Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Finalmente, chegamos a uma casa grande com duas portas, uma de cada lado. A metade esquerda da casa estava iluminada, e pude ver pessoas entrando nela. Umai caminhou para a outra porta, à direita, abrindo-a facilmente.

A sala por trás da porta era quase perfeitamente redonda, sem móveis exceto por um único catre coberto com um velho cobertor. Estava escuro, e alguma coisa despertara uma forte premonição de perigo. Eu teria me sentido ainda mais intranqüila se não fosse pelo ar tranqüilizador do rosto calmo de Umai. De algum modo, sem compreender por quê, eu já sentia como se conhecesse bem Umai. Talvez porque o seu rosto me lembrasse um pouco a minha avó, que tinha traços que lembravam a herança mongol de muitos russos. Eu seguia o rosto de Umai constantemente, tentando manter o contato visual com ele a cada segundo. Sem isso, eu sentia que meu medo aumentaria e que eu estaria perdida.

Ela apagou a luz e mandou que me deitasse no catre. Levantei o velho cobertor feito de vários tecidos coloridos e comecei a tirar o meu casaco. Ela fez sinais para que eu parasse, de modo que me deitei debaixo do lençol com minhas roupas de inverno. O chão era de terra, não muito mais quente do que o do lado de fora, e imediatamente senti o frio vindo de baixo. Fiquei pensando quanto tempo ficaria deitada ali.

De onde estava deitada, vi Umai enquanto ela acendia uma fogueira no meio da sala e depois apagava a luz. Não havia lareira ou buraco para o fogo, só uma fogueira no chão de terra no meio de uma sala vazia. As chamas subindo pareciam bastante misteriosas. Muito embora eu não tivesse visto nada como isso antes, havia alguma estranha familiaridade que me fazia sentir saudade de algum período antigo e desconhecido. Umai cantava suavemente com palavras que eu não conseguia entender, mas que pareciam estar endereçadas ao fogo com amor e devoção.

Muito embora eu só estivesse entre o povo de Altai há pouco tempo, tive uma sensação intuitiva de que eles estavam completamente centrados no presente. Eles não viviam no passado; não sonhavam com o futuro. Umai estava totalmente focalizada no "agora", e nesse momento "agora" significava acender uma fogueira.

À medida que a chama iluminou a sala, minha frágil calma desapareceu e o perigo novamente parecia espreitar ao meu redor. Eu não podia mais ver os olhos de Umai, porque ela se recusava a olhar para mim. Ela tirou alguma coisa do seu bolso e colocou no fogo. A chama engoliu seu novo alimento como um animal faminto, cresceu durante alguns segundos, e então voltou ao normal.



A canção de Umai se alterou, e comecei a sentir como se eu estivesse de algum modo dentro dela. Algo estava acontecendo dentro de mim. A minha atenção estava presa pela fumaça subindo com o fogo. Eu não podia desviar os olhos, nem conseguia pensar em qualquer outra coisa.
Pensamentos fragmentados corriam pela minha mente com uma velocidade incrível. Só tive tempo de registrar dois na minha mente: "estou com muito frio" e "isto é psicose". O segundo me fez entrar em pânico. A sensação de estar perdendo o meu mundo me invade. Usando toda a minha força, tento encontrar um lugar dentro de mim de onde possa falar. Eu não sei falar. Eu perdi minha voz. O que significa dizer "minha"?

Subitamente uma voz emerge, parecendo muito distante. Ela está gritando alguma coisa. Perdendo meu senso de individualidade, eu me rendo, sem ter idéia do que ou de quem permanece aqui. Eu me torno a voz, a voz gritada alto que se levanta com a fumaça de uma fogueira no meio de uma sala numa vila esquecida da Sibéria. Os meus últimos esforços de costurar meu mundo se tornam uma transformação, uma integração da fumaça e da voz numa coisa só. E agora a voz e o fogo são eu, e sou uma serpente subindo por uma água profunda e resistente.

Simultaneamente, outro medo me abraça. Estou debaixo d,água, nadando o mais rápido e com mais força do que posso para chegar à superfície. Nada me cerca a não ser água, água profunda. Nado cada vez mais rápido, tentando desesperadamente alcançar a superfície.

