Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Eu era responsável pelo tratamento de dez pacientes na enfermaria feminina, e meus deveres incluíam encontros com cada uma delas dia sim, dia não. Nunca consegui decidir se preferia trabalhar com mulheres ou com homens. As diferenças eram tremendas.

Embora os meus pacientes homens fossem muitas vezes interessantes e alguns houvessem até mesmo se tornado amigos dentro dos limites do relacionamento médico-paciente, muitos eram criminosos cujos estados mentais precisavam ser detalhadamente avaliados e resumidos em longos relatórios para a corte. Eu nunca apreciei o trabalho burocrático desproporcional que isso exigia. Muito embora compreendesse a necessidade disso, me ressentia do fato dessa atividade me roubar o tempo que eu preferia passar com meus pacientes.

As mulheres eram mais simples em termos de procedimento, mas a minha inclinação natural para me relacionar e ter empatia por elas enquanto esposas e mães muitas vezes tornava difícil uma dissociação suficiente para manter o distanciamento profissional necessário. Descobri que trabalhar com mulheres era algo muito mais ameaçador para minha harmonia interior, e exigia um equilíbrio emocional muito maior.

Quando entrei na enfermaria feminina, uma das mulheres me chamou. Ela acabara de receber um retrato da sua filha do orfanato onde esta vivia, e ela queria que eu visse como a sua garotinha era linda. Ela provavelmente fora linda também, antes que a doença iniciasse seu caminho de destruição. Agradeci a ela e lhe disse que eu teria de olhar com maior atenção para a sua foto depois, porque estava muito ocupada agora.

As mulheres estavam fazendo fila no corredor da enfermaria para receber os seus medicamentos, vestindo os vestidos de algodão desbotado que eram passados de paciente para paciente, ano após ano. A enfermeira deu as pílulas receitadas para cada mulher, prestando atenção para ter certeza de que todas tinham engolido. Muitos pacientes recusavam-se a acreditar que estavam doentes, e tentavam esconder seus medicamentos em vez de tomá-los. A enfermeira não podia se distrair nem por um instante. Ocasionalmente ela gritava para que as mulheres se apressassem e abrissem bem suas bocas para sua inspeção, de modo que ela pudesse passar para a próxima paciente.

Algumas pacientes crônicas estavam deitadas em suas camas no corredor. Era comum que o hospital ficasse lotado desse jeito. Enquanto eu caminhava pelo corredor, quase todo mundo queria me dizer alguma coisa. Fui atenciosa com todas, mas não parei para conversar, pois não tinha tempo. O meu dia estava quase terminado, e ainda não sabia quanto tempo levaria para lidar com a nova paciente.

Enquanto eu me aproximava da sala de emergência, ouvi um grito de uma enfermaria onde as pacientes violentas eram mantidas. "Eu sei o que você é! Ninguém sabe além de mim! Eu sei quem está se escondendo dentro da doutora!"

A garota que gritava ainda era jovem, mas era uma das nossas pacientes mais antigas. Ela era doente desde a infância, e fora admitida no hospital quase duas vezes por ano desde então. Ela retornara novamente poucos dias atrás. Eu não a vira ainda porque um médico diferente estava cuidando dela. Me contaram que ela estava grávida novamente, provavelmente devido ao seu hábito lamentável de vadiar em estações ferroviárias. O médico responsável por ela decidiu abortar a sua gravidez sem o consentimento dela. Não foi a primeira vez que isso aconteceu na vida patologicamente perturbada da jovem. Não havia chance dela ser algum dia capaz de criar um filho.

Em outros casos envolvendo mulheres com doenças mentais que já eram mães, a custódia dos seus filhos costumava ser transferida para uma das organizações que cuidavam de órfãos. Eu tentara treinar a minha natureza emocional para que ela se distanciasse sempre que isso precisasse ser feito, mas nem sempre tinha sucesso. Muitas vezes me lembrava de uma antiga paciente minha chamada Olga, como eu. Quando ela estava num estado mental normal, era uma mãe cuidadosa e carinhosa. Ela tinha um rosto suave e gentil, e era sempre difícil imaginá-la como a entidade terrível e destrutiva em que ela se transformava durante um dos seus episódios psicóticos. A sua psicose poderia muito bem tê-la levado a matar de fome seus filhos ou surrá-los até a morte, enquanto ela escutava as vozes que se apresentavam na sua mente enlouquecida.

Seus dois filhos, um menino de quatro anos e uma menina de nove, foram tirados dela pela corte, decisão baseada na conclusão de uma comissão psiquiátrica. Depois disso, Olga ficava sentada num canto do corredor da enfermaria, chorando silenciosamente consigo mesma. Eu fora uma das psiquiatras da comissão, e embora estivesse totalmente satisfeita com a necessidade da nossa decisão, não podia evitar o sentimento de culpa que experimentava toda vez que via Olga chorando de maneira tão desesperada no seu canto.

