Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Encontro02.08.2016
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A única rua da vila parecia mais real e normal de manha do que pare-cera na noite anterior. Enquanto eu caminhava, recordava minhas experiências da noite e a sensação da presença de Umai. Era mais fácil para mim agora pensar em tudo aquilo como um sonho. Eu não tinha contexto para Umai no meu estado de espírito matinal. Eu nem mesmo conseguia imaginar que ela estivesse na vila.

Uma coisa sobre a experiência de ontem tinha me incomodado mais do que qualquer outro detalhe. O fato de ter uma visão poderia ser explicado usando diferentes ferramentas psiquiátricas, mas eu não sabia como racionalizar o fato de que vira peixes esculpidos nadando sobre pedaços de madeira e Umai agradecendo por tê-la ajudado a dar-lhes vida e fazer com que nadassem com a doença para longe. Como ela sabia que eu os vira se movendo? Era só uma coincidência? Não ter uma resposta para isso destruía as explicações racionais que eu tinha para todas as outras coisas que aconteceram.

Esta pergunta era perturbadora demais para qualquer outro pensamento. Para aquietar minha mente, simplesmente me concentrei nos meus passos e segui para a casa em que tinha deixado Anna. Eu esperava que estar com Anna e Nicolai me ajudasse a trazer alguma ordem aos meus pensamentos e emoções, e me permitisse encaixar as peças misteriosas desse estranho quebra-cabeça.

Cautelosamente, me aproximei da porta da casa e bati algumas vezes, cada batida mais ousada e mais alta do que a anterior. Nenhuma voz respondeu, nem havia som algum de passos se movendo para a porta. Finalmente, empurrei a porta e ela abriu. As janelas estavam bem fechadas, e a casa estava escura. De início não consegui ver nada, e pensei que a casa estivesse vazia. Quando meus olhos se acostumaram à escuridão e pude ver a vaga silhueta de alguns móveis na sala, entrei. Procurando Anna, passei lentamente da primeira sala para a segunda. Ainda assim não vi ninguém. Pensei que talvez Anna e Nicolai houvessem saído para me procurar e que tivéssemos nos desencontrado. O meu pensamento estava tão confuso que momentaneamente esqueci que teria sido impossível para nós nos perdermos, já que só havia uma estrada atravessando essa pequena vila da montanha.

Um som leve a minha direita me fez me voltar para a parede. Procurei desesperada pelo interruptor, e quando finalmente o encontrei, me vi diante de uma imagem de Anna que nunca esquecerei. A sua figura estava caída desajeitadamente contra a parede. Ela estava imóvel e não dava nenhuma indicação de perceber a minha presença. As suas mãos tinham sido amarradas com uma grossa corda escura que passava por dois grandes anéis de metal presos na parede. Ela estava meio sentada, vestindo só sua roupa de baixo, sua cabeça caída contra o peito. Suas mãos estavam abertas, e podia ver que estavam cobertas com pequenos cortes e sangue seco. Pensei que minha amiga tinha morrido.

- Anna! - gritei, aterrorizada. Ela fez um ligeiro movimento, e um gemido escapou dos seus lábios. Sentei ao seu lado, segurando os seus ombros, tentando não me entregar às emoções. Ela lentamente abriu seus olhos e olhou para mim. Feias manchas escuras sob seus olhos deixavam seu rosto velho e enfraquecido.

- Me ajude, Olga - ela pediu numa voz cansada e fraca.

Saindo do meu choque inicial, comecei a trabalhar com a corda grossa, libertando suas mãos o mais rápido que pude. Tive medo de perguntar a Anna o que tinha acontecido, e em vez disso me concentrei em desamarrar as cordas para soltá-la. Então a ajudei a atravessar a sala e a coloquei confortável numa grande cama que estava no lado oposto. O medo e a confusão tomaram conta de mim, e me vi chorando, sentindo que algo irreversível tinha acontecido com ela.

Ouvindo meus soluços, Anna falou.

- Pare de chorar, por favor. Nada de perigoso aconteceu comigo, Olga. Eu só não dormi o bastante.

Ela fez um gesto na direção do seu vestido, que estava disposto sobre uma cadeira. Eu a ajudei a vesti-lo, a sua mente ainda não totalmente presente e seu corpo ainda se recuperando.

