Olga Kharitidi Tradução de pedro ribeiro



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A viagem de volta no ônibus parecia interminável. Eu chorei durante toda a viagem, com Anna tentando me consolar em vão. Finalmente tive de pedir que ela me deixasse em paz. De início ela não compreendeu a minha necessidade de distância, mas finalmente adormeceu.

Quando conseguimos sair do ônibus dilapidado, foi só para esperar durante horas pelo nosso trem na estação gelada. Anna ficava olhando para mim o tempo inteiro, esperando uma explicação para o meu comportamento, mas eu não era capaz de lhe oferecer qualquer uma. Eu não costumo esconder coisas dela, mas até então eu não tinha encontrado as palavras para explicar o que acontecera nem para mim mesma. Era cedo demais para tentar esclarecer as coisas para Anna, e eu precisaria de tempo comigo mesma de volta em Novosibirsk para compreender tudo.

Soltei um suspiro de alívio quando finalmente abri a porta do meu pequeno apartamento. Eu tinha certeza de que voltar para minha casa me ajudaria a voltar ao que eu considerava minha realidade normal. Coloquei minhas malas no chão e fui para a cozinha fazer unia xícara de café forte e acender um cigarro. Os eventos confusos da viagem ainda me pareciam avassaladores, e eu tinha que me concentrar conscientemente em relaxar. Eu sabia que tinha voltado como uma pessoa diferente da que viajara para Altai apenas alguns dias atrás. No entanto aqui estava eu, procurando o meu mesmo rosto no espelho, esperando recuperar a segurança tranqüilizadora da minha personalidade familiar.

Olhei a minha correspondência, deixando os jornais para mais tarde. Depois me aconcheguei no meu sofá velho para lê-los. De início todas as notícias pareciam exatamente iguais às da semana passada.

Então, enquanto virava a página do jornal, uma manchete que dizia "Ciência na Sibéria" chamou minha atenção. Sob a manchete estava uma grande foto mostrando a abertura de uma antiga tumba nas montanhas Altai. A foto pareceu interessante, portanto continuei a ler.

O artigo descrevia a descoberta, feita no verão anterior, da tumba de uma jovem. Ela tinha cerca de vinte e cinco anos quando morreu. Foi enterrada no alto das montanhas, numa fenda rochosa que durante o breve verão se enchera de água gelada, que então congelava novamente a cada inverno. Os arqueólogos acreditavam que a mulher fora provavelmente uma sacerdotisa de uma religião esquecida que existira entre dois e três mil anos atrás. A sua tumba funcionara como um congelamento profundo durante milênios, mantendo seu conteúdo num notável estágio de preservação. Uma oferenda de carne tinha sido colocada ao seu lado para o sustento durante a sua longa viagem para o mundo espiritual, e quando foi descongelada, tinha ainda a textura e o cheiro inconfundível de carneiro.

A foto e a descrição da tumba me lembraram da cena onde meu último encontro com Umai tinha acontecido, e enquanto continuava a ler meu coração começou a bater mais rápido.

De acordo com o artigo, uma descoberta específica na tumba criara uma grande sensação arqueológica. Os braços da mulher estavam cobertos com tatuagens de estranhos animais simbólicos circulando os seus braços e se fundindo uns nos outros. As suas tatuagens eram do mesmo estilo que tinham sido encontradas em outra múmia, a de um homem cuja tumba também tinha sido encontrada no Altai cinqüenta anos antes. Como a mulher, ele também fora considerado um sacerdote de uma antiga religião.

Instintivamente, eu tive certeza de que aquela era a mesma mulher que me procurara no meu sonho. A tontura tomou conta do meu corpo. Coloquei minhas pernas sobre meu pequeno sofá e me deitei, derrubando jornais e a correspondência desleixadamente para o chão. Coloquei um travesseiro sob a cabeça e fechei meus olhos.

