Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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- Aqui estamos nós - disse Nicolai, abrindo a porta de passageiros do jipe. O latido do que parecia ser um cachorro muito grande veio de algum lugar lá de dentro da cerca alta. A parte superior de uma porta era visível acima da cerca. Ela abriu, e ouvimos a voz de uma mulher dizendo: "Estou indo! Estou indo!"

Enquanto saíamos do jipe continuamos a ouvir sua voz, agora gritando com o cachorro para que se aquietasse e saísse do seu caminho.

Pegamos a nossa bagagem e esperamos pacientemente perto da cerca.

- É tão bonito aqui - disse Anna, respirando fundo. Concordei silenciosamente. Enquanto o fazia, meus olhos e outros sentidos me recordavam que em algum lugar do meu passado eu experimentara outro lugar estranho e selvagem como este, muito embora não me lembrasse de onde ou quando.

Finalmente o portão da cerca se abriu ousadamente, revelando uma mulher pequena e de meia-idade com um casaco de pele jogado sobre os ombros. O seu belo rosto altaico, parecido com uma lua cheia, estava iluminado pela simpatia e carinho. Era a mãe de Nicolai, Maria, e ela rapidamente nos guiou para fora do frio e dentro de casa.

Bebemos chá ao redor de uma velha mesa de madeira escura e nos instalamos. Depois de algumas horas, já nos sentíamos bem à vontade em nosso novo ambiente. Anna e eu estávamos ao mesmo tempo cansadas e excitadas, nossas mentes naturalmente pensando nos próximos dias. Nicolai estava obviamente relaxado na casa da sua mãe. Ele compreendia o importante compromisso que mudaria sua vida ao voltar à sua vila, e estava claramente contente com ele.

Finalmente, a escuridão começou a cercar a pequena vila. Maria esperou até o crepúsculo para acender as luzes da casa. A mensagem que Nicolai mandara por um vizinho dizia apenas que ele estava voltando para casa com dois amigos, ambos médicos. Maria esperava duas pessoas que correspondessem à sua experiência com médicos - homens de meia-idade vestindo ternos e de óculos. Ela se preocupara durante todo o dia sobre como encontraria esses amigos sérios e intelectuais do seu filho, e tinha até mesmo preparado algumas perguntas. Agora, em vez disso, duas mulheres jovens estavam sentadas à sua mesa, e elas apresentavam um dilema totalmente diferente.

Se ficássemos na casa com ela e Nicolai, forneceríamos um suprimento de fofocas para toda a vila durante meses. Ela já estava imaginando o que diriam. "Por que Nicolai trouxe não uma, mas duas garotas para a sua vila natal? E como pôde Maria, sua mãe, permitir que todos ficassem juntos?"

Mesmo se os comentários dos vizinhos não fossem uma dificuldade, a casa de dois quartos era tão pequena que até mesmo acomodar quatro pessoas nela era um verdadeiro problema. Ela bebeu lentamente o seu chá, tentando parecer calma, enquanto por dentro a sua mente fervia. Como poderia lidar com essa surpresa que seu filho lhe aprontara? Ela rezou com fervor para si mesma: "Ó grande filha de Ulgen! Você que é sábia e cheia de generosidade, me ajude! Me dê um sinal dizendo o que eu devo fazer." Ela esperou por uma resposta, mas não obteve nenhuma.

Sem saber do dilema de Maria, Anna e eu estávamos ficando cada vez mais intranqüilas na nossa necessidade de descanso. Maria estava igualmente ansiosa, e estava irritada com Nicolai, que parecia completamente alheio ao mal-estar que criara.

