Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



Baixar 0.66 Mb.
Página8/14
Encontro02.08.2016
Tamanho0.66 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   14

11
Nós chegamos na vila de Maria ouvindo o som familiar de latidos excitados. O grande cão castanho de Maria ficou bastante feliz em rever a mim e Anna, mas saltou de maneira ainda mais enérgica ao redor das pernas de Nicolai. Talvez ele tenha sentido que Anna e eu éramos apenas visitantes e que logo iríamos embora, mas que Nicolai ficaria para fazer-lhe companhia.

Maria nos convidou para entrar na sua casa com a mesma hospitalidade calorosa que mostrara antes. Ela estava ainda mais relaxada do que na nossa primeira visita, mas havia um ar inconfundível de tristeza sobre ela. A sua atenção estava concentrada em Nicolai. Ela olhou para ele como só uma mãe pode fazer, procurando os sinais das mudanças que temia já terem ocorrido. Pela primeira vez, percebi como Maria poderia se sentir quanto a seu filho deixar de lado a vida na cidade para se tornar um kam, e me entristeceu ver Maria, geralmente tão alegre, parecer tão preocupada. Numa tentativa de distraí-la, decidi perguntar a ela sobre Belovodia.

- Maria, você já ouviu falar alguma coisa sobre um lugar chamado Shambhala, ou talvez Belovodia?

Ela ficou em silêncio durante alguns minutos, como se estivesse tentando se lembrar. Finalmente ela replicou:

- Não ouvi falar muita coisa. Porém, alguém me contou que Belukha sempre foi considerada um lugar especial como Belovodia.

O meu coração bateu um pouco mais rápido diante da possibilidade de que ela poderia me dizer mais sobre esse lugar que me intrigava tanto.

- O que é Belukha? - perguntei.

- Belukha é a montanha mais alta em Altai. O topo está sempre coberto de neve, e é muito difícil escalá-la. Muitos morreram tentando conquistá-la.

Ela me fitou pensativamente durante um momento. Então continuou,

- Se quiser, contarei a você a única história que conheço.

Respondi rapidamente:

- Oh, sim, Maria. Eu adoraria escutar a sua história.

- Há uma lenda entre o meu povo que diz que, muito tempo atrás, a deusa Umai e seu marido, Altaiding Aezi, o governante de Altai, viviam no extremo norte. Certo dia, um monstro emforma de peixe chamado Ker-Dupa virou a terra pelo avesso. O clima em Altai sempre fora quente, mas depois de Ker-Dupa ter alterado a rotação da terra, ficou muito frio aqui. Altaiding Aezi viajou ate o ceu para perguntar aos Altos Burchans, os seres espirituais mais poderosos daquela época, se poderiam ajudar. Enquanto estava indo de um Burchan para o outro numa tentativa de encontrar Ulgen, o mais elevado de todos e o único capaz de virar a terra do lado certo novamente, estava ficando cada vez mais frio em Altai.

"Para salvar seus filhos do congelamento, Umai transformou suas almas em pedras e rochedos. Ela fez isso com seus dois únicos filhos e com quatro das suas seis filhas. Então ela pegou as outras duas filhas pelas mãos e foi com elas, em busca do calor, até a parte mais ao sul de Altai. Ela e suas filhas congelaram lá, se transformando numa montanha com três picos. O pico do meio é a cabeça de Umai, e os dois picos menores, um de cada lado, são as cabeças das suas filhas. Esta montanha é chamada de Belukha.

- É uma história interessante - disse Anna, provando a sua xícara de chá de ervas. - Ouvi dizer que Belukha também se chama Ak-Sumer, ou o Verão Branco. É um nome tirado da mitologia budista, e representa a montanha que está no centro do mundo.

Eu sentei calmamente escutando, excitada em saber que o nome Umai aparentemente fora o nome de uma das altas deusas do Antigo Altai.

