Oralidade impressa: depoimentos e história oral na construçÃo biográfica de josé ferreira da silva através da revista blumenau em cadernos – blumenau/sc (1957-1973)



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ORALIDADE IMPRESSA: DEPOIMENTOS E HISTÓRIA ORAL NA CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA DE JOSÉ FERREIRA DA SILVA ATRAVÉS DA REVISTA BLUMENAU EM CADERNOS – BLUMENAU/SC (1957-1973)
Darlan Jevaer Schmitt (Universidade do Estado de Santa Catarina / UDESC – Mestrando – darlanjs@gmail.com)

Resumo: A historiografia do Vale do Itajaí/SC e do município de Blumenau/SC é destacada por um periódico, a Revista Blumenau em Cadernos. Esta publicação foi idealizada pelo pesquisador José Ferreira da Silva, professor, escritor, jornalista e ex - prefeito (nomeado de 1938 a 1941) da cidade de Blumenau/SC. Reconhecido como um historiador autodidata, especialmente destinado ao estudo da história da região do Vale do Itajaí/SC, Ferreira da Silva dirigiu a revista desde sua fundação (1957) até sua morte (1973). Nesse material impresso, o editor/autor construiu uma narrativa histórica não só para a cidade de Blumenau como para a região do Vale do Rio Itajaí (e para sua biografia também), dando destaque a determinados personagens, lugares, fatos escolhidos para fundamentar e prestigiar, em alguns casos, determinadas situações políticas, sociais e culturais da Região. Como partes desta estratégia, foram transcritas e publicadas em Blumenau em Cadernos, entrevistas com personalidades de destaque catarinense sobre Blumenau e região, além de depoimentos de leitores sobre o próprio editor/fundador e sua Revista. A publicação destas entrevistas e depoimentos auxiliou na afirmação, para o universo de leitores de Blumenau em Cadernos e para o Estado catarinense, a figura do intelectual José Ferreira da Silva.


Palavras-chave: Impressos, Revista Blumenau em Cadernos, José Ferreira da Silva.

ORALIDADE IMPRESSA: DEPOIMENTOS E HISTÓRIA ORAL NA CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA DE JOSÉ FERREIRA DA SILVA ATRAVÉS DA REVISTA BLUMENAU EM CADERNOS – BLUMENAU/SC (1957-1973)
Darlan Jevaer Schmitt

Universidade do Estado de Santa Catarina / UDESC

darlanjs@gmail.com
Introdução
Pensar a história como algo próximo e contextualizado é um desafio constante. Cabe a historiadores e profissionais de história, transformar todos esses documentos (gráficos, iconográficos e depoimentos (historia oral)) em versões historiográficas.
Quando pensamos o passado como uma paisagem, a história é o modo pelo qual a representamos, e é este ato de representação que nos diferencia do familiar, deixando-nos vivenciar através de outrem o que não podemos experimentar diretamente: uma visão mais ampla. (GADDIS, 2003, p.19).
Tais versões nem sempre estão livres de princípios teórico-metodológicos professados pelo próprio historiador, mas perseguem o que se pode caracterizar como uma intenção de verdade que “se abandonada pode deixar o campo livre a todas as falsificações, a todas as falsidades que, por traírem o conhecimento ferem a memória” (CHARTIER, 1994, p.112).

Esses documentos podem ser reproduzidos e interpretados através da historiografia. É destinada à historiografia, arte de escrever história, o papel de aproximar o cidadão comum ao fato histórico, e faze-lo como, impreterivelmente, parte de tal evento. Neste momento, as ferramentas de aproximação da historiografia são os impressos, com destaque para livros e periódicos.

No caso da história, aos livros parece estar reservado um público a eles previamente destinados onde cada um busca seu assunto ou temática de maior interesse. Com os periódicos, tal prática não ocorre. Um periódico é antes de qualquer coisa, um apanhado de assuntos e temáticas, na maioria das vezes muito bem combinada com imagens, que atraem a atenção de um público maior, interessada ou não, em todo seu conteúdo. Em se tratando de impressos, o periódico parece ser a maneira mais fácil de atingir uma grande área de abrangência e repasse de informações. Os jornais fazem isso diariamente. As revistas atendem na sua maioria, mensalmente, um público diferenciado. Esse público de leitores pode ser comparado aos leitores de livros de cordel, como preparados para “uma leitura descontinua, salteada, que se acomoda às rupturas e às incoerências” (CHARTIER, 1989, p.130). Este é o estilo editorial das revistas.

