Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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Eu tinha então dezoito anos de idade, e era uma estudante do primeiro ano na escola de medicina em Novosibirsk. Foi uma época maravilhosa na minha vida, em que eu estava finalmente livre das regras estritas e das restrições do segundo grau. Foi uma época cheia de festas, de novos amigos, teatro, todo tipo de novas experiências. Como os jovens estudantes no mundo todo, estávamos descobrindo os primeiros prazeres da vida adulta.

Como estudantes de medicina, estávamos continuamente indo de uma clínica a outra, geralmente de ônibus. Era frustrante ter que desperdiçar tanto tempo a cada dia viajando longas distâncias para chegar até nossas aulas. Certo dia no meio do inverno, eu tinha esperado durante um tempo longo demais pelo meu ônibus no vento gélido, de modo que não fiquei surpresa quando comecei a me sentir mal algumas horas depois.

À noite eu estava com febre alta. A gripe daquele período era muito forte, e estava mandando as pessoas para a cama durante pelo menos uma semana, de modo que soube que precisaria de mais um dia ou dois para me recuperar. O pensamento também era perturbador, porque as férias de inverno estavam prestes a começar, e eu pretendia ir para um hotel no campo com meus amigos. Se fosse realmente a gripe, eu certamente teria que interromper meus planos de divertimento merecido. Relutantemente, fui para a cama para esperar pela manifestação dos sintomas.

No dia seguinte eu estava deitada na minha cama sob um quente edredom, tentando ler um livro e ocasionalmente assistindo a um dos vários programas maçantes da televisão, quando o telefone tocou. Era Irena, uma das minhas amigas, me ligando para perguntar como eu estava me sentindo.

Depois de ter escutado as minhas reclamações e dito as coisas apropriadas sobre como sentia muito o fato de eu estar doente, fofocamos durante algum tempo sobre as novidades da universidade. Finalmente, no momento em que nossa conversa estava prestes a terminar, ela disse, hesitante, que não tinha certeza de como eu responderia ao que ela estava prestes a sugerir, mas ela achava que podia haver uma chance de eu ir para o hotel com todo mundo. Ela contou que sua mãe conhecia um curandeiro. Ele trabalhava com ela no conservatório, onde ele era um compositor. Diziam que ele era capaz de fazer milagres. A sua mãe certamente conseguiria que eu o visse sem hora marcada naquela mesma noite. Embora eu estivesse com dúvidas e desconfianças, a minha amiga insistiu em me dar o endereço dele, e disse que sua mãe ligaria para acertar tudo.

Escrevi o endereço dele, sem ter certeza do que faria com ele. Eu tinha crescido numa família de médicos e cientistas. Meus pais eram médicos, e a minha avó pelo lado paterno tinha um Ph.D. em química. Mesmo com setenta anos de idade, ela ainda dirigia um importante laboratório de pesquisas em Novosibirsk. A minha família pensava em mim como uma cientista médica apropriada, e, de certa forma, eu pensava o mesmo. A partir desse ponto de vista, a sugestão da minha amiga de que eu fosse ver esse curandeiro não-ortodoxo parecia completamente estranha.

Mas depois de desligar o telefone, comecei a ficar cada vez mais curiosa em ver o que esse curandeiro poderia fazer. A cientista era só um dos meus lados; eu também sempre me sentira profundamente conectada com minha outra avó. A mãe de minha mãe, Alexandra, não tivera muita educação, mas quando eu era uma criança ela me parecia a pessoa mais sábia do mundo.

Ela vivia em Kursk, uma pequena cidade no centro da Rússia. A sua pequena casa era um lugar cheio de amuletos e milagres, onde a palavra cura se tornara muito familiar para mim. Quase todas as mulheres que viviam na vizinhança da minha avó teriam, segundo diziam, algum tipo de poder mágico. Alguns desses poderes eram tidos como benevolentes e curativos, enquanto outros eram misteriosos e assustadores.

Uma das minhas memórias de infância mais vívidas foi testemunhar um ritual conhecido como Chamar a Bruxa. Algumas mulheres da nossa rua, suspeitando que outra mulher estava executando feitiços malignos, encenaram uma cerimônia para descobrir se ela era ou não culpada. Eu ainda era uma garotinha, o rosto vermelho e excitado, assistindo de um esconderijo por trás de uma cerca de madeira coberta por uma espessa camada de vinhas.

Esperando até o momento em que elas pensavam que a suspeita de feitiçaria estaria ocupada e não as veria, elas caminharam rapidamente pelo caminho que levava da sua porta até a rua, apressadamente derramando sal por toda a sua extensão. Muito embora o sal fosse completamente invisível no caminho de terra, a crença na vizinhança era que uma suspeita de magia negra faria qualquer coisa para evitar caminhar sobre ele se fosse realmente culpada.