Depois de terminar sua história, Maria começou a preparar nosso almoço. Ela acrescentou lenha ao fogão e juntou os ingredientes culinários dos armários da sua pequena cozinha. Depois de ter acabado de cozinhar, ela pegou pequenos pedaços de carneiro e batata que preparara e os colocou deliberadamente no fogo. Ao mesmo tempo, ela disse algumas palavras indistinguíveis bem baixo. Reconheci isso como uma cerimônia de Altai honrando e alimentando o espírito do fogo do lar antes de cada refeição. Depois do fogo ter abraçado os pedaços de madeira como um símbolo da nossa gratidão, tivemos a permissão de comer. Nos alimentamos em silêncio a maior parte do tempo. cada um de nós refletindo sobre nossos próprios pensamentos.

Depois do jantar, Nicolai caminhou novamente com Anna e comigo até a casa de Mamoush, onde iríamos passar nossa última noite no Altai. No dia seguinte começaríamos nossa viagem de volta para Novosibirsk. A sala não parecia mais tão assustadora para nenhuma de nós dessa vez. Tudo parecia estar como tínhamos deixado, de modo que talvez a nossa percepção do local houvesse mudado. Fiz a minha cama na pele de urso, mais uma vez dando a cama de verdade para Anna. Eu realmente preferia a pele firme de urso à cama mais macia onde Mamoush morrera, mas decidi não mencionar isso a Anna.

Quando me deitei, o tambor quebrado mais uma vez chamou minha atenção. Voltando-me para ele de novo, fiquei deitada olhando-o durante algum tempo. Gradualmente comecei a sentir uma vibração na escuridão ao meu redor e ao redor do tambor. No momento em que comecei a dormir, vi o pequeno homem de madeira que servia como o cabo do tambor saltar e começar a dançar no espaço diante dos meus olhos.

Logo entrei num estranho estado de realidade em que sabia que estava novamente mergulhando num sonho, mas também sabia que desta vez seria capaz de controlar o estado da minha consciência.


Estou entrando numa pequena sala escura. Sinto um prazer sensual em mover o meu corpo. Sinto a liberdade da minha vontade, mas ao mesmo tempo percebo que a vontade de outra pessoa está presente e possui influência sobre mim neste espaço. De alguma maneira sei que ele é um homem. Olho em volta. Quem quer que esteja com o sabe que estou procurando por ele. Ele não quer ser descoberto, portanto permanece além da minha visão. Ainda não estou com medo, mas estou irritada porque ele tem mais controle sobre as minhas ações do que eu. Posso sentir que ele está me vigiando, e agora começo a me perguntar se estou com medo. Talvez eu não esteja no controle do meu sonho, afinal de contas. Finalmente deixo de pensar sobre isso e me concentro em me mover pela sala, me acostumando a sua escuridão.

"Sou eu, Olga. Nicolai." É a voz rouca de um homem velho, mas a reconheço como sendo de Nicolai. Me volto para o som e o vejo numa cadeira no meio da sala. Sinto-me estranha por ver outra pessoa nesse estado de sonho consciente e de ser capaz de falar com ele como se estivéssemos ambos totalmente acordados. Fico de pé e começo a caminhar ao redor dele.

"Por que estamos aqui?", pergunto. A minha própria voz também parece diferente. Sinto-me como se estivéssemos nos comunicando um com o outro através de puros pensamentos, e no entanto existe ainda o sentimento de pronúncia e fala. Esperando pela sua resposta, continuo a me mover. De algum modo sei que, se parar essa realidade que ocupamos se dissolverá.

"Estou aqui para recordá-la de uma coisa."



"Estou escutando, Nicolai. O que é?"

"Ela é uma mulher rara e poderosa. Ela faz tudo o que devia fazer de maneira simples e rápida. Ela faz o que todo mundo aqui faz, mas ela e mais honesta e corajosa do que a maioria.