Enquanto Maria sentava pensando, a sua atenção subitamente caiu sobre o tamborim pendurado à direita da sua porta da frente. Ela fizera esse pequeno tamborim depois da morte do seu irmão Mamoush, seguindo o conselho de alguns anciãos da vila. Eles tinham dito que ela devia fazer isso porque o seu irmão era um kam - um xamã - e o tamborim o ajudaria a permanecer aqui na terra. Ele era muito bem-feito, e ela sentia orgulho dele, mesmo sem compreender totalmente a sua função. Agora o tamborim recordou-a de seu irmão e deu-lhe a solução que ela estava procurando de maneira tão desesperada. As garotas podiam ficar na casa de Mamoush. "Naturalmente!", disse consigo mesma. "Como não pensei nisso antes?"

Ela fez essa sugestão para Nicolai enquanto tomava lentamente o seu chá. A minha mente estava viajando, e só ouvi metade das suas palavras.

- Está tudo bem - disse eu, percebendo que alguma decisão estava sendo tomada sobre nosso abrigo e que eu poderia fechar os olhos em breve. - Nós podemos ficar onde for mais conveniente para vocês.

- Contanto que não seja no lado de fora - brincou Anna, cansada.

Nicolai sentou-se, pensando profundamente durante alguns minutos antes de responder. Então concordou e pediu alguns lençóis à sua mãe. Nós agradecemos a ela e nos aventuramos na noite, tendo como destino a casa de um xamã morto.

O céu estava claro, com milhares de estrelas e uma meia-lua sobre nossas cabeças. Os gritos dos pássaros noturnos vindos da floresta poderiam ter parecido assustadores em qualquer outro lugar, mas aqui pareciam naturais. Os medos encontrados na noite só podem viver perto das suas fontes. As cidades gigantescas, com todas as tensões e agressões de pessoas por demais obrigadas a se amontoarem, eram muito mais assustadoras do que os sons noturnos da cidade ao redor dessa pequena vila.

Um homem e duas mulheres cansadas caminhavam lentamente sobre o caminho cercado de neve, alternando conversa e risadas, seguindo o seu caminho até uma das casas mais longínquas da vila. Mamoush deliberadamente colocara a sua casa no extremo norte da vila, no topo de uma colina.

Nicolai acendeu uma vela quando entramos na casa, porque não havia eletricidade. Tudo estava coberto por uma grossa camada de pó, mas o ar estava fresco. A casa não era mais do que uma sala alongada com uma única janela no canto esquerdo, perto de uma cama estreita feita de madeira escura. Do outro lado da sala estava a pequena área da cozinha com uma lareira. Uma grande pele de urso cobria o meio do chão. Um velho par de botas de homem feitas de pele de rena estava colocado quase que diretamente sobre a cabeça do urso. De início, surpreendidas pela estranheza da pequena casa, nós gradualmente passamos a apreciá-la.

- Olga, olhe para mim! - exclamou Anna. Ela descobrira um estranho trabalho com plumas que fora transformado num chapéu e que ela colocara sobre sua cabeça num momento de humor nascido do cansaço e de um ligeiro nervosismo. Agora ela olhava comicamente sob ele.

- Combina comigo? É do meu tamanho? - perguntou ela. O chapéu fora feito de uma coruja. A parte superior era a cabeça e o corpo inteiro do pássaro, com olhos abertos, bico e orelhas. As suas asas foram puxadas para baixo e transformadas em abas que agora emolduravam o rosto de Anna.

- Não combina nada com você - respondeu Nicolai. Ele tirou o chapéu da cabeça de Anna e o colocou no lado oposto da sala.

Anna, que fizera uma rápida vistoria na sala, pediu para dormir na cama estreita, deixando a pele de urso no chão como a única outra cama possível para mim. Nicolai arrumou a cama e a pele de urso com lençóis e cobertores, e então desapareceu no caminho solitário de volta à casa de sua mãe. Anna e eu não perdemos tempo para apagar a vela e desabarmos nas nossas camas. Tinha sido um dia longo e interessante.

Quase desmaiei na pele de urso, apreciando imensamente o fato de ter qualquer lugar para me deitar. Só levei alguns minutos para perceber que o cobertor de penas de ganso não ia ser quente o bastante, de modo que coloquei meu próprio casaco de pele sobre o cobertor e me agasalhei na minha cama exótica.