Com todas estas particularidades, as revistas passaram a ser encaradas como fontes de pesquisa para o historiador.


O estudo de publicações periódicas tem atraído a atenção de pesquisadores interessados no conhecimento e na avaliação da produção intelectual de determinados períodos da nossa história. Por suas características próprias, essas publicações seqüenciais podem proporcionar ao estudioso as possibilidades de vislumbrar quais seriam os temas de interesse na época, a maneira como foram abordados, quem eram seus autores e quem eram seus leitores. (DE LUCA, 1999, p.11).
Na região compreendida pelo vale do rio Itajaí, no estado de Santa Catarina, mais precisamente no município de Blumenau, teve no final da década de 1950, o aparecimento de uma revista com características particulares. Era a Revista Blumenau em Cadernos, idealizada pelo pesquisador José Ferreira da Silva em 1957. Ferreira da Silva foi o editor deste periódico até sua morte, em 1973.

A Revista Blumenau em Cadernos pode ser destacada como


[...] fonte e referencial para pesquisa do cotidiano, relações de gênero, biografias, política, educação, cultura, esporte, meio ambiente, sociedade e história do Vale do Itajaí, especialmente de Blumenau. (PETRY, 2007, p.09).
A pesquisa sobre a Revista Blumenau em Cadernos e seu primeiro editor, José Ferreira da Silva, procura destacar aspectos gerais desse periódico, como número de exemplares publicados, síntese de alguns dos principais temas tratados, alguns de seus principais articulistas e colaboradores, bem como as suas formas de circulação. Tais observações visam ressaltar a importância deste impresso para a escrita da História Regional e, ao mesmo tempo, considerar esse corpus documental como portador de significados históricos.
[...] os impressos possibilitam uma leitura das manifestações contemporâneas aos acontecimentos e uma real aproximação dos discursos emitidos à época em relação ao projeto de sociedade, bem como as instituições sociais [...]. (AMARAL, 2002, p.121)
Blumenau em Cadernos foi idealizada pelo pesquisador José Ferreira da Silva em novembro de 1957, quando morava na cidade de Curitiba / PR. Ferreira da Silva era professor, escritor, jornalista e político (participando do movimento integralista na década de 1930), chegando ao cargo prefeito, por nomeação através do governo de Getúlio Vargas, entre 1938 e 1941, da cidade de Blumenau/SC. Reconhecido como um historiador autodidata, especialmente destinado ao estudo da história da região do Vale do Itajaí/SC, Ferreira da Silva dirigiu a revista desde sua fundação em 1957, até sua morte, em dezembro de 1973.

Este artigo procura apresentar a breve relação entre Blumenau em Cadernos e a metodologia da história oral, onde


[...] a história oral é um procedimento integrado a uma metodologia que privilegia a realização de entrevistas e depoimentos com pessoas que participaram de processos históricos ou testemunharam acontecimentos no âmbito da vida privada ou coletiva. (DELGADO, 2006, p.16).
Como poderá ser percebida, a editoria de José Ferreira da Silva privilegiou a publicação de entrevistas ou depoimentos como parte de sua construção biográfica.
Uma ausência na escrita da História Catarinense: o Vale do Itajaí
Após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Vale do Itajaí ainda sentia os reflexos de um período de nacionalização do governo do presidente Getúlio Vargas, para com os descendentes de alemães e italianos. Considerado um território de ligação direta, principalmente com a Alemanha o Vale do Itajaí, no olhar do Estado Novo, era um reduto de apoio às ações nazi – facistas, empregadas por alemães e italianos na Segunda Guerra Mundial. A cidade de Blumenau, maior e mais importante economicamente do médio Vale do rio Itajaí, foi uma das mais afetadas com está política nacionalista nas décadas de 1930 e 1940. “Nessa cidade o Exército interveio em diversos espaços e de formas, com o objetivo de controlar a sociedade e executar medidas visando forjar uma identidade brasileira” (FROTSCHER, 2007, p.118).

A colonização germânica passou a não ser bem vista pelo resto do Brasil e principalmente pelo Estado de Santa Catarina. Isso também reverberou nas publicações históricas, referentes à colonização da história do Estado catarinense. Uma das principais publicações de caráter histórico da época, a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), editada desde 1902 (GONÇALVES, 2006, p. 98), passou a dar espaço a outra etnia em suas páginas.

Desta maneira, constituição de publicações históricas que divulgassem o Vale do Itajaí para o restante do Estado e, consequentemente, restante do Brasil, eram fundamentais para desmistificação de uma imagem de “não – brasileiro” aos descendentes de ítalo - germânicos.
Artigos referentes à História de Blumenau pouco existiam em Revistas estaduais. Isto nos sugere que Blumenau parecia excluída da História Catarinense, em função de sua colonização alemã [...]. A partir de 1957, José Ferreira da Silva criou, após o relativo assentamento das questões de nacionalização, uma revista que retratava a História do Vale do Itajaí, ‘Blumenau em Cadernos’, que em seus artigos seguia as mesmas linhas teóricas do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, porém com os temas centrais voltados para Blumenau e o Vale do Itajaí (FERREIRA; PETRY, 1996, p. 14).
O respaldo dos acadêmicos do IHGSC, com a criação deste periódico sobre a história do Vale do Itajaí, está comprovado nas colaborações de grandes nomes da historiografia catarinense, como do pesquisador Oswaldo Rodrigues Cabral, com artigos nos anos da editoria de Ferreira da Silva. A Revista Blumenau em Cadernos, nasce com os,
[...] objetivos perfeitamente afinados com perspectivas esposadas pelos historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina: divulgara a história de Santa Catarina (neste caso, através da perspectiva local e da região do Vale do Itajaí), destacar aqueles que a engrandeceram, contribuir para decisões acerca do presente. (GONÇALVES, 2006, p. 277).

Figura 1 - Capa do Primeiro Exemplar da Revista Blumenau em Cadernos

Fonte: Blumenau em Cadernos, Tomo I, nº 01. Nov. 1957. Capa.
A Revista Blumenau em Cadernos (figura 1) surge em novembro de 1957, curiosamente, longe de Blumenau, no município de Curitiba / PR, onde José Ferreira da Silva estava residindo. O primeiro número saiu com tiragem limitada e produzida na Tipografia de João Haupt em Curitiba / PR (FERREIRA; PETRY, 1996, p. 95). Mesmo produzida no Paraná, a revista tinha a intenção de relatar a história catarinense. Já no primeiro editorial, Ferreira da Silva, deixa claro essa intenção:
Traremos o passado e o presente de Blumenau, contados e registrados em cadernos mensais, sem outras pretensões que não as de concorrer como nosso esforço e o pouco de inteligência que Deus nos deu, para tornar mais conhecida a história do município mais estimada e venerada a memória dos homens que fizeram a sua grandeza atual e para que o exemplo desses pioneiros sirva de orientação e de estímulo aos que, na hora que passa, trabalham por que nosso futuro não seja menos glorioso que nosso passado. (SILVA, 1957, p. 01).

Nesta mesma linha, todo o restante do editorial do primeiro número, enaltece o valor da população local e principalmente, seus descendentes. Ferreira da Silva procura nas paginas seguintes desta edição número um, bem como em todo seu período como editor, esboçar um espaço onde os leitores encontrem um lugar confortável, um lugar conhecido.


Ferreira da Silva é percebido pela sociedade como um ‘homem de letras’, que inicia sua carreira em jornais e depois se dedica à escrita da história da cidade, em sua compreensão, suas atividades como escritor o caracterizava como um intelectual. Porém, longe de contestar as normas da sociedade, estava ali para escrever a história pela interpretação dos vencedores. Longe de fazer uma história a contrapelo, Ferreira cobria o que considerava as imperfeições da história e dos heróis eleitos por ele. (SILVA, 2008, p.14)
E, sua construção biográfica passa pela relação com a Revista Blumenau em Cadernos, principalmente na atua como editor que culmina em seu reconhecimento intelectual.
Editor e autor: o intelectual José Ferreira da Silva
José Ferreira da Silva (figura 02) nasceu em Tijucas / SC, em 16 de janeiro de 1897. Filho de Serafim Ferreira da Silva, natural de Portugal, e Martha Ferreira da Silva, nata Koinacki, natural da Alemanha (FERREIRA; PETRY, 1996, p. 23), estudou em um seminário, no município gaúcho de Santa Maria. Já adulto, iniciou sua carreira profissional como professor primário e, posteriormente inspetor de ensino. Além de sua ligação a área de ensino, Ferreira da Silva foi escritor, jornalista (de rádio e impressos) e político, chegando ao cargo de prefeito do município de Blumenau / SC, com a nomeação entre 1938 e 1941.

Figura 2 – José Ferreira da Silva

Fonte: Arquivo Histórico Profº José Ferreira da Silva – Blumenau / SC.
Sua vida literária e intelectual começa na localidade de Rodeio / SC, em 1921, onde assume o cargo em escrivão no cartório local. Esta localidade vê surgir o primeiro impresso veiculado por Ferreira da Silva em sua história intelectual, o jornal “O Escudo”. Outros impressos ainda surgiriam através de Ferreira da Silva. Já em Blumenau, podem ser destacados o jornal “A Cidade” (1926), o jornal “O Correio de Blumenau” (1932) e o semanário “Alvorada” (1936) (FERREIRA; PETRY, 1996, p. 36). Também se deve destacar a vasta obra como escritor.

Ferreira da Silva era um intelectual catarinense com militância em várias frentes culturais, e usava muito bem essa sua erudição em suas relações sociais e políticas.


Além dos milhares de diferentes estudos históricos e sociológicos de intelectuais, há também intermináveis relatos sobre os intelectuais e o nacionalismo, e o poder, e a tradição, e a revolução, e por aí afora. Cada região do mundo produziu seus intelectuais, e cada uma dessas formações é debatida e argumentada como uma paixão ardente. Não houve nenhuma grande revolução na história moderna sem intelectuais; de modo inverso, não houve nenhum grande movimento contra – revolucionário sem intelectuais. Os intelectuais têm sido os pais e as mães dos movimentos e, é claro, filhos e filhas e até sobrinhos e sobrinhas. (SAID, 2005, p.25).
A formação biográfica de José Ferreira da Silva era antes de mais nada, a de um intelectual. E, a opinião dos leitores de Blumenau em Cadernos, bem como, a identificação com figuras importantes da história regional, fazia parte da estratégia de Ferreira da Silva em ser reconhecido em seu tempo como intelectual. Entretanto, as poucas entrevistas transcritas e publicadas, principalmente nos anos iniciais de editoria de Ferreira da Silva, foram usadas como estratégia para solidificação de sua biografia e identificação com seu leitor.
Oralidade impressa: entrevistas e entrevistados
Os anos em que José Ferreira da Silva esteve a frente da Revista Blumenau em Cadernos, entre 1957 e 1973, foram publicadas somente três entrevistas, todas nos anos iniciais do periódico. Destas entrevistas, duas merecem destaque. Uma foi com uma personalidade ilustre da região do Vale do Itajaí, Curt Hering, e a outra, com pessoa comum, Augusta Abry, mas que presenciaram momentos da colonização no século XIX. Entretanto, Ferreira da Silva, na função de editor publicou diversos depoimentos sobre seu periódico, dando voz aos que queriam elogiar sua iniciativa.
Se as escritas expostas são um dos instrumentos utilizados pelos poderes e pelas elites para enunciar sua dominação – e conquistar adesão -, são também uma forma dos mais fracos manifestarem sua existência ou afirmarem seus protestos. (CHARTIER, 2002, p.81).
A primeira entrevista foi publicada em Blumenau em Cadernos em março e abril de 1958, ou seja, nos números 05 e 06 do tomo I. É importante ressaltar, que Ferreira da Silva separou a revista em tomos, sendo cada tomo composto por 12 números, não necessariamente com periodicidade