Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Mais tarde, enquanto eu estava completando o trabalho burocrático e antecipando desanimadamente a longa viagem de volta para meu pequeno apartamento, o telefone tocou na minha sala. Atendi e escutei "Olá, Olga!" numa voz que imediatamente reconheci como sendo a de Anna. Anna era uma médica, e éramos amigas íntimas há muitos anos. Eu me tornara uma mestra em sentir os muitos humores diferentes na sua personalidade complexa através dos sons e ritmos da sua voz. Hoje ela parecia cansada e preocupada.

Como de costume, durante algum tempo nós conversamos sobre nada e tudo ao mesmo tempo. Qualquer um que nos escutasse teria considerado a conversa trivial, mas toda vez que conversávamos mesmo sobre coisas simples, eu redescobria a importância da nossa amizade. Havia sempre uma frase, uma emoção, ou simplesmente uma energia entre nós que me deixava feliz e viva. Eu sabia que o mesmo ocorria com ela.

O principal motivo para a sua chamada de hoje tornou-se claro quando ela me perguntou se eu não poderia dar uma olhada no seu vizinho, que temia ter um sério problema mental. Eu não podia ignorar o seu pedido, de modo que pedi a ela que o mandasse à minha sala no dia seguinte às três horas. Anna nunca me visitara no hospital, portanto dei as direções a ela e marquei o compromisso no meu calendário. Marcamos uma data para nos encontrarmos logo e então nos despedimos.

No dia seguinte, exatamente às três horas, a enfermeira diurna trouxe um jovem até a minha sala. Ele ficou de pé hesitantemente na minha porta.

- Como está a senhora, doutora? Eu sou Nicolai. A sua amiga, Anna Anatolievna, me indicou à senhora.

Nicolai era um jovem siberiano com um belo rosto mongólico. Com a idade, rostos como o dele são muitas vezes dominados por uma dura força masculina. Este homem ainda era jovem o bastante para mostrar traços de timidez e sensibilidade, que estavam particularmente aparentes naquele momento. Ele estava claramente embaraçado e intranqüilo por estar no consultório de uma psiquiatra.

Deixando de lado seu nervosismo, o jovem siberiano diante de mim certamente não parecia mentalmente doente. Ainda assim, tive o palpite de que ele devia estar em sérios apuros para se confidenciar com Anna e então vir até aqui por livre e espontânea vontade. Na minha experiência profissional, descobri que muito poucas pessoas estavam dispostas a buscar o auxílio psiquiátrico por conta própria. Havia um enorme estigma associado com qualquer indício de anormalidade mental. Isso não só desmotivava as pessoas a procurar ajuda, como também levava aquelas que o faziam a tentar manter isso em segredo através de todos os meios possíveis. Se a situação se tornasse conhecida por seus amigos e colegas, ela inevitavelmente criaria discriminação social.

Nicolai avançou e ficou no meio do meu pequeno consultório, ainda parecendo desconfortável e inseguro de si. Mandei que ficasse à vontade, mostrando a cadeira na frente da minha mesa. Olhei para ele enquanto se sentava. Parecia um operário. Estava vestindo um terno cinza-escuro, camisa branca e gravata preta. Eu podia dizer que ele percebia nosso encontro como um evento bastante oficial. Ele sentou-se nervosamente na beirada da cadeira. Não o apressei, mas simplesmente esperei que ele me contasse sua história. Depois de um breve silêncio para direcionar seus pensamentos, ele começou.

- Obrigado por me ver. O motivo por que estou aqui começou há um mês.

Ele falava russo com um leve sotaque das montanhas que eu achei agradável. Anna me dissera que ele vinha de Altai, uma região isolada e tecnicamente diferente, com sua própria linguagem. Eu não estava surpresa de ouvi-lo dar um nome tipicamente russo, porque todas as pessoas nativas recebiam nomes russos quando pediam passaportes internos ao Estado soviético. Era um mal premeditado, que pretendia acelerar a destruição de suas culturas apagando deliberadamente a herança que vivia em seus nomes.

Nicolai não olhava para mim enquanto falava. Estava claro que ele ainda sentia-se embaraçado, mas que jurara a si mesmo falar comigo, e estava determinado a cumprir sua promessa. Sem dúvida era difícil para ele abrir-se com uma estranha, e ele temia a minha reação quanto ao que pretendia dizer.

- Essa coisa começou para mim quando minha mãe me pediu que voltasse para casa na minha vila em Altai. - A expressão no seu rosto mostrava que ele estava relutante em falar sobre sua vila. Isso era comum. Muitos jovens que vinham trabalhar na cidade preferiam esconder suas origens interioranas com medo do ridículo. Ele continuou lentamente.