Finalmente, chega o momento em que saio da água e flutuo na superfície do oceano. Instantaneamente ele se torna um lugar de paz e calma. Adoro este oceano e poderia flutuar nele desse modo para sempre. Nada me perturba. Não existem pensamentos que não sejam uma apreciação por esta água que agora me sustenta. Começo a nadar. Eu nado e nado ate ver a costa. Percebo que a terra se encontra com este misterioso corpo de água de todos os lados, e que estou nadando ao redor de um grande lago redondo. Agora noto o que está na costa. Parece uma cidade. Posso ver prédios, carros e pessoas. O pânico me possui novamente. Esta é a minha cidade, os meus parentes e amigos. Não quero voltar para eles. Não quero perceber nada a não ser a água suave fluindo.

Uma doce voz feminina chega a mim através do pânico. "Fique calma. Vou falar com você agora." É a voz de Umai. Eu não sei em qual linguagem ela está falando, mas sei que é Umai e de alguma maneira compreendo as suas palavras.

"Agora você está no seu espaço interior o lugar do Lago do Espírito. Esta é a sua primeira vinda consciente neste lugar. Cada um de nós possui este espaço interno, mas durante as vidas da maioria das pessoas, ele fica cada vez menor. A medida que atravessamos a vida, o mundo ao nosso redor tenta ocupar e matar esse espaço interior o seu Lago do Espírito. Muitas pessoas o perdem inteiramente. O seu espaço é ocupado por legiões de soldados estrangeiros, e eles morrem.

"Agora você experimentou esse espaço dentro de si. Agora você o conhece. Você não precisa mais ter medo do mundo ao seu redor O seu espaço nunca será preenchido com nada a não ser você mesma, porque agora que você o experimentou, reconhece o seu sentimento e pulso. Você irá continuar a explorá-lo. Mais tarde também aprenderá que existe um importante Ser Interior que vive nele. Você precisará encontrar e compreender esse Ser Espiritual. Eu a ajudarei a fazê-lo quando estiver pronta."

A voz de Umai é tranqüilizadora, e me agarro a cada palavra à medida que ela prossegue. "Agora vou contar-lhe o maior segredo que conheço. Nós temos a tarefa de construir duas coisas enquanto estamos nas nossas vidas físicas. Nossa primeira tarefa é construir a realidade física em que vivemos. A segunda tarefa é a construção de nós mesmos - dessa mesma personalidade que vive dentro da realidade externa.

"As duas tarefas exigem igual atenção. Manter o equilíbrio entre elas é uma arte muito sagrada e exigente. Assim que esquecemos uma tarefa, a outra pode nos capturar e nos fazer de escravos para sempre. É por isso que o lugar do Lago do Espírito, o lar do Ser Interior, se torna morto e vazio para tantas pessoas. Eles passam a realmente acreditar que o mundo exterior é o único digno da sua atenção. Mais cedo ou mais tarde eles percebem o seu erro.

"Para você, o perigo principal não é este, mas apenas explorar a sua personalidade interior. É por isso que você já estava tão interessada nas mentes das outras pessoas. Você estava usando essa informação para tentar compreender a sua própria psique. Você, precisa aprender a aceitar a importância de criar a sua própria realidade. Acredite em mim, o seu trabalho no mundo exterior possui um poder absoluto e igual para a capacidade de satisfazer. Não tenha medo da costa ao seu redor agora. Tudo que você vê ali é a sua própria manifestação, e é ridículo ter medo da sua própria criação. Eu vou ajudá-la."

O ambiente ao meu redor começa a desaparecer. A visão e a consciência começam a retornar ao meu corpo físico, e lembro-me que estou neste corpo deitada no solo. Eu quero dormir, e já estou quase dormindo quando as velhas mãos de Umai me dão uma quente xícara de chá de ervas com leite. Bebo lentamente o líquido quente antes de sucumbir ao calor do chá e cair adormecida.
A luz da manhã foi a próxima coisa a tocar minha consciência. Eu despertei, percebi que ainda estava no chão coberta com meu casaco de inverno e o velho cobertor, sozinha numa sala estranha. Precisei de toda a minha força para me lembrar do que acontecera no dia anterior. Tudo tinha uma qualidade onírica, e eu sabia que estava pendurada precariamente entre dois mundos. Eu precisava ver outro ser humano para ajudar a provar para mim mesma que ainda estava viva e sã.