Aproximei-me da ala dos pacientes violentos, e olhei para a garota gritando através da parte superior aberta da porta de duas folhas que guardava a entrada. Ela estava de pé do outro lado da porta, agarrando a borda superior com suas mãos. O seu cabelo negro e curto estava despenteado; seus grandes olhos escuros brilhavam com uma luz doentia. Ela pintara seus lábios e faces com um batom brilhante e parecia excitada e fora de controle. Eu já fora sua médica algumas vezes no passado, e portanto sabia que ela não era perigosa.

- Katia! Quero que você se acalme. Você não precisa gritar aqui.

Ela imediatamente ficou passiva, sorrindo marotamente para mim enquanto passava para o canto do seu quarto perto da sala. Quando o alcançou, ela se virou e teve a última palavra.

- Tudo bem, doutora. Vamos brincar de esconde-esconde. Mas eu sei quem você é.

A nova paciente que eu viera ver estava na sala de emergência. Três enfermeiras cercavam a sua cama, impossibilitando-me de vê-la quando entrei na sala. Tubos de alimentação intravenosa pendurados acima dela já estavam conectados com o seu corpo.

- Como está, doutora? - me perguntou uma enfermeira enquanto se afastava, me dando acesso à minha paciente.

- Olá. Como está ela?

- Doutora, ela está morrendo - disse uma voz desconhecida. Voltei-me para ver um homem se levantando do canto da sala onde estivera agachado. Ele era alto e magro, e obviamente não dormia há alguns dias. O seu rosto estava pálido, com manchas amarelo-escuras ao redor dos olhos. Estava barbeado e usava um terno, mas a sua superfície bem-vestida não escondia o medo e a angústia que estava sentindo.

Uma das enfermeiras apressou-se a explicar a situação em sussurros.

- Desculpe-nos, doutora, por permitir que ele estivesse aqui. - Havia uma regra que não permitia que parentes entrassem na sala de emergência, que raramente era quebrada. - Ele nos implorou para ficar, e estava tão perturbado que fomos incapazes de recusar.

- O senhor poderia esperar em minha sala, por favor? - pedi a ele. Via-se a sua relutância em sair em seu rosto perturbado. Ele estava sofrendo intensamente e parecia estar à beira das lágrimas.

- Por favor, doutora - ele implorou. - Deixe-me ficar. Ela está morrendo...

- Acho que não. Eu preciso examinar a sua... ela é sua esposa?

- É, sim.

- Eu preciso examinar a sua esposa, e então vou me encontrar com o senhor. Por favor, espere em minha sala.

Fiquei aliviada quando ele concordou sem nenhuma discussão, e pedi a uma das enfermeiras que o levasse.

Agora podia voltar minha atenção para a mulher. Minha primeira impressão dela foi perturbadora; ela era um mero esqueleto coberto por uma pele amarelada solta sobre os ossos. Seus olhos vazios estavam fechados; sua respiração era rápida e superficial. Uma grande agulha entrava na sua pele perto da clavícula, e um nutriente liquido caía em gotas lentas de uma garrafa acima da sua cabeça. Isto restauraria alguma vitalidade ao seu corpo durante os próximos três ou quatro dias. Ela estava imóvel, mas eu sentia que estava consciente e que percebia o que se passava à sua volta.

Aproximei-me e tomei sua mão. Ela estava quente e seca. O seu pulso estava um pouco mais rápido que o normal, mas estava forte e em ritmo constante. Examinei-a fisicamente. Não parecia haver nada de errado com ela, a não ser pela exaustão física devido à desnutrição. Os seus órgãos pareciam fortes o bastante para devolvê-la à saúde completa com tratamento cuidadoso.

- Eu sei que você pode me ouvir - disse a ela, tocando sua mão. - E tenho certeza de que você vai estar se sentindo melhor muito em breve. Nós faremos o máximo para ajudá-la.

Ela respondeu abrindo os olhos e me fitando com uma chocante hostilidade. Seus olhos eram de um lindo tom azul, mas estavam cheios de um ódio que distorcia todo o seu rosto. Ela não disse uma palavra, só me fitou durante um longo tempo, transmitindo através dos seus olhos um olhar que parecia vir de outro mundo. Não era um olhar humano, mas ainda outro vislumbre da doença que voltava meus pacientes da luz para as trevas, da vida para a não-existência. Eu não queria mais tocá-la, e retirei minha mão rapidamente quando ela fechou os olhos.

Os medicamentos receitados pelo médico de plantão pareciam apropriados, portanto mandei as enfermeiras continuarem com o que estavam fazendo.

Eu dividia uma sala nessa ala com outro psiquiatra que já fora embora naquele dia. A sua sala era maior e menos acolhedora que a minha na enfermaria masculina. O marido da minha nova paciente estava sentado lá quando cheguei, parecendo estar num transe profundo. Ele estava olhando com intensidade para uma foto numa pequena moldura escura de madeira, que segurava nas mãos de tal modo que eu não conseguia vê-la.