"O meu tio, Mamoush, adoecera gravemente, e minha mãe precisava de mim para ajudá-la a cuidar dele. Nós éramos seus únicos parentes, e ele vivia sozinho, separado das outras pessoas da vila. Eu nunca me interessara em passar algum tempo com ele, mas eu não podia recusar o pedido de minha mãe. Não tive escolha a não ser tirar licença sem remuneração e ir para casa.

"Passei dez dias lá. O meu tio morreu no quinto dia. Ele tinha oitenta e quatro anos, e como a maioria das pessoas do nosso povo com sua idade, ele sabia que sua hora tinha chegado. Ele não estava mais interessado em tentar continuar vivendo. Na nossa vila, nós acreditamos que qualquer pessoa da sua idade já viveu uma vida completa e deveria desejar morrer. Eu nunca tive muito amor pelo meu tio, de modo que não desejava mudar nada a menos que fosse para ajudá-lo a seguir em frente mais rapidamente, de modo que eu pudesse voltar à minha vida na cidade."

À medida que Nicolai prosseguia, sua voz tremia, e ele fazia pausas mais longas entre as sentenças. Durante todo o tempo, ele continuou a enfatizar que nunca fora muito íntimo do seu tio. Eu não pude deixar de me perguntar por que ele estava ainda tão nervoso. Sua personalidade sensível não era motivo suficiente para explicar por que fora tão afetado pela morte de um parente idoso que mal conhecera. Eu sabia que a sua história ainda não fazia sentido, mas não fiz perguntas nem o interrompi. Por enquanto, o meu trabalho era simplesmente escutá-lo e deixar que ele continuasse sua história ao seu próprio modo.

Nicolai continuou a falar, contando como fora difícil para sua mãe cuidar do seu tio moribundo e o que ele, Nicolai, fizera para apoiá-la. Então ele compartilhou comigo algumas opiniões sobre a natureza da doença do seu tio, passando de uma possível moléstia para outra. Eu podia ver que os seus medos estavam no caminho do seu desejo de curar-se e que ele estava tentando encontrar a coragem para me contar a verdadeira essência de sua história.

Finalmente decidi interrompê-lo, numa tentativa de trazê-lo de volta ao motivo por que me procurara.

- Nicolai, você está sugerindo que o que quer que seja que você queira me contar começou há cerca de um mês?

Ele concordou sem falar ou olhar para mim, simplesmente assentindo com a cabeça.

- O que aconteceu depois da morte do seu tio?

- Bem, é uma história estranha...

- Eu já escutei muitas histórias estranhas. O que há de tão estranho na sua?

- A senhora acredita em xamãs? - tentou ele.

Subitamente percebi que talvez eu, e não ele, estivesse em apuros. Eu não sabia quase nada sobre xamanismo. A palavra xamã tinha um significado muito negativo na nossa sociedade, como um símbolo doentio de crenças culturais e espirituais primitivas. Tive de ser muito cuidadosa com minha resposta.

- Infelizmente, só sei que o xamanismo está relacionado com a antiga religião dos povos siberianos, muito antes do cristianismo. Isso é tudo que sei. Mas acredito na existência de pessoas que são chamadas de xamãs.

Gradualmente, ainda sem olhar para mim, ele pareceu compreender que eu estava aceitando suas palavras sem julgá-las. O seu corpo relaxou numa postura mais suave, e sua voz pareceu menos nervosa.

- O meu tio era um xamã - ele continuou. - Por causa disso, eu não gostava de passar o tempo com ele. Ele vivia sozinho nos limites da vila. Muitos dos que moravam na vila acreditavam que ele tinha poderes xamânicos muito fortes, mas ninguém tinha certeza de que ele só usasse esses poderes para as coisas apropriadas. E talvez eles estivessem certos. As pessoas tinham medo dele, e o evitavam, exceto quando precisavam da sua ajuda para seus problemas e doenças.

"Eu nunca estive interessado nessas coisas. Desde que era muito jovem, meu único desejo era deixá-lo, e mesmo também a minha vila, assim que pudesse. Você sabe, não há nada para fazer no interior, especialmente durante o inverno. É frio e tedioso. Eu nunca duvidei de que iria para a cidade assim que me formasse no ginásio. Eu queria servir no exército, mas não passei no exame médico. A minha visão é terrível. Assim, a senhora pode compreender como fiquei feliz em encontrar o meu trabalho atual. Estou trabalhando nele há quase um ano, e já me prometeram um apartamento para o ano que vem. É raro que isso aconteça tão rápido. Por enquanto, naturalmente, ainda vivo num dormitório."