Eu podia ouvir a voz de dois homens por trás da parede fina separando meu quarto do outro lado da casa, mas as vozes estavam abafadas demais para que eu pudesse distinguir o que eles estavam dizendo. Foi complicado me levantar, e fiquei de pé com as pernas bambas durante alguns segundos, enquanto minhas pernas se acostumavam novamente à idéia de sustentar o meu corpo. Não havia água para limpar o meu rosto, nem espelho, nem maquiagem.

Eu imaginei como devia estar a minha aparência, e como Anna e eu estávamos mal preparadas para iniciar tal viagem. Lembrei-me do pão e queijo que Maria tivera o cuidado de deixar para nós no dia anterior, e a fome me envolveu. Decidi encontrar Anna e tomar o desjejum com ela e Nicolai assim que fosse possível.

O meu xale de lã estava terrivelmente amassado depois de passar a noite dormindo em cima dele, mas estava contente em ter o calor extra que ele me oferecia. As minhas botas estavam perto do capacho, e alguém tivera o cuidado de colocar meias de lã quentes nos meus pés.



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Depois de arrumar minha cama improvisada e calçar minhas botas, saí para um lindo dia. O ar estava tão incrivelmente fresco que a primeira inspiração me fez sentir calma e alegre novamente. O céu azul exibia nuvens brancas e fofas, os pássaros estavam cantando das altas árvores perenes que me cercavam, e as montanhas distantes pareciam uma bela foto de cartão-postal. Tudo parecia trazer a mensagem de que a vida ainda podia ser harmônica em alguns lugares desta terra. Eu estava contente pelo destino ter me dado a oportunidade de visitar um deles.

- Oi! - disse a voz de um homem vinda da outra porta da casa.

- Olá! - respondi, prestando atenção para ver se a minha voz tinha sido alterada por todas as experiências de ontem e da última noite.

- O meu nome é Victor. - Ele falou russo sem sotaque, marcando-o como outro visitante na vila, como eu. - O proprietário da casa nos disse que uma velha ficaria aqui na noite passada, e nos pediu para não ficarmos surpresos com nada que acontecesse. Mas você é essa mulher que supostamente é tão velha e assustadora? Não sabia que teríamos uma companhia tão atraente na casa ao lado!

- Quase - respondi. - O meu nome é Olga.

Alguma coisa nas suas palavras, na sua expressão facial e no seu tom de voz me deixaram cautelosa. Mesmo com toda a sua beleza, a Sibéria ainda era um local muito isolado. Estranhos eram uma raridade, e mulheres estranhas independentes eram ainda mais raras. Uma mulher sozinha sem um marido ou família poderia estar vulnerável, e era preciso às vezes tomar cuidado para evitar criar situações embaraçosas ou até mesmo perigosas.

Felizmente, a minha experiência psiquiátrica tinha muitos aspectos úteis. Sendo jovem e trabalhando principalmente na enfermaria masculina, precisei aprender rapidamente como transformar o interesse masculino em amizade sem conotações românticas ou sexuais. Instintivamente, eu sentia que este rude de aparência ativa, com seu corpo grande e musculoso e risada máscula e profunda, acharia o tópico de funções corporais íntimas embaraçoso o bastante para fazer submergir quaisquer outras idéias que pudesse ter.

- Acho que realmente preciso encontrar um banheiro imediatamente - disse eu. - Onde há um toalete que eu possa usar?

Ele fez um gesto na direção de uma pequena cabine estreita na parte de trás da casa principal, e corri para lá. Victor estava esperando pelo meu retorno com um ar amigável e protetor no seu rosto. Ele me apresentou seu amigo, Igor, que estava de pé ao seu lado. Igor era o oposto completo de Victor, baixo e magro, com traços angulares. Eles me convidaram para o desjejum e uma xícara de chá, e a idéia de comida era boa demais para recusar.

Quando entrei, não pude deixar de ficar surpresa com o ambiente totalmente diferente que me saudou. Aquela parte da casa parecia um lar normal. Era calorosa e de bom gosto, cheia de belos objetos feitos a mão. A mesa estava coberta por uma toalha branca bordada a mão com flores. Um grande bule de cobre estava sobre ela. Cortinas de algodão translúcido permitiam que a luz passasse pelas pequenas janelas, e havia taças de porcelana de verdade, com antigos desenhos russos. Tudo aqui fazia com que eu me sentisse em casa, e descobri que estava relaxando um pouco.

- Vocês dois são os criadores de toda essa beleza? É difícil imaginar como dois alpinistas como vocês pudessem arrumar tudo isso de modo tão belo - brinquei com eles.

- Você é a bruxa de quem nos falaram ontem? - eles riram de volta. - Falando sério, só essas coisas são nossas - acrescentou Igor, apontando para um canto onde eu já vira o seu grande monte de equipamento de alpinismo. - Nós só alugamos este lugar como uma base para nossas viagens nas montanhas.

O chá que eles fizeram era muito quente, e provavelmente tão forte quanto qualquer um poderia ter feito. E eles tinham uma das minhas geléias favoritas, oblepiha, que serviram em pequenos biscoitos duros como bolachas quebradiças. Depois das experiências surpreendentes do dia anterior, era bom simplesmente relaxar e ter uma conversa despreocupada. Eu sabia que recebera coisas demais para integrar em tão pouco tempo, e que pensar sobre o assunto não me ajudaria neste exato momento.

Oblepihas crescem em árvores só encontradas na Sibéria, e são a fonte de muitas lendas que eu escutara repetidas vezes na infância. A oblepiha era usada para tudo, desde tratar uma pequena ferida na mão de uma criança até uma cura miraculosa para o câncer, e possuía incontáveis vitaminas. Eu a adorava especialmente devido à sua notável cor laranja brilhante. A cada outono a nossa família ia para nossa casa de campo para colher essas frutinhas.

Nós precisávamos ser muito gentis para colhê-las, tomando cuidado para não destruir a pele fina e delicada que quebraria facilmente nas nossas mãos, permitindo que o doce e grudento suco alaranjado explorasse todos os sulcos dos nossos dedos. Elas não eram fáceis de colher, porque as folhas eram bastante espinhosas. Os meus dedos sempre acabavam decorados com pontos de sangue, com pequenos pedaços de espinhos quebrados embebidos na minha carne. Tentar sair da colheita com meus dedos sem espinhos e relativamente livres do suco alaranjado grudento era um exercício que nunca esqueci.

Percebi que meus novos conhecidos estiveram falando, brincando e conversando um com o outro enquanto eu sonhava acordada, e voltei ao presente. Eles pareceram não ter notado minha breve distração e continuaram a me contar suas histórias de alpinismo. Enquanto eu escutava, me ocorreu que estavam tão dedicados ao seu esporte que provavelmente tinham poucas conversas que não se voltavam rapidamente para suas experiências nas montanhas. Em pouco tempo, me contaram em detalhes todas as diferenças grandes e pequenas entre as montanhas do Cáucaso e da Ásia Central, e revivi com eles todos os seus momentos mais difíceis. Com um entusiasmo igual aos detalhes, me falaram de seus amigos que morreram nas montanhas. E naturalmente falaram um bocado sobre suas amadas montanhas altaicas.

No entanto, mesmo neste abrigo confortável com dois animados conversadores, ainda me sentia emocionalmente distante. Em alguma outra ocasião eu poderia ter me entretido mais com suas narrativas, mas agora a minha mente estava constantemente retornando às minhas experiências do dia anterior. A única ocasião em que seus volteios verbais pelas montanhas capturaram minha atenção plena foi quando mencionaram Belovodia. Eu tinha escutado muitas lendas sobre este lugar. Belovodia, que significa a terra da água branca, seria um pais místico e escondido que teria sido encontrado e adentrado apenas por uns poucos escolhidos. Muitos acreditavam que ele ficava em algum lugar das montanhas altaicas. Algumas pessoas afirmavam que Belovodia era um outro nome para Shambhala, um pais sagrado citado em muitos mitos indianos e tibetanos, de onde pessoas sagradas governavam o mundo.

- Você sabia que até mesmo o Dalai Lama disse recentemente que acreditava que Shambhala estava em algum lugar nas Altai? - perguntou Victor.

- Eu não sei nada sobre a localização de Shambhala - disse Igor -, mas tenho certeza de que Belovodia está nas montanhas altaicas. Eu subi muitos picos nesta terra, mas em nenhum outro lugar vi rios tão brancos. Os cientistas provavelmente explicariam a cor como sendo devida à alguma estranha mistura do solo aqui, mas apesar disso, acredito que seja por causa de Belovodia. Além disso, se eu fosse um espírito governando o mundo, escolheria fazê-lo de Altai. É o único lugar de onde o resto da terra poderia ser governado, se quer saber.

Victor acrescentou seus próprios pensamentos.

- Sabe, tremendas fissuras se abriram no chão por todo o Altai, descobrindo camadas de milhões de anos de idade. Alguns dizem que a radiação da terra chega até a superfície e se dissipa através dessas fissuras, cobrindo todo o Altai com um guarda-chuva. Provavelmente é por isso que o Altai é tão diferente de qualquer outro lugar, e por que até mesmo velhos leninistas materialistas como nós sentem que milagres são possíveis aqui.

- Você poderia falar mais sobre esse pais misterioso? - perguntei. As palavras de Victor sobre Belovodia tinham me tocado profundamente.

Igor falou novamente.

- Ninguém de fora sabe muito sobre ele. Os povos nativos têm antigas histórias sobre encontros com espíritos e sacerdotes misteriosos desse pais escondido. Nunca o encontramos, mas acreditamos que seja possível.

- O povo de Altai os chama de xamãs? - perguntei, pensando em Nicolai e na minha recente conversa com ele.

- Nunca nos contaram nada sobre essas coisas do povo de Altai. Você mesma deveria perguntar a eles. Eu não acho que ainda existam xamãs. Mas quem sabe? - O tema dos xamãs obviamente não interessava Victor, e ele abandonou o assunto rapidamente.

- Se você está interessada em saber mais sobre esse assunto misterioso, aqui está alguma coisa que você pode ler. O proprietário da casa me deu isso - disse Igor me oferecendo uma brochura de cerca de quinze páginas com Belovodia impresso em grandes letras na capa.

Enquanto eles continuavam a conversar, abri a brochura e comecei a ler.
Em 987, o grão-duque Vladimir Sol Vermelho em Kiev estava procurando uma nova religião para Rus, o seu país. Ele mandou seis embaixadores separados, cada um levando grandes riquezas, para terras distantes. As suas instruções eram aprender e trazer de volta as crenças dessas terras, para que Sol Vermelho pudesse escolher a melhor delas.

Logo depois, um homem santo errante o visitou. O grão-duque compartilhou com ele um sonho que vem tendo todas as noites há meses. Nele, um velho falava que uma sétima expedição deveria ser enviada, mas o homem no sonho não sabia para onde mandá4a. Assim, o duque pediu ao peregrino que saísse pelo mundo e descobrisse em sete dias para onde o sétimo embaixador deveria ir.

O homem santo entrou numa meditação profunda e jejuou. No sétimo dia, o sacerdote do último monastério que visitara na Grécia veio até ele num sonho. Ele lembrou o viajante da antiga história de Belovodia, um país notável de beleza e sabedoria eternas no Oriente. Só aqueles que eram chamados - uns poucos indivíduos selecionados - tinham a permissão de descobri-lo e visitá-lo.

O viajante contou essa história ao grão-duque, que ficou entusiasmado. Ele decidiu enviar uma expedição para o Oriente, liderada pelo peregrino, Sergey, para descobrir esse país misterioso. Seis homens de famílias nobres, assim como muitos servos e carregadores, iriam com Sergey para ajudá-lo. O número de pessoas que seguiriam nesta peregrinação era de trezentos e trinta e três. Eles foram instruídos a retornar com novidades em três anos.

No primeiro ano, muitas mensagens chegaram no palácio do grão-duque entre grande alegria e esperança. No segundo ano não houve notícia alguma. No terceiro ano, também, nada. Sete, dez, doze anos se passaram sem nenhuma outra notícia da expedição. De início, as pessoas procuravam no horizonte por eles, ansiosos pelas boas novas que certamente os acompanhariam. Então as pessoas temeram que o pior houvesse acontecido, e deixaram de procurá-los. Muitos rezaram e lamentaram a busca por Belovodia.

Quarenta e nove anos se passaram, e finalmente um velho monge chegou em Kiev de Konstantinopol. Mais tarde, sentindo que sua vida estava se aproximando do fim, o velho decidiu contar seu segredo. Ele só podia ser passado verbalmente de monge para monge, já que era conhecimento sagrado. Ele disse que este segredo eventualmente se tornaria posse de todos os povos da terra, mas só no momento certo. Então, uma nova era se iniciaria.

Ele disse o seguinte: "Eu sou o mesmo padre Sergey que, há cinqüenta e cinco anos, foi enviado pelo grão-duque Vladimir Sol Vermelho para procurar Belovodia. O primeiro ano foi calmo e seguro. Nós passamos por muitas terras e por dois mares. O segundo ano nos levou pelo deserto e ficou mais difícil continuar. Muitas pessoas e animais morreram. As estradas se tornaram intransitáveis. Não conseguimos achar respostas para nossas perguntas, e nosso povo foi ficando cada vez mais insatisfeito.

"Quanto mais viajávamos, mais encontrávamos os ossos de pessoas e de animais. Finalmente, alcançamos um lugar completamente coberto de ossos, e as pessoas se recusaram a continuar. Tomamos uma decisão conjunta de que só dois homens continuariam comigo. Todos os outros voltariam para casa. No final do terceiro ano, meus dois companheiros ficaram doentes e precisaram ser deixados numa vila pelo caminho.

"Enquanto eu viajava sozinho, descobri guias em outras vilas que me contaram que, de vez em quando, passavam peregrinos através da sua terra procurando um país místico. Alguns o chamavam de País Fechado. Outros o chamavam de País da Água Branca e Altas Montanhas ou País dos Espíritos da Luz ou País do Fogo Vivo ou País dos Deuses Vivos. As lendas de Belovodia tinham, de fato, viajado muito.

"Finalmente, um dos meus guias me disse que o pais misterioso poderia ser alcançado do lugar onde estávamos em três dias. Meu guia poderia me levar só até a fronteira. Depois disso eu deveria viajar sozinho, porque o guia morreria se entrasse no país misterioso. Então prosseguimos.

"A estrada que subia a montanha era tão estreita que tínhamos que andar em fila única. Montanhas altas com picos cobertos pela neve estavam ao nosso redor. Depois da terceira noite, o guia disse que eu teria que continuar sozinho. Depois de caminhar de três a sete dias para o ponto mais alto das montanhas, se eu fosse um dos poucos escolhidos, uma vila apareceria para mim. Se não, eu não desejaria saber do meu destino. O guia me deixou. Eu fiquei olhando enquanto seus passos se dissolviam no nada.

"O sol nascente iluminou os picos brancos até que eles pare-cessem chamas ardentes. Eu era a única criatura à vista. Estava sozinho com meu Deus, que me trouxera até ali depois de uma viagem tão longa. Um sentimento de exultação celestial indescritível tomou o meu ser. Eu sabia que estava abraçado por um espírito. Me deitei no caminho e beijei o chão rochoso, o meu coração e minha mente silenciosamente agradecendo a Deus pela sua graça. Então segui adiante.

"Logo cheguei a uma encruzilhada. Os dois caminhos pareciam me levar à parte mais alta das montanhas. Escolhi o caminho da direita, que levava ao sol nascente. Continuei meu caminho com orações e canções. Havia mais duas encruzilhadas naquele primeiro dia. Na primeira delas, um dos caminhos estava bloqueado por uma serpente em movimento, como se estivesse fechado para mim, portanto segui o outro caminho. Na segunda, três pedras bloqueavam um dos caminhos. Escolhi o caminho livre.

"No segundo dia, havia uma encruzilhada. Desta vez, o meu caminho se dividia em três partes. Acima de um deles voava uma borboleta, e foi esse que escolhi. Depois do meio-dia o caminho me levou para perto de um lago na montanha.

"No terceiro dia, os raios do sol nascente iluminaram o pico branco e coberto de neve da montanha mais alta e a cercaram com chamas de fogo. Minha alma se elevou em reverência diante dessa visão. Olhei durante muito tempo; ela se tornou parte de num. A minha alma se uniu com as chamas ao redor da montanha, e o fogo tornou-se vivo. Havia figuras brancas se virando, voando na direção do topo em rios de fogo numa bela dança circular. Então o sol se elevou por detrás da montanha, e esta visão hipnótica desapareceu.

"Havia três encruzilhadas no terceiro dia. A primeira tinha ao seu lado um arroio belo e espumante da cor da esmeralda, com espuma branca dançando sobre milhares de pedrinhas e musgos. Rapidamente escolhi o caminho do arroio.

"Por volta de meio-dia cheguei à encruzilhada seguinte. Três caminhos se dividiam nela. Sem pensar, escolhi um rochedo na forma de um ídolo gigantesco protegendo o caminho. Na encruzilhada seguinte, que também tinha três caminhos levando a três direções diferentes, escolhi o caminho mais iluminado pelos raios do sol.