- É claro, Anna - repliquei. - E como você não conseguia dormir, amarrou suas mãos nos elos de metal na parede. Então, quando ainda assim não conseguiu dormir, cortou-as com uma faca. Olhe só para você!

Minha explosão emocional ajudou a me sentir melhor. Anna parecia estar ganhando força, o seu corpo se movendo com mais facilidade agora, e ela parecia pelo menos um pouco com sua velha personalidade. Olhei cuidadosamente para ela e fiquei aliviada ao concluir que nada de sério tinha acontecido.

- Mas, Olga, foi minha própria decisão fazer isso. Eu não sabia exatamente o que esperar, mas Umai me disse que poderia ser difícil. Ela me perguntou se eu estava pronta a sofrer um pouco para acabar com a minha doença, e eu concordei prontamente. Então, foi minha decisão. Eu vou ficar bem. Só me dê mais algum tempo. - A sua voz enfraqueceu novamente, mas não mostrava outros sinais de abuso.

Finalmente, com um suspiro profundo, ela começou a descrever os eventos da noite anterior. Depois de termos partido ontem, Nicolai a trouxe para sua casa e a deixou sozinha para esperar por Umai. Ela esperara durante um bom tempo, mas felizmente encontrara um livro interessante e passara o tempo lendo. Finalmente, Umai chegou e não perdeu um minuto para começar o processo de cura.

- A primeira coisa que Umai fez foi perguntar, como já disse um minuto atrás, se eu estava pronta para sofrer. Eu disse que sim.

- Espere um minuto, Anna. Como você conseguiu compreendê-la? - perguntei, confusa.

- A pergunta dela era simples o bastante, Olga, e eu a compreendi literalmente. Ela perguntou se eu concordava em sofrer e respondi que sim. Eu não tinha vindo todo esse caminho para ser curada, trazendo você junto, só para recusar por causa de um pouco de desconforto.

Percebi que ela não compreendera a minha pergunta.

- Não foi isso que eu quis dizer, Anna. Como você compreendeu a linguagem dela?

- Como assim, Olga? - Ela franziu o cenho e sacudiu a cabeça como se a pergunta não fizesse sentido. - Umai pode falar com sotaque, mas o russo dela é fluente.

Imaginei se Anna estava de algum modo confusa ou se Umai realmente falava russo. Se ela falava, me perguntei, por que não falou comigo?

- O que ela fez em seguida - continuou Anna -, foi pegar duas garrafas de vidro na mesa. Acredito que estavam cheias de vodca, ou pelo menos era isso que estava escrito nos rótulos. Ela bebeu-as facilmente, como se fosse água. Não posso imaginar que fosse realmente vodca, porque não acho que alguém pudesse ter bebido as garrafas tão rápido nesse caso.

"De qualquer maneira - seja lá o que houvesse nas garrafas - logo depois ela pareceu estar bêbada. Ela pegou essas cordas que você viu de algum lugar do outro lado da sala. Então ela me pediu para tirar minhas roupas e ficar perto da parede. Nunca me ocorreu que ela pudesse me amarrar com elas. Fui até a parede, e quando me voltei para olhar para ela, já estava amarrando minhas mãos. Não tive nem tempo de pensar sobre o que estava acontecendo comigo.

"Acho que aceitei tudo como um tipo de jogo etnográfico no início. Quando percebi que ela parecia muito bêbada e que não podia ou não queria responder a nenhuma das minhas perguntas, então comecei a sentir medo. Eu gritei com ela, exigindo que ela respondesse. Perguntei a ela o que estava fazendo. Ainda não havia nenhuma reação da sua parte, não importa o que eu fizesse. Ela só queria dançar pela sala, dando passinhos rápidos e cantando uma canção monótona enquanto se movia. Ela estava bêbada, louca e assustadora, e eu estava totalmente em seu poder.

"Ficar totalmente indefesa dessa maneira foi a coisa mais horrível que eu já experimentei. A perda da minha liberdade foi apavorante. Acho que o inferno deve ser algo assim.

"Então Umai começou a cantar muito alto. Ela parecia estar completamente fora de controle, sem responsabilidade nenhuma pelas suas ações. Finalmente cansei de gritar com ela, e já que nada de horroroso realmente acontecera, o meu medo passou um pouco. Decidi simplesmente esperar pelo final da sua atuação. Então ela deixou a sala e voltou com uma grande faca afiada. Ela veio na minha direção com um ar ameaçador, gritando alguma coisa na sua própria língua, e começou a enfiar a faca na parede ao redor do meu corpo.