Eu sabia que assim que os rapazes e moças conseguiam um emprego numa fábrica, os seus nomes ficavam numa lista de espera para conseguir seus próprios apartamentos. Às vezes eram necessários vinte anos para que um nome chegasse ao topo da lista. Ocasionalmente um nome podia até mesmo se perder, e a feliz recompensa de um lugar próprio para se viver podia jamais acontecer. Essas pessoas infelizes teriam que viver suas vidas úteis em dormitórios onde três ou quatro pessoas compartilhavam um quarto pequeno. Às vezes quinze ou vinte quartos compartilhavam uma pequena cozinha, um chuveiro e um toalete. Compreendi o quanto significava para Nicolai ter a promessa de um apartamento tão cedo.

Nicolai continuou:

- Eu tenho uma namorada, e pretendemos nos casar. Assim, você poderia dizer que os sonhos da minha vida começaram a se realizar. Agora tenho medo de que tudo esteja perdido. Eu realmente preciso da sua ajuda, doutora. Estou pronto a fazer qualquer coisa, tomar quaisquer remédios para restaurar a minha saúde; para restaurar a minha sanidade.

Ele olhou para mim com uma esperança desesperada que raramente via nos meus pacientes. Ainda era difícil para mim juntar os pedaços da sua história. O seu tio xamã morrera, e agora ele estava com medo de estar sofrendo de alguma doença mental. O seu problema ainda não estava claro para mim. Tentei retardar uma conclusão de algum tipo de psicose, muito embora, pela história que escutara até então, estivesse tentada a fazê-lo.

Hesitante, ele continuou a falar.

- Eu fiquei doente um dia depois da morte do meu tio. Enquanto ele estava morrendo, me pediu para passar algum tempo com ele a sós. Eu não estava nada satisfeito com a idéia, mas concordei porque era o seu último pedido. Ele vivia numa pequena casa escura sem eletricidade. Ele tinha uma coleção de algumas coisas bastante estranhas ali: plantas meio mortas, pedras (algumas com figuras nelas), seu tambor, roupas esfarrapadas. Tudo na sua pequena casa era incomum. Eu estava assustado, no entanto sentia que não tinha escolha a não ser passar seus últimos dias sozinho com ele.

"Então meu tio começou a falar comigo sobre poder - poder xamânico. Na primeira vez, falou mais de duas horas sobre ele. Não prestei atenção. Me parecia que estava tendo algum tipo de fantasia agonizante, portanto simplesmente tentei ser polido com ele. Nós tivemos muitas outras conversas. Eu não me lembro de muito, a não ser da última delas.

"Ela aconteceu certa madrugada. A sua doença piorara muito, mas ele não me deixou convidar mais ninguém para ficar conosco. A sua respiração tornou-se rápida e pesada. A sua fala tornou-se interrompida, e ele parecia confuso. Eu sabia que o seu fim estava próximo. Finalmente, ele me pediu para chegar perto da sua cama. O quarto estava escuro. Só o canto onde sua cama alta e estreita de madeira estava mal iluminado por uma única vela, queimando numa pequena mesa entre estranhos amuletos e ervas secas.

"O meu tio estava coberto por um cobertor quente feito de remendos multicoloridos de diferentes tecidos. Quando me aproximei, ele agarrou minha mão rudemente com suas próprias mãos secas e quentes. De algum lugar, a sua voz subitamente encontrou grande força e claridade. Ele me fitou com intensidade. Todo o seu ser se alterara tão dramaticamente que, por um momento, realmente pensei que ele houvesse se livrado da doença.

"Lentamente e com grande concentração, como se ele estivesse tentando me hipnotizar, disse, 'Os poderes xamânicos vivem conosco neste mundo, e devem ser deixados neste mundo. Eu estou morrendo, e meu poder não me seguirá no lugar para onde estou indo. Eu o dou para você, porque foi essa a decisão dos espíritos.'

"Enquanto ele falava, experimentei uma dolorosa câimbra na mão que ele estava segurando de maneira tão desesperada. Era como se um fogo atravessasse o meu corpo. Eu estava aturdido demais para perceber que naquele mesmo instante o meu tio morrera. O meu estado de espírito me era completamente estranho. Eu não podia, e ainda não posso, descrever totalmente o que aconteceu. Compreendo que isso pode ser necessário para o seu diagnóstico do que está errado comigo, mas eu não sei o que mais dizer. Eu tentei esclarecer o meu problema lendo alguns livros sobre psiquiatria, mas tive de desistir deles. Era difícil demais para mim compreender as palavras."

Ele parecia estar revivendo a sua experiência enquanto a descrevia. A mão esquerda pareceu ter uma câimbra enquanto falava sobre o assunto. O seu rosto agora estava suando, como se houvesse escutado a voz do seu tio morto novamente enquanto falava comigo.