Pela respiração profunda de Anna, pude perceber que ela já estava dormindo, mas eu estava achando difícil relaxar. A transição do meu mundo confortável comum para essa cama de pele de urso na casa de um xamã morto tinha sido tão rápida que eu não percebera como estava mexida até me deitar. Agora, o leve cheiro da pele de urso, que não tinha chamado minha atenção até aquele momento, tornou-se cada vez mais perturbador, criando um sentimento intranqüilo na minha mente. Não havia nenhum dos sons familiares do meu lar para me acalmar e aquietar. Não havia o tique-taque familiar do relógio, quase imperceptível ao lado da minha cama; nenhuma voz de vizinhos atravessando as paredes finas do meu apartamento; nenhum som de tráfego do lado de fora. Eu não tinha percebido antes que algumas das coisas que me perturbavam no meu pequeno apartamento urbano também me confortavam e tinham se tornado uma parte do meu condicionamento para dormir.

A luz forte da lua atravessava a única janela, iluminando os poucos objetos ao meu redor na sala quase vazia. Uma pilha vertical de lenha para a lareira jazia como uma sentinela perto da porta. A minha direita havia uma velha cadeira branca, onde Nicolai jogara o chapéu de coruja. O chapéu pareceu ganhar vida enquanto eu olhava para ele na penumbra. Acima de mim, perto da janela, estava uma pequena mesa. De onde eu me deitara no chão, não podia ver o que estava sobre ela.

À minha esquerda, um velho tambor oval feito de couro permanecia encostado contra a parede branca. A sua face estava voltada para a parede, e eu só podia ver o fundo aberto. O seu cabo era feito de dois pedaços de madeira esculpida, cruzados em ângulos retos e unidos no meio. As peças cruzadas tinham sido esculpidas na figura simbólica de um homem. O pedaço mais comprido formava o seu corpo, com a cabeça sustentando a borda superior do tambor e os seus pés pressionando a borda inferior. A outra pessoa tinha sido formada como os braços e mãos do homem, com nove anéis de metal atravessando os dedos de cada mão. O tambor era grande, quase noventa centímetros de diâmetro. No meio da sua superfície de pele, visível mesmo do lado de fora, estava o que parecia ser um corte proposital. Eu imaginei como aquele tambor devia tocar alto antes de ter sido quebrado. Enquanto imaginava o seu ritmo, o tambor pareceu se aproximar de mim, cada vez mais perto, até que a sua forma escura parecia preencher todo meu campo de visão, e eu já não tinha certeza se estava acordada ou sonhando.

Eu devo ter adormecido imediatamente e caído num sono profundo. Mais tarde, me lembrei de um sonho estranho. Neste sonho eu estava próxima de uma grande porta de madeira que chegava a brilhar de tão polida. A porta estava fechada. Me aproximei para tocá-la, e quando senti minha mão sobre ela, a mão foi se tornando cada vez mais real para mim. Quanto mais eu me movia, mais consciente eu me tornava de mim mesma e de todos os meus outros sentidos.

Percebi que ainda estava dormindo e dentro de um sonho, mas ao mesmo tempo eu tinha consciência plena e total liberdade de vontade. Eu sabia que tinha o poder de usar minha mão para abrir a porta e entrar no espaço por trás dela. Havia um doce senso de alegria no meu coração, e eu queria que o sonho continuasse. Então percebi subitamente que mais alguém estava no meu sonho, esperando no espaço por trás da porta fechada, e que essa pessoa podia me ver com um nível de consciência igual ao meu. Isso me assustou. Parei de mover minha mão e tudo se dissolveu.