Essas palavras foram ditas na mesma voz rouca, e Nicolai ainda estava sentado na cadeira a minha frente, mas de algum modo as palavras entraram na minha percepção vindas de cima. Um sentimento intenso de náusea e aversão se acomodou no meu estômago, e estou vagamente consciente de que existe motivo para o medo nas palavras. Percebo que ouvi essas exatas palavras antes. Não tenho uma memória real delas ainda, mas a resposta apavorada do meu corpo me faz procurar períodos, datas e circunstâncias. Antes que possa alcançá-los, uma mudança inacreditável ocorre na minha percepção. Subitamente percebo que não só estou dentro do meu próprio sonho, como também que dentro do meu sonho uma segunda visão está forçando espaço até minha mente. Essas duas realidades conflitantes estão interagindo uma com a outra, lutando para dominar minha consciência.

Por um momento, a nova visão parece agradável. A figura graciosa de uma bela mulher dança no espaço diante de mim. Mas subitamente ela se volta para mim, e vejo o seu rosto. Eu conheço esse rosto. Instantaneamente me lembro do seu olhar cheio de ódio e a mirada triunfante do fundo dos seus olhos azuis hipnóticos na primeira vez que a vi.

"Ela é uma mulher rara e poderosa", diz a voz, e agora reconheço que é a mesma voz rouca do meu pesadelo em Novosibirsk. Indefesa, sucumbo mais uma vez aos sentimentos de medo, fraqueza e raiva que me tomaram diante da morte inexplicada desta mulher que fora minha paciente.

A sua morte, com a minha visão de pesadelo do seu ódio, tinha sido uma das experiências mais assustadoras da minha vida. Mas esses sentimentos não foram nada diante do terror que me atacava agora neste novo sonho. O meu sonho anterior com ela tinha sido posto de lado, mas nele havia um tipo de limite protetor entre mim e a realidade onírica. Neste novo sonho, esse limite de segurança desaparecera totalmente. Todo o meu ser estava paralisado pela imagem horrível desta mulher. Eu sei que ela possui poder ilimitado, e que ela pode me aterrorizar à vontade.

Repetidas vezes eu abro a boca para gritar, mas as palavras só ecoam na minha cabeça. Não sai nenhum som. Todo o controle que pensei ter sobre minha vontade, minha voz e minhas ações foi tirado de mim.

"Você pode aprender a ter o mesmo poder que ela."

"Não! Não! Não quero!", eu grito silenciosamente de um espaço interior sacudindo minha cabeça para frente e para trás, tentando rejeitar tudo no sonho. No momento seguinte estou de volta dentro do meu corpo no frio da casa de Mamoush, deitada na dura pele de urso. Uma sensação extremamente dolorosa entre meus olhos me apunhala, e acordo violentamente.
O sonho foi tão assustador e intenso que não me arrisco a fechar novamente meus sonhos na escuridão hostil. Fico deitada acordada nervosamente pelo resto da noite, ficando com câimbras e com o corpo duro porque tenho que me deitar sobre o lado direito para não ver a pequena figura de madeira no tambor.

Quando a primeira luz da manhã finalmente se filtrou através da pequena janela, o alivio tomou o meu ser. Eu estava mental, física e emocionalmente exausta, e não queria nada além de voltar para meu apartamento seguro e previsível na cidade. Eu precisava novamente do meu ambiente familiar; eu precisava de normalidade na minha vida. Só queria viajar de volta para casa.

Anna despertou cerca de uma hora depois. Logo nós ouvimos a batida de Nicolai na nossa porta, e fomos agradecidas com ele para a casa de Maria. O ônibus estava marcado para as duas horas, de modo que tínhamos bastante tempo para comer o desjejum e fazer visitas.

Depois do café, Nicolai veio falar comigo em particular e disse:

- Olga, tenho algo importante para lhe contar.

O meu primeiro pensamento foi que ele decidira que realmente precisava de ajuda psiquiátrica, afinal de contas.

- Vá em frente, Nicolai. Estou escutando - respondi.

- Podemos caminhar um pouco? - ele perguntou.

Assim que saímos para a rua, surpreendi-me em saber que estar sozinha com ele tinha despertado novamente todas as sensações desagradáveis do sonho da noite anterior.

- Isso pode parecer estranho para você, Olga, mas quero pedir que você fique aqui comigo durante mais alguns dias.