- Vamos parar de falar no seu tio por algum tempo. Talvez você possa me dizer mais sobre a sua vida na cidade?

Ele aceitou minha sugestão com alivio evidente.

- O que a senhora gostaria de saber? - Ele deu de ombros de maneira indecisa.

- Fale-me sobre o seu trabalho, sobre os trabalhadores na sua fábrica. Como eles se relacionam com você?

- Bem. Muito bem.

Olhei para ele silenciosamente. Ele estava imóvel, sentado muito ereto na beirada da cadeira. A sua postura evidenciava uma grande quantidade de tensão.

- Eles são boas pessoas, mas muito diferentes das pessoas da minha vila natal.

- Quais são as diferenças?

- Bem, é difícil dizer. Eu nunca pensei realmente sobre o assunto. Eu simplesmente sinto isso. Eles bebem um bocado, mesmo no trabalho. O meu povo também gosta de vodca, mas eles nunca são tão grosseiros depois de algumas bebidas, ou mesmo depois de muitas bebidas.

Eu imaginei este jovem sensível entre seus colegas de fábrica mais rudes. Bem, pelo menos parte do seu sonho de mudar-se para a cidade não fora tão agradável quanto ele esperava.

- Você está tentando ser como eles?

- Não, acho que não. Mas percebi que teria de me acostumar a estar aqui. Foi desejo meu viver numa cidade grande, mas esperava muito mais. Acho que ainda acredito que pode ser muito mais. Só preciso me acostumar a estar aqui. E preciso ser saudável.

Depois de uma breve pausa, que pareceu ajudá-lo a juntar sua força, Nicolai continuou.

- Depois da morte do meu tio, tive uma febre muito alta durante cinco dias. Eu não comia, não falava. E nem mesmo me lembrava de quem eu era. No meu delírio, eu via o meu tio o tempo todo. Graças a um médico de distrito local, que veio me ver e me deu algumas injeções, me recuperei da febre. Me esqueci de tudo que me veio durante minha doença, e muito embora ainda estivesse me sentindo muito fraco, voltei ao trabalho.

"Então fui ficando cada vez melhor fisicamente, mas ao mesmo tempo algo começou a acontecer à minha mente. Comecei a ouvir a voz do meu tio exigindo que eu recordasse os meus sonhos. Agora a sua voz vem até mim sem aviso, a qualquer hora, em qualquer lugar. Ela vem quando estou conversando com pessoas, e quando estou no ônibus entre estranhos. Fico profundamente assustado quando isso acontece, e sei que devo parecer louco. Eu sinto pânico e quero fugir. Está ficando tão ruim que tenho medo de ser demitido do meu emprego".Depois de um longo e profundo suspiro, ele perguntou se podia fumar.

Normalmente não permito que um paciente fume em meu consultório; no caso de Nicolai, decidi quebrar essa regra. Achei que isso o ajudaria a sentir-se confortável e a se abrir. Ele pegou um maço de cigarros sem filtro do bolso do terno e freneticamente procurou pelos seus fósforos, suas mãos se movendo rapidamente de bolso para bolso sem encontrá-los.

Eu me levantei e fui até o canto da sala oposto à minha mesa. Tirei de cima da geladeira os fósforos e o pires que ocasionalmente substituía um cinzeiro e dei-os a ele.

A pequena abertura com uma dobradiça na parte de cima da minha janela era alta demais para que eu pudesse alcançá-la, por isso, antes de voltar à minha mesa, usei um longo bastão de madeira para abri-la um pouco. O bastão tinha uma cabeça humana esculpida em uma das extremidades. Ele fora feito para mim alguns anos antes por um paciente idoso que, durante vinte anos, acreditara que era Deus, e que tentara incessantemente criar pessoas com a madeira. O homem morrera no ano anterior, velho e sozinho como tantos dos nossos pacientes. Ele não tinha parentes para enterrá-lo, portanto nosso hospital mandou o seu corpo para a escola médica, onde seria usado para o estudo de anatomia.

Lembro-me de que quando comecei a escola de medicina, uma das coisas mais difíceis para mim emocionalmente era dissecar os cadáveres idosos, magros e muitas vezes decrépitos. Conseqüentemente, não tive escolha a não ser me relacionar com eles como ferramentas para a ciência, tentando esquecer que eles já tinham sido sujeitos que viveram os finais de suas vidas sozinhos, sem ninguém para tomar conta deles ou para dar-lhes conforto no momento em que morreram. Até mesmo na escola médica, onde eles se tornaram objetos em nome da ciência, os seus corpos sem vida eram tratados sem respeito.

O ar gelado entrou através da abertura estreita da janela e voluteou pelo meu consultório. Nicolai afastou sua cadeira da minha mesa e fumou com tragadas profundas.