Numa voz que parecia calma apenas devido à minha feroz determinação de fazê-la assim, eu disse comigo mesma: "Eu não quero pensar mais. Preciso dormir. Por favor, deixe-me dormir como eu costumava fazer, sem mais nenhum sonho estranho." De nada adiantou dizer isso para me acalmar, mas eu continuei, insistindo em pelo menos manter a minha voz controlada. "Apenas relaxe e não pense em nada."


"Está certo. Essa não é a hora de pensar Você tem outras coisas a fazer." As palavras foram faladas numa voz forte e masculina, no entanto elas parecem ter vindo de dentro de mim.

"Oh, meu Deus! O que está acontecendo?", eu grito, terrivelmente assustada.

"Você está simplesmente sonhando. Acalme-se", ordena a voz. Surpreendentemente, sinto-me mais calma. Talvez eu tenha apenas caído no sono sem perceber e isso seja apenas um sonho.

"Você precisa aprender algumas coisas agora. O que você gostaria de saber primeiro?"

"Eu quero saber a coisa mais importante que eu possa compreender no meu estado atual."

"Ótimo. Siga-me." Eu aceito a sua voz como sendo a do meu professor de modo que quando vejo um homem vestido de branco, sigo-o sem qualquer da vida. Estou curiosa para descobrir o que ele tem reservado para mim. Ele se move de maneira decidida, e logo começa a descer uma escada que vai até o subterrâneo. Isso me surpreende, porque quando pedi uma revelação, esperei que fosse novamente algo como a se dissolver no céu.

Eu o sigo à medida que ele vai cada vez mais fundo. Enquanto descemos, fica cada vez mais quente, e quase totalmente escuro. Finalmente o vejo entrar numa sala por trás de uma pesada porta de ferro negra. Rapidamente entro atrás dele, sem querer ficar sozinha. Línguas rubras de fogo cercam a sala. Homens nus segurando martelos nas suas mãos estão próximos a enormes bigornas negras. Eu vejo a forma branca do meu professor deixar a sala por outra porta do lado oposto. Para segui-lo, preciso passar pelo círculo daqueles homens, e eles obviamente não pretendem me deixar passar. Eles sorriem e sussurram uns para os outros, me fitando com um desprezo indisfarçável.

As chamas quase tocam meu cabelo. Os homens se movem lentamente na minha direção. Eles estão em silêncio, mas sei que eles decidiram fazer alguma coisa terrível comigo. A porta de ferro fecha atrás de mim com um som pesado e abafado, impedindo qualquer fuga possível.

Percebendo que estou presa, começo a chorar. Como pude ser tão ingênua a ponto de aceitar esse diabo como um mestre e então permitir que ele me levasse até lá? Em vez da revelação que ele me prometera, eu sei que estou prestes a experimentar alguma coisa realmente terrível.

Os homens estão se aproximando, e posso ver que estão totalmente bêbados. O medo toma o meu ser e só pode ir para fora. Começo a gritar.

Então, vinda do nada, uma simples interpretação entra na minha mente. Esse lugar e os homens me cercando são criações dos meus próprios medos. Todas as imagens neste sonho são minhas. Eu estou no controle e posso fazer tudo que desejo com eles. Esse conhecimento faz com que eu me sinta muito poderosa, e ando confiante na direção dos homens bêbados. As chamas vermelhas se apagam, e os homens primeiro encolhem até se tornarem pequenas formas amorfas e então desaparecem inteiramente. Caminho pela sala vazia até sair pela outra porta.

O homem de branco está me esperando do outro lado. "Você se lembra da lição?", ele pergunta.

"Me lembro, sim." Compreendo agora que, de algum lugar no centro do meu ser posso controlar o que chamamos de realidade, alterando-a através da minha própria vontade. Lembro-me do que Umai me contou sobre as duas tarefas que as pessoas precisam realizar - criar suas realidades e criar a si mesmas. Eu sei que ela tem mais coisas para me explicar e estou ansiosa para falar com ela.

"Quero ver Umai", digo ao meu mestre, sentindo que ele a conhece e pode ser capaz de me conectar com ela.