Nós acordamos na aurora, com o silêncio total da pacífica vila. O sol matinal brilhava pela nossa pequena janela. Mesmo na luz, a estranha casa do xamã morto não perdia a sua atmosfera assustadora. Ela me fez recordar a história que Nicolai contara no hospital sobre o seu tio moribundo, nesta mesma casa. Obviamente, um lugar como esse podia induzir uma profunda perturbação psíquica em pessoas que possuíam uma inclinação natural para essas coisas. Nicolai fazia parte desse grupo. De pé na casa do xamã, esperando que Nicolai viesse nos tirar dali o mais rápido possível, compreendi a sua história com muito mais clareza.

Felizmente, Nicolai chegou logo depois de termos nos levantado e nos convidou para o desjejum na casa de sua mãe. Antes de sairmos, perguntei a ele sobre o tambor. Ele me impressionava ainda mais na luz da manhã do que no escuro. Mesmo estando quebrado, ele parecia forte, poderoso e cheio de vida.

- Era o tambor do meu tio. Eu só o vi usá-lo uma vez. Depois da sua morte, alguns dos nossos velhos vieram e disseram a minha mãe as coisas que devem ser feitas quando um xamã morre. Uma dessas coisas é quebrar o seu tambor. É uma lei não-escrita. Eles disseram que o tambor só deve servir a um xamã. O espírito do tambor deve ser mandado embora depois da morte do xamã através de uma abertura feita por um parente. Então a minha mãe o fez.

"Hoje iremos ver Umai, a xamã de Kubia, uma vila próxima. Ela sabe muito mais sobre esse rito de passagem, caso você queira perguntar a ela.

Estávamos contentes em deixar a casa de Mamoush, que ainda parecia ameaçadora mesmo à luz do dia. A amigável casinha de Maria, ocupada com as preparações do desjejum, fazia um contraste tranqüilizador. Maria estava cozinhando ovos, esquentando pão preto, e vertendo leite de verdade com uma camada de creme, fazendo uma calorosa refeição matinal para nos preparar para nossa jornada do dia.

Não tínhamos idéia do que estava planejado para aquele dia.

Quando nós perguntamos a Nicolai como chegaríamos a Kubia ou quanto tempo levaríamos para chegar lá, ele ignorou silenciosamente as nossas questões. Ele só nos disse para nos vestirmos com as roupas mais quentes que tivéssemos trazido e para segui-lo. Maria nos deu um pacote de pão e queijo para que levássemos conosco.

6
Se eu soubesse como seria fria e difícil a jornada para a vila de Umai, não teria ido. Caminhamos incessantemente pela neve profunda numa pequena estrada da montanha, na verdade nada mais do que um caminho estreito que às vezes quase desaparecia na neve.

Depois de uma hora, Nicolai ainda não tinha nos dito nada, e começamos a nos perguntar se seríamos capazes de completar a jornada. De inicio tentamos rir, mas logo o frio e a altitude nos afetaram e ficamos exaustos. A beleza da paisagem deixara de nos alegrar. Começamos a especular, brincando mas não muito, sobre morrer naquele rude caminho das montanhas, nos perguntando se nossos corpos seriam recuperados algum dia. O fato de que nossas mortes poderiam nem mesmo ser notadas em meio à tranqüilidade dessa estrada coberta de neve cercada por grandes árvores perenes era uma idéia muito sóbria, que nos manteve caminhando, por mais dolorosos que fossem os passos.

Foi Anna quem primeiro notou a fumaça se elevando acima de uma casa pequena. Ela saltou alegremente o mais alto que podia, e então me abraçou e beijou na sua animação.

Nicolai confirmou que era Kubia, e ficamos felizes por seu silêncio irritante ter finalmente terminado. Enquanto nos aproximávamos da vila, Anna e eu ficamos felizes em pensar que logo estaríamos numa casa novamente, sentados diante de um fogo quente, sem que precisássemos caminhar por intermináveis camadas de neve gelada. No entanto, notei que Nicolai parecia estar nervoso.

- Preciso contar uma coisa para vocês - disse ele finalmente. - Preciso preveni-las que não sei exatamente como as pessoas daqui vão reagir a vocês.