Quando ele viu o ar espantado no meu rosto interrompeu o que dizia, percebendo como eu interpretara o seu pedido.

- Oh, não, não é isso que quero dizer - deixou escapar -, não estou convidando você para ficar como minha namorada. Não. A minha intenção é muito diferente. Na verdade, nem mesmo é meu desejo que você fique. Até algumas horas atrás, eu esperava que você e Anna fossem embora hoje. Era o que eu esperava, e estava tudo bem para mim. Mas hoje, de manhã cedo, escutei novamente a voz de Mamoush. Ele disse que você deve ficar.

Apesar dos protestos de Nicolai, eu ainda estava incerta das suas intenções. Eu não tinha desejo algum de ficar, e o seu pequeno discurso me irritou.

- Sabe, Nicolai, estou tocada com essa comunicação invisível e improvável do seu tio. E não quero insultá-lo de nenhuma maneira, mas realmente prefiro quando as pessoas são honestas e assumem responsabilidade por elas mesmas. Se você quer me pedir alguma coisa, por favor faça-o por conta própria. Eu não acredito na capacidade dos mortos de se envolverem tanto com os negócios dos vivos.

- Isso porque você não acredita na morte.

- O que quer dizer, Nicolai?

- Quero dizer que os seus pés foram colocados num caminho que podem levá-la a um tremendo poder, mas está se afastando dele, ou porque não quer se esforçar ou porque está com medo.

Junto com uma mudança no seu modo de falar, notei que sua voz também tinha ficado mais profunda, e ele parecia estar quase em transe. Isso despertou a minha curiosidade profissional; para fazer com que continuasse, repliquei:

- Bem, que tipo de esforço você acha que eu devo fazer?

Pela primeira vez desde que o conhecera, Nicolai demonstrou verdadeira raiva. Os seus olhos brilharam friamente, e suas palavras para mim foram ásperas.

- Primeiro, você precisa parar de jogar seus joguinhos estúpidos comigo e aceitar minhas palavras diretamente. Você está usando de auto-engano para evitar acreditar que o que estou lhe dizendo é importante. Você poderá ver isso se parar de se esconder.

Esse modo de falar era tão diferente do geralmente tranqüilo Nicolai que eu não consegui responder. Só fiquei olhando para ele com uma expressão perplexa no meu rosto.

Ele continuou:

- Você ganhou uma chance de receber conhecimento e poder oferecidos só para alguns poucos escolhidos. Esse conhecimento permitiria a você aliviar qualquer problema que pudesse encontrar na vida. Nada poderia incomodá-la depois que aceitasse esse conhecimento.

Finalmente me recuperei o bastante para falar de novo. Eu o interrompi, dizendo:

- Muito bem, Nicolai, realmente soa de um modo atraente. Mas você poderia por favor me explicar por que eu sou a escolhida para este importante conhecimento? - Eu estava certa de que ele tinha ouvido o sarcasmo na minha voz, mas seu rosto continuou pensativo.

- Não há lugar para palavras vazias neste momento. Você tem uma escolha. Esta escolha não lhe será dada duas vezes, portanto, por favor, pense cuidadosamente antes de jogá-la fora. Para responder à sua pergunta de maneira mais séria do que perguntou, você recebeu essa oportunidade parcialmente porque na sua profissão já fez grandes progressos no aprendizado de como ajudar os outros aliviando suas doenças e problemas. Mas você descobriu uma única ferramenta confiável com que possa contar de maneira infalível para diminuir o sofrimento humano, muito menos para curá-lo? Por mais que você tente, muitos dos seus pacientes continuam a estar doentes, infelizes, e assustados. Você já teve sucesso na sua busca para deter o sofrimento? Seja honesta agora e me responda.

- Bem, suponho que tenha falhado, como você está tentando mostrar. Mas o que você sugere?

- Nada, exceto por uma coisa muito simples. Eu quero explicar para você que a fonte de toda a dor neste mundo está entre nosso conhecimento de que vamos todos morrer, e nosso desejo de viver para sempre.