O que eu vi em seguida foi impressionante. Algum tempo depois, a suposta bruxa deixou sua casa, mas em vez de caminhar até a rua pelo seu caminho regular, ela seguiu uma rota tão estranha que parecia insana. Ela fez um círculo parcial a partir de sua porta e então abriu caminho até a rua através das ervas altas com milhares de espinhos pontiagudos que cresciam pela borda da estrada.

As mulheres vizinhas estavam assistindo a tudo de um esconderijo do outro lado da rua. "Ahá!", exclamaram elas. Com expressões satisfeitas nos seus rostos, partiram para suas casas para preparar seus próprios encantos e feitiços para lidar com a culpada.

Eu tinha vivido entre essas mulheres, escutando-as e vendo-as fazer sua magia natural, desde as minhas primeiras recordações. Uma parte do meu ser ficara fascinada, permanentemente capturada pelo mundo sombrio em que elas viviam e praticavam suas artes misteriosas.

Assim, a minha infância fora definida por duas maneiras muito diferentes, quase que completamente opostas, de interpretar e responder aos vários incidentes da vida humana. Eu sempre considerara esses dois aspectos de minha personalidade como sendo opostos polares, como a Sibéria e a Rússia, o inverno e o verão, a ciência e a magia, e agora o telefonema da minha amiga os colocara mais uma vez em conflito.

O meu diálogo interno sobre seguir ou não a recomendação da minha amiga de ver o curandeiro continuava a arder. A cura heterodoxa era totalmente avessa ao modelo ateu que era um dos blocos fundamentais da cultura soviética oficial. Eu recordei a voz tediosa e monótona de um dos meus professores: "A nova consciência socialista nos permite ver as antigas crenças sobre rituais curadores como aquilo que realmente são - velhas bobagens religiosas."

Escutando novamente a voz inexpressiva da "consciência socialista" na minha mente, decidi ver o curandeiro. Seria, na pior das hipóteses, a minha vingança pela irritação que eu sentira com as palestras do meu antigo professor.

Do lado de fora, no ar frio, caminhei até a estação de ônibus e me vi no final de uma fila melancolicamente longa. Avaliei a minha situação. Eram cinco da tarde, a hora mais movimentada do dia. Quase ninguém na Rússia possui recursos para ter um carro, de modo que a maioria das pessoas usa ônibus para ir e voltar do trabalho. Pelo tamanho da fila, o máximo que eu podia prever era uma longa espera seguida por um lugar de pé no ônibus gelado, espremida enquanto o veículo balançava. Enquanto refletia sobre minhas escolhas, um ônibus chegou e passou direto pela estação sem nem mesmo parar, já cheio devido às pessoas que entraram nos pontos anteriores. Percebi que teria de caminhar, com febre e tudo, se quisesse chegar ao curandeiro na hora. Comecei lentamente, e cerca de quinze minutos depois cheguei no quarteirão apropriado.

O prédio de apartamentos onde ele morava, um típico edifício de cinco andares numa nova unidade de moradia, era fácil de encontrar. Ao vê-lo me lembrei de que na minha juventude eu me perguntara se as cores das casas das pessoas não influenciariam suas emoções, suas mentes, até mesmo sua saúde. Quase todos os edifícios de Novosibirsk eram estruturas feias e cinzentas semelhantes a caixas. Enquanto eu seguia em frente, pensava como seria difícil ir além de uma vida cinzenta.

O sol se punha cedo no inverno, e muito embora ainda não fosse tarde, já estava escuro quando cheguei. Eu sabia que era o edifício certo, mas muitas das lâmpadas iluminando as escadas estavam quebradas, fazendo com que fosse difícil ver os números dos apartamentos. No meu estado enfraquecido, eu ficava esperando que o próximo número que eu visse seria o dele. As formas dos números eram tão indistintas e difíceis de ler que elas poderiam parecer estar se movendo.

Depois de finalmente ter achado o número correto, eu subi lentamente as escadas até o seu apartamento. Uma mulher muito jovem, aparentemente na adolescência, abriu a porta. Ao ver a minha aparência exausta, ela rapidamente me convidou para entrar. Seu corpo era pequeno e bem proporcionado, e ela usava um vestido caseiro leve com pequenas flores estampadas. O seu longo cabelo escuro estava penteado e preso atrás, o que deixava livre seu rosto atraente.

- Você deve ser Olga - disse ela. - Ele está esperando por você.

Pendurei meu casaco no corredor e caminhei até o pequeno apartamento de um quarto. Era um típico apartamento para pessoas de profissões intelectuais - sem muitos móveis, só uma estante carregada de livros grossos e antigos, uma velha mesa com uma televisão, um velho piano perto da parede, e uma cama desarrumada no meio da sala. A jovem me conduziu pelo quarto e então foi para a cozinha, me deixando sozinha com um homem que estava sentado na beira da cama.