Olhamos para ele, sem saber o que dizer.

- Nós estamos aqui para ver Umai, que é uma kam. Nós não usamos a palavra xamã; não é nossa palavra. Xamã é uma palavra criada pelos russos. Nós chamamos essas pessoas de kams. O problema é que vocês são russas. Nosso povo tem um bom relacionamento com pessoas brancas, mas superficial. Talvez ninguém em Kubia explique alguma coisa para vocês sobre os kams ou sobre seus ritos e rituais. E é ainda mais provável que ninguém permita que vocês vejam o que realmente acontece nas curas deles. Eu não sabia disso antes da viagem. Minha mãe só me contou agora de manhã. Ela disse que poderia haver um problema para que você encontrasse Umai.

Parecia estúpido e absurdo que, depois de todo o esforço que fizemos para chegarmos neste lugar remoto, Anna pudesse não ter permissão de ser curada. Comecei a rir, mas Anna ficou furiosa.

- Não é engraçado, é loucura - disse ela. - Estou seriamente doente, e vim com Olga até este lugar esquecido e fora do mundo na esperança de conseguir ajuda. Foi você, Nicolai, que nos convidou para vir até aqui. Foi você que nos trouxe nesta jornada longa, fria e perigosa hoje. E agora você me diz que podemos ser expulsos da vila? Para quê? Para morrermos na neve?

- Por que você fez isso? - perguntei, incrédula. - Todo o seu povo é tão irresponsável quanto você?

Sem hesitar, Nicolai replicou:

- Meu tio, Mamoush, me disse para trazê-las comigo. - Enquanto dizia estas palavras, o seu nervosismo desapareceu e ele parecia mais calmo e seguro de si.

- Excelente! - zombou Anna. - Aqui estou eu no meio de um deserto gelado com um paciente mental e uma amiga que supostamente é uma psiquiatra. Olga, você não examinou Nicolai no hospital? - Ela olhou para mim acusadoramente. - Até eu, que não sou uma psiquiatra, posso dizer que ele apresenta os sintomas óbvios de uma doença mental.

Eu me senti mal por Anna ter dito isso, e muito pior quando percebi que as palavras dela tinham alguma verdade. Nicolai ficou perto de nós em silêncio, e senti pena do seu embaraço. Finalmente eu falei.

- Anna, nós já estamos aqui. Já nos comprometemos. Não há qualquer oportunidade de voltarmos agora, já que precisamos descansar primeiro. Não temos escolha a não ser entrar na vila. - Eu me senti um pouco mais calma, e esperava que minhas palavras ajudassem Anna a relaxar.

- Deixem-me contar uma coisa - disse Nicolai. - Aconteceram certas coisas aqui há quase cem anos que afetaram muito a atitude do nosso povo para com estranhos. Pessoas estrangeiras para nós e nossa terra decidiram trazer para cá sua própria religião. Certo dia, eles chamaram os kams de perto e de longe para um ritual. Eles disseram que queriam a paz entre suas religiões. Cerca de trinta kams apareceram, trazendo apenas os seus tambores. Os estranhos pegaram todos os kams e os colocaram numa pequena casa de madeira. Então eles cobriram a casa com querosene e acenderam um fósforo.

"A casa com os kams queimou durante uma hora. Nenhuma das pessoas da vila pôde fazer nada. Quando ela tinha queimado totalmente, três dos kams se levantaram e andaram para fora das cinzas, vivos. Os estranhos ficaram apavorados quando viram isso. Eles não tentaram deter os três kams, mas correram para longe da casa queimada e contemplaram chocados enquanto os kams iam embora. Os três kams seguiram direções diferentes e continuaram a "kamlanie". Mas a partir de então, os kams executam seus rituais em segredo. Umai é uma descendente de um dos três kams que saíram andando do fogo.

- Os estranhos eram cristãos?

- Não - replicou Nicolai. - Nós tivemos cristãos depois, e então vieram os comunistas.