"É impossível para você vê-la novamente. Ela fez o que precisávamos que ela fizesse. Agora acabou."

"Não! Eu quero vê-la!" Estou gritando com meu professor. Percebo agora como senti falta dela, e que faria quase qualquer coisa para vê-la novamente.

"É impossível", ele repete. A sua voz parece exasperada, como se ele estivesse falando com uma criança desobediente.

Mas não há como me deter. "Você está errado! É possível!", insisto, percebendo agora que eu sou capaz de administrar a realidade. Eu sei como concentrar todo o meu ser para trazer Umai aqui. Eu faço isso, e subitamente ela está diante de mim.

"Bem, bem. Você é uma boa estudante", diz o homem com um sorriso e desaparece.

Volto-me para Umai com alegre expectativa. Ela tem um sorriso maravilhoso e gentil no seu rosto, e percebo novamente que confiaria minha vida a ela.

"Por que você pediu que eu viesse aqui?", indaga Umai.

"Quero saber mais sobre o modo como criamos a nós mesmos. Estou começando a compreender o modo de criar minha própria realidade. Agora quero aprender o que você quer dizer com criar o ser que vive nessa realidade."

"Olhe para si mesma e para as outras pessoas ao seu redor. A única coisa que todo mundo está jazendo o tempo todo é tentar realizar suas Personalidades. Todo mundo fala a esse ser mutável e crescente o tempo todo, tentando formá-lo.

"As pessoas têm três maneiras principais de fazer isso. Elas falam dentro das suas cabeças sobre o passado, reconstruindo-o, alterando e apagando as coisas que não se encaixam com o ser que estão tentando criar e expandindo as coisas que as ajudam. Elas também pensam no futuro, imaginando o que vão fazer, como vão parecer, quais serão suas posses, e como serão aceitas pelos outros.

"A terceira coisa que as pessoas fazem é o que as conecta com o presente. Inconscientemente, elas estão sempre conscientes das percepções de outras pessoas de quem são e o que estão fazendo, e continuamente reagem a isso. Algumas dessas reações sustentam seu senso de Individualidade, enquanto outras o destroem. Elas vêem que algumas pessoas são atraídas para elas e que outras não são. Na maior parte do tempo, quando estão perto de pessoas que não sustentam seu senso de Individualidade, elas experimentam o que poderia ser chamado de antipatia por essas pessoas. Por outro lado, quando experimentam o apoio para si mesmas das pessoas ao seu redor elas criam o sentimento de gostar daquelas pessoas específicas. Desse modo, as pessoas combinam o passado, presente e futuro para criar a si mesmas. Se prestar atenção, vai perceber isso tudo acontecendo em qualquer pessoa e qualquer situação. Olhe ao seu redor. Você vai notar muitos exemplos interessantes disso.

"Mas quando você compreende tudo que pode sobre esse processo, então chega a existência da outra Personalidade, que está consciente de tudo isso e é independente desses atos. Essa é a sua Personalidade do Coração, e é nela que começa a verdadeira liberdade e magia. Ela é a fonte da grande arte de fazer uma escolha. Mas isso é o bastante para você agora."
Eu estava exausta, e uma onda pesada de sonhos logo cobriu a minha consciência. Quando finalmente abri meus olhos novamente, meu corpo parecia pesado e duro por ter ficado sem se mover por muito tempo. Lentamente massageei minhas pernas para renovar a circulação e então me levantei para fazer café. Quando ele ficou pronto, sentei à minha pequena mesa de cozinha e o provei lentamente numa velha xícara de porcelana, apreciando não tanto o café em si quanto o seu aroma amigável e tranqüilizador. Já era dia, e através da minha janela eu podia ver as crianças correndo umas atrás das outras no pátio, gritando e rindo com deleite.