Ele saudou minha entrada ficando de pé. À medida que o seu rosto tornou-se mais visível na luz, notei que tinha cabelo curto e negro, olhos escuros, um olhar intenso e rugas profundas em volta da boca. O que mais me impressionou nele quando me saudou foi a sua voz, um monótono profundo freqüentemente interrompido por acentuações estranhas e aparentemente aleatórias.

Embora estivesse sem camisa, vestindo apenas um par de calções brancos, ele parecia bastante confortável no seu traje consideravelmente incomum. Ele me convidou a sentar na única cadeira do quarto, e então começou a falar sobre música. Ele explicou como os sons da música influenciavam nossas psiques e como a música podia fazer milagres quando era criada com as intenções corretas.

Não compreendi metade das suas palavras, e me senti cada vez mais desconfortável. A combinação dos seus estranhos maneirismos e o fato dele estar só meio vestido me deixava cada vez menos confiante de ter feito a coisa sensata em procurá-lo. Fiquei aliviada quando a jovem voltou da cozinha com uma xícara de chá preto forte. Ela me passou o chá e sentou-se na cama à minha frente.

- Gostaria de explicar os sintomas da minha doença - disse a ela, tentando construir um diálogo médico-paciente mais familiar.

- A doença é só uma maneira de trabalhar com uma linha da realidade - respondeu ela. - Prefiro outras maneiras. Olhe para mim: tenho quarenta e três anos, e a minha aparência reflete o meu modo de trabalhar com minha linha particular de realidade.

Meu queixo caiu e fiquei olhando como uma boba para ela, sentindo-me tonta. Ela não parecia ter mais que dezoito anos, e não podia ter quarenta e três.

- Você deve estar brincando - disse eu, tentando me concentrar nos meus pensamentos para ignorar a crescente sensação de inquietude no meu estômago. Lembrei-me de ter visto o retrato de um garoto adolescente na estante e de ter notado como ele se parecia com ela. Agora estava lutando com a idéia de que aquele devia ser de alguma maneira o filho dela. Eu não podia aceitar isso, e me senti ainda mais confusa e nervosa do que antes.

- Uma das coisas que eu faço para tornar mais vagaroso o fluxo do meu tempo pessoal é tirar fotos. - Ela pegou um álbum de fotografias grande e gasto pelo uso na estante. Então, sentando de volta na cama perto de mim, ela folheou o álbum página após página, mostrando as suas fotos. Aqui estava ela na praia ao lado do rio Ob, jovem e sorridente num dia quente e ensolarado. Depois ela estava num escritório, sentada numa escrivaninha, parecendo muito séria. Eu me perguntei qual era a sua profissão. Em seguida ela estava com o filho e outro jovem na frente de uma casa do campo, vestindo roupas de trabalho e segurando uma pá. As árvores estavam cobertas com folhas outonais amarelas e vermelhas, e havia montes de folhas na terra ao redor dela.

Ela me levou consigo enquanto folheava pelas páginas do álbum, viajando por lugares diferentes com pessoas diferentes. Os homens com quem ela estava foram substituídos por outros homens, um sorriso feliz depois do outro, à medida que as páginas viravam. O seu cabelo ficou mais longo e depois mais curto. Ela fazia diferentes poses; ela sorria e chorava. Pude reconhecê-la em muitos lugares diferentes. Alguns deles eu já visitara, mas a imagem dessa mulher implantada neles era de alguma maneira surreal e misteriosa.

Ela foi ficando cada vez mais jovem nas fotos à medida que as páginas viravam, e percebi que ela estava me mostrando a sua vida na ordem inversa, indo do presente para o passado. Agora ela estava deixando a maternidade com seu bebê e muitas flores, parecendo feliz e um pouco confusa, apenas começando a ver a si mesma como mãe.

Então ela era uma jovem na escola, perto do quadro-negro vestindo um uniforme escolar regular negro com gola branca, o seu cenho franzido enquanto olhava para a velha professora sentada tão séria na sua mesa. A última foto do álbum era a primeira já tirada dela. Era uma criança nua com um sorriso sem dentes, deitada numa mesa.

- Eu trabalho com elas todas as noites antes de dormir. Eu começo com uma fotografia do presente e volto para trás uma a uma, experimentando o estado de cada uma delas até chegar a essa primeira foto de mim mesma quando bebê. Então adormeço como um bebê.

- Por que está me contando tudo isso? - Eu estava fraca devido à febre, e era muito difícil para mim compreender o que estava acontecendo, tanto ao meu redor quanto nas estranhas emoções que eu estava sentindo.

- Para que você possa compreender e aceitar isso. - Foi a voz do homem que respondeu.

- Eu vim aqui me curar da minha gripe, e não me tornar mais jovem. - Fiquei surpresa de como a minha voz parecia nervosa e fraca.

- Isso é só o que você acredita agora. Mas, naturalmente, isso também faz parte. Mas não se preocupe. Você vai ter a sua recuperação, assim como tudo mais pelo que você veio - respondeu ele.

