpa, mas eu sabia que isso não era verdade. A maioria das pessoas que estavam dispostas a trabalhar como serventes eram homens que tinham passado algum tempo na prisão, e muitas vezes traziam com eles o vício do álcool ou das drogas. Eles substituíam uns aos outros com freqüência. Um deles era suspenso do trabalho depois de algum incidente criminal, e outro tomava seu lugar, com o mesmo rosto embotado pelo álcool e a mesma mente cínica - uma péssima combinação para os pacientes de quem eles cuidavam. Eu tinha pouca escolha sobre as pessoas que podia contratar, e pelo menos isso tornou mais fácil saber que eu não tinha realmente como proteger meu paciente. Ele estava sendo operado naquele exato momento, e eu fiz uma oração rápida e silenciosa por ele.

O enfermeiro contou em seguida sobre um novo paciente que fora trazido ao hospital pela policia às três da manhã. Li o relatório do policial sobre o jovem:
O paciente foi encontrado na floresta, a vinte e cinco quilômetros da cidade. Ele estava correndo pelos trilhos na direção de um trem em movimento. Ele não conseguiu explicar nada depois da sua detenção. Ele não respondeu a nenhuma pergunta e foi incapaz de se integrar com o que estava acontecendo à sua volta. Ele nem mesmo percebeu que o pegamos.

Roupas: Uniforme do exército, sujo e rasgado.

Documentos: Certificado, soldado da União Soviética.

Ele fala sozinho. Ficou claro, a partir de algumas das suas palavras, que ele vê alienígenas de um OVNI ao seu redor.


Eu estava curiosa para vê-lo, mas estava na hora da minha visita matinal pela enfermaria masculina. Eu teria de vê-lo mais tarde.

Oitenta homens com problemas mentais viviam em quartos de enfermaria mal-iluminados por lâmpadas azuis. Todos eles usavam pijamas semelhantes, uniformes idênticos, sujos, cinzentos e com listras negras verticais. Havia de cinco a dez pacientes em cada quarto. Eles não tinham privacidade, já que os seus quartos não tinham portas. Um grande quarto para pacientes crônicos abrigava mais de vinte homens. As serventes tentavam lavar e limpar a enfermaria, mas era impossível se livrar do forte cheiro de suor humano misturado com urina, remédios e uma desagradável sensação de abafamento. Este era o odor regular do meu trabalho, e eu tinha me acostumado a ele há muito tempo.

Os meus pacientes eram todos tão familiares para mim que quase pareciam uma família. Eu sabia a história da vida de cada pessoa desde a infância mais tenra até o ponto em que a doença mental havia cortado suas expectativas, cuidados e família - toda a sua vida até aquele momento - e a isolara no que era chamado de "casa dos loucos".

Cada paciente era diferente. Enquanto eu fazia meus turnos, um deles me pediu para reduzir sua dose de remédio porque ele já se sentia muito melhor. Um outro nem mesmo me ouviu chegar, porque a sua mente só tinha espaço para suas vozes interiores. Um outro simplesmente ria silenciosamente no canto. A única coisa comum em todos eles era a qualidade pálida, quase fantasmagórica dos seus rostos, com profundas olheiras por baixo dos olhos. Essa gente nunca via o céu ou respirava o ar fresco.

Eu passava de um paciente para o outro, notando mudanças nas suas condições médicas, dando as recomendações de tratamento usuais para os enfermeiros, respondendo a perguntas. Pensei brevemente sobre o novo paciente mais uma vez. "Um soldado", pensei comigo mesma. "Isso é muito interessante. Será que os horrores da vida no exército levaram esse homem a fingir uma doença mental?"

Fingir-se de louco era um truque familiar que muitos homens usavam para sair do exército. Os homens geralmente eram recrutados para o exército logo após o ginásio, como rapazes de dezoito anos. Saindo do ambiente de um lar seguro, eles estavam completamente despreparados para o comportamento chocante que encontravam. Eles experimentavam zombarias, humilhações, e até mesmo surras dos soldados veteranos. Esta era a lei tácita do exército. Se você não fazia aos outros, eles fariam com você. Muitos eram incapazes de aceitar estes fatos. Alguns que não conseguiam lidar com isso chegavam a realmente desenvolver sérias doenças mentais e precisavam ser internados. Outros, vendo isso, preferiam a relativa segurança de serem trancados no hospício, e portanto fingiam estar doentes.

Entrei na sala dos pacientes recém-chegados. Eu pude perceber desde o primeiro olhar que aquele soldado estava inquestionavelmente doente. Ele estava sentado num canto, hirto de medo, parecendo mais um animal assustado do que um ser humano. Todo o seu corpo indicava uma incrível tensão. Eu nunca deixei de me perguntar de onde vinha a impossível energia das pessoas com problemas mentais. Como os seus corpos a criavam?

A mesma energia que estava imobilizando o soldado naquele momento também podia fornecer uma força física incrivelmente violenta que muitas vezes levava os pacientes a ferir a si mesmos ou aos outros. Eu já tinha visto variações deste quadro repetidas em muitas ocasiões, paciente após paciente. As roupas deste pobre sujeito eram exatamente como o policial as descrevera, sujas e rasgadas. A equipe noturna tinha sido incapaz de trocá-las sem causar mais danos do que benefícios, e portanto isso seria uma tarefa para a equipe diurna. Mesmo agora, sentado nervosamente no chão, ele ainda estava rasgando suas vestes. As roupas eram feitas de um resistente tecido projetado para sobreviver às duras condições da vida militar, e não teria sido possível para ele rasgá-las no seu estado de espírito normal.

Ele continuou a destruir suas poucas posses enquanto eu assistia. Os seus olhos azul-claros e vazios miravam fixamente o nada. A nossa enfermaria podia conter o seu corpo, mas o resto do seu ser estava em algum lugar muito além dela.

Os seus lábios sussurraram algumas palavras indecifráveis. Fiz a ele algumas perguntas necessárias sem esperar pelas respostas. Eu não tinha acesso ao que quer que fosse a sua "realidade" naquele momento, de modo que pensei sobre a dosagem da injeção que lhe daria. Eu sabia que mais tarde, quando estivesse lúcido, ele descreveria para mim as imagens e experiências que estava tendo naquele momento.

O seu nome era Andrey, e parecia ter cerca de dezessete ou dezoito anos de idade. Seu corpo era muito magro. Talvez ele houvesse perdido peso devido à má nutrição que era comum no exército. O seu cabelo castanho-claro fora raspado rente pelos barbeiros do exército, e agora só tinha cerca de dois centímetros e meio na sua cabeça inteira. Isso fazia com que seu rosto parecesse vulnerável e aberto. Ele tinha um rosto ainda bastante infantil, com uma expressão de grande medo. Ele era só um garoto cuja mente fora totalmente sobrepujada pelas experiências traumáticas que agora provavelmente o afetariam pelo resto da vida. Por enquanto, uma dose média intravenosa de Haloperidol deveria ser o bastante para acalmá-lo e iniciar o seu retorno à realidade.

O meu próximo paciente era Sergey, um sujeito bonito, jovem e de compleição robusta que, externamente, parecia pronto para ir para casa brevemente. Ele parecia alegre, falava comigo abertamente, e conversava de maneira crítica sobre suas experiências enquanto estivera doente. Ele fora muito útil no trabalho da enfermaria. Mas talvez tudo estivesse um pouco bem demais, um pouco alegre demais, um pouco aberto demais. Ele desejava apaixonadamente ir para casa para ficar com sua adorável jovem esposa, mas eu sabia que uma grande parte da sua psicose estava conectada a um ciúme patológico.

Como sempre ocorre no caso de pacientes potencialmente perigosos, o médico-chefe do hospital fora chamado para uma consulta. Ele receitara uma combinação de drogas para suprimir a vontade consciente de Sergey, o que por sua vez o forçaria a falar a verdade. Eu ainda não dera esses medicamentos a ele, muito embora eles certamente pudessem me dizer sobre o seu verdadeiro estado de espírito quanto à sua esposa.

Este tipo de decisão sempre criava um dilema moral para mim. Se eu fosse Sergey, como me sentiria se alguém, sem minha permissão, entrasse na minha psique através de drogas para conseguir as respostas para qualquer pergunta que desejasse fazer? A minha opinião negativa desse processo nunca se alterou, e ela me perturbava sempre que essas drogas eram receitadas.

Com sorte, eu conseguiria encontrar uma maneira diferente de lidar com o caso de Sergey. De qualquer modo, eu já sabia que precisava me encontrar com sua esposa e insistir para que eles se divorciassem. Eu precisava fazer com que ela compreendesse que necessitava ficar o mais longe possível dele. A sua doença sempre seria perigosa, e havia uma possibilidade grande demais de que ele a matasse, ou que matasse alguma outra pessoa num ataque irracional de raiva enciumada. Infelizmente, eu já vira o final trágico de muitas histórias similares.

Quando cheguei a uma conclusão temporária nos meus pensamentos sobre Sergey, escutei o enfermeiro me chamando de volta a minha sala. A mãe do meu novo paciente, o jovem soldado chamado Andrey, acabara de chegar. Alguém no escritório administrativo do exército a contatara, e ela viajara para cá imediatamente. A maioria dos parentes, mesmo as mães, não costumava ir para a casa dos loucos tão rápido.

Ela tinha um típico jeito russo. Era muito parecida com seu filho, com o mesmo rosto simples e aberto e traços comuns. Os movimentos nervosos de suas mãos também me lembravam o seu filho, enquanto de pé ela amassava o seu escuro vestido interiorano, com medo de sentar-se sem minha permissão. Eu sabia pelos papéis de Andrey que ela vivia numa vila próxima com seu marido e dois filhos, um dos quais estava agora neste hospital.

Era óbvio que ela nunca estivera numa clinica psiquiátrica. Ela ainda não compreendera o que tinha acontecido com seu filho mais velho. Estava na verdade feliz com o fato dele ter voltado tão rápido do exército, e estava agradecida pelo seu retorno em segurança. Ela não teria mais que se preocupar com ele durante os dois anos que esperava que ele estivesse longe; ainda não compreendera a diferença entre a esquizofrenia e a pneumonia.

A sua primeira pergunta foi a de qualquer mãe preocupada:

- Diga-me, doutora, quando é que ele vai melhorar?

Se eu tivesse dito a verdade total imediatamente, provavelmente teria respondido, "Nunca". Em vez disso, respondi:

- Provavelmente serão necessárias duas semanas para trazê-lo de volta.

O seu rosto transformou-se numa expressão de felicidade. Mais tarde eu teria de tentar explicar que eu queria dizer que ele se recuperaria da sua atual psicose aguda em duas semanas, mas que quando ele voltasse para ela, seria diferente do que era antes. Talvez só um pouco diferente de início, mas haveria mais mudanças na sua personalidade e comportamento com o passar do tempo. Ele nunca seria novamente o rapaz normal de que ela se recordava. Como eu poderia contar para ela que um mal que destrói mentes e almas sem discriminação já fizera o seu lar dentro dele? Eu sabia, a partir da minha experiência médica, que a esquizofrenia era uma garra que ninguém podia arrancar.

A experiência também me dizia que ela não acreditaria em mim de início. Ela esperaria, cheia de expectativas, que seu filho voltasse do hospital e se recuperasse completamente com o apoio da sua família amorosa. Ela e o pai esperariam que o rapaz ajudasse novamente nas tarefas do seu pequeno lar no interior. Durante algum tempo as coisas pareceriam quase normais, até que certo dia a garra atacasse o seu corpo novamente, fazendo com que ele corresse por trilhos diferentes na direção de outro trem em movimento. Algo assim certamente ocorreria, e depois disso, sua mãe morreria de medo da época em que seu outro filho, o seu bebê, também fosse mandado para servir no exército. Mas por enquanto a mãe já tinha o bastante com que se preocupar, e ela saiu para contar ao marido e filho as boas-novas de que Andrey voltaria para eles em duas semanas.

Esta impotente sensação de fraqueza profissional, a minha falta de onipotência enquanto médica, era um dos aspectos mais difíceis do meu trabalho. Eu nunca me acostumei com o fato de que muitas vezes precisava admitir derrota parcial ou total para as doenças que estava combatendo. Eu não sabia se médicos de outras especialidades sentiam a mesma coisa tão regularmente, mas é um mal ocupacional bem conhecido para psiquiatras. Não existem drogas, medicamentos ou técnicas cirúrgicas para trazer de volta a mente de um paciente. Enquanto eu abria novamente meus olhos, ouvi uma batida na porta da minha sala.

Agradecida pela interrupção, disse "Entre". O meu amigo Anatoli entrou, e fiquei feliz por ver alguém com quem eu gostava de conversar.

- Oi! - disse ele. - Vamos almoçar e tomar uma xícara de chá?

A manhã passara rapidamente, e eu nem percebera que já era meio-dia. Esta era a hora favorita da equipe do hospital, já que nos dava uma chance de visitar as outras enfermarias, conversando e comendo os almoços que tínhamos trazido de casa. Geralmente eram sanduíches ou saladas simples com uma forte xícara de chá ou café. Era só nos dias especiais, tais como aniversários ou feriados nacionais, que podíamos trazer nossos pratos favoritos como sobremesas ou caviar, já que eles eram caros demais para ser comprados regularmente.

Eu gostava de Anatoli. Ele era jovem e fisicamente capaz, com cabelos castanhos e olhos azuis. Sua criatividade, inteligência e sensibilidade faziam dele um dos nossos melhores médicos. Nós muitas vezes falávamos sobre ele. Seus professores e colegas esperavam que ele tivesse uma carreira muito boa na psiquiatria, mas isso não acontecera ainda. Muitas vezes pensei em puxar o assunto com ele, mas a hora nunca parecia adequada. Hoje finalmente decidi falar com ele sobre isso.

Ele estava sentado no sofá diante de mim, com a tradicional xícara de chá, usando o jaleco branco obrigatório do hospital. Seus olhos estavam escondidos, como de costume, por trás de óculos escuros.

- Sabe, Anatoli, muitas pessoas acreditam que você é um gênio psiquiátrico. Posso perguntar por que a sua carreira ainda não reflete isso?

Ele levou meus comentários como um cumprimento, com visível prazer.

- Mas eu tenho uma carreira muito boa - replicou. Então, com um sorriso irônico ele disse: - Mas acho que você sabe que isto aqui não é um hospital psiquiátrico?

A minha expressão facial não mostrou qualquer surpresa, porque a essa altura eu já estava acostumada com o seu truque de brincar com significados.

- Este não é um hospital de jeito nenhum - continuou. - É um gigantesco navio de malucos, e nós que somos a tripulação realmente acreditamos que trabalhamos aqui como médicos. Nós até mesmo acreditamos que podemos tratar as pessoas e curá-las. Mas eu não acho que seja uma grande idéia fazer carreira numa nave de loucos. Tudo que podemos fazer é navegar cegamente no oceano da realidade ao nosso redor, acreditando que sabemos o que estamos fazendo. Continuaremos navegando em direções desconhecidas para nós, porque não podemos parar. Cada uma das pessoas que trabalha aqui fez a escolha de flutuar através da realidade dentro deste navio, e agora não podemos mais deixá-lo. Porque este é o lugar mais seguro para nós, no caso de realmente acreditarmos que somos médicos, realmente capazes de tratar as pessoas que supostamente estão loucas.

- Você não acredita que exista alguma maneira de escaparmos dessa situação? - perguntei, compreendendo o artifício que estava usando para evitar uma resposta séria à minha pergunta.

- Bem, acho que talvez possa existir um veículo que possamos pegar para escapar rumo à realidade. Você pode vê-lo agora mesmo. Olhe aqui!

Com um sorriso sardônico, ele gesticulou na direção da janela. Através dela eu podia ver a forma familiar do grande, velho e quebrado bonde que estava no pátio do lado de fora do nosso prédio. Ele já não tinha roda alguma, e o seu corpo corroído pela ferrugem estava repleto de galhadas de metal apontando inutilmente na direção do céu, buscando fios que já não estavam mais presentes. Ninguém sabia o motivo por que este bonde fora abandonado no meio do terreno do nosso hospital.

Anatoli estava rindo agora. Ele ainda não me dera uma resposta direta para minha pergunta sobre sua carreira, e seus olhos tinham um brilho mefistofélico.

- Muitíssimo obrigado pelo chá e pela conversa. E agora eu preciso voltar para o trabalho e completar as histórias de mais algum passageiro - desculpe, quero dizer, paciente.


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