"Você pode imaginar como eu fiquei horrorizada, Olga? Eu pensei que fosse morrer naquele exato momento. Eu não acho que alguém possa imaginar como eu me senti naquele instante. Eu chorei; rezei. Lutei para me soltar; mas era impossível. Então ela ficou ainda mais louca e começou a cortar minhas mãos com sua faca.

"Quando vi o primeiro sangue fluindo do meu corpo, o meu medo de alguma maneira se transformou em raiva. Fiquei furiosa com Umai e gritei que ia matá-la! Ela olhou para mim, e então subitamente passou por uma transformação completa. Com um ar totalmente sóbrio, ela disse em russo que não pararia até ter mandado a minha doença embora. Então voltou ao seu porre e começou a me espetar novamente com sua faca.

"Experimentei um incrível sentimento de ódio, não só na minha mente mas também no meu corpo inteiro. Mas dessa vez não era ódio por Umai, mas por mim mesma, pela situação em que tinha me metido, e por permitir que eu ficasse à mercê de Umai dessa maneira tão indefesa. Este ódio me invadiu dos pés até o topo da minha cabeça. Eu não sabia o que fazer com essa sensação; pensei que fosse enlouquecer. Então, subitamente um grito animal veio da minha garganta. Eu me sentia como o animal. Cheguei a ver uma figura gigantesca sair da minha boca junto com o grito. E então tudo mudou. Acho que foi o grito que mudou as coisas. O meu ódio dissolveu-se imediatamente.

"Ao mesmo tempo, Umai ficou bastante calma novamente e pareceu cansada. Ela sentou-se na cadeira na minha frente e começou a fumar o seu cachimbo. Não sentia mais raiva dela; estava exausta demais. Pedi-lhe para dar uma tragada, e ela levou o cachimbo aos meus lábios durante alguns momentos. O tabaco era forte e tinha um cheiro diferente de qualquer outro que eu já tivesse provado. Eu ainda estava amarrada, e estava cansada demais.

"'Eu não vou desamarrá-la', disse ela. 'Se o fizer, você vai achar que tudo foi apenas um sonho. Você vai precisar de uma testemunha. Os seus laços servirão para essa finalidade. E não sinta pena de si mesma. Sentir pena não vai realizar nada. A sua amiga vai chegar logo. Ela vai ajudar você, e vai ser muito boa sentindo pena de você.'

"Com essas últimas palavras, ela riu e deixou a casa. Caí no sono, exatamente onde eu estava amarrada na parede. Então você veio e me acordou. E você sabe, ela estava certa. Você realmente foi muito boa em chorar por mim. - Anna terminou sua história, rindo suavemente de mim.

Enquanto Anna falava, eu me sentia cada vez mais como se tivesse passado pela terrível provação que ela descrevera. Tudo que ela disse parecia tão real. Eu queria fazer mais perguntas, mas vi que ela simplesmente não tinha forças para dizer mais nada. Eu também estava cansada, e por isso só fiz uma última pergunta simples antes de deixá-la dormir.

- Onde está Nicolai?

- Eu não sei. A última vez que o vi foi ontem, quando ele caminhou comigo até esta casa. Pensei que você e ele estivessem juntos em algum lugar.

- Não, também nos separamos ontem, e ele disse que ia voltar para cá para esperar com você. Ele não veio?

- Não, Olga. Eu não me lembro de tê-lo visto. - Ela dormiu quando a última palavra deixou sua boca.

Sentei-me e fechei os olhos por um instante. Pensamentos vinham rápidos à minha mente. Obviamente, a situação excedera a minha capacidade de lidar com ela. O mesmo tipo de coisa acontecera algumas vezes no passado, quando estivera em situações extremas. Minha mente consciente sentia-se sobrepujada e embotada, enquanto meu inconsciente tentava escolher o melhor caminho a tomar. Mas dessa vez não veio nenhuma idéia do meu estupor. Estava incapaz de reagir racionalmente, e não sabia se chorava, corria, gritava ou simplesmente dormia como Anna. Tudo estava acontecendo rápido demais.