A minha tontura anterior tinha retornado, e o calor na minha testa me dizia que minha febre estava piorando. Teria sido difícil para mim ficar de pé. Mas lembrar-me da febre me acalmou um pouco, enquanto eu decidia que talvez as minhas estranhas percepções e sentimentos eram pelo menos parcialmente aberrações causadas pela febre. Talvez eu estivesse ainda mais doente do que pensara. Esperava que fosse possível que eu acordasse logo na minha própria cama e percebesse que isso tinha sido apenas um sonho febril. Era quase um pensamento agradável! Naquele momento as minhas férias no hotel já não pareciam mais importantes. No meu estado de desconforto, eu estava pronta a passar quase qualquer período deitada na cama, caso isso significasse escapar da situação onde estava.

- Sente-se aqui - disse o homem, me indicando a cama desfeita. Sentei-me nervosamente na beira e fechei os olhos. Ouvi um som alto de zumbido, e meu corpo sentiu-se simultaneamente quente e frio.

Então ouvi alguns acordes poderosos vindos do piano. Abri meus olhos e vi que ele levara a cadeira até o piano e estava tocando. A música era desconhecida para mim, mas tinha uma energia tão forte que minha mente foi capturada e passou a fluir com ela. Eu me sentia como se estivesse nadando num oceano tempestuoso, levantada e atirada pela sua força poderosa. Fiquei olhando para ele enquanto tocava; ele colocava uma tamanha expressão física na sua música que todo o seu corpo pulava para cima e para baixo na cadeira. Todo o seu mundo consistia nessa musica. Então ela alcançou um crescendo de energia além do que ele podia tolerar. O seu corpo foi lançado violentamente do piano, e ele caiu no chão. Eu estava convencida de que ele devia ser totalmente louco. Então percebi que o acorde final ainda estava continuando, enquanto o piano parecia tocar sozinho. Naquele momento passei a me perguntar se era eu que estava louca. Senti-me fora de mim.

Finalmente ele ficou de pé, pegou a minha mão, e me levou para um canto do seu quarto. Para minha surpresa, talvez porque eu estivesse além de toda resistência, me sentia mais calma. Havia uma pequena mesa ali, com uma vela e uma faca muito afiada cujo cabo estava entalhado com símbolos de aparência chinesa. Ele colocou sua mão sobre minha testa e disse alguma coisa numa linguagem que me era desconhecida. A sua voz ficou mais alta, e ele gritou algumas palavras que não compreendi. Então ele subitamente agarrou a faca e cortou algumas mechas dos meus longos cabelos.

- Olhe para isto - ordenou. - A sua doença está aqui na minha mão! - Ele colocou o cabelo que cortara na chama da vela. Eu não tinha notado que ele acendera a vela, e estava certa de que nem eu nem a mulher a tínhamos acendido, mas de alguma maneira uma chama saudável apareceu do nada. Não experimentei choque algum diante de tudo isso, porque ao mesmo tempo estava consciente de que já não estava mais com febre e que sentia-me completamente bem.

Querendo agradecer a ele mas ainda me sentindo desorientada demais para pensar claramente, eu só podia dizer:

- Muitíssimo obrigada. Estou me sentindo muito bem agora. Quanto é que eu lhe devo? - Olhei para o seu rosto, agora impassivo, esperando pela sua resposta.

Ele sorriu e me fitou de perto.

- O seu pagamento será lembrar-se de uma coisa muito importante que vou lhe contar. - Ele pegou minha mão e olhou para ela cuidadosamente. Então disse simplesmente: - Eu vejo que algum dia você vai aprender a controlar a duração da sua vida.

Deixei a sua casa confusa mas completamente recuperada. A minha febre tinha desaparecido por completo. Caminhei rapidamente de volta ao meu apartamento, onde fiz alegremente as malas para a viagem do dia seguinte para o campo de estudantes.

A minha vida voltou ao normal depois disso, mas o dia tinha sido uma vitória permanente para o meu lado que estava fascinado com o lado misterioso da vida. Minha mente consciente fora obrigada a reconhecer essa experiência, e assim ela se tornou uma parte integrada do meu ser total.

Durante um longo período depois disso, eu pensei sobre as últimas palavras que aquele homem dissera para mim, e me perguntei sobre o seu significado. Agora, aqui na vila do Altai, eu me sentia prestes a compreendê-las pela primeira vez. Eu sabia que alguma coisa fugidia e importante acabara de acontecer comigo, algo que eu nem podia começar a explicar racionalmente.

Eu ainda estava enfeitiçada pelo meu sonho com Umai. O senso de existência real que viera até mim dentro da realidade do sonho não me era inteiramente desconhecido. Eu não conseguia me lembrar onde experimentara esse estado nos meus sonhos antes, mas a sensação docemente dolorosa no meu coração não era nova. Ela estava associada com o sentimento de "possuir" o meu livre-arbítrio, sabendo que mesmo num estado de sonho eu poderia controlar minha realidade através de um puro exercício da vontade.