Percebendo a sua angústia, comecei a conversa reconhecendo a sua necessidade desesperada de ficar ao lado da esposa. Fizemos alguns arranjos para que ele ficasse com ela durante o resto da noite na sala de emergência.

Ele me agradeceu e então pediu que eu olhasse para a foto. Ele explicou:

- Gostaria que a senhora visse uma foto dela anterior à doença. Acho que pode ajudar se eu puder falar sobre o meu casamento com esta mulher, que amo mais do que qualquer coisa na vida.

Eu tirei a foto das suas mãos enquanto ele continuava a falar rapidamente. Falava sem parar num único fôlego aparentemente interminável. Ele me contou sobre coisas que provavelmente nunca dissera antes e talvez não houvesse percebido inteiramente até então. Ele continuou a tagarelar, movido por um desses estados emocionais extremos em que as inibições da auto-reflexão e do orgulho ficam totalmente submersas. Foi como se ele estivesse sendo levado por um fluxo emocional em que os humanos podem cair apenas algumas vezes nas suas vidas.

- Sabe, a maioria dos meus colegas ri de mim. Esposa maluca. Claro. Eles nunca me perguntam sobre ela nem dizem nada ofensivo, mas sempre percebo a atitude deles. A minha sorte é que sou um excelente matemático, e portanto tenho status. Sou chefe de um grande laboratório, e adoro o meu trabalho. As únicas duas coisas com que já me importei na minha vida foram minha esposa e meu trabalho.

"Quando éramos jovens e ela ainda estava saudável, passamos um período maravilhoso juntos. Nós o chamávamos de amor, mas não me lembro dele assim. Acho que o amor é muito diferente da atração da juventude. Essa última desaparece rapidamente, mas o amor é algo que podemos manter para sempre. Durante todos esses anos em que ela esteve doente eu nunca falei com ela sobre isso, mas sei que ela não me amava. Na verdade, acho que ela passou a me detestar. Ela tentou se suicidar repetidas vezes, de todas as maneiras em que pôde pensar.

"Os médicos me dizem que essas tentativas de suicídio foram o resultado de vozes dentro da sua cabeça que a impeliram a fazer isso, mas acho que foi a própria vontade dela. Eu não consigo compreender. A senhora é a profissional; a senhora pode ter algumas explicações científicas para mim. Eu só acredito que numa determinada altura ela fez a escolha contra a vida e tentou seguir essa escolha com uma força invencível."

Uma linda garota loira me olhava da velha fotografia. Ela tinha um penteado alto, antiquado, e vestia um vestido revelador com um corpete aberto mostrando seu belo pescoço. Parecia uma das estrelas de cinema dos anos 1960. A única similaridade remota entre essa mulher e o esqueleto na sala de emergência era a brilhante energia azul vindo dos seus olhos, muito embora no retrato a fúria gélida que eu tinha visto estivesse ausente.

- Ivan Sergeyevich! - Não pude deixar de exclamar. - Por que não veio ao hospital antes? A sua esposa não comeu nada durante mais de um mês, no entanto você não procurou ajuda. Por que não?

- Era o desejo dela. - Ele estava falando muito baixo agora. - Ela não me permitiu conseguir ajuda. Ela queria morrer.

- Então por que você finalmente a trouxe para cá? Por que não a deixou morrer em casa?

- Sinto muito, doutora. Sinto muito mesmo. Eu não devia ter esperado muito tempo, e compreendo que a condição dela é culpa minha. Foi sempre tão difícil para mim ir contra a vontade dela. Eu sinto muito. - Ivan mostrava sinais de colapso enquanto falava essas últimas palavras.

Eu me senti mal por fazê-lo sentir-se tão culpado, especialmente porque não achava que a sua procrastinação teria conseqüências fatais. Eu tinha certeza de que o estado físico da sua mulher, se não o seu estado mental, retornaria à normalidade rapidamente.

- Não se preocupe, Ivan Sergeyevich. Tenho certeza de que sua esposa irá recuperar a saúde. Felizmente, temos todos os remédios necessários na enfermaria.

Ele nem mesmo tentou ocultar o fato de que não acreditava em mim. Ficou de pé, apressado para voltar ao lado dela, e deixei-o ir.

Escrevi todos os dados pertinentes da doença dela e a sua história de tratamento nos registros do hospital. Foi um dia longo e difícil, e antecipava a volta para casa. Quando deixei a enfermaria, vi Ivan através da porta aberta da sala de emergência. Ele estava tão concentrado na esposa que nem me notou. Eu o vi virar o corpo de sua esposa e limpar as suas costas com um chumaço de algodão embebido em álcool para evitar escaras. Ele sabia como cuidar dela, o que seria uma grande ajuda para nossas enfermeiras enquanto ela estivesse internada.

Como sempre, o meu retorno para casa ofereceu um contraste agradável com a ida matinal. O hospital era praticamente a primeira parada, por isso o ônibus quase vazio me deu uma ampla escolha de lugares. Como costumava fazer, a tranqüila viagem de volta pelo campo no final do meu longo dia de trabalho me levou rapidamente a dormir.