Sem dizer mais nada, fomos na direção da vila.

Vi Anna tocar gentilmente a mão de Nicolai e a ouvi perguntar:

"Você me perdoa?" Eu sabia que ela estava falando sobre as palavras que dissera com raiva alguns minutos antes. Ele assentiu e soltou rapidamente a mão dela.

A vila era semelhante à de Nicolai, mas as casas eram menores e as pessoas pareciam ainda mais pobres. Aproximamo-nos de uma casa antiga com fumaça subindo pela velha chaminé. Não havia gente nas ruas, nenhum cão latindo para anunciar a nossa presença.

- Acredito que ela esteja aqui - disse Nicolai, quando paramos perto da porta. - É melhor que vocês me esperem - acrescentou enquanto empurrava a porta destravada e desaparecia no pequeno interior da casa.

Meus pés molhados estavam ficando congelados. Anna pegou um cigarro no seu bolso e fumou. Nós esperamos nervosamente durante o que pareceu um tempo muito longo. Finalmente Nicolai emergiu da casa e caminhou diretamente para Anna.

- Umai vai curá-la esta noite. - As suas palavras pareceram pairar no ar durante um momento até que nossos ouvidos preocupados as compreendessem plenamente. - Ela me disse para levar vocês para outra casa, onde vocês esperarão por ela. Ela disse que sentiu o seu desejo de curar o seu corpo e voltar a uma vida normal. - Ele pegou Anna pela mão e a levou para uma casa no outro lado da rua.

- Espere ai, Nicolai. E eu? - gritei.

- Umai me disse para perguntar a você por que você tinha vindo. Espere por mim aqui. Volto já.

Fiquei surpresa e confusa. Esta pergunta simples certamente não deveria ter me preocupado, mas foi o que aconteceu. Por que eu estava aqui? Devia ser algum tipo de sonho estranho. Viajando ali, me senti vagamente como se estivesse me movendo rumo a algum tipo estranho de experiência mística, mas em nenhum momento da viagem eu tentara considerar uma explicação racional. Eu podia dizer que viera como turista, simplesmente acompanhando minha amiga para ver as montanhas. Mas isso não era verdade, e eu sabia que não seria uma resposta aceitável para a mulher daquela casa. Mais uma vez estava encarando as conseqüências de não tomar decisões conscientes com minha vida, e senti pena de mim mesma.

Quando Nicolai retornou e tocou minha mão, ele me surpreendeu. Disse a ele a primeira coisa que veio à minha cabeça.

- Eu vim aqui para aprender com ela.

Ele entrou novamente na casa. Quase imediatamente ele reemergiu e fez um gesto para que eu entrasse. Vindo de um dia tão claro, de início pensei que a casa estivesse totalmente escura. À medida que os meus olhos se ajustaram, percebi que uma pequena quantidade de luz entrava por duas pequenas janelas. Eu vi que a casa só tinha uma grande sala e que ela parecia absolutamente vazia, exceto por duas mulheres. Disse "Olá" antes que Nicolai rapidamente fizesse um gesto pedindo que eu ficasse em silêncio e me sentasse no chão em um dos cantos da casa.

Uma das mulheres estava deitada de bruços no chão, no meio da sala. As suas costas estavam nuas, com traços de terra e ervas sobre ela. A outra mulher parecia mais velha. Ela era baixa, com um rosto forte e saudável. As suas roupas eram estranhas para mim: uma longa saia feita de tecidos de inverno pesados de diferentes cores, com algumas pequenas bonecas de pano costuradas nas suas costas. Ela tinha cabelo escuro, na maior parte coberto por um xale azul, e um rosto mongol envelhecido com muitas rugas. Eu diria que tinha cerca de setenta anos.

Ela não pareceu me notar. Parecia muito ocupada e estava concentrada em colocar cuidadosamente um estranho objeto perto da mulher deitada. Era um triângulo tosco feito de três pedaços de madeira, cada um com cerca de noventa centímetros de comprimento. A madeira recém-cortada ainda tinha uma cor fresca, e até mesmo o aroma perfumado do pinheiro de sua origem. Imagens de peixes estavam esculpidas nas superfícies planas dos seus lados.

Percebi que devia ser Umai de pé sobre a outra mulher, e que estava ocorrendo uma cura. Umai colocou o triângulo com os peixes no lado direito da mulher, de modo que ele separou as duas de uma grande pele de rena que estava do outro lado do triângulo.

Nicolai estava sentado em um dos cantos da casa, de modo que todo o espaço ao redor das duas mulheres no centro da casa estava aberto. Umai pegou um pequeno tambor do chão e começou a bater suavemente. De início o seu ritmo era quebrado e fraco, parecendo incerto. Então ela começou a cantar na sua língua nativa. As palavras da sua canção tinham uma entonação de súplica enquanto ela se movia graciosamente ao redor do corpo imóvel abaixo dela.

A mulher no chão não fazia som algum e parecia estar dormindo. As suas costas estavam nuas, exceto pela terra e as ervas. Embora a temperatura dentro da casa fosse apenas alguns graus mais alta do que do lado de fora, seu corpo parecia relaxado e aquecido. Umai caminhou ao redor dela, às vezes se curvando e batendo no seu tambor bem acima das costas da mulher. O ritmo da sua canção ficou mais claro, as palavras mais altas. Ela se movia cada vez mais rápido.

Assistindo à rápida energia da sua dança, eu agora pensava que ela devia ser mais nova do que achara de início. O poder do tambor aumentou tanto que parecia impossível que um instrumento tão pequeno soasse tão alto. A voz de Umai assumiu um tom incrivelmente profundo e vigoroso. Eu mal a reconheci como a mesma pessoa que vira no início da dança. Ela parecia mais alta, mais forte, mais agressiva e masculina, quase como um guerreiro prestes a duelar até a morte com um poderoso inimigo. Ela saltou e girou o seu corpo com uma inacreditável rapidez e força. A sua canção transformou-se num grito de batalha. Ela respirou profunda e rapidamente, seus olhos se incendiaram com um brilho vitorioso. Então ela agarrou a mulher rudemente pelos ombros e gritou com ela na linguagem de Altai.

A mulher se ajoelhou. O seu cabelo caía num emaranhado. Os seus olhos ainda estavam fechados, e ela parecia estar num transe profundo. Ela se arrastou de joelhos até o triângulo de madeira. A abertura no triângulo era do exato tamanho para que um humano se arrastasse, e ela entrou dentro dele.

Umai gritou ainda mais alto com ela. Jogou longe o tambor e empurrou a mulher cada vez mais fundo no triângulo com suas mãos nuas. Os seus gritos se transformaram num cântico queixoso. Era difícil para a mulher passar pelo triângulo. O seu corpo nu entrava em convulsão e se contorcia contra as extremidades ásperas da madeira recém-cortada. Umai tentou tornar a situação ainda mais dolorosa para ela movendo o triângulo para frente e para trás, arranhando o corpo da mulher continuamente à medida que a empurrava.

Eu ficara totalmente absorvida pelo que estava acontecendo. Subitamente os peixes esculpidos adquiriram vida para mim, nadando da esquerda para a direita pelos lados do triângulo. Umai continuava a cantar enquanto a mulher se aproximava do final da sua luta para passar pelo triângulo. Quando ela estava quase completamente sozinha do outro lado, Umai saltou até ela e levantou a pele de rena. A mulher se arrastou para baixo da pele e logo estava totalmente coberta.

Umai então tornou-se ainda mais furiosamente agressiva. Gritando, ameaçadora nos seus gestos, ela agarrou o triângulo de madeira e o destruiu. Ela fez isso como se estivesse sentindo um intenso ódio, como se legiões de inimigos se escondessem dentro dele. Ela o pisoteou, e então bateu nele com suas mãos. Parecia que ela o estava amaldiçoando rudemente na sua própria linguagem. Quando só os restos da forma jaziam sobre o chão, ela fez o mesmo com o tambor. Logo havia apenas pedaços de madeira espalhados ao redor da mulher, que ainda estava coberta pela pele de rena.