Uma batida forte na janela me trouxe de volta, surpresa, da minha viagem mental para o momento presente. Saltei da cama com meu coração acelerado. Ainda era noite lá fora, e eu não conseguia ver ninguém na rua escura ou na janela. Perguntei quem era, só para perceber que a minha voz era tão baixa que eu mal podia me ouvir. A batida se repetiu.

- Quem está aí? - gritei, dessa vez alto demais.

- Sou eu, Olga. É Nicolai.

- Corri para a porta e a abri.

- Entre. Oh, meu Deus, Nicolai, onde você esteve? Não sabíamos o que pensar.

Anna cambaleou no corredor atrás de mim, ainda meio adormecida e olhando para o seu relógio. Ela parou quando viu Nicolai.

- Olá, Nicolai. Como está? - perguntou.

- Bem melhor agora, Anna. Será que alguém poderia me fazer um chá, por favor?

- Claro - respondi. Fomos todos para a cozinha. Liguei a luz forte do teto, e Anna colocou uma chaleira com água no fogão a gás. Nicolai parecia exausto e de alguma maneira diferente. A sua aparência despertou novamente velhas preocupações da minha avaliação psiquiátrica de que poderia estar de fato mentalmente doente.

- Nicolai, como você está se sentindo? - indaguei, repetindo a pergunta de Anna.

- Não se preocupe, Olga. Eu não enlouqueci. É só que eu estou me tornando um kam. - Ele relaxou um pouco e começou a nos contar sua história enquanto bebia seu chá.

- Você se lembra de que depois de nos separarmos no dia de anteontem - ele começou -, eu comecei a vir até aqui quando você foi com Umai para a outra casa. Ela não me explicara o que eu devia fazer. Ela disse que me encontraria depois, mas não falou onde nem quando. Subi e desci a rua, me sentindo tenso e zangado. De início fiquei irritado com Umai porque ela não me dissera nada desde que eu chegara. Eu tinha pensado que ela começaria imediatamente a me ensinar como me tornar um kam.

"Eu não compreendi por que ela pediu a você, Olga, para segui-la em vez de me ensinar. Mas quando você foi com ela, ela olhou para mim como se eu não tivesse relevância nenhuma. Eu estava realmente com medo de que ela se esquecesse de mim e me deixasse de pé do lado de fora da rua. Fiquei com raiva. O meu corpo começou a experimentar uma estranha sensação de ser atingido por inteiro. A minha cabeça se transformou numa chama que não me permitia pensar em mais nada.

"Então passei da raiva para um estranho estado emocional que não posso descrever, mas que reconheci de outra ocasião, quando estava escutando a voz de Mamoush em Novosibirsk e tentando me livrar dela. Mas agora era algo muito mais intenso. Eu estava caminhando para cima e para baixo na rua, sem saber o que fazer, quando escutei a voz dele novamente. 'Corra para as montanhas!', dizia.

"Parecia uma loucura, mas foi uma das ordens mais fortes que já ouvi. A noite estava escura como breu, e só algumas casas ainda tinham luzes acesas. As montanhas e a floresta eram escuras e assustadoras. Eu olhei para elas, e elas me pareceram cheias de perigo.

"Escutei na minha mente os sons de todos os animais que perambulam pela noite. Mas tudo foi apagado pela voz do meu tio, enquanto ele gritava novamente acima da chama na minha cabeça, 'Vá para as montanhas!'

"Mesmo tendo passado a maior parte da minha vida nesta região, eu ainda tinha medo de sair sozinho no escuro. Comecei a correr pela rua. Pensei que movimentos físicos me ajudariam a voltar a um equilíbrio normal. Mas a voz de Mamoush correu comigo, dirigindo o caminho. Mal percebi que, em vez de correr na direção das luzes das casas, tinha me voltado para as montanhas.

"Logo me vi numa floresta escura, muito acima da vila. O meu medo era tão intenso que não podia parar nem mesmo por um segundo. Pensei que se parasse por um momento sequer, animais ou espíritos me encontrariam e me matariam na mesma hora. Eu corria sem parar. Entrei tanto na floresta que, quando olhei de volta para a vila, as suas luzes não estavam mais visíveis. Finalmente esgotei minha energia física e tive que parar.

"Imediatamente, escutei o som de passos suaves de alguém a minha direita. Isso me apavorou. Reuni novas forças e corri novamente o mais rápido que pude. Pensei que podia morrer a qualquer momento. Eu não podia ver nenhum outro final que não a minha morte.