Pouco depois, estava retraçando meus passos matinais até o meu pequeno estúdio, e então cozinhei e comi um jantar simples de batatas fritas e um filé de peixe do rio Ob, vendido na feira por alguns dos mesmos pescadores que me acompanhavam todos os dias no ônibus. Eu teria apreciado algumas verduras com meu peixe e batatas, mas elas não estavam disponíveis no inverno.

Depois do meu humilde repasto, fui para cama e caí rapidamente no sono. No meio da noite, subitamente despertei em pânico devido a um pesadelo tão intenso que ele me pareceu mais real do que meus momentos de vigília. O sonho era tão persistente que me perseguiu mesmo depois de ter me sentado na cama e acendido a luz. Eu ainda podia ouvir a voz fria e remota do desconhecido homem de aparência mongólica que surgira para mim.
Várias vezes ele repete: "Eu quero que você veja a jornada dela!" A frase não faz nenhum sentido para mim, mas isso não o impede. Então a energia muda. Eu vejo uma mulher, minha nova paciente da emergência, a esposa de Ivan. A sua bela silhueta branca forma um contraste extremo com o espaço vazio, assustador e tenebroso em que ela flutua. Ela se move lenta e graciosamente, voando cada vez mais alto. Gradualmente ela se volta na minha direção. O seu rosto está lindo novamente. O seu corpo está normal e saudável, com uma forma vital e feminina que não mostra sinais da sua doença.

Eu tento escapar desta visão, mas o rolo de filme onírico continua. O misterioso homem de aparência mongólica controla a cena, que se torna cada vez mais assustadora. Agora a mulher olha diretamente para mim, os seus olhos vitoriosos e irônicos. O seu olhar me hipnotiza. Sinto-me como se ela estivesse roubando a minha vontade.

"Ela é uma mulher rara e poderosa", diz o homem numa voz rouca. "Ela fez tudo que devia fazer de maneira rápida e simples. Ela fez o que todo mundo aqui faz, mas ela é mais honesta e brava do que a maioria."

Eu assisto enquanto a mulher se ajoelha, diante de uma grande figura branca que subitamente apareceu acima dela. O seu rosto torna-se extático e parece estar num transe. Ela está muito parecida com a foto da sua juventude. A figura branca lentamente se derrama sobre ela, cobrindo inteiramente o seu corpo agora prostrado.
O sentimento criado ao reexperimentar esta visão foi tão intenso que começou a quebrar o controle do sonho sobre mim. Tão rapidamente quanto pude, tentei me colocar totalmente além dele. Para me despertar totalmente e recuperar a posse sobre o meu ser, disse a mim mesma que era apenas um sonho, e que a mulher que eu vira estava na verdade dormindo profundamente na sua cama de hospital, onde eu a deixara. Disse a mim mesma que estava simplesmente cansada demais nesses dias e que precisava fazer algo sobre isso.

Essas tentativas artificiais de me tranqüilizar não apagaram totalmente os meus medos. Eu não podia deixar de lado os sentimentos mistos de atração e medo que me invadiram ao ver a poderosa imagem da imensa e fluida figura que cobrira e engolfara minha paciente.

Era inútil tentar dormir depois do sonho. Mal podia esperar pela chegada da aurora, e peguei o primeiro ônibus para o trabalho de manhã. Eu estava ansiosa para estar ocupada novamente, esperando soltar os fortes ganchos que o sonho fincara em minha consciência. Tentei não pensar sobre ele no caminho para o hospital, me concentrando em vez disso em seguir os passos para a enfermaria repetidas vezes na minha mente. A enfermaria seria um porto seguro onde meu pesadelo finalmente se dissolveria e eu poderia voltar novamente a normalidade, livre da ansiedade.

Finalmente meus passos reais chegaram até a porta da enfermaria. Eu fiz a curva no topo das escadas, abri a porta, e entrei. As primeiras golfadas de ar com o seu odor familiar de urina misturada com suor e medicamentos eram quase bem-vindas hoje, como recordações da minha realidade normal. Agora eu podia estar com outras pessoas. Eu seria forçada a utilizar a minha mente. Eu seria a médica, a psiquiatra, aquela que estava no controle e fora do alcance de vozes e imagens estranhas na noite.

Era tão cedo quando eu cheguei que meus pacientes ainda estavam dormindo nos seus quartos, e a luz noturna azul do corredor ainda estava acesa. Tudo estava tranqüilo e pacífico, quase surreal depois do meu estado de agitação. Eu vi que a porta da sala de emergência estava fechada. Talvez o pobre Ivan tivesse sido capaz de tirar um cochilo durante a noite.

Caminhando entre meus pacientes adormecidos, rostos distorcidos pelas suas doenças mesmo nos seus sonhos, senti um grande alívio. Eu estava de volta à minha ala familiar. Tudo estava normal e sob controle.