As crianças pareciam distantes da minha janela do terceiro andar, assim como a própria realidade parecia distante e longínqua naquele momento. A minha cabeça ainda estava pesada, e o meu corpo permanecia naquele espaço intermediário entre o sono e o despertar. Eu sabia que precisava pensar em tudo que acontecera para poder compreender, mas ainda não estava pronta para fazê-lo. A minha consciência ainda estava demasiadamente desordenada para trazer minha vida de volta ao normal. Por enquanto, eu teria que deixar esse trabalho para o meu inconsciente.

A minha tarefa imediata era me preparar para voltar ao trabalho. Havia muitas coisas a fazer, e fui dormir bem tarde. Isso me fez bem, porque rapidamente caí num sono profundo que finalmente não teve sonhos.

Na manhã seguinte, a minha velha rotina parecia ao mesmo tempo familiar e estranha, e percebi que a estava experimentando através do filtro das minhas experiências recentes.

Até mesmo férias normais criavam sentimentos conflitantes. De início sempre parecia uma bênção deixar para trás o meu trabalho, com seus rostos doentes, os odores desagradáveis, os gritos fortuitos, as grandes quantidades de trabalho burocrático, na maior parte desnecessário. Então, depois de algum tempo, eu ficaria impressionada ao perceber que estava começando a sentir falta dessas mesmas coisas. Eventualmente, eu ficaria esperando que o tempo passasse rápido para que eu pudesse voltar ao meu hospital. Hoje não era diferente, e eu me sentia tanto excitada quanto aliviada por voltar à rotina confortável do hospital.

Caminhando pelos familiares corredores escuros, falando com as enfermeiras e meus pacientes, revi as alterações que tinham ocorrido nos poucos dias em que estivera longe. A porta branca fechada da sala de emergência me assustou no momento em que olhei para ela. Tudo que me lembrasse da mulher morta fazia com que a ansiedade voltas-se a me atacar. Mas eu estava no trabalho e precisava realizar meus trabalhos, de modo que lutei para não sucumbir ao medo. Comecei a examinar meus pacientes.

Não fiquei surpresa ao descobrir que poucos tinham feito algum progresso. A maioria deles continuava uma presença viva da vulnerabilidade da frágil psique humana.

Felizmente, Andrey, meu jovem soldado, me trouxe um sentimento agradável. Quando entrei no meu consultório ele já estava sentado na cadeira de couro diante da minha mesa. Ele estava completamente recuperado do seu estado de psicose aguda e mostrava todos os sinais de já estar quase pronto para ir para casa. Estava sentado casualmente com suas pernas cruzadas, e notei que mal se via algum tremor nas suas mãos. Ele fazia um divertido contraste com o enorme enfermeiro novo de aparência rude que estava ao seu lado, que devia me proteger dos pacientes violentos. O enfermeiro parecia muito mais perigoso e violento do que o garoto de ar amigável sentado diante de mim.

- Olá. Como esta hoje, Andrey?

Ele pareceu ficar confuso, obviamente sem se lembrar de mim.

- Como vai, doutora?

- Bem, acho que não me reconhece, não é? Quando nos encontramos, você estava ocupado demais com outra coisa, não é mesmo?

- Oh, meu Deus! Estive num inferno. Eu não sei como explicar o que houve para ninguém aqui. Aquelas criaturas do OVNI que me seguiam a toda parte eram absolutamente reais para mim. Elas eram terríveis; me ameaçavam e não me deixavam sozinho. Não havia ninguém que pudesse me ajudar a me afastar delas.

- Não é bem assim, Andrey. Nós o ajudamos a se livrar delas com nossos cuidados e remédios. Sem essa ajuda, você provavelmente ainda estaria consumido pelas suas visões. Você compreende agora que todas essas imagens não era nada além de alucinações?

Ele pareceu pesar minhas palavras. Então assentiu com a cabeça.

- Bem, realmente não faz nenhuma grande diferença a maneira como as chamo. Mas entendo o que quer dizer; elas não pertencem a este mundo. Sei que isso é verdade. Quando penso nelas agora, elas são como personagens de um pesadelo vívido. Mas quando ainda estava dentro do sonho, era como se seres numa espaçonave de verdade estivessem me seguindo, me obrigando a fazer o que quer que eles desejassem.