Eu não sei quanto tempo fiquei ao lado de Anna enquanto ela dormia, mas finalmente decidi voltar para ver Victor e Igor novamente. Esses homens pareciam ser a minha única conexão com a normalidade. Eles agora eram símbolos de estabilidade e ordem para mim. Assim que pensei em vê-los, não perdi tempo. Coloquei meu casaco ao redor dos ombros, deixei a casa, e caminhei rapidamente para a estrada familiar até a casa deles.

Bati na porta e abri sem esperar por uma resposta. A tradição de portas abertas da vila rapidamente desapareceu para mim, assim que uma mulher de ar severo me olhou obviamente irritada com minha intrusão.

- O que você quer? - perguntou ela em russo, numa voz alta vazia do mais remoto traço de hospitalidade.

- Vim fazer algumas perguntas a Victor e Igor - falei sem pensar, surpresa de ter encontrado essa mulher rabugenta.

- Não há ninguém com esses nomes aqui - respondeu rispidamente.

- Mas eu os encontrei aqui hoje de manhã - insisti. - Fiquei aqui na noite passada, na outra metade da casa. Umai me trouxe aqui.

Eu estava cada vez mais confusa, e precisava confirmar algum tipo de realidade para mim mesma. Era importante que essa mulher confirmasse que eu estivera lá com Victor e Igor, e que minha experiência com eles tinha sido real.

Ela repetiu suas palavras de maneira ainda mais ríspida.

- Nunca houve ninguém aqui com esses nomes. Eu não tenho idéia do que você está dizendo, mocinha.

- Por favor, me escute. Dois amigos e eu viemos para cá de Novosibirsk. Estou procurando o homem de Altai que nos trouxe ontem para cá da sua vila. O seu nome é Nicolai, e nós chegamos aqui ontem. Não podemos encontrar nosso caminho de volta para a sua vila sem ele. Pode me ajudar a encontrá-lo, por favor?

Em vez de suavizar, como tinha esperado, o seu rosto tornou-se ainda mais severo. Se possível, sua voz ficou ainda mais dura.

- Quando eu era uma jovem, nunca teria me metido numa situação assim com um homem. Isso é problema seu. Não sei de nada que possa ajudá-la. Agora por favor deixe a minha casa.

Eu tinha certeza de que ela sabia sobre Victor e Igor e provavelmente sobre Umai e Nicolai também. Era impossível viver numa vila tão pequena e não saber de tudo que acontecia, especialmente sobre pessoas que tinham pernoitado na sua própria casa. Mas a sua hostilidade para comigo, uma mulher jovem e solteira do mundo exterior, viajando com um homem solteiro, era clara demais. Eu sabia que ela falara suas palavras finais comigo.

Irada, voltei para a rua, que estava completamente vazia. O medo e a solidão estavam tomando conta de mim, e para piorar as coisas, eu podia sentir pelo formigamento da minha pele que as pessoas estavam sentadas nas suas casas ao meu redor, sabendo de tudo que acontecera mas sem nenhuma disposição de me ajudar.

"LOJA". O sinal simples no teto de uma casa chamou minha atenção. Imaginei como poderia ter caminhado por essa rua e deixado de notá-lo antes. Muito embora estivesse com medo de que minha extrema intranqüilidade piorasse dentro da loja, como a porta estava aberta entrei sem pensar.

Um velho altaiano estava sentado por trás do balcão. Ele estava quase dormindo, sua cabeça oscilando enquanto respirava alto. Ele vestia o tradicional traje quente de Altai com o cinto ao redor do seu grande estômago. Ele estava usando um típico chapéu russo, feito de pele de coelho tingida, que obviamente o ajudava a sentir-se confortável na sua loja sem aquecimento. Ele só pareceu me notar quando perguntei, bastante nervosa, o que eu poderia comprar para comer. Não havia comida ou bebida em nenhum lugar que eu pudesse ver, só alguns itens para crianças e coisas como sabão e pasta de dente.

Voltando a atenção lentamente, o velho olhou para mim e disse:

- Bem, você pode comprar pão e doces. Todo o resto da comida que tenho já foi vendido. Eu não sei quando vão trazer mais coisas para eu vender. - Ele olhou para mim com indiferença, mas tive a sensação de que já sabia de tudo sobre mim. Uma intensa sensação de tensão se espalhou pelo meu abdômen e peito.

Forcei-me a recordar os casos de paranóia ferroviária, descritos por um famoso psiquiatra russo do século XIX como um tipo de desordem situacional que atacava pessoas que viajavam de trem pela primeira vez. Esta síndrome estava relacionada com muitos tipos de paranóia causados por situações desconhecidas. Eu não tinha nenhum desejo de experimentar a psicose em primeira mão, de modo que me concentrei em decidir o que comprar.

Isso me acalmou, e fui capaz de comprar algum pão e um pacote de doces secos sem qualquer outro alarme. Deixara minha bolsa e todos os meus documentos na minha mala na casa de Maria, mas felizmente encontrei dinheiro bastante no bolso do meu casaco para pagar pela comida. Isso fez com que me sentisse estúpida e irresponsável ao pensar na maneira descuidada com que planejara e levara adiante essa viagem.

Quando voltei para casa, Anna ainda estava dormindo. Ainda não havia sinal algum de Nicolai. Perturbava-me não saber onde ele estava e quando iria aparecer.

Percebi, também, que algo incomum acontecera ao meu senso de passagem de tempo. Parecia que só algumas horas tinham se passado desde que eu acordara naquela manhã, mas quando olhei para fora vi que a luz do dia já estava diminuindo e que a noite estava caindo sobre nós. Eu não conseguia encontrar meu relógio, e não me lembrava se estava com ele ontem ou não. Nunca sentira essa estranha compressão cronológica antes, e ela me deixava ainda mais confusa.

Eu achava que talvez pudesse me centrar mais e voltar a me sentir mais inteira me concentrando no meu corpo físico. Olhei para a bolsa de Anna e encontrei o pão e queijo que Maria nos dera ontem. Havia sido realmente apenas ontem?

Enquanto fazia uma pequena refeição, escutei a voz de Anna. De início me senti mal por ter feito tanto barulho e a despertado cedo demais. Mas quando ela entrou na cozinha, mal pude acreditar nos meus próprios olhos. Ela parecia anos mais nova, e a expressão de felicidade no seu rosto era como a de uma criança recém-nascida. Estava gargalhando de algum lugar centrado dentro de si, e obviamente tinha uma enorme energia em todo seu corpo.

- Olá! Estou de volta - disse ela finalmente, com um sorriso jovial no seu rosto.

- Estou vendo. - Analisei o seu rosto, primeiro com espanto, então com um grande alívio ao ver que minha amiga de fato parecia estar totalmente de volta. E no processo, ela parecia melhor do que nos últimos tempos.

- Olga! Não consigo acreditar como estou me sentindo bem. Não me lembro de ter me sentido tão saudável e forte. Obviamente precisamos experimentar, em certas ocasiões, a doença para perceber o que é a saúde, e foi isso que eu fiz. A sua Umai é uma velha maluca, mas acho que ela pode realmente fazer milagres.

- Estou feliz em ouvir isso, Anna, mas ela não é a "minha" Umai. Ela é pelo menos tão sua quanto minha. Especialmente porque eu não compreendo de modo algum a experiência que tive com ela. Se foi uma cura, certamente tinha muito de loucura nela. Senti-me quase louca depois que ela trabalhou comigo!

- Anna, você tem alguma idéia do que devemos fazer em seguida? Não sabemos onde está Nicolai, quando ele vai aparecer, ou até mesmo se ele vai aparecer. Está na hora de voltarmos para casa, não acha? Mas não sabemos como sair daqui sozinhas. Você tem alguma sugestão?

- Eu não me importo com nada disso. Neste exato momento, quero alguma coisa para comer, e depois provavelmente me faria bem dormir mais algumas horas. Está quase de noite novamente, não é?

Olhando pelas janelas, fiquei chocada ao perceber que a luz do dia já se fora inteiramente e que uma escuridão total envolvera a pequena vila. Então fui abalada por outra descoberta quando percebi que alguém acendera a luz elétrica. Eu sabia que não tinha sido eu, e não achava que houvesse sido Anna, tampouco. Mas do que poderia ter certeza nesse lugar estranho?