"Isso provavelmente parece estranho agora que estou contando, mas naquele momento eu tive certeza de que não havia saída que me levasse de volta ao mundo normal. Perdi a noção do tempo, e nem sei dizer quantas horas corri nas montanhas, virando, saltando, gritando, perdendo todo o controle das minhas ações. Nos meus breves momentos de lucidez, me parecia estranho que eu não tivesse caído ou me machucado. Finalmente me tornei completamente indiferente ao meu destino. Nada mais me assustava. Então escutei novamente a voz de Mamoush, desta vez me tranqüilizando.

"'Acalme-se e deite na terra', ele me ordenou gentilmente.

"Agora a luz da aurora me dava uma chance de ver os arredores. Fiquei impressionado ao perceber que toda uma noite tinha se passado. Notei que estava de pé em um lugar onde a neve do inverno tinha começado a derreter. Sem pensar em mais nada, me deitei com meu capote de pele de ovelha e imediatamente adormeci.

"'Não machuque a grama! É o cabelo da terra!', foram as últimas palavras que escutei.

"O som de palavras tranqüilas me despertou. Agora a manhã já tinha despontado, e o sol estava brilhando vigorosamente no céu límpido. Umai estava ali com um homem que eu nunca vira antes. Eles estavam muito perto, e começaram a rir de mim. No mesmo instante fiquei zangado com eles, e o meu rosto mostrou meus sentimentos. Então eles ficaram mais sérios, e Umai falou comigo.

"'Eu sabia que os espíritos iam pressionar você ontem', disse ela. 'Eu não queria interrompê-los antes de falar com você. Eles precisavam fazer o que fizeram antes que eu viesse até você.'

"O que você quer dizer com 'me pressionar'? - perguntei a ela.

"Essas são as palavras que usamos para descrever o momento em que os espíritos fazem um novo kam correr e dançar por aí.

"'Então isso acontece com todo mundo que se torna um kam?' perguntei, me sentindo aliviado.

"'Então você queria ser especial?', ela replicou num tom zombeteiro. 'Não há caminho para isso entre os kams. A partir deste dia você vai ser especial para outras pessoas, mas não para os kams a quem vai pertencer em breve.'

"Ainda sentia resistência a ela, mas compreendia que ela viera para me ajudar, e escutei cuidadosamente.

"'O seu tio me visitou antes da sua morte. Ele me disse que você viria algum dia à procura de ajuda. Ele me pediu para lhe ensinar algumas coisas. Estava certo de que você viria, mas eu pensei naquela época que ele estava errado. É tão raro que um homem se mude para a cidade e encontre um emprego lá e então retorne para sua vila. Bem, o seu tio estava certo. Mas ainda não tenho certeza das suas intenções. Você está certo do que vai fazer?'

"'Sim. Eu tomei uma decisão. Vou me tornar um kam.' Pensei que isso seria o bastante, mas ela continuou a fazer ainda mais perguntas.

"'Você compreende que terá que desistir de tudo que possui na cidade? O seu trabalho, seus amigos, sua namorada?', ela perguntou, tornando sua dúvida explícita.

"'Eu vim até aqui, não foi?'

"'Sim, mas você terá uma vida completamente diferente da que teve na cidade. Está entendendo bem isso? Pode aceitar esse fato?'

"'Por que você está me perguntando todas essas coisas? Mesmo que eu dissesse que me arrependeria de deixar a cidade e que queria voltar, você sabe que seria impossível para mim fazê-lo agora. Nunca mais poderei voltar à cidade. Você está certa em ter dúvidas, porque de muitas maneiras eu gostaria de manter o meu sonho da cidade. Seria bom viver lá, ter uma família e uma educação. Mas agora sei que a única coisa que espera por mim lá é o hospício. Eu não tenho realmente escolha, tenho? Estou apenas escolhendo entre dois males. Qual é o menor? No entanto é mais do que isso. Eu realmente desejo me tornar um kam para as pessoas que vivem aqui.'

"Umai me escutou atentamente e pareceu aceitar minhas palavras.

"Ela disse: 'Bem, não temos muito tempo. Eu lhe darei algumas coisas que você precisa saber para começar. As outras você vai ter de descobrir sozinho. Existem algumas coisas que eu, como uma mulher, não posso saber. Existem outras coisas que eu posso saber mas que não posso ensinar a você. Essas coisas virão até você de maneiras diferentes à medida que forem necessárias. O seu tio Mamoush foi um kam muito poderoso. Ele era um kam do céu. Nem todos conseguem viajar até o mundo celeste superior. Mas ele conseguia fazer isso, mesmo no inverno, quando o céu está congelado. Usando o martelo do seu tambor manual, ele era capaz de quebrar o gelo no céu e penetrar na terra de Ulgen. Eu o vi fazer essa viagem uma vez.