- Nicolai, eu poderia fazer para você minha própria palestra sobre o assunto. Mas ainda não entendi onde quer chegar.

- Eu não quero dar nenhum sermão para você, mas tenho a habilidade de ensinar você a aceitar a morte. Você não está pronta para isso ainda. Por isso, não está pronta para ajudar as pessoas desta maneira. Mas se você ficar comigo mais alguns dias, posso dar-lhe um dom importante que você vai precisar se verdadeiramente deseja aliviar o sofrimento que vê ao seu redor.

Pela primeira vez desde que Nicolai começara a explicar a sua oferta, um sentimento de excitação tomara conta de mim. Aos poucos, ele apagara meu ceticismo. Eu não duvidava mais que o que acontecera comigo tinha sido importante e me influenciara profundamente. Abandonar isso voltando para a cidade sem a experiência final que Nicolai estava me oferecendo parecia uma loucura muito maior do que ficar.

Apesar disso, a minha mente racional ainda compreendia que o fato de ficar ali pareceria muito estranho para Anna e Maria. Eu não sabia como explicar isso para elas; me sentia muito confusa.

- Muito bem, Nicolai. Devo admitir que o seu argumento é bom. Talvez faça sentido para mim ficar um pouco mais, como você sugere. Mas preciso de tempo para pensar sobre isso. Pode esperar uma hora enquanto tomo minha decisão?

- A hora não é problema, Olga. Mas eu sei que você já tomou sua decisão. - Com essas palavras, ele caminhou rapidamente para a casa de Maria e desapareceu lá dentro.

Comecei a caminhar lentamente na direção oposta. Tudo ao meu redor parecia extraordinariamente calmo e pacífico. Os movimentos da minha caminhada, junto com a beleza natural das montanhas, começaram a me colocar num estado semelhante a um sonho. Eu não estava pensando em nada em particular, nem estava consciente de nenhum sentimento específico. Eu tinha a estranha sensação de que o mundo estava se dissolvendo ao meu redor. Continuei caminhando na direção das montanhas que começavam do lado de fora do limite ocidental da vila. Onde a rua acabava, uma trilha estreita continuava morro acima.

O sol estava na minha frente, iluminando o meu caminho. Subi mais alto; o meu esforço fazia com que eu me sentisse mais quente à medida que o caminho ia ficando mais íngreme e estreito. Tirei meu casaco e o carreguei sobre meus braços. Finalmente cheguei ao nível onde a neve ainda cobria totalmente a terra. As altas árvores verdes se erguiam entre o branco da neve e o azul do céu. As árvores começaram a fechar o caminho pequeno e escuro e eu parei, subitamente percebendo que estava num local selvagem e que já era hora de pensar para onde estava indo.

- Olga. - O silêncio foi quebrado por um profundo sussurro à minha direita. O medo surgiu dentro de mim, e quase gritei. Será que alguém tinha me seguido? Voltando-me rapidamente na direção do som, vi Umai perto de uma pequena fenda na neve. Ela estava de pé em meio aos brilhantes raios solares, e o reflexo deles na neve branca era tão ofuscante que era difícil para mim vê-la claramente. Mas era definitivamente Umai, e uma súbita felicidade me tomou, como se eu tivesse encontrado um ente querido depois de uma longa separação. Corri para ela através da neve.

- Estou tão feliz de vê-la novamente, Umai!

- Vim especialmente para encontrar você - respondeu ela em russo fluente.

- Estou muito honrada.

- Olga, não temos muito tempo. Eu vim para contar-lhe algumas coisas importantes que você precisa compreender. Estou consciente de tudo que está acontecendo com você neste momento. Eu sei que Nicolai fez uma sugestão que você está considerando. Foi por isso que vim vê-la.

"Me escute com cuidado. Você está no meio de uma imensa luta. A sua mente consciente não pode absorver nem uma milésima parte do que está em jogo, por isso não estou contando com a sua compreensão. Só peço a sua crença.