Umai voltou-se para Nicolai e disse uma frase curta na sua linguagem. De algum modo, compreendi que isso significava que ele deveria ajudar a mulher sob a pele. Umai novamente pareceu ser uma pequena mulher nativa, mas eu sabia agora que ela tinha um tremendo poder dentro de si. Ela sentou-se no chão, tirou um cachimbo de um bolso oculto do seu vestido, e começou a fumar. Ela assistiu Nicolai calmamente enquanto ele ajudava a mulher a se levantar e a colocar o resto das suas roupas.

A mulher parecia cansada e sonolenta. Ela não parecia notar Umai, e se movia lentamente na direção da porta com passos pesados. Ela a abriu e saiu sem uma única palavra ou gesto. Isto me surpreendeu e impressionou. Eu tinha esperado que ela mostrasse gratidão, que dissesse a Umai como estava se sentindo - tudo menos mostrar uma completa indiferença a sua curandeira.

Voltei-me para Umai, tentando ler no seu rosto qualquer reação a maneira como a mulher fora embora. Inesperadamente, descobri que ela estava me olhando com intensidade e um ar matreiro. Ela disse algumas palavras a Nicolai e continuou a me fitar, ainda fumando seu cachimbo. Eu não podia tirar os meus olhos dela, e me pilhei sorrindo estupidamente.

Nicolai traduziu suas palavras para mim.

- Ela disse que você fez bem em ajudar os peixes a levarem o espírito da doença da mulher e a carregá-lo ao mundo inferior.

Umai se levantou e rearranjou os restos da sua sessão curativa no chão. Então ela caminhou para onde Nicolai estava sentado e teve uma curta conversa com ele na sua língua nativa. Eu sabia que, mesmo que ela falasse russo, eu não ouviria dela nenhuma palavra na minha língua.

Nicolai voltou-se para mim.

- Ela quer que você a siga para outra casa na vila, onde ela está ficando. Ela não vive nessa vila, sabe? Ninguém sabe onde ela mora. Esta casa onde estamos agora foi abandonada quando a família que vivia aqui se mudou para a cidade há alguns anos. É um lugar onde Umai só vem para curar pessoas.

Eu perguntei se íamos para onde Anna estava à nossa espera, desejando que eu pudesse assistir e talvez até mesmo ajudar na cura da minha amiga. Nicolai respondeu que não tinha idéia para onde Umai ia me levar.

Enquanto conversávamos, Umai se movera até a porta e a abrira. Descobri que não tinha notado a passagem do tempo, pois a luz do dia quase acabara e a rua já estava numa escuridão muda. Umai me chamou até a porta, e saí no crepúsculo atrás dela. Ela ainda estava vestindo apenas o seu vestido, sem nenhum capote para protegê-la do frio terrível. Ela caminhava rapidamente pela rua congelada, virando-se na direção oposta à casa onde Anna estava esperando.

Escutei Nicolai dizer: "Vou até Anna."

Segui a figura de Umai pelo caminho estreito de neve compacta entre altos muros de neve dos dois lados. A luz de lâmpadas brilhava de algumas das janelas enquanto passávamos, parecendo confortável e quente para nós que caminhávamos no frio ar noturno.

Tudo o que eu experimentei durante o dia esticou tanto a minha consciência que minha mente estava bastante sacudida. Eu não estava cansada, tampouco assustada. Embora eu não soubesse o que esperar em seguida ou o que Umai poderia querer de mim, decidi deixar de pensar sobre o assunto. Pela segunda vez em dois dias vagamente reconheci meus sentimentos como eco de uma outra época, mas ainda não podia me lembrar de quando ou onde.

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