- Como, por exemplo?

- Como, por exemplo, correr rumo ao trem em movimento e tentar me matar; como, por exemplo, rasgar minhas roupas e tentar ferir o meu corpo. Foi como se quisessem que esquecesse tudo que eu sabia sobre mim e a minha vida. Eles queriam que eu me tornasse seu servo totalmente obediente.

- E você não tinha força para resistir a eles?

- Eu não tinha poder nenhum. Eles tomaram completamente a minha cabeça. Eu não conseguia mais ouvir meus próprios pensamentos; só podia ouvir as suas vozes.

- Como você se sente quanto a eles agora?

- Acho que sinto-me indiferente. Não tenho mais medo deles, e eles não falam comigo há mais de uma semana. Além disso, sinto-me meio sonolento e emocionalmente passivo a maior parte do tempo.

- Isso é um resultado do remédio que você está tomando. Agora podemos começar a diminuir a dosagem e prepará-lo para ir para casa.

Pela primeira vez seus olhos se iluminaram, e seu rosto aberto e redondo pareceu estar feliz como uma criança. Obviamente ele ficou contente em saber que logo seria capaz de escapar desse lugar.

Disse a ele que gostaria que ele começasse a trabalhar na área do hospital, ajudando a equipe. Isso eliminaria uma restrição importante na sua vida diária, e ele agora estaria desimpedido para sair ao ar livre. Ele limparia os caminhos e talvez fizesse alguns outros trabalhos menores no terreno. Depois de algumas semanas passadas em isolamento, a perspectiva de ter até mesmo essa pequena quantidade de liberdade o excitava visivelmente. Ele sabia que estava finalmente no seu caminho de volta para casa. Saiu feliz do meu consultório.

Enquanto eu passava pelo processo normal de avaliar Andrey, percebi novamente o quanto tinha mudado. As minhas percepções tinham se alterado tão dramaticamente que foi como se, nos poucos dias de viagem, eu tivesse passado por anos de estudos psicológicos combinados com intensas experiências pessoais. Não era mais uma coisa simples para mim julgar alguém insano ou considerar as suas fantasias irreais. As sensações inesquecíveis dos meus sonhos vívidos no Altai tinham abalado a minha compreensão da realidade. Tendo uma consciência intensa da minha própria participação consciente nessas visões, não era mais tão simples assim marcar os limites entre sonho e realidade. O que era verdadeiro e o que era falso? Eu não sabia mais.

Muitos anos de experiências inexplicáveis tinham sido comprimidos numa pequena fração de tempo, e elas tinham me dado uma compreensão totalmente nova do potencial humano. Ou, para ser mais exata, elas tinham me dado um conjunto totalmente novo de perguntas e dúvidas sobre minhas antigas percepções. Alguma coisa estava se transformando dentro de mim. Eu podia senti-lo, mas era algo que não estava pronto ainda para tomar forma completamente na minha mente. Isso levaria tempo, se é que realmente aconteceria.

Enquanto isso, eu não estava mais confiante na minha compreensão da doença de Andrey. Mesmo enquanto tentava reassegurá-lo de que suas visões assustadoras tinham sido apenas as alucinações de sua consciência doente, as dúvidas surgiram na minha mente. Agora eu brincava com a possibilidade - até mesmo probabilidade - de que a realidade poderia realmente se manifestar de maneiras mais complicadas do que aquelas que conhecíamos. Minhas velhas crenças e regras não teriam coberto nem mesmo a milésima parte do que eu tinha experimentado em Altai. Eu sentia que estava nadando num enorme oceano inexplorado.

Olhando pela janela, fiquei tranqüilizada ao ver o velho bonde ainda parado no meio do terreno. A tinta azul descascada que cobria a sua carcaça fazia um perfeito contraponto com o azul brilhante do céu da primavera. Refleti que talvez esse ferro-velho inescrutável pudesse ser a única constante segura na minha realidade.