"O que vou fazer com este homem?" pensei. Eu sabia que tinha todos os recursos necessários para iniciar uma estratégia psiquiátrica eficaz para diagnosticá-lo e tratá-lo. Se Nicolai fosse um paciente oficial, admitido legalmente, eu estaria mais ou menos obrigada a pedir uma série de testes de laboratório que me diriam se ele sofria dos efeitos posteriores de alguma febre desconhecida, manifestada através de uma psicose orgânica residual, com possíveis episódios de ataques. Mas neste caso eu podia ser mais flexível, de modo que decidi tentar primeiro algo diferente. Eu faria o que achava correto para Nicolai. Dependendo do resultado, eu sempre poderia utilizar uma terapia psiquiátrica mais tradicional posteriormente.

Perguntei se ele estava disposto a tentar uma experiência. Ele concordou com a cabeça, e perguntei:

- Você acha que poderia ouvir a voz do seu tio novamente, na minha presença?

Ele tragou profundamente mais uma vez, e era óbvio que o cigarro fazia com que ele se sentisse mais confortável.

- Acho que posso, mas não sei como fazer que isso aconteça. Ela sempre vem sozinha, sem que eu a chame.

- Talvez possamos fazê-lo juntos.

- Eu concordo em tentar.

Apertei o botão oculto no chão perto da minha mesa, chamando a enfermeira para o meu consultório. O botão fora instalado originalmente para emergências com pacientes violentos, mas nós geralmente o utilizávamos como uma forma de comunicação entre estações diferentes do hospital.

Quando a enfermeira chegou, pedi a ela que levasse Nicolai até a sala onde realizávamos a hipnose, e que me esperasse lá. Ele apagou seu cigarro, levantou-se, e pegou seu casaco curto de pele de ovelha com a enfermeira.

Fiquei olhando para eles enquanto caminhavam para neve até a sala de hipnoterapia. A enfermeira era uma profissional. Ela se aposentara há alguns meses mas decidiu voltar a trabalhar para ajudar a sustentar suas três filhas. Era comum que os pais ajudassem a sustentar seus filhos mesmo depois que estes começassem a trabalhar nos seus próprios empregos. Esta enfermeira, que era conscienciosa e frugal, conseguia comprar roupas novas para suas filhas quase a cada dois meses. Às vezes fazer isso custava mais da metade do seu salário, mas ela o fazia de boa vontade. Eu estava feliz em tê-la de volta.

Eu acabara de preencher e assinar papéis da enfermaria e estava prestes a ir para a sala de hipnoterapia quando o médico de plantão me chamou da recepção.

- Olga - disse ele. - Estou admitindo uma paciente em condição muito séria na sua enfermaria feminina. Ela tem vindo aqui periodicamente já há vinte anos. O diagnóstico é esquizofrenia. Ela foi admitida à nossa clínica há dois anos. Agora está nos últimos graus de caquexia [exaustão física]. Parece que ela não comeu realmente nada durante mais de um mês devido às vozes que preenchem sua mente. Eu vou preparar todas as receitas para as enfermeiras esta noite, mas realmente gostaria de ver você e o marido dela antes que você fosse embora.

- Quando ela estará na enfermaria? - perguntei.

- Em uma hora e meia - replicou.

Concordei em vê-la, e fiquei aliviada ao saber que ainda teria tempo para trabalhar primeiro com Nicolai.

Nossos médicos tinham se esforçado muito para criar a sala de hipnoterapia. Ela já tinha sido construída quando comecei a trabalhar no hospital, e era um milagre que existisse. Repetidas vezes, escutei as histórias dos médicos dedicados que se transformaram em lendas ao fornecer o equipamento, suprimentos, móveis e carpete para criar essa importante instalação. Isso nunca poderia ter sido feito através dos canais governamentais. A sala de hipnoterapia era crucial para o meu trabalho, e sempre me sentia confortável lá.

Entrei na sala escura silenciosamente, o carpete denso permitindo que me movesse com passos silenciosos. Havia uma pequena lâmpada vermelha em cada canto da sala. O silêncio e o suave brilho vermelho das lâmpadas me permitiram fazer a viagem mental e emocional necessária além dos sons e imagens do mundo externo.

A enfermeira já tinha preparado Nicolai. Ele estava reclinado numa poltrona ampla e confortável no meio da sala, vestindo só sua camisa branca e calças. O seu terno, gravata e botas tinham sido levados para outra sala pela enfermeira, que os devolveria no final da sessão. Ele parecia relaxado e nem mesmo notou a minha chegada. Caminhei em silêncio até ele e lentamente abaixei o encosto da poltrona.

- Agora podemos começar, Nicolai. Eu preciso que você responda às minhas perguntas com o máximo de honestidade e precisão possível. Caso você não tenha uma resposta, não tente inventar uma. O nosso sucesso não depende do número de perguntas a que você consiga responder; depende de uma qualidade diferente. E não precisamos discutir o que é isso mas só confiar, sabendo que já está presente e é verdadeira para nós, e que podemos ser guiados por ela. - Minhas palavras eram necessariamente obscuras, porque eu precisava confundir sua mente para criar uma abertura e permitir que minhas palavras entrassem no seu inconsciente.

Nicolai fechou seus olhos, e seus músculos faciais se tornaram mais relaxados enquanto eu falava conscientemente com ele numa voz cada vez mais profunda, falando mais lenta e tranqüilamente cada palavra.

- Agora eu vou fazer ao seu corpo uma pergunta que você não precisa ouvir, Nicolai. Você não precisa nem mesmo prestar atenção. Eu preciso de um acordo do seu corpo que me ajudará a protegê-lo do estresse durante o nosso trabalho. Agora estou falando diretamente com o seu corpo, pedindo que ele coopere conosco para protegê-lo. E estou esperando pela resposta. - A sua mão esquerda tremeu ligeiramente, e eu sabia pela minha experiência que esse era um sinal de acordo.

- Obrigada - respondi em reconhecimento.

Continuei:

- Nicolai, no passado houve muitas ocasiões em que tentei recordar uma lembrança importante mas achei impossível fazê-lo. Quanto mais eu me concentrava, menos disponível a memória se tornava. Eu tentava repetidas vezes, até ficar absolutamente exausta. Então eu desistia e relaxava. Pouco depois, a imagem que eu procurava vinha até mim do meu inconsciente. Este fenômeno foi que me levou a compreender o poder da mente inconsciente, e a perceber que ela pode nos ajudar imensamente caso aprendamos a nos comunicar com ela.

"À medida que eu falo com você agora, você pode não compreender algumas das coisas que estou dizendo. Não se preocupe. Não é necessário que a sua mente consciente saiba o significado das minhas palavras, portanto não interrompa o estado de calma e relaxamento que está se expandindo dentro da sua mente e corpo tentando compreendê-lo. O seu inconsciente vai saber. Eu quero alistar o apoio desse poder que esteve falando com você para ensinar-lhe algo importante. Isso pode não fazer sentido para você ainda, mas a minha intenção é ajudá-lo a compreender.

"Você se lembra da última vez em que escutou a voz do seu tio? Por favor responda sim movendo a sua mão esquerda, ou não movendo a mão direita. Foi na segunda-feira?

A mão direita de Nicolai se moveu levemente.

- Terça-feira? Não. Quarta-feira?...

Quando cheguei à sexta-feira, a mão esquerda moveu-se.

- Situe-se no local onde isso aconteceu. Está escuro nesse lugar?

- Não.

- Você está num lugar bem iluminado. Acho que é o seu local de trabalho. Você está falando com um colega.



Observando cuidadosamente a resposta da sua mão e vendo os pequenos movimentos de assentimento, continuei.

- O momento agora é pouco antes do seu tio falar. Você pode permanecer calmo e relaxado, porque estamos no controle dessa experiência e nada pode acontecer.

"Você está num ponto na sua memória onde pode escutar a voz do seu tio. Ninguém do seu trabalho está notando coisa alguma. Os colegas com quem você estava conversando vão embora, se dissolvem. A sua atenção passa para a voz do seu tio."

O rosto de Nicolai ficou tenso. Ele respirou de maneira mais profunda e acelerada. Coloquei minha mão sobre o meio do seu peito, dizendo:

- Agora a minha mão respira junto com seus pulmões, e podemos desacelerar esse ritmo, lenta e calmamente - gradualmente, juntos.

Ele se acalmou, e disse suavemente, quase num sussurro:

- Eu posso ouvi-lo...

- Escute tudo que a voz dele está dizendo para você. Fique calmo e seguro. A minha mão está aqui com a sua respiração, e você pode conseguir ajuda de mim no momento que desejar. Mas você não precisa parar, porque você está protegido e seguro.

Nicolai falou suavemente:

- Ele não me assusta mais; está diferente do que era antes.

- Pare de falar comigo, Nicolai. Você não veio aqui para falar. Você veio para escutar. Faça isso agora. Aprecio que você compartilhe o que ouve comigo, mas não neste momento. Faremos isso mais tarde. Por enquanto, tente apenas lembrar-se de tudo o que seu tio diz, e estar aberto para isso.