Eu sentia uma confiança total nela, e o meu olhar convenceu-a de que acreditaria no que quer que ela estivesse prestes a dizer.

- Preste atenção e escute - ela continuou. - Essa luta começou há tanto tempo que você não acreditaria em mim se eu desse uma data. O tempo não é tão simples quanto você pensa que é. Por enquanto, você precisa escutar apenas que o tempo possui espirais, e que quando duas espirais se encontrarem, a humanidade vai passar por uma grande mudança. É isso que está acontecendo agora.

Estendendo o braço na minha direção, ela tocou minha mão suavemente e fez um gesto para que eu a seguisse. Ela foi na direção da fenda, e fiz o mesmo. Nós passamos pela neve brilhante que gradualmente se transformou em gelo. O brilho dos raios do sol era tão forte que eu mal podia ver.

- Ouça-me com atenção. Eu quero mostrar uma coisa para você. - Ela parou num lugar quase dentro da fenda, onde não havia nada a não ser a neve e o gelo. - Eu quero que você se deite aqui.

- Onde? - Eu não conseguia imaginar que ela se referia ao ponto frio e inóspito onde estávamos.

- Bem aqui no gelo.

Olhei para ela sem acreditar.

- Coloque o seu casaco de pele aí e deite-se em cima dele. Você vai ficar bem.

Segui as suas instruções, mas ao mesmo tempo a minha mente científica estava tentando se reafirmar. Eu queria compreender mais sobre o que estava acontecendo antes de concordar em fazê-lo. O que teriam pensado meus colegas psiquiatras se pudessem ver o que eu estava fazendo? Fiquei confusa ao pensar nisso. Mas quando me deitei, a serenidade do sol e do céu azul cristalino apagou todas as minhas dúvidas. Respirei o ar puro e senti o calor da mão de Umai quando ela a colocou sobre minha testa.



- Feche os olhos agora, e siga a minha história. Não estamos presas à terra. A sua respiração é uma porta para lugares muito além desta terra, e mesmo além desse corpo que você habita neste momento. Não se permita ficar presa no seu medo de perder a si mesma. Deixe que a sua respiração seja a sua própria vida, e deixe-a livre. Confie em mim. Siga a minha história, e eu seguirei você. Você está protegida.
Talvez seja a luz forte do sol fazendo alguma coisa com a minha visão, mas o espaço interior diante dos meus olhos fechados está ficando mais escuro. Então ele se transforma num vazio que eu começo a atravessar numa velocidade incrível. Alguns clarões luminosos surgem da minha esquerda e direita, e então estão ao meu redor. Não escuto mais a voz de Umai. Percebo que estou me movendo entre as estrelas. Logo uma delas, de forma poligonal, se aproxima de mim. Eu seguro uma das suas pontas nas minhas mãos. A estrela está girando ao redor do seu eixo, e o espaço e o tempo giram com ela. Sinto que estou prestes a chegar numa nova dimensão do meu ser. Quando sinto que estou diretamente acima do lugar onde devo estar, minhas mãos soltam a estrela. Imediatamente caio em outra realidade, tão rápido que a transição é instantânea. Antes de saber o que está acontecendo, já estou de pé confortavelmente dentro dessa nova realidade, totalmente consciente dos arredores.

Estou numa pequena sala com alguns homens. Eles estão tirando algo de uma caixa parecida com um cofre. É uma múmia velha e ressecada de um homem, mantida inteira por faixas aos trapos e amareladas pelo tempo. Eles cuidadosamente o colocam no chão do meio da sala. Enquanto contemplo seus movimentos graciosos, começo a sentir um fluxo de energia dentro de mim. No momento seguinte, compreendo que ele me levará para o que vou fazer com esse corpo seco.

Experimento tudo em lampejos caleidoscópicos, como um filme mudando de uma cena para outra tão rapidamente que não há transição discernível entre elas. Agora estou ajoelhada perto da múmia, desenrolando suas faixas cuidadosamente para impedir que as formas originais dos seus músculos secos se separem uns dos outros.