Anna poderia achar que estava tudo bem em ficar aqui, mas eu estava achando isso cada vez mais difícil. A minha caminha no meu apartamento sem graça e desinteressante na cidade me parecia cada vez melhor. Recordei as palavras de Anna na minha mente e finalmente lembrei a ela que tínhamos o pão e queijo de Maria, assim como algumas coisas que eu comprara na loja. Decidimos fazer uma boquinha e então dormirmos o mais cedo possível para que pudéssemos acordar com a primeira luz do dia e começarmos a tentar sair daquele lugar. Quando fomos dormir, disse: "Boa noite, Anna. E espero não acordar amanhã de manhã para encontrar você amarrada na parede novamente!"

O segundo quarto tinha outra cama. Deitei-me imediatamente, sem nem mesmo tirar minhas roupas ou me meter sob um cobertor.



O meu último pensamento foi estranho, que a temperatura da casa parecia confortável, mas que ninguém acendera o fogo da lareira e não havia outra fonte de calor. Eu estava mental, física e emocionalmente tão esgotada que até mesmo este estranho fato, somado a dormir nessa casa misteriosa sem saber onde Nicolai, minha mala e todas as minhas outras posses estavam não me impediu de fechar meus olhos na ansiosa antecipação de um sono profundo e pacífico.
Subitamente, uma onda calorosa cobre o meu corpo vinda de cima, e posso sentir que estou sendo arrebatada através do tempo e do espaço por uma força desconhecida. Embora eu esteia indefesa, sinto-me segura, de modo que simplesmente me rendo a seja lá o que estiver acontecendo. Vejo-me deitada novamente no mesmo quarto onde estive com Umai ontem. De algum modo isso não me surpreende. Estou num novo estado de consciência em que posso sentir plenamente o meu corpo, mas não posso mover qualquer parte dele. Existem muitas vozes ao meu redor mas elas são indistintas e não posso compreendê-las. Eu não tenho voz própria.

Sinto novamente vibrações passando pelo meu corpo, do topo da minha cabeça até meus pés. É uma sensação agradável, de modo que tento não resistir a ela. Um som rítmico lentamente invade a minha percepção e chega cada vez mais perto. Não é importante para mim descobrir a origem deste som. Estou novamente me acostumando a não questionar o que está acontecendo comigo, simplesmente me permitindo estar dentro dos acontecimentos. Confio que é seguro para mim fazer isso.

O ritmo me agrada e começo a segui-lo. Ele começa a criar imagens para mim. De inicio elas não são claras, rapidamente substituindo umas às outras, até que finalmente uma delas torna-se forte e focalizada. É a visão de uma pirâmide de âmbar. De início ela está muito longe, mas ela se aproxima de mim com grande velocidade. Ela está muito longe de início, e não sei o que fazer

O espaço na minha frente torna-se amarelo. A pirâmide fica enorme, e subitamente me vejo penetrar a sua parede de âmbar. Não há tempo para compreender o que está acontecendo.

Estou dentro do âmbar flutuando lentamente para cima dentro dela. O meu corpo está se movendo em harmonia através de corredores amarelos. É um mundo sereno sem pessoa alguma, sem qualquer outra energia que não a experiência do âmbar. O tempo é comprimido neste lugar. Sinto uma espiral de algum tipo dentro do meu corpo, que lentamente se retesa e me empurra para cima, cada vez mais para cima. O tempo se espalha para cima comigo. A pirâmide se torna um vulcão e entra em erupção. Estou no meio da explosão, que me propele violentamente para longe.

Sou transportada em segurança para uma floresta escura. Em algum ponto profundo dentro de mim mesma estou calma e aceitando tudo que está acontecendo. Não tenho medo; sinto-me mudada. Embora algumas das minhas experiências recentes tenham sido aterradoras, elas também me ensinaram muito. Elas tornaram possível afastar-me de mim mesma e ser uma observadora de uma maneira que nunca fora anteriormente.

"Siga em frente!" É a voz de Umai, e me reconforta saber que ela está por perto. Há um pequeno caminho, e eu o sigo até as profundezas da floresta. As cores da floresta são o negro e o azul. Pelos tipos de árvore ao meu redor sei que estou em algum lugar da Sibéria. Percebo o inconfundível aroma de um rio, e sei que a água não está longe. Todos os meus sentidos são intensos, como se os prazeres e dores das eras houvessem se fundido no meu coração. Cada vez que meus pés invisíveis dão um passo, sinto esta mistura de dor e prazer. O efeito da gravitação no meu corpo mudou, e é um esforço manter meus pés sobre o chão.