"Quando a escuridão caiu nesse terceiro dia, escutei sons estranhos. Logo, ao lado de uma colina, vi uma casa iluminada pelos últimos raios do sol. Cheguei nesse casebre antes de anoitecer, entrei no humilde refúgio e dormi, agradecido.

"No dia seguinte fui despertado por vozes. Dois homens estavam diante de mim, falando numa língua desconhecida. Estranhamente, minha personalidade interior os compreendeu de algum modo, e eles também me compreenderam. Perguntaram se eu precisava de comida.

"Repliquei: 'Sim, preciso, mas só para o meu espírito.'

"Eu os segui até uma vila onde fiquei durante algum tempo. Ali fiquei sabendo de muitas coisas, e recebi alguns deveres e trabalho para fazer. Sentia-me tremendamente contente. Então, certo dia, me disseram que estava na hora de seguir adiante na minha jornada.

"Fui tratado como um parente amado quando alcancei o lugar seguinte, e então novamente fui levado mais longe quando chegou a hora certa.

"Perdi a noção do tempo, porque não havia como pensar nisso. Cada dia trazia algo novo, algo surpreendentemente sábio e maravilhoso para mim. O tempo se passou como se eu estivesse num miraculoso sonho de todas as coisas boas. Finalmente, me disseram que estava na hora de voltar para casa, e foi o que eu fiz.

"Agora que estou prestes a deixar esse mundo, estou contando o que é possível para mim contar. Calei-me sobre muitas coisas, porque a sua mente humana não poderia aceitar tudo o que eu vi e escutei

"O país de Belovodia não é uma fantasia. É uma realidade. Ele recebeu muitos nomes diferentes nas lendas populares. Os Grandes Seres Sagrados, os orientadores do Mundo Elevado, vivem lá. Eles trabalham constantemente junto com todos os Poderes Luminosos celestes para ajudar e guiar todos os povos da terra. O seu é um reino de Puro Espírito, com chamas maravilhosas, cheio de mistérios encantadores, alegria, luz, amor, inspiração, calma, e uma inimaginável grandeza.

"A cada cem anos, só sete pessoas de todo o mundo têm permissão de penetrar neste país. Seis delas retornam com o conhecimento sagrado, e a outra permanece.

"Em Belovodia, as pessoas vivem tanto quanto querem. O tempo pára para qualquer um que entre no reino. Eles vêem e escutam tudo que acontece no mundo externo. Nada está oculto de quem está em Belovodia.

"À medida que o meu espírito ficou mais forte, recebi a oportunidade de ver além do meu corpo, de visitar cidades diferentes e conhecer e escutar tudo que eu desejava. Contaram-me sobre o destino do nosso povo e do nosso país. Há um grande futuro à nossa espera."


Lentamente fui virando as páginas da brochura, curiosa sobre essa bizarra mas estranhamente verossímil história. No final da brochura, uma nota dizia que o texto fora escrito em 1893, copiando exatamente as palavras da boca de um monge moribundo num monastério. Fiquei surpresa quando percebi que essa história fora passada oralmente desde 987, quando o grão-duque mandou seu embaixador para o mundo, até 1893, quando finalmente fora escrita.

Senti uma estranha excitação, percebendo que tinha aquele pequeno livro nas mãos quase cem anos depois de ele ter sido escrito. Não consegui achar na sua capa nenhum sinal de um autor ou editor. Perguntei aos meus novos amigos sobre ele, mas eles não podiam me dizer mais nada.

- A única coisa que posso acrescentar - disse Victor - é que um dos meus amigos, um fotógrafo profissional, costumava vir até aqui de vez em quando para tirar fotos. Ele ficou tão impressionado com Altai que decidiu viver aqui. Ele está convencido de que Belovodia está aqui, e possui suas próprias teorias detalhadas sobre o assunto. Ele viu algumas ravinas rochosas nas montanhas com apenas gelo por baixo delas. Ele me disse que quando o sol ilumina esses lugares, um fogo torna-se visível. Essa visão é tão diferente de tudo que alguém possa ter visto que ele tem certeza de que é a localização de Belovodia.

Victor olhou para o seu relógio, e vi que já era quase meio-dia. Fiquei surpresa em ver quanto tempo tinha se passado e comecei a me preocupar com Anna e Nicolai. Rapidamente agradeci e me despedi e voltei à luz do dia para encontrar a casa onde Anna desaparecera no dia anterior.


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