A enfermeira de plantão estava sentada em sua sala, escrevendo no seu diário. Fiquei pensando como poderia explicar a ela a minha chegada tão cedo. Então ela olhou para cima, e vi imediatamente que estava assustada e irritada.

- Oh, doutora! Por que elas perturbaram a senhora? Ela se foi de maneira tão inesperada e rápida! O seu corpo já está no necrotério do hospital. Eu disse a elas que só a chamassem pela manhã. Não há nada que a senhora possa fazer agora que não pudesse fazer mais tarde. Oh, doutora, sinto muito que tenha sido incomodada.

Corri para a sala de emergência e abri bruscamente a porta. Diante de mim estava uma cama vazia com lençóis em desalinho. A sala ainda estava desarrumada devido às tentativas frenéticas da equipe noturna de prender uma alma que só queria seguir em frente. O equipamento de ressuscitação, seringas usadas, conta-gotas vazios estavam espalhados pela sala. Máquinas e a medicina moderna não conseguiram enfrentar os mistérios da morte, e tinham perdido o interesse.

Agarrei a borda da cama de metal angustiadamente enquanto a enfermeira entrava atrás de mim.

- Foi absolutamente inesperado. Arritmia no início; então subitamente o seu coração parou. Nós tentamos tudo, mas foi inútil. Para mim não faz sentido algum, doutora.

O meu corpo estava drenado de energia, e simplesmente assenti com a cabeça distraidamente para responder às palavras da enfermeira. O que eu realmente queria era ficar sozinha durante algum tempo, para organizar meus pensamentos. Deixei a sala de emergência e caminhei lentamente para a minha sala, vendo e escutando pouco do que estava ao meu redor. Os meus passos eram automáticos, os passos de alguém que traçara o mesmo caminho milhares de vezes.

Assim que entrei no consultório, uma enfermeira perguntou na sua voz mais amigável:

- Doutora, gostaria de um pouco de café?

- Sim, por favor. - Um vaso com sete rosas brancas estava sobre a minha mesa. Elas pareciam perdidas no ambiente austero do meu consultório.

- Pus um pouco de açúcar na água para manter as flores frescas por mais tempo - disse a enfermeira enquanto me trazia o café. - Elas são de Ivan Sergeyevich. Ele foi a uma funerária e voltou com essas flores. Ele me pediu especificamente para entregá-las à senhora. Pode imaginar como ele as descobriu no meio do inverno?

Compreendi que as rosas eram a maneira de Ivan me dizer que ele não me culpava pela morte de sua esposa, no entanto, eu me sentia profundamente chocada pelo que acontecera. Só havia se passado um dia desde o meu estranho encontro com Nicolai. Agora eu me via diante não só da morte completamente inesperada da esposa de Ivan Sergeyevich, como também da dimensão adicional do meu sonho misterioso e assustador sobre o acontecido. O relatório de autópsia da mulher chegou alguns dias depois, mas não concluiu nada. Ele não mostrava nenhum motivo para a sua morte, me deixando tanto aliviada quanto aflita.

Esses eventos levaram várias semanas para começar a se apagar da minha memória. Enquanto isso, preenchi a minha vida com as rotinas usuais que podem nos ajudar de maneira tão conveniente a esquecer nossas dúvidas e traumas. Eu sentia que as minhas experiências passadas no mundo físico - o meu treinamento, minha mente racional - poderiam não ser tudo que existia na vida. Alguma coisa nova estava presente, mas eu não sabia que nome deveria dar a ela. Ela me intrigava, e eu gostava disso. Não podia contemplá-la racionalmente, então simplesmente permiti que ela existisse e tentei seguir com a vida da maneira mais normal possível.



4
Certo dia, algumas semanas depois, Anna me ligou e me convidou para visitá-la à noite. Muito embora costumássemos nos encontrar pelo menos duas vezes por semana, eu nunca mencionava Nicolai. Ela comentou uma vez que ele parecia estar indo bem, e que estava muito agradecido pela minha ajuda.

Anna e eu nos encontramos depois do trabalho e nos sentamos, como de costume, no velho sola estreito no seu apartamento de uni quarto. Eu estava folheando o último número de uma revista de cinema, lendo sobre novos filmes e me perguntando se deveríamos sair esta noite em vez de simplesmente ficarmos em casa e conversarmos. Anna estava fumando demais e parecia estar nervosa. Eu sentia que algo a incomodava. Sabia que durante os últimos meses ela sofrera de problemas físicos. O seu ciclo menstrual fora doloroso e irregular, vindo várias vezes por mês, e isso a estava deixando exausta. De início não parecia uma doença séria, e eu tinha certeza de que ela se trataria rapidamente. Nós duas éramos de famílias de médicos, e eu sabia que seus pais tinham marcado consultas com os melhores médicos da cidade para ela.