À minha direita há uma taça contendo sal. Eu pego um pouco com minha mão esquerda e faço uma cruz branca com ele no rosto da múmia, da testa até o queixo e então através dos seus dois olhos fechados. Enquanto faço isso, posso sentir o toque de maneira tão sólida como se estivesse tocando a minha própria face.

À minha esquerda há uma taça com terra. Usando minha mão direita, pego essa terra e faço um circulo negro ao redor da cruz branca.

Eu sei que a múmia deve ser trazida de volta à vida, e que tenho o conhecimento para fazê-lo. Preciso começar dando a ele o desejo de viver. Respiro profundamente sobre o seu corpo, criando esse desejo para ele com cada uma das minhas respirações. Eu sinto sua resposta pela aparência de desejo na sua natureza masculina. Ele cria uma tempestade de energia que o lançará para sua nova vida.

Embora agora ele esteja ansioso para voltar a experimentar o prazer do seu corpo físico, ele ainda não está preparado totalmente para isso. O seu corpo de múmia precisa primeiro ser transformado de tal maneira que passe a ser uma ponte para sua nova existência. Um dos outros homens me passa uma tocha. A sua chama se contorce com tamanho calor e intensidade que me assusta.

Então lembro-me de algo importante sobre a tocha, e o medo que sinto dela desaparece; lembro que o meu corpo não está sob o controle do fogo. Calmamente, coloco minha mão diretamente na chama. As duas se fundem de maneira indolor numa só coisa, porque a natureza do meu corpo e a natureza do fogo são a mesma. Passo a tocha sobre a múmia até que nenhuma parte do seu corpo permaneça intocada pela chama. Então uma voz de cima de mim diz: "Agora ele está pronto para nascer."

No mesmo instante, a sala começa a ficar cheia de neblina. Eu sei que o meu tempo aqui está terminando, e que a neblina veio me separar dessa realidade. Imediatamente antes de tudo se dissolver, escuto a minha voz dizendo: "Espere! Espere! Mostre-me como cheguei no meu próprio nascimento."

A sala já está meio cheia de neblina. A neblina diminui durante alguns minutos, e através dela posso ver a minha própria forma imóvel esticada no chão. Três figuras estão se curvando sobre mim, guiando a minha força vital atual à medida que ela flui gradualmente para o meu corpo.

A imagem termina abruptamente, e uma voz masculina fala comigo. "Não pudemos deixar você ver mais do que isso. Teria feito o seu coração sofrer. Você fez tudo corretamente hoje. Volte."

Eu não me lembro onde estou, e o medo me toma novamente. Não lembro de nada sobre mim. Escuto a mim mesma gritando. Então uma mão suave e cálida toca minha fronte. Lentamente, começo a me lembrar das coisas. Eu estou com a mulher que toma conta de mim. Respiro suavemente, aliviada.

Umai começa a falar. "Eis uma coisa que você precisa saber. Os kams só deviam manter uma linha de imortalidade, mas em vez disso existem mais. Você e Mamoush pertencem a linhas diferentes. Caso você fique como Mamoush está pedindo, ele vai tentar destruir a sua linha. Ele mantém a própria linha usando a morte de outras pessoas. É isso que os kams tem feito sempre. A sua imortalidade existe por causa das outras pessoas que morrem. Você é uma conquista importante para ele. Ele planeja ensiná-la a aceitar a morte, e como conseqüência ele pretende que você recuse a imortalidade. Mas não é isso que você deve fazer. Você precisa aceitar a imortalidade."

Meu corpo torna-se incrivelmente pesado enquanto escuto suas palavras. Não posso abrir meus olhos. Não posso mover nem o menor músculo, no entanto sou ainda capaz de falar com ela.

"Espere. Você disse Mamoush. Mas Mamoush já está morto. Ele não fez nenhuma sugestão para mim, foi Nicolai."

"Não há diferença entre Mamoush: e Nicolai. Eles são o mesmo. O tempo não é tão simples quanto você pensa. Você não é só Olga que trabalha como uma psiquiatra numa clínica siberiana. Existe outra coisa em você, alguma coisa que você precisa decifrar."