"Siga em frente!" A voz de Umai está mais forte e mais urgente, e continuo no caminho. Ele parece ter se tornado ainda mais escuro. O pesado silêncio é agora meu único companheiro. Subitamente pareço ter me tornado uma mulher muito velha, no entanto sinto-me num estado muito poderoso. O caminho me leva para um ponto de fogo brilhando numa pequena clareira cercada por árvores.

"Por que estou tão velha?", pergunto a ninguém em particular. Não há resposta, só a voz de Umai me mandando novamente seguir em frente.

O meu corpo agora está vestido em longas roupas brancas. Caminho cada vez mais rápido, atraída pelo fogo que queima diante de mim. Muitas pessoas estão reunidas ao redor nas mesmas vestes brancas. Algumas estão sentadas, algumas de pé, e outras dançam em volta do fogo. Os seus rostos parecem estranhamente familiares, embora eu não chegue a reconhecer nenhuma pessoa conhecida. Os cavalos estão amarrados a muitas das árvores ao redor da clareira. Me aproximo do fogo, e os dançarinos se afastam, abrindo caminho para mim.

Três figuras estão sentadas ao redor do fogo, vestindo roupas brancas flutuantes como as minhas. Suas cabeças, cobertas por capuzes brancos, estão voltadas para o chão. Elas estão sentadas em três das quatro direções cardeais, e o caminho que estou seguindo me leva até a quarta direção. Elas não se movem enquanto eu me aproximo, mas sei que estão conscientes da minha presença. Sento silenciosamente com elas no quarto lado da fogueira.

Gradualmente, o ritmo da dança em torno fica cada vez mais forte. Sem uma palavra ou gesto entre nós, ficamos de pé simultaneamente. Alguma coisa importante está prestes a acontecer e eu me permito ser tomada por essa coisa.



Eu piso na fogueira, encarando as três figuras diante de mim. A chama abraça o meu corpo, mas eu não estou assustada e nem sinto dor alguma. Instantaneamente a figura do lado diretamente oposto da fogueira entra no fogo comigo. Ela remove seu capuz, e pela primeira vez posso ver o seu rosto. Então todo o seu ser se transforma num tremendo relâmpago que ilumina todo o espaço ao nosso redor, as suas extremidades conectando as duas figuras ainda de pé á minha direita e esquerda.

Volto-me para a figura à esquerda e fito diretamente o seu rosto. Quando o faço, sua carne desaparece e ela se transforma em nada a não ser ossos - ossos velhos e embranquecidos. Então o relâmpago lampeja novamente, e olho para a figura à minha direita. À medida que o relâmpago deixa o seu corpo, ela se transforma num buquê de lindas e vibrantes flores brancas que parece conter a energia de toda a vida. Posso sentir a sua essência na sua fragrância.

Agora todas as três figuras se fundem na fogueira, entrando no espaço onde estou de pé e se integrando comigo completamente. Agora sou ossos e flores unidos através do relâmpago, e o meu corpo de velha se transformou no corpo de uma jovem forte.

A voz vibrante de um homem vem de algum lugar no círculo ao redor da fogueira. "Estamos prontos para irmos embora. Guarde a memória do que você experimentou. Nos reuniremos novamente." As pessoas estão começando a ir embora, caminhando na direção dos cavalos amarrados à espera delas nas árvores.

"Siga em frente!" exige novamente a voz de Umai.

Estou novamente sozinha, retraçando meus passos pelo mesmo caminho que me levou até a fogueira. O relâmpago dentro de mim é uma fina linha entre a vida e a morte. Compreendo isso, e sinto que posso usar esse conhecimento como um dom para ajudar a mim mesma, assim como aos outros.
Quando despertei, estava completamente desorientada, sem saber por um momento quem eu era ou onde estava. Olhei assustada ao meu redor, e então, pela porta aberta, vi Anna dormindo pacificamente na sala ao lado. Percebi então que acabara de retornar a minha realidade cotidiana vinda de outra estranha experiência. Enquanto a minha sensação onírica de equilibrar um ponto entre a vida e a morte começava a se desvanecer, subitamente passei a recordar um encontro incomum que acontecera há mais de dez anos.
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