Finalmente, ela olhou direto para o meu rosto e me contou que os médicos ainda não tinham sido capazes de diagnosticar o que havia de errado com ela. Eles disseram que precisariam fazer mais testes, e que eles não podiam começar nenhum tratamento até que soubessem exatamente qual era o problema.

Enquanto isso, a sua condição piorava a olhos vistos. Ela parecia pálida e às vezes quase desleixada, porque não estava prestando atenção na sua aparência. Seu cabelo curto estava despenteado, seus olhos azul-claros não estavam destacados com sua maquiagem geralmente tão cuidadosa, e a sua pele não estava limpa nem com uma aparência saudável. Mesmo após os poucos dias desde que eu a vira pela última vez, sua aparência tinha deteriorado. Ela comentava como estava cansada, e como era difícil se levantar pela manhã para trabalhar.

Eu não podia imaginar Anna esperando muito mais tempo por um tratamento definitivo, de modo que sugeri que ela fizesse alguma coisa rapidamente. O meu conselho era ir para um hospital onde, além de uma observação profissional, ela pudesse descansar bastante.

Anna concordou que precisava fazer alguma coisa imediatamente, mas ela não queria ir para o hospital. Em vez disso, ela perguntou:

- Você se lembra de Nicolai, o homem que você viu como um favor para mim?

Fiz que sim com a cabeça. Naturalmente que eu me lembrava dele.

Ela continuou:

- Você provavelmente se lembra que ele é meu vizinho. Bem, eu o encontrei ontem nas escadas. Ele me perguntou como eu estava me sentindo, e eu lhe contei tudo. Estava muito deprimida com a minha doença, e acho que ele sentiu isso. Ele está indo embora em breve para voltar à sua vila em Altai, e me convidou para ir com ele. Ele sugeriu que eu buscasse a cura com um dos anciãos. Provavelmente será em abril, daqui a algumas semanas, quando o pior do inverno já houver passado.

"Alguém de Altai contou a ele sobre uma curandeira. As pessoas dizem que ela pode curar qualquer um. Estou perdendo a fé nos meus médicos, e não posso deixar de me perguntar se essa mulher não seria capaz de me ajudar. Nicolai me disse que ela também já curou pacientes mentais, por isso achei que você poderia estar interessada. Você vem comigo? Me daria um imenso apoio."

Olhei surpresa para ela enquanto falava, ficando mais espantada a cada frase. Ir a Altai me parecia uma loucura. De qualquer modo, eu estava planejando aproveitar minhas férias no verão, no calor do sol do mar Negro, não em abril numa remota vila siberiana que provavelmente ainda estaria enterrada na neve e no gelo. Disse a Anna que provavelmente não poderia ir, mas que talvez ela devesse fazê-lo. Na melhor das hipóteses, a mulher poderia ajudá-la. Na pior, ela se afastaria da cidade numa viagem com um amigo.

Mas assim que a nossa conversa se voltou para outros assuntos, percebi que a idéia não me abandonava. Senti um anseio sutil na parte mais profunda do meu ser de encontrar essa mulher que curava pessoas. Quanto mais eu tentava não pensar sobre o assunto, mais a idéia me dominava. Uma voz silenciosa no fundo do meu ser me dizia que este convite para o Altai seria uma porta para uma compreensão de fatos estranhos e inexplicados que eu experimentara recentemente. Alguma coisa desconhecida parecia estar vindo até a superfície da minha vida, e eu sentia cada vez mais que devia deixar essa coisa acontecer.

Parecia mais do que uma coincidência o fato de que, algumas semanas depois, durante o tradicional chá matinal da equipe do hospital, vários dos meus colegas comentaram que eu estivera trabalhando demais, que eu parecia pálida demais, e que provavelmente seria bom que eu descansasse um pouco tirando parte das minhas férias imediatamente. Com alívio e sentindo-me excitada, descobri que minha decisão de visitar Altai já estava tomada. Liguei para Anna imediatamente para que ela soubesse que eu iria com ela.

Ela ficou deliciada e ficou tagarelando sobre os detalhes da viagem.

- Mas, sabe, nós estamos indo amanhã. Eu não sei se você será capaz de conseguir bilhetes para o mesmo trem. Por que não pega qualquer trem para Biisk, e me diz o número do trem? Nós encontraremos você na estação e viajaremos juntos pelo resto do caminho.

"Estou tão feliz que você tenha decidido ir, Olga", continuou. "Hoje eu estava começando a pensar que estava errada em fazer isso, mas agora sinto que é a única coisa para mim. Eu não sei que tipo de cura vou ter, e me sentirei muito mais tranqüila com você ao meu lado. Muito obrigada. Nos veremos em Biisk."

Consegui um bilhete no trem número oito, e telefonei para Anna para informá4a. O meu trem chegaria duas horas depois do dela e de Nicolai, mas ela disse que esperariam com prazer. Nicolai combinara com um vizinho da sua vila para que ele nos pegasse de carro na estação. Já que não havia transporte público ou comercial até Shuranak, a vila de Nicolai, a única maneira de chegar até lá era através de um carro particular.