Sinto um arrepio atravessando o meu corpo. Talvez eu tenha apanhado uma febre. lembro-me de ter ficado deitada no gelo por um tempo indefinido. A terra começa a balançar debaixo de mim.

Na distância, escuto o som de um cavalo galopando. Ele fica cada vez mais alto. Posso sentir a batida dos seus cascos sobre a terra. Então um cavalo branco aparece diante de mim. Todo o seu ser emana uma energia apaixonada.

Uma voz diz para mim: "Monte no dorso dele e galope!" e eu noto pela primeira vez a mulher pequena mas de corpo forte ao lado da cabeça do cavalo, segurando o seu freio. A minha atenção passa do cavalo para o braço nu da mulher, que está totalmente coberto com tatuagens. Nunca vi nada como elas. As tatuagens de animais desconhecidos circulando ao redor uma da outra do ombro até o pulso. À medida que eu olho para ela, os animais começam a parecer cada vez mais familiares, muito embora eu não os reconheça, nem me lembre onde os vi.

Por um momento tenho medo novamente. "Umai! O que isso significa? Por que você está fazendo isso comigo?"

Eu ouço a voz dela novamente, "Porque eu tenho ancestrais das duas linhagens. Eu preciso ajudá-la a fazer uma escolha. Ninguém, a não ser eu, pode fazer isso por você."

"Então é possível pertencer a duas direções? Se você pode fazê-lo, então deve ser possível?"

"Eu de fato pertenço a duas direções."
O cavalo e o sonho se dissolveram, e eu despertei. Sabia que um ruído distante tinha me despertado, mas eu não sabia o que era. Imaginei quanto tempo tinha ficado deitada no gelo. Então barulho voltou, e reconheci a voz preocupada de Anna. Ela estava perambulando pelo pé do morro, me chamando. Ela estava bem abaixo na montanha, mas eu podia ouvi-la claramente.

- Olga! Onde está você? Me responda! Nós vamos nos atrasar para o ônibus e nunca mais vamos sair daqui.

Levantei-me rapidamente do gelo, joguei meu casaco sobre meus ombros, e procurei Umai. Não havia nem sombra dela. Senti a necessidade urgente de ir embora e comecei a correr. O morro parecia mais longo do que eu me lembrava, e a minha respiração vinha em arquejos curtos e difíceis na altura que cheguei junto a Anna.

- Você está louca, Olga? Onde esteve todo esse tempo? Deus, você está com uma aparência horrível, totalmente fora de si. Vou ter que levar você de volta como uma paciente em vez de uma amiga. O ônibus já está carregado e prestes a partir. O motorista disse que só me esperaria por mais alguns minutos. Venha, vamos embora.

- Espere, tenho que pegar a minha bagagem - disse a ela.

- A sua bagagem está no ônibus e pode estar indo embora neste mesmo minuto sem nós. Venha, Olga. Precisamos nos apressar.

Pela expressão no rosto do motorista, alcançamos o ônibus na hora exata. Só havia uns poucos passageiros, mas eles nos olharam com raiva quando entramos. Me senti mal por tê-los feito esperar tanto tempo no frio.

No último minuto, notei Nicolai de pé perto da porta do ônibus. Ele parecia surpreso e perguntou:

- O que você está fazendo, Olga?

- Estou indo embora, Mamoush - desculpe, quis dizer Nicolai.

- Mas eu pensei que você houvesse decidido ficar. Tem certeza de que está indo embora?

- Sim.


- Umai procurou você? Foi ela? - O seu rosto estava pálido e sua voz parecia tensa. - Você sabia que se ela fizesse isso por você, ela morreria?

- Não! Isso não pode ser verdade!

- Então, foi mesmo Umai. Então ela não pode mais pertencer aos kams. Ela morreu por você.

As suas palavras me espantaram. Tudo que eu pude dizer foi:

- Adeus, Nicolai. Por favor, agradeça a Maria por mim. - Então a porta do ônibus fechou atrás de mim.

1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   14


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal