Oralidad, 1/1988, pp. 29-35



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Um caso de tradição oral escrita
Argeliers León (Cuba)
(Oralidad, 1/1988, pp. 29-35)
A cultura africana na região do Caribe, que reúne tantas culturas com formas de expressão tão singulares, contribuiu para um processo de integração que poderíamos chamar, generalizando, como cultura americana. Distinguimos até variantes, segundo as raízes e a intensidade com que os elementos envolvidos participaram no desenvolvimento da América. Este trabalho se centra em Cuba, que ocupa um importante lugar na área, e focaliza as tradições orais africanas que sobreviveram na Ilha.
Muitos elementos literários das múltiplas e diferentes culturas chegaram pela via oral. Não faltam as variantes, às vezes muito sutis, que distinguem uma região da outra, dependendo da maior ou menor concentração numérica dos oriundos de nações africanas que povoaram diferentes lugares na América, e das relações de produção existentes na economia da colonização americana. E dentro das variantes regionais, também há nuances.
O panorama cultural do Novo Mundo é produto do cruzamento das tradições européias, africanas e indígenas. Algumas manifestações culturais mostram os vestígios de seu antecendente africano, como a música, a dança, as religiões e a literatura tradicional oral. Em outros aspectos, as raízes africanas estão mais dissolvidas, ao terem se misturado com usos e costumes, como a comida, a vestimenta, o penteado, os gestos, a utilização das cores ou fórmulas de tratamento social.
As contribuições africanas, que vieram ao longo dos quase quatrocentos anos de regime escravocrata, se encontraram com os usos e os costumes importados pelas metrópoles colonialistas e com as influências européias que existiam neste continente e que eram, às vezes, ultrapassadas em relação aos acontecimentos culturais na Europa.
O leque de culturas convergiu no Caribe, onde os interesses econômicos colonialistas propiciavam um movimento crescente de tráfico de escravos impulsionado pela exploração capitalista. O processo de transformação cultural variava de acordo com o rumo que tomava o desenvolvimento econômico, e conforme as contradições existentes nas relações sociais, nas colônias. As tradições culturais africanas se misturaram com a cultura européia, que permeou as novas massas populares surgidas nas ilhas. A transculturação daria como resultado, devido à integração sincrética, ordens ou regras de religiões africanas retraçadas no Caribe prevalecendo os elementos mais ajustados às relações sociais impostas nas sociedades coloniais.
Em Cuba, prevaleceram as tradições culturais do grupo banto e dos vinculados à língua ioruba, e, em menor proporção, dos carabali e arará. Outros traços são difíceis de detectar, hoje em dia, pois se dissolveram nas tradições africanas mais fortes. Devemos mencionar, também, os elementos que surgiram depois da Revolução haitiana e se conservaram como sociedades mutualistas e de recreação: os denominados túmulos franceses, e algumas práticas de voudou trazidas pelas migrações haitianas na segunda década deste século.
Os elementos culturais ioruba, misturados com algumas práticas do catolicismo, produziram um complexo sincrético conhecido como Santeria ou Regla Ocha. Ocorreu a mesma coisa com os elementos culturais de origem banto, que também se mesclaram com práticas do catolicismo e da própria santeria, dando lugar ao que se conhece como palo, palo monte, ou bruxaria. Nesses cultos, alguns celebrantes mais ortodoxos fazem distinção entre as regras biyumba, quimbisa ou maiombe. A regra arará é praticada, hoje em dia, por pequenos grupos, muito influenciados pela santeria, e conserva tambores e alguns rituais que lembram sua longínqua origem daomeiana. Os restos da cultura carabali, em Cuba, desapareceram, sendo conservados apenas pelas sociedades ou grupos mutualistas abacuá e ñañigos.
A expressão oral conservou as tradições em formato de magias, preces, esconjuros, passagens da vida das divindades, e os mistérios da Integração dos poderes mágicos, para explicar muitos eventos da natureza, aos que o africano trazido em navios negreiros esteve mais diretamente ligado. Tudo isso foi transmitido oralmente às gerações americanas seguintes. Ao se mestiçarem essas gerações, se mestiçaram, também, as tradições das culturas originárias.
A cultura oral africana conservada na santeria compreende:


  1. A oração ou a chamada ao Orixá, ou reclamando dele. Fala-se dos acontecimentos mais notáveis de sua vida em busca de uma comunicação com o celebrante que o evoca. Muitas são cantadas e podem assumir a forma de ameaça bastante insistente.




  1. As letras ou fórmulas de adivinhação, tanto os sistemas estabelecidos por meio dos cocos ou do diloggun, quanto os oduns da cadeia de Ifá, e as letras que saem no tabuleiro de Orula.




  1. As histórias, que, intimamente ligadas às letras e aos oduns, recolhem as passagens mais notáveis da vida dos Orixás. Cada instante da adivinhação se relaciona com outro instante da vida de um santo ou orixá, como comparação, quando o adivinho configura uma predição. Às vezes, estas histórias se separam da adivinhação e ficam como paradigmas para o comportamento do devoto.




  1. A paremiologia, que, embora tenha se misturado com os ditados e provérbios espanhóis, conserva muitos traços próprios com o pensamento ético e filosófico que emana das tradições iorubas.




  1. O relato tem a ver com as histórias dos orixás, e com animais e plantas que se comportam como gente. Por exemplo, uma paineira pode conversar com uma palma, ou se condena uma yagruma 1 cujas folhas de duas cores delatam sua falsidade, ou a serpente que recorda o tempo em que tinha duas patas. As velhas celebrantes contam essas histórias a cada instante levando suas personagens à presença de Olofi, que, como deus supremo, dita suas sábias sentenças.




  1. O preparo de comidas, remédios, os cantos e o ritual completam os elementos que a transmissão oral conservou de geração em geração.

Junto à transmissão oral da cultura popular africana, houve, em Cuba, uma ferramenta de conservação em forma escrita. Esse instrumento não substitui a oralidade, mas atua como um recurso nemotécnico do devoto: o caderno de santeria.


1 Em Cuba, é uma árvore de madeira bastante flexível
Nos cadernos de santeria se escreve a mão, preferencialmente nas folhas em branco de livros e registros velhos de contabilidade, que utilizavam os espanhóis. Todos tinham uma encadernação rígida, em tecido, e as páginas eram numeradas. Mas os cadernos escolares também servem.
Os cadernos de santeria eram escritos à tinta ou a lápis caprichando na caligrafia e com a ortografia disponível por parte dos redatores. Esses cadernos refletem as modalidades próprias da expressão popular, e como a língua falada ia mudando.
Ao redor dos cadernos de santeria se criava uma espécie de comércio. O preço de venda dos cadernos era determinado pelo prestígio da fonte que os produzia. Ainda tem gente que se gaba dizendo ser dono de um caderno de Taita Gaitán, ou do velho Luis Erice, de Matanzas, ou de Papá Silvestre. Os cadernos eram colocados à venda pelo padrinho, ou pela pessoa que iniciava o devoto em seus primeiros passos. O devoto também podia pedir cadernos emprestados a outras pessoas, ou comprá-los, ou dar um dinheirinho para copiá-lo. Havia pessoas que se dedicavam a copiar cadernos ou a vendê-los.
Os cadernos recolhem um variado leque de rituais que os santeros devem conhecer. Reúnem, igualmente, conhecimentos e informação sobre os conteúdos da transmissão oral que assinalamos, mas sem o propósito de criar uma enciclopédia, nem sequer um conteúdo generalizado. Há cadernos, cujos autores se limitaram a um tema, ou deram ênfase a um aspecto da transmissão oral. As pessoas, portanto, procuram diferentes cadernos para acumular informações, cotejá-las, descobrir as contradições.
Esses cadernos, antes de adquirir celebridade, também eram redigidos por devotos que roubavam as informações orais de velhos celebrantes, com os quais convivíam, ou travavam amizade. Na verdade, os cadernos surgem por iniciativa de devotos jovens agrupados ao redor de velhos e conceituados celebrantes, que conservavam vivas as antigas tradições africanas. Em volta de um santero, à medida que aumenta seu prestígio, se congregam seus afilhados e membros de sua própria família. E todos procuram tirar dele os conhecimentos.
De geração em geração, foi se erguendo uma barreira de desconfiança entre os velhos e os jovens. Os primeiros, reservando seus conhecimentos e duvidando da seriedade dos mais jovens para continuar a ortodoxia. Os mais jovens, por sua vez, se esforçavam em roubar do velho o que sabia.
Muitos cadernos surgiram nesse meio social, no qual os velhos eram cercados de afilhados que disputavam quase a tapa os favores do padrinho. Os primeiros cadernos poderiam ter sido o resultado do trabalho paciente de um afilhado interessado em tirar do padrinho tudo que sabia. Todos os informantes idosos coincidem em que os velhos eram muito desconfiados, não diziam nada. Mesmo assim, os afilhados mais íntimos conseguiam tirar deles, aos poucos, alguma coisa, ajudando-os e conquistando sua confiança. É natural pensar que antes que se espalhasse a prática de redigir cadernos, existia uma forma de transmissão exclusivamente oral, e uma preservação que se fiava apenas da memória, do que se ouvia, ou se via.
Poderíamos estabelecer, portanto, que a presença dos cadernos nas relações sociais criadas pelas religiões é um fenômeno contemporâneo, provavelmente da segunda década deste século. Provisoriamente, recomendamos esse período com base em dados fornecidos por velhos informantes.
Se analisarmos as condições sociais do negro, nos primeiros anos deste século, e as circunstâncias econômicas das classes populares, poderíamos encontrar e ordenar dados que explicariam como alguns segmentos da população, descendentes daqueles africanos, se distanciaram rapidamente das lembranças da escravidão colonial, enquanto que outros conseguiram se apropriar, principalmente nas cidades, dos recursos elementares para ler e escrever mais extensamente. Em outras palavras, enquanto um segmento populacional era absorvido por uma nova cultura de dominação, outro segmento buscava a proteção das religiões ancestrais. Os cadernos permitiriam, neste caso, conservar as antigas tradições que corriam o risco de desaparecer à medida que aumentavam as contradições entre os costumes antigos e as pressões contra os ritos africanos.
Provavelmente, estas circunstâncias sejam a causa de que os cadernos mais antigos tenham recolhido os materiais em formato de arquivo, separados em seções, isolando os aspectos normativos do rito, adivinhações - as letras pelas quais falam o coco e o Diloggun-, esconjuros, preces -ordenadas segundo os orixás-, as fórmulas propriamente ditas, que consistem em receitas de poções mágicas para atrair ou matar a natureza, para conquistar uma mulher, para fechar um bom contrato comercial, ou um negócio, como se define o exercício da prostituição.
Os cadernos não são livros de liturgia, nem obras de referência ou consulta, nem textos de catequese. A transmissão continua sendo oral, e os cadernos são guias para recordar alguma coisa em um determinado momento, mas nunca na hora de celebrar o culto. Por isso, manuseá-los não exige dominar totalmente a leitura, basta identificar uma passagem para lembrar algo aprendido oralmente. Por isso assinalamos no começo que os cadernos são recursos nemotécnicos entre os devotos.
Os cadernos mais notáveis são os de Ifá, verdadeiros compêndios de todo o processo de adivinhação do óraculo deste orixá. Contêm os diferentes oduns ou práticas de adivinhação. A divulgação destes cadernos é mais restringida, seus donos guardam-nos com muito zelo e só permitem sua circulação entre os babalaôs ou os celebrantes de Ifá. Outros cadernos são redigidos só para conservar o vocabulário do que resta, em Cuba, da língua ioruba, chamada lucumi, como o resto do complexo cultural. Os cadernos podem ser classificados dizendo que “trata muito de língua”, ou que “é para tamboreiros”. Este último contém tudo que um olubatá deve saber para se apresentar ao tambor.
Os cadernos chegaram a ser vendidos em impressão mimeográfica, incorporando palavras tomadas do dicionário ioruba-inglês da Oxford University Press. Por exemplo, os publicados pelo conhecido santero de Havana, Nicolás Valentin Angarica. Seus cadernos já eram conceituados antes de serem impressos devido aos conhecimentos que conservam da língua e das práticas rituais. Os cadernos podem ser verdadeiras cartilhas, ordenados e seu conteúdo distribuído por temas. O vocabulário é essencial nos cadernos. Às vezes, trata-se de um vocabulário mínimo com as equivalências em espanhol.
O caderno de um santero velho recolhe um extenso vocabulário lucumi, ordenado segundo categorias muito peculiares. Começa com nomes de alguns animais, continua com nomes de coisas, e termina com dois incisos intitulados: Outras palavras e Principais ervas para fazer santo. A seção de vocabulário termina com Frases e Refrãos, importantíssimos para a cultura ioruba. Eis alguns:
Ayeura kuata bondiyé: Sempre tem alguma coisa para lavar
Molé molé yakoya ochukúa weikoko: Quando a Lua sai não pode ser apagada.
Boyuri enu sodlake: Olha, escuta e cala.
Ebbi bikán ague acgé ebbó: Uma só árvore não faz o mato
Eny osi aná así: Uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.
Leyé lagua layé la fisi: Tudo que sabemos fica aqui.
Kamó nasée maguá: Vamos ver qual é o caminho a seguir.
Este mesmo caderno, com vasto vocabulário, recolhe, em outra seção, um ritual de consagração dos tambores construídos pela mesma pessoa que registra os dados. Diz assim: “Em 9 de setembro de 1943, foram inaugurados os tambores que eu Trinidad fiz comprada a madeira por Goyo e pagando a Paulo Hoche a quantia de 124 pesos para que desse sua voz e seu reconhecimento. / Recebendo o nome Acobi Añá / E o benzeram Goyo, Vicente e Trinidad. No dia 9 do mesmo ano, no dia do cabildo, antes de sair o Padre da Igreja de Regla, batizou-o diante do Santíssimo”. Algumas páginas mais adiante, aparece: “Tamboreiros antigos”, e há uma relação deles: Antandé, Aya bayu-Sufruan, Oya dina Matias, No Juan Pata de Palo, Yfarola Marcos, Andre Sublime, Utoquio, Simeón, Plasido, Alejandro Adolfo, Bicente, Paulo Roche, Luis Preguete, Emilio, Natividad-Changó Bari, Miguel Lomo de Villa, Trinidad-OIM Sainde, Quintin”.
Outro caderno, escrito em um antigo livro de contabilidade mercantil, diz assim, na primeira página: “Os sucessores do culto Lucu-/mi Nossa Senhora de Regla/ reorganizado em 5 de março/de 1927/ Livro geral de entradas e saídas da sociedade”. No caderno, o escrito aparece com diferentes letras e tintas, o que dá a entender a participação de diversas pessoas em diferentes momentos.
Mais antigos seriam os oduns ou as letras que guiam as predições desprendidas da advinhação por meio do diloggun ou do jogo de búzios. começando no fólio- algumas páginas anteriores foram rasgadas-, aparecem escritas as letras seguintes: “Ocanazorde”, “Ellioco”, “Orgunda”, “Elliolosun”, “Oche”, “Obara”. “Ordi”, “Ellionle”, “Osa”, “Ofun”. Há outro apontamento que guarda relação com o primeiro oddun: “Ocanazorde”, e continua: “Ojuani”, “Ellilachebora”, seguidos do que intitula “Relações e Trechos”, que não são outra coisa senão complementos dos “Ordi” – odun -. Os oduns aparecem completados, por sua vez, com o que parece ser uma escritura posterior, e os mencionados complementos aparecem até nas primeiras páginas do resto de caderno, às vezes, a lápis. Por exemplo, o odun número nove, “Osa”, diz: Osa sue iguarighó etemipo nicu. Oguo eguoriguo bati elella Olondo nilé”. Porém, o mesmo odun em outro caderno diz: “Osa osaguó aferiku oguó loddo”.
O caderno que comentamos anteriormente começa na letra “Osa”, fala Ollá. Em outros cadernos, esta letra identifica Ollá e Aggayu, ou Ollá, Agallu, Obalatá, Ogun, Oxum e Obá. As circunstâncias que se combinam neste caso estão descritas da maneira seguinte: “ Iansã maferefun diz que você é filha de Ollá ou a favorece muito você tem que fazer santo ou uma de sua família, tem que rezar missa a um morto da família, que está dando volta, Osanicó Jecua Jei Iansã, se estiver doente tem a morte em cima dela, tem que fazer evo para que Ogun vá embora e a deixe em paz, você sonha com mortos ou com comida você não pode se vestir de cores nem a cama onde dorme, se estiver boa cuide-se de uma traição, você tem muitas maldições, você tem muita pressa, tenha cuidado com o fogo ou com o vento mau pois a morte no nariz, se alguma pessoa lhe der alguma coisa para guardar, cuidado, não vá ser que lhe traga uma coisa e diga que é outra, quem traz é capaz de roubar e depois jogar a culpa em você, você tem pedra imã, tem que olhar bem em sua casa haver/ver/ se tiver alguma faca ou tecido de xadrez pois com ele tem que fazer rogo”. Como oferenda para evitar essas predições se recomenda: “Ervo-o ebbó-, 1 galo, peixe fresco, 9 cocos, 9 varas azuis, 9 agulhas, 9 casulos de algodão, 1bode, 9 sacos de terra vermelha de diferentes lugares, 9 rachas de lenha, 9 ecó, 9 velas e $ 9,40”.
Depois de explicar brevemente como se deve registrar com búzios, o caderno mostra uma vasta compilação de palavras no epígrafe “Palavras e Significado” onde foram inscritas novas palavras. Continua com uma seção de “Saudações aos Santos” e algumas receitas para fazer trabalhos, como “ pós-maus para revolução desbaratar”, que diz: “ Apanha-se um ratinho, torra-se um pouco de peônia e um pouco de pimenta chinesa e de pimenta de guiné, e se acrescenta um pouco de pimenta de guiné sem torrar. Tudo isto é moído seco”
As últimas páginas do caderno recolhem histórias sobre incidências na vida dos orixás, e podem ser usadas como conselhos.
A história seguinte aparece num caderno de Ifá: “Certa vez, Orula saiu em busca de uma terra onde pudesse encontrar uma coisa que fosse diferente ao resto das coisas na terra. Depois de muito caminhar, Orula chegou à terra do Macaco, e se encontrou com um macaco. Orula lhe perguntou: - Como é teu nome? - Macaco, respondeu aquele. – E o teu irmão? - Macaco. – Não estou gostando disso, não, pensou consigo Orula, e continuou caminhando até chegar à terra do Elefante. Encontrou-se com um elefante, lhe perguntou o nome, e lhe respondeu: -Elefante. – E o teu pai? -Elefante. – E a tua mãe? -Elefanta. – Daqui também não gosto. Orula continuou andando e chegou à terra dos Cães. Lá, todos se chamavam igual, e não ficou, seguiu seu caminho. Prosseguiu por outras terras até que chegou ao país dos Galos. À sua chegada, encontrou-se com um frango. Orula lhe perguntou o nome e disse que se chamava Frango, que seu pai se chamava Galo, sua mãe Galinha, sua irmã Frangota e seu irmãozinho Frangote. Aqui, Orula ficou satisfeito e lhe disse ao Frango que o levasse à casa dele. Ao chegarem, Orula cumprimentou com muito respeito a mamãe Galinha. Esta devolveu o cumprimento e perguntou quem era ele. – Sou Orula, lhe disse. – Está bem, respondeu a mamãe Galinha, mas o senhor não pode ficar porque o meu marido Galo não está.
“Quando Orula retomou seu caminho, se encontrou com o Galo que voltava para casa. Quando o Galo viu Orula cumprimentou-o efusivamente:
“Oh, Orula, aboru aboyá abichiché!
“O Galo obrigou Orula a ir para casa com ele. Quando a Galinha viu de novo Orula se incomodou e disse a seu marido o Galo que se deixava que Orula ficasse ela iria embora, e foi.
“Dias depois, a Galinha jogava uns pós em seu marido o Galo, para que enxotasse Orula de casa. Mas o poder de Orula não deixou que os pós tivessem efeito, e nada acontecia com o Galo.
Orula, vendo a amizade que sentia por ele o Galo, lhe disse que sempre seria seu amigo e que nunca comeria galo, também não comeria frango, nem frangota, nem frangote, porque tinha pena deles, mas galinha ele comeria, sim. Por isso, Orula come galinha”.
Outra história recolhida nos cadernos diz: “O tigre procurou o bode para que o deixasse dormir em sua casa. O bode deixou que dormisse junto à porta. No dia seguinte, o tigre se deitou na sala. Finalmente, quis se apropriar da casa e fitava com maus olhos o bode. Este percebeu, começou a desconfiar do tigre e pensando que talvez lhe faria alguma coisa ruím foi à casa de Orula que mandou que fizesse um avental com dois bolsos, que num deles colocasse milho, e pedras no outro, e que nunca tirasse o avental. Um dia, o tigre convidou o bode a passear: - compadre, disse, vamos dar uma volta. O bode aceitou e sairam juntos. Pelo caminho, o bode ia comendo o milho que levava no bolso, então o tigre lhe perguntou que coisa comia, e o bode respondeu que comia pedras, mostrando as que levava no outro bolso. Ao escutar isto, o tigre pensou consigo: - Se este come pedras me comeria facilmente. O tigre foi-se embora e não voltou nunca mais, e o bode se livrou de ser comido”.
Junto a estes cadernos de santeria, outros grupos de origem africana escreveram os seus, mas não foram tão extensos como os santeros. Trata-se dos cadernos dos abacuá, dos paleros, e de velhos sepultureiros dos túmulos franceses de Santiago de Cuba e de Guantánamo. A prática de recolher informação em cadernos tornou-se comum, contudo os paleros ocultam cuidadosamente os seus, sua circulação é restringida, pois têm a ver mais com as fórmulas mágicas utilizadas para fazer trabalhos, que com a língua ou os rituais ou o relato de acontecimentos. Em troca, os cadernos abacuá se limitam a falatórios, em formato de parágrafos completos seguidos de uma transcrição ao espanhol. Os parágrafos se correspondem com fases muito concretas do ritual, por isso os cadernos abacuá recolhem informação gráfica dos traços particulares que simbolizam essas fases (anaforuana e gandó).
Os cadernos só circulam entre os devotos- e nem todos têm um-, mesmo assim são muito importantes na tradição oral escrita. Podemos considerá-los uma contribuição de origem africana ao vasto panorama da literatura afro-americana.
Ao terem sido incluídas numerosas palavras de línguas africanas na fala popular, o povo conhece e utiliza muitos elementos das tradições orais africanas estampados nos cadernos, pois estes espelham situações sociais concretas ao longo do desenvolvimento histórico de nosso povo. Os cadernos, portanto, recolhem elementos da tradição oral, são ferramentas dessa tradição e representam uma contribuição da cultura popular de origem africana para a literatura americana.
Publicado na revista Islas, da Universidade Central de Las Villas. Santa Clara (Cuba). Nos. 39-40, maio-dezembro, 1971.
RESUMO
A expressão oral africana preservou em Cuba tradições em formato de preces, adivinhações, esconjuros, passagens da vida das divindades, magias para explicar eventos da natureza, e prática ritual. Este trabalho focaliza principalmente as tradições orais de grupos africanos de língua ioruba, denominada em Cuba lucumi. Parelalamente à transmissão oral, se conservou uma ferramenta escrita, que não substitui a oralidade original, mas é utilizada como um recurso nemotécnico: o caderno de santeria, em que aparecem anotados o que um devoto deve saber e as informações sobre sua própria participação no culto.

Mostram-se alguns exemplos tomados dos mencionados cadernos, respeitando a ortografia original. E se finaliza analisando o papel desses cadernos nas relações sociais, e sua função como reservórios das tradições orais africanas.


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