Fiquei sobre ele na poltrona reclinada por meia hora, a minha mão no seu peito. Estava bastante escuro na sala, mas eu podia ver o seu rosto. Estava relaxado, e de início parecia que ele estava dormindo. Gradualmente, à medida que ele começava a reviver sua memória, sua expressão tornou-se mais ativa. Os seus olhos passaram a se mover rapidamente sob suas pálpebras fechadas. Obviamente ele estava vendo imagens intensas. Todas as emoções que ele estava experimentando se refletiam no seu rosto. Eu o vi se perguntando, expressando curiosidade de início, então uma profunda tristeza, e pensei que ele poderia começar a chorar. Eu sentia que ele estava muito longe, experimentando algo importante na sua memória. Eu guiei sua respiração com minha mão, tornando-o mais lento, preparada para acordá-lo se o seu estado emocional parecesse perigoso. Senão, eu o deixaria retornar por conta própria quando estivesse pronto.

Finalmente, ele respirou profundamente e anunciou:

- Completei a minha jornada. Agora estou pronto para voltar.

A sua voz me pareceu mais forte e segura de si. Falei com ele novamente.

- Agora eu peço que você preste atenção nas minhas palavras, Nicolai. Gradualmente você irá recordar-se de como nos encontramos pela primeira vez nessa tarde, quando você chegou ao hospital. Você provavelmente está sentindo-se muito diferente agora, porque possui uma nova memória dentro de si. Quando você retornar da sua jornada e voltar à minha sala, irá perceber essas mudanças. Quando eu retirar a mão do seu peito, você abrirá os olhos e estará presente aqui novamente.

Notei que a sua mão esquerda estava apertando com força o braço da poltrona, e o toquei suavemente para ajudá-lo a relaxar. Caminhei até a parede, acendi a luz do teto, e apertei o botão para chamar a enfermeira. As luzes vermelhas se desligaram automaticamente.

Agora eu podia ver as pinturas que foram doadas ao hospital pela Galeria Siberiana de Belas-Artes. Era sempre um pequeno milagre para mim que pinturas tão belas houvessem chegado até esse lugar tão incomum. Havia algumas lindas paisagens nas paredes, mas a pintura mais especial para mim era um retrato a óleo de uma jovem com o cabelo partido no meio que estava vestindo ricas roupas rendadas de algum século passado. Ela tinha um rosto generoso e tranqüilizador, e quando trabalhava ali, eu sentia como se ela me apoiasse.

A enfermeira ajudou Nicolai a se levantar e a recolocar o seu terno. Joguei meu casaco de pele sobre meus ombros e comecei a caminhar de volta para minha sala. Eu estava bastante satisfeita com a sessão. Ela tinha ido muito bem, e me parecia certo ter tentado resolver o conflito interior de Nicolai sem farmacologia. Eu esperava que esta experiência provasse ser o que ele precisava para resolver este relacionamento familiar que lhe aparecera numa forma tão mitológico-religiosa.

Nicolai entrou no meu consultório parecendo sério e de algum modo diferente. Parte da sua transformação era que ele parecia agora completamente relaxado, sem se importar com sua aparência. Ele segurava sua gravata na mão e sentou-se tranqüilamente na mesma cadeira que ocupara com tanto nervosismo anteriormente.

- Quero agradecer a você pela sua assistência. Eu recebi uma mensagem muito importante. Ela mudou muitos sentimentos dentro de mim.

- Fico feliz em poder ajudá-lo. Espero que isso permita que você viva sua vida de maneira mais tranqüila e bem-sucedida.

- Mas agora tudo mudou, doutora. Acho que preciso me tornar um xamã.

Fiquei espantada. Sentei imóvel na minha cadeira, tentando manter a mesma expressão impassível enquanto o escutava. Mas o meu sentimento de auto-estima afundou cada vez mais, transformando-se em vergonha. Como pude deixar aquilo acontecer? Aquele homem me procurara pedindo ajuda, e em vez disso eu agira de maneira pouco profissional e só reforçara seus delírios. Eu falhara com ele, e subitamente senti pena de nós dois.

Nicolai começou a explicar.

- Eu realmente me comuniquei com meu tio. Ele não morreu em nenhum aspecto. Ele parecia totalmente vivo, e falava comigo como se fosse uma pessoa real. Ele discutiu comigo, e descobri que não podia discordar de tudo que ele estava me dizendo. No final, ele me persuadiu.

"De algum modo, ele me mostrou uma história completa do nosso povo de uma maneira que eu nunca vira antes. Ficou claro para mim como era difícil para o meu povo viver na Sibéria. Eu vi como eles tinham perdido sua religião e poder devido às tremendas pressões dos estrangeiros e aos maus espíritos entre nós. Eu vi alguns dos nossos amigos que tinham aceitado trabalhos que exigiam que eles se tornassem comunistas. Eu vi como suas almas os haviam abandonado, e como eles se tornaram ferramentas do mal.