Abri o meu diário e escrevi o relato obrigatório sobre o progresso de Andrey. Ainda tinha muito trabalho por fazer, e me censurei por perder tempo sonhando acordada.



13
Algumas semanas se passaram, e gradualmente fui me sentindo mais confortável com a rotina do hospital. O meu trabalho, que sempre fora muito satisfatório para mim, agora parecia quase novo.

Certa manhã, um rosto alegre e vivo subitamente se apresentou na minha porta.

- Olá! - disse ele. - Você é a médica que devo ver? - Sem esperar por uma resposta ou por um convite, o homem bastante baixo e de meia-idade, vestindo um terno azul-escuro, entrou e ficou diante da minha mesa.

- Meu nome é sr. Dmitriev. Sou um físico da cidade acadêmica. Aqui está o meu pedido de hospitalização.

Assim que ele mencionou a cidade acadêmica, percebi que ele fazia parte da elite intelectual. "Academgorodok", como essa cidade era conhecida, tinha sido construída como um experimento pelo governo soviético no início dos anos 1960. Eles construíram casas confortáveis num belo ambiente siberiano e convidaram as mentes mais brilhantes de toda a União Soviética a se instalarem lá. A finalidade era desenvolver uma nova ciência soviética. As pessoas que foram para lá trabalhavam sob as melhores condições do país. O equipamento científico e a tecnologia mais avançados estavam disponíveis para eles. Até mesmo as pessoas que não estavam diretamente envolvidas na pesquisa, que só trabalhavam em posições subalternas, podiam comprar a melhor comida com facilidade e tinham camas confortáveis para dormir à noite.

O centro realizou sua promessa, tornando-se a fonte de algumas das maiores teorias e avanços tecnológicos da época. As pessoas que viviam lá eram altamente inteligentes e viviam numa atmosfera de democracia e liberdade de pensamento que os capacitava a expressar sua individualidade. Isso lhes dava uma presença inconfundível, uma mistura de confiança e abertura.

Pude sentir essa presença no homem que estava diante da minha mesa. Agora ele estava puxando o seu pedido de hospitalização, uma folha de papel que dobrara e enfiara no bolso, e agora o apresentava atirando-o casualmente na minha mesa. Então, sem esperar mais nenhuma palavra de mim, ele se sentou. Tive a sensação de que estava fazendo um jogo comigo no qual se equilibrava delicadamente no limite entre o brincalhão inofensivo e o grosseirão.

Olhei para a folha de papel que ele atirara tão descuidadamente diante de mim. Era do seu médico local, declarando que o sr. Dmitriev tinha uma síndrome neurótica de gênese somática, e que tínhamos ordem de cuidar dele no hospital.

- A senhora vai me tratar usando hipnose, doutora? - ele perguntou zombeteiro. Os seus olhos estavam rindo, mas o resto do seu rosto tinha uma aparência generosa que mostrava que ele não queria ofender com seu humor.

Percebi que estava me comunicando com alguém que tinha a habilidade de pular de uma face para outra da sua personalidade, mas não experimentei a sensação dolorosa e familiar de descobrir um esquizofrênico.

- Detesto desapontá-lo, sr. Dmitriev mas não vou tratá-lo com hipnose; na verdade, não vou tratá-lo. O seu pedido de hospitalização é para a enfermaria de neuroses. Esta é uma ala psiquiátrica regular. O senhor precisa levar seu pedido de volta para o lado de fora e então ir para o segundo prédio à sua esquerda. O médico que vai tratá-lo estará lá.

- Não! Não posso acreditar nisso. Que injustiça! Posso dizer imediatamente que a senhora é a médica que poderia me ajudar. Por que não estamos vivendo durante a época do czar, quando poderia ter contratado qualquer médico que desejasse, sem quaisquer malditas regras territoriais ou outras que fossem? - gritou dramaticamente. Então, abaixando a voz, ele acrescentou: - Mas é melhor assim. O salário que recebo como um físico proeminente não seria o bastante para contratar um médico. Eu mal consigo me sustentar. Boa tarde, doutora. Vejo a senhora mais tarde.

Quando ele saiu, seu rosto estava totalmente sério novamente, sem mesmo uma sombra da sua ironia brincalhona de alguns momentos atrás. "Que pessoas estranhas os psiquiatras encontram", pensei, e então o esqueci até o meu turno da noite na semana seguinte.

Era sempre necessário ficar um médico disponível durante a noite, para ser responsável pelos pacientes existentes assim como por aqueles admitidos depois das horas regulares. O dever era alternado entre a equipe, e o meu turno acontecia a cada duas semanas. Algumas noites acabavam sendo tão ocupadas que não havia chance de dormir, mas elas tinham a vantagem de me oferecer a oportunidade de trabalhar com outros pacientes que não os meus. Alguns deles eram interessantes, e eu gostava da experiência. Também era útil financeiramente, porque recebíamos quase o dobro do pagamento das horas regulares pelas nossas horas noturnas.

Naquela noite, as minhas voltas pelas enfermarias do hospital começaram sem problemas, exigindo apenas algumas mudanças simples de medicação para pacientes cujas condições tinham mudado. Finalmente, cheguei à entrada da enfermaria de neuroses. O sr. Dmitriev estava de pé ao lado da porta aberta, parecendo não estar nem um pouco surpreso, como se soubesse que eu iria entrar a qualquer momento.

- Como vai, doutora? - ele perguntou. Estava mais calmo e muito mais polido do que na última vez que o vira.

- Estou bem, obrigada. E parece que o senhor está se sentindo muito melhor?

- Eu estou muito melhor. A senhora tem um minuto para falar comigo? - ele perguntou.

- Bem, se você realmente precisa de algo, é claro que tenho - repliquei.

Era uma regra estrita que os médicos precisavam se encontrar com todos os pacientes que pediam para falar com eles durante o turno da noite, e me perguntei que desafio especial a mente brilhante do sr. Dmitriev tinha planejado para mim.

- Então digamos, doutora, que eu precise da sua ajuda.

Pedi à enfermeira de plantão que abrisse o consultório do médico regular da enfermaria para mim. Ela parou o que estava fazendo e caminhou pelo corredor até uma porta de madeira negra com uma plaqueta escrita "Dr. Fedorov" nela. Ela descobriu a chave no seu molho e abriu a porta.

Entrei no consultório primeiro. Os consultórios dos outros médicos sempre pareciam mais impressionantes e menos confortáveis que o meu. Neste caso, a reputação do dr. Fedorov também podia estar me influenciando. Ele era conhecido por seguir rotineiramente procedimentos misteriosos e arriscados com pacientes neuróticos que outros haviam abandonado como incuráveis. Ninguém negava seus resultados, que eram incríveis, mas devido à sua discrição ninguém realmente compreendia como ele os conseguia.

- Entre, sr. Dmitriev, e sente-se.

Como antes, o meu convite veio tarde demais. O sr. Dmitriev já tinha entrado na sala, se abancado confortavelmente, e estava esperando pacientemente que eu sentasse antes de falar. Terminei minhas meditações e olhei para ele, esperando.

- Temo que o motivo por que pedi para falar com a senhora possa parecer estranho de início. Mas peço que tente ouvir minhas palavras de maneira compreensiva.

"Eu pesquiso no campo da física quântica. O meu laboratório está envolvido no estudo do fenômeno da realidade. Eu até mesmo diria que, pela minha profissão, fui colocado num relacionamento mais direto com a realidade do que qualquer outra pessoa. Tenho muita liberdade no que faço. A maior parte da minha exploração da realidade envolve experimentos na ciência física, mas também começamos a usar técnicas baseadas na percepção humana e na mente subconsciente. Eu gostaria de contar mais sobre nosso trabalho para a senhora e talvez convidá-la a visitar nosso laboratório.

O seu convite inesperado me surpreendeu, mas continuei ouvindo com atenção profissional treinada.

- Tenho uma coisa muito importante para lhe contar. Os meus estudos a longo prazo da realidade transformaram a minha visão de mundo desde que comecei o trabalho. Muito da minha certeza original sobre a natureza da realidade gradualmente se transformou numa incerteza que abriu novas portas fascinantes para o meu trabalho. A maioria das pessoas na minha vida espera que eu aja dentro do seu contexto "normal" de existência, e isso não me incomoda. É uma das leis a que eu, como ser humano, preciso obedecer. Mas nesta situação atual com você, estou me permitindo exceder o limite do nosso contexto como médica e paciente para dizer-lhe diretamente por que pedi por esta conversa.

Ele parecia bastante sério, e gostei mais desse humor do que a sua encenação anterior. Parecia estar esperando pela minha reação, de modo que o estimulei.

- Por favor, vá em frente.

- Em primeiro lugar, eu não acredito que ter entrado na sua enfermaria tenha sido coincidência. Eu não costumo cometer erros como aquele que me levou até sua porta. Aprendi a me comunicar bem com minha intuição, e ela me diz que havia uma finalidade para o seu encontro comigo.

Eu me perguntei se tinha ouvido direito.

- O meu encontro com você? - indaguei.

- Sim, exatamente. Estou bastante satisfeito onde estou, fazendo o que faço. Eu não preciso de nada mesmo. Mas sinto que você está passando por algum tipo de situação muito intensa, e que talvez esteja perto de compreender alguma coisa muito importante. Há uma peculiaridade incomum na sua energia, e eu a senti na primeira vez que nos encontramos. Acho que talvez possa ajudá-la. No nosso laboratório, projetamos novas maneiras de abrir canais para estados alterados de consciência quando sistemas de ferramentas físicas, tais como espelhos redondos. Você experimentou alguns estados estranhos ultimamente para os quais não encontrou explicação, não é?

Eu estava chocada. A minha voz respondeu num sussurro.

- Experimentei, sim.

- Está vendo? E acredito que você gostaria de continuar no caminho que iniciou e talvez chegar a uma compreensão das suas experiências. Não é mesmo?

- Sim, gostaria. - A sua óbvia sinceridade me fez confiar nele, e me senti segura em concordar com ele.

- Aqui está o meu cartão. Ligue-me no momento que for conveniente. Eu ficarei feliz em mostrar-lhe o meu laboratório.

Ele me deu o cartão de visitas mais enfeitado que já vira. O seu nome estava sublinhado e abaixo estava impresso, "Chefe do Laboratório de Física". Embora eu tivesse certeza de que nunca usaria o cartão, peguei-o e me levantei para sair. Então uma última pergunta veio à minha cabeça.

- Sr. Dmitriev qual foi o motivo da sua hospitalização? Que tipo de problema o trouxe aqui?

- Não consegue adivinhar, doutora? - replicou, o ar brincalhão novamente brilhando nos seus olhos. Nos separamos sem outra palavra, e deixei a ala de neurose pensando que seria uma boa idéia passar algumas semanas nela, para ajustar a minha própria mente desequilibrada.

Mais tarde, com o meu turno completo, voltei à minha sala. A enfermaria estava quieta, para variar; todos os seus habitantes dormiam. Em vez de jogar fora o cartão dele, como pretendia, coloquei-o cuidadosamente no arquivo da minha mesa. Então fiz uma cama no meu sofá e fui dormir, esperando não ter que atender a nenhuma emergência antes da manhã. Enquanto caía no sono, refleti que foi provavelmente o respeito inconsciente que eu sempre tivera pela física, desde as minhas modestas tentativas no científico de compreender a teoria da relatividade, que me impediu de jogar fora o cartão de Dmitriev. Ainda não tinha intenção de aceitar a oferta dele.


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