Arrumei uma pequena mala com uma quantidade mínima de roupas, e fui para a estação ferroviária de táxi. O trem número oito deixou Novosibirsk às 10 da noite, e chegou em Biisk na manhã seguinte. Enquanto caminhava para a estação e para o trem, não pude deixar de perceber que, mesmo de noite, a sensação da primavera estava ao meu redor. A primavera estava nos passos das pessoas nas ruas e no som dos pássaros cantando misturado com o tinir da neve derretida caindo como água. O ar escuro estava mais fresco, e a gélida faca do inverno que corta através de todas as roupas, exceto as mais quentes, desaparecera.

Como de costume, a estação estava cheia além da sua capacidade. Não havia cadeiras o bastante nem mesmo para um terço dos passageiros e visitantes. Pais e filhos estavam dormindo sobre jornais no chão e nos largos parapeitos internos das janelas fechadas. Crianças pequenas no colo das mães estavam chorando, mas menos desesperadamente do que de costume, como se soubessem que as estações estavam mudando e que o calor do verão logo retornaria. Mesmo dentro da sala abafada da estação, com pessoas sentadas e dormindo por toda parte, havia uma agradável atmosfera de antecipação.

O meu trem chegou no horário previsto, o que era um alívio. Era tão sujo e abafado quanto eu esperava, e me senti afortunada de só precisar passar uma noite nele. Pelas conversas com meus vizinhos no pequeno compartimento, deduzi que eram uma família de mineiros de carvão. O marido era taciturno, a esposa cansada mas generosa, me oferecendo um pedaço da sua galinha frita quando eles mal tinham o bastante para si mesmos. O filho deles de dois anos de idade já estava dormindo quando eles entraram no trem, e surpreendentemente, não acordou nem mesmo com a agitação de todos os outros passageiros subindo a bordo.

Polidamente recusei a galinha e ofereci o beliche inferior para que eles pudessem dormir. Subi no beliche superior, satisfeita por estar onde não precisaria responder a quaisquer perguntas sobre onde estava indo, quem eu ia encontrar, ou quanto tempo ficaria lá. A mulher estava obviamente ansiosa para conversar, mas eu não estava. Com os primeiros sons e movimentos rítmicos do trem, adormeci imediatamente. Eu sabia que no dia seguinte encontraria um novo mundo.

Os sons das colheres de metal batendo contra o vidro me despertaram na manhã seguinte. Os membros da família estavam tomando chá depois de terminarem a galinha de ontem. O trem já estava quase chegando em Biisk, o que me deliciou. Tive tempo só de limpar rapidamente o rosto em um pequeno banheiro no vagão, depois de ter ficado primeiro de pé numa longa fila com muitos outros que queriam fazer o mesmo.

O trem já tinha chegado nos limites da cidade quando pude me sentar e olhar pela janela, de modo que eu não tinha ainda visto em que tipo de terreno nós estávamos. Sabendo que Biisk ficava numa grande altitude, eu esperara ver montanhas na paisagem. Em vez disso, vi apenas blocos cinzentos de apartamentos que pareciam todos iguais, cercados por algumas árvores mirradas. A cena parecia tanto com Novosibirsk que não era nada inspiradora.

O trem deu um último solavanco e então parou completamente na estação. Os passageiros estavam olhando pelas janelas, esticando seus pescoços, procurando aqueles que os esperavam. Eu me pilhei fazendo a mesma coisa. Para o meu desapontamento, ninguém na plataforma parecia familiar.

Peguei a minha mala e me despedi dos meus vizinhos noturnos. Quando desci, um forte vento das montanhas rapidamente confirmou a minha expectativa de que a primavera não tinha chegado ainda em Biisk. Algumas das árvores menores ainda estavam completamente cobertas com uma neve profunda, e a atmosfera matinal estava absolutamente frígida. Antes mesmo de ter tempo para concluir meu pensamento, minha pele já estava adquirindo um colorido desagradável devido ao frio extremo.

Um carregador sonolento apareceu por trás de um grande carrinho de mão que fazia muito barulho enquanto ele o empurrava. Estava vestindo um avental que provavelmente tinha sido branco algum dia, mas que com o tempo ficara tão sujo que desafiava qualquer descrição, e já não se podia dizer que ele tinha alguma cor específica. O carregador me perguntou se ele podia carregar minha pequena mala até o ponto dos táxis.

Mal tive tempo de dizer não antes de escutar Anna chamando o meu nome. Ela estava rindo excitada enquanto corria na minha direção do lado oposto da plataforma.

- Você nos deu o número errado do vagão, e estávamos esperando do outro lado do trem. Estou tão contente que você tenha vindo! - disse ela, me abraçando.

Voltando-me para a saída, notei Nicolai de pé ali perto em silêncio. Ele me cumprimentou informalmente dessa vez, como um amigo em vez de um doutor, e parecia muito diferente - mais alegre, mais relaxado, e mais seguro de si. Ele até mesmo parecia mais velho. O seu cabelo crescera desde a última vez que o vira; ele o prendera num rabo-de-cavalo, e estava usando roupas quentes de trabalho.

Cumprimentei-o enquanto ele pegava minha mala, e caminhamos na direção da rua. Os únicos veículos estacionados do lado de fora eram dois velhos táxis, alguns carros particulares, e um jipe cáqui. O motorista do jipe saiu e andou na nossa direção. Ele era um homem alto e forte, vestindo botas de borracha sujas que iam até seu joelho, um capote e um boné de pele de coelho negro com abas para as orelhas.

Nicolai o apresentou para nós como seu vizinho, Sergey. Sergey deixou bem claro que não estava feliz em estar ali, e que só viera devido a um senso de obrigação. Sua impaciência para voltar à sua vila era evidente nas suas ordens mal-humoradas para que entrássemos no jipe.

Anna e eu obedientemente nos sentamos onde ele mandou, no banco de trás. Anna segredou no meu ouvido que, pela sua maneira autoritária, Sergey provavelmente acabara de ter baixa do exército.

- Ele é velho demais para o exército - repliquei, e nós duas rimos. O motor do jipe tinha um som horrível, mas parecia correr bem, de modo que seguimos na última fase da nossa viagem até Shuranak. Ninguém estava caminhando a essa hora da manhã, mas muitos carros já estavam nas ruas da cidade. A maioria era de automóveis velhos e amassados cujos motores eram ainda mais barulhentos do que os nossos. Ocasionalmente um grande caminhão passava perigosamente perto de nós, deixando para trás uma nuvem marrom e suja de carburador que pairava por um longo tempo sem se desvanecer no ar gelado matinal.

Finalmente deixamos a cidade sem ver nada de diferente dos pequenos vislumbres que eu já tivera no trem. Se havia alguma coisa especial em Biisk, eu não tinha visto. Logo chegamos na estrada principal, acompanhados apenas por alguns caminhões de transporte. Quanto menos freqüentes os edifícios se tornavam, maior era o número de árvores que podíamos ver. Logo as árvores estavam abraçando a estrada, ficando maiores e mais ousadas, e parecendo se aproximar da rodovia estreita à medida que passávamos por ela.

Sergey era tão bom em evitar os horríveis buracos na estrada que rapidamente perdoei suas ríspidas maneiras militares. Ele e Nicolai sentaram-se nos bancos da frente, contando fofocas da vila. Anna e eu passamos o tempo conversando sobre alguns dos nossos amigos comuns. Gradualmente o ritmo hipnótico da estrada aquietou-nos, e caímos num silêncio natural.

Levamos mais de três horas para chegar em Shuranak. Não pareceu levar tanto tempo, porque a minha atenção estava absorvida pelo cenário fora do jipe. Subitamente estava num tipo de transe. A neve congelada nas bordas da estrada ia ficando cada vez mais branca à medida que avançávamos, e as gigantescas árvores perenes pareciam fundir-se umas nas outras quando vistas da janela do jipe em movimento.

Tendo vivido tanto tempo numa cidade relativamente industrial, eu tinha esquecido o que significava estar em contato com a natureza. Até mesmo minhas poucas visitas ocasionais a casas do campo tinham sido devotadas ao contato social, e não havia espaço nessas curtas visitas para experimentar a beleza de um ambiente natural. Agora, a floresta por onde estávamos passando exigia completamente a minha atenção. Eu sentia um tremendo poder nas suas poderosas árvores com seus troncos velhos e nodosos, no profundo verde-escuro das árvores perenes, e nos movimentos rítmicos das árvores, que sugeria a sua unidade com o vento.

Passamos uma curva na estrada e subitamente a primeira visão panorâmica das montanhas Altai nos alcançou. A gentil silhueta daquelas montanhas antigas, com os raios do sol iluminando seus picos arredondados lá em cima, criava padrões belíssimos de luzes e sombras. Esta suave beleza contida de maneira tão gentil dentro da aspereza das montanhas era algo que eu nunca presenciara anteriormente, e que literalmente me tirou o fôlego.

A estrada foi ficando cada vez mais estreita e sinuosa. A paisagem parecia tão original que era difícil imaginar a vida humana conseguindo algum sustento aqui. Mas quando as primeiras pequenas casas da vila finalmente apareceram, elas pareciam totalmente naturais no seu ambiente. Passamos por algumas casas de madeira dispostas longe o bastante umas das outras para parecerem de algum modo remotas e isoladas, mas ainda assim próximas o bastante para permanecerem conectadas à energia comum da vila. Uma mulher idosa perto de uma dessas casas saíra para fazer algo no seu jardim ainda coberto de neve. Ela endireitou-se atentamente enquanto passávamos e olhou com um ar sério para nosso jipe. Finalmente, paramos perto de uma pequena estufa instalada atrás de uma cerca de madeira.


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