"Eu viajei repetidas vezes com o meu povo de inverno a inverno, sem esperança, sem alegria, assustado todo o tempo. Eles tinham medo até mesmo de rezar silenciosamente aos seus ancestrais e protetores, porque podiam ser mandados para a prisão se alguém adivinhasse o que eles estavam fazendo. Doutora, esta visão que a senhora permitiu que eu visse me abriu para algo dentro de mim que sempre esteve fechado. Agora essa coisa está acessível.

"O meu tio não me deixou nenhuma escolha. Ele me disse que realmente preciso me tornar um xamã. Caso eu não faça isso, a minha doença vai piorar terrivelmente. Ele diz que sou o único que pode fazer isso, e que o tempo da perda de fé do meu povo acabará. E para alcançar esta meta, devo trabalhar para eles. Ainda não sei o que pensar sobre isso. Eu não sei nada sobre ser um xamã! Mas ao mesmo tempo eu sinto que é meu verdadeiro modo de vida. Vou precisar de tempo para compreender exatamente o que fazer."

Foi estranho que eu não temesse as suas palavras, porque elas eram muito perigosas. Num passado bastante recente, nós dois poderíamos ter sido mandados para a prisão por causa delas. Mesmo agora, com a declaração da perestroika e o novo pensamento, se a pessoa errada ouvisse as suas palavras, isso ainda poderia causar muitos problemas para nós.

Mas eu não estava com medo. Descobri que me identificava com muitas das coisas que ele estava dizendo. Eu não sabia muito sobre extinção dos povos nativos, mas eu sabia o que significava ter de ocultar as próprias crenças religiosas. Eu fora secretamente batizada na Igreja Ortodoxa Russa pela minha avó em Kursk, e muitas vezes me confrontara com minha incapacidade de expressar minha forte atração pelos ensinamentos de Jesus Cristo. Minha vida diária não oferecia a possibilidade de ir à igreja ou me comunicar com pessoas envolvidas no sagrado. Possuir literatura religiosa ou esotérica de qualquer tipo, incluindo a Bíblia, era proibido. Se descobertos, esses livros ameaçariam a segurança do lar da pessoa no mesmo instante.

Enquanto eu sentia as fortes emoções de Nicolai, elas mudaram as minhas. Eu não me importava mais em avaliar minhas habilidades terapêuticas no contexto do tratamento de Nicolai. Eu sentia que algo importante tinha acontecido, e o que eu mais queria era compreender essa coisa.

Nicolai interrompeu meus pensamentos, dizendo:

- Meu tio pediu que eu desse uma mensagem à senhora.

A idéia me pareceu tão maluca que eu não respondi.

- Mamoush me disse: "Diga à mulher que muito em breve ela vai encontrar o Espírito da Morte. Diga a ela para não se assustar."

Eu não gostei nem um pouco dessas palavras. Nunca apreciei previsões do futuro, especialmente quando eram terríveis como essa. Olhei para as roupas de Nicolai. A sua camisa estava desabotoada na parte de cima, e ele estava sem gravata. Isso me ajudou a me lembrar que ele não era um oráculo, mas só um operário que era amigo de uma amiga.

A minha experiência me dizia que a nossa sessão já estava essencialmente terminada, e também me lembrei da mulher recém-admitida que ainda precisava da minha atenção. Decidi concluir o meu encontro com Nicolai rapidamente.

- Eu não sei coisa alguma sobre uma mensagem do seu tio, Nicolai, mas quero manifestar meu desejo de que você tenha sucesso no caminho de sua escolha. Acredito que você possui a habilidade de fazer todas as escolhas corretas, mas caso você precise de alguma ajuda adicional, por favor, sinta-se à vontade para me procurar. Neste exato momento, contudo, eu preciso ver uma paciente da emergência que acabou de ser admitida.

Nicolai também pareceu pronto para terminar nosso encontro.

- Está tudo bem, doutora - ele replicou. - Agradeço pela sua atenção e ajuda. Talvez nos encontremos novamente. Adeus, por enquanto.

Assim que ele deixou o meu consultório, eu rapidamente cruzei a pequena sala para impedir que o ar gélido continuasse a entrar pela janela aberta. Durante alguns momentos silenciosos, fiquei em pé e olhei para o terreno abaixo. A minha sessão com Nicolai fora bastante incomum, e eu iria precisar de tempo para compreender e integrar a minha experiência. Contemplei Nicolai enquanto ele caminhava pelo pátio do hospital até a estação de ônibus. Os seus passos rápidos e decididos eram os de um homem que tinha certeza de qual era a sua finalidade na vida. Fechei a janela usando o mesmo bastão, aquele com a cabeça humana esculpida por "Deus".


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