"'Você pode pensar que quando for um kam de verdade será diferente de Mamoush, assim como todas as pessoas são diferentes umas das outras. Mas isso é um erro. Um dos maiores segredos é que o kam é sempre um kam. Mamoush, você, quem quer que venha depois de você, todos são um kam que vive em formas diferentes. É uma linha de herança, e o kam verdadeiro é a linha da herança, e não o kam individual. Vocês podem ser pessoas especiais, mas no seu poder são um só. Assim, a sua tarefa agora é estar completamente aberto a esse poder de Mamoush e tornar-se único com ele. Você escutará a voz de Mamoush até que ela se acabe. Depois disso, terá a sua própria voz e seu próprio poder. Mas terá que trabalhar duro para consegui-los. E tem razão, você não tem escolha. Os espíritos apontaram você, e não está dentro da sua vontade discutir com eles'.

"'Venha cá!' Ela dirigiu o seu comando para seu companheiro de viagem, um homem de Altai com cerca de quarenta anos. Eu tinha notado que ele mantivera um ligeiro sorriso no rosto durante todo o tempo que Umai falara comigo. Ele parecia completamente desinteressado em mim, mas respondeu a ela instantaneamente, caminhando até ela e dando-lhe uma grande bolsa de onde tirou um grande tambor manual.

"'Mamoush deixou isso comigo, e me disse para dá-lo a você', ela falou enquanto dava o tambor para mim. O tambor oval era novo e bastante pesado, e o seu cabo fora esculpido na forma de um homem. A parte de madeira era feita de salgueiro. A parte de couro era feita da pele de alce e ainda estava tão fresca que possuía um inconfundível odor animal.

"'Esse alce será seu animal de viagem. Nós o ajudaremos a torná-lo vivo.

"Eu não tenho permissão para contar a vocês muita coisa sobre a cerimônia que eles me ajudaram a executar. Nem mesmo eu tenho ainda uma compreensão total do que aconteceu. Mas primeiro eles me colocaram num tipo de sonho. O ajudante de Umai ficou atrás de mim, segurando meus ombros e balançando meu corpo para a frente e para trás, enquanto Umai fazia uma fogueira na minha frente. A fumaça era espessa e machucava meus olhos, forçando-me a fechá-los. Logo senti o meu tio atrás de mim, segurando meu corpo, e então fomos caçar juntos. Estávamos rastreando um grande alce fêmea que estava grávida e que logo teria seu filhote. Precisávamos ser muito silenciosos.

"Segui o alce fêmea passo a passo até a taiga. Escondido no abrigo da floresta, vi o seu bebê nascer. Exatamente no momento do nascimento, senti meus ombros serem agarrados e sacudidos vigorosamente. Compreendi que devia apanhar esse filhote de alce e levá-lo. Essa era a finalidade da caçada. Eu fiz o que devia fazer o mais rápido possível. Tive medo do alce fêmea, que poderia ter facilmente me matado. Corri o máximo que pude, sem saber por quê. Então escutei novamente a voz de Umai.

"'Coloque-o aqui!' Ela estava segurando o tambor, com a figura do homem voltada para mim. Empurrei o filhote de alce para o tambor e senti como ele entrou no tambor. 'Abra seus olhos!', me ordenou Umai. Enquanto obedecia, ela disse numa voz muito mais suave e satisfeita, 'Você pegou o seu chula'. Ela segurou o tambor para mim, e pude ver e sentir a vida nele mesmo sem tocá-lo.

"Tive de perguntar a ela, 'O que quer dizer chula?' Eu nunca havia escutado antes essa palavra.

"'Chula é a força espiritual viva do alce que deu a sua pele para seu tambor', replicou ela. 'Agora ela será a sua força vital, também. Caso alguém roube esse tambor, você morrerá. Ele é precioso e deve ser sempre mantido perto de você.' Estiquei a mão para pegá-lo, e ao mesmo tempo ele me pareceu vibrar nas minhas mãos. Ele estava quente, e parecia vibrar fracamente. Senti-me instantaneamente ligado a ele, e soube que isso acontecia porque agora ele possuía a força vital do alce

Então notei algo que me confundiu. 'A pele é de um alce velho, mas eu peguei o bebê. Fiz algo errado?', perguntei.

"'Não, você fez tudo perfeito. Para pegar o chula de um alce velho, você teve que agarrá-lo quando era um bebê. Nós o ajudamos a voltar no tempo até o momento do nascimento dele. Agora o chula só servirá a você. Ele não possui nenhuma outra história. Agora você sabe como pegar chulas, e quando o fizer novamente não vai precisar da ajuda de outros.

"'Tudo no mundo possui seu próprio chula. Quando você está curando alguém que perdeu seu chula, viajará até encontrar o chula da pessoa doente e agarrá-lo pelo cabo do seu tambor. Então você trará o chula de volta até o presente e o martelará na orelha esquerda da pessoa doente. Isso devolverá a ela o chula perdido'.

"'O seu chula será o seu novo parceiro e ajudante. Ele irá ensinar-lhe várias coisas. A sua próxima tarefa é marcar o seu território xamânico fazendo um mapa dele na pele do alce. Mais tarde mostrarei como se faz isso.'

"Aliás, Olga, perguntei a ela por que o tambor na casa de Mamoush estava quebrado. Ela disse que o motivo era que o mundo para onde as pessoas vão depois da morte é um reflexo de espelho do nosso mundo. Todas as coisas que são boas para elas aqui são más para elas lá, e vice-versa. Assim, se eles não tivessem quebrado o tambor de Mamoush quando ele morreu, ele não poderia tê-lo usado no outro mundo.

"Passei o dia inteiro nas montanhas com Umai e seu ajudante. Eles me mostraram muitas coisas. Nós tivemos que esperar que a noite caísse novamente para que eu pudesse fazer outra viagem. Era necessário para eles me conduzir por esta segunda viagem para que eu herdasse o território mágico do meu tio. Umai me levou pelo mundo inferior e me mostrou muitas coisas lá. Eu aprendi um bocado, mas não devo dizer mais nada a vocês sobre isso. E agora é melhor eu relaxar."

Ele suspirou e ficou em silêncio.

A história de Nicolai me deixou sem palavras. Levantei-me e fui até a cozinha para limpar nossas xícaras e refletir sobre o que tinha escutado. O ritual de cura de Umai na casa vazia anteontem, a minha experiência com ela na noite passada, a cura de Anna, sua presença no meu segundo sonho, e agora a história de Nicolai - todas essas experiências estavam separadas, contudo, tudo isso estava conectado. O que ligava tudo era a imagem de Umai.

Pensando sobre todos esses eventos e quando tinham ocorrido, percebi que Umai podia não ter tido nenhum tempo para dormir. Ela parecia ter ido de um lugar a outro sem parar durante quase dois dias. Como isso podia ser possível para ela? Sacudi minha cabeça sem poder acreditar, como se isso pudesse me dar uma resposta. Não veio nenhuma, de modo que simplesmente continuei a arrumar a cozinha.

Ouvi Nicolai chamar pela porta aberta da cozinha, dizendo:

- Temos que nos apressar. São quase sete horas da manhã, e vai passar um ônibus aqui em quinze minutos que vai nos levar até a casa da minha mãe.

- O quê? Um ônibus! - Anna e eu gritamos em uníssono. - Tem um ônibus que vem até aqui? Por que você nos fez caminhar durante horas na neve?

- Porque ele só passa uma vez por semana - explicou ele. - O dia é hoje, então estamos com muita sorte. Depressa, garotas!

Quando vimos o pequeno ônibus, ele era tão velho e batido que parecia ter sido quebrado há muito tempo e estar enraizado permanentemente, uma escultura de metal imóvel plantada no meio da rua. Mas Nicolai insistiu que o ônibus não só era real como também nos levaria para sua vila se nos apressássemos e entrássemos nele.

Quando entramos no ônibus, subitamente senti uma surpreendente dor ao pensar em deixar Umai.

- Nicolai! - deixei escapar. - E Umai? Nós a veremos novamente? Ela deixou uma mensagem para nós? - Antes que ele pudesse replicar, o ônibus começou a sua jornada para fora da pequena vila até a floresta ainda mais antiga.

- Eu não sei onde ela está. Ela não disse nada para você?

Quando não respondi, ele perguntou:

- Você está esperando receber alguma coisa dela, Olga?

- Não - repliquei, sentindo-me desapontada. O impacto de Umai na minha vida tinha finalmente chegado à superfície da minha mente.

- Eu tenho algo para dar a ela - disse Anna. - Eu quero pagá-la pela minha cura. Você daria a ela este dinheiro por mim, Nicolai?

- Não, eu não posso. Ela não o aceitaria. Se ela precisasse, teria dito.

Enquanto o ônibus sacudia lentamente pelo caminho, nos acomodamos em nossos bancos, ficando o mais confortável possível. Quase não havia estrada para o ônibus seguir, então em vez de caminhar na neve durante horas, passamos quase o mesmo tempo sentados no ônibus gelado enquanto ele balançava desajeitadamente pelas montanhas. No silêncio que caiu sobre nós durante a maior parte da jornada, perguntei a mim mesma repetidas vezes o que significara para mim o encontro com Umai.

Eu estava fazendo o máximo para compreender e integrar minhas experiências no Altai com o resto do meu ser, mas era difícil. Umai não tinha explicado tudo para mim, nem mesmo tinha mostrado qualquer interesse em saber se Anna e eu iríamos ficar ou não. Isso fez com que eu me sentisse incompleta, e até mesmo criou dúvidas na minha mente sobre a importância do que tinha acontecido. Imaginei se o que parecia tão impressionante e significativo para mim tinha sido apenas um evento cotidiano para Umai. Mas se fosse esse o caso, porque ainda parecia tão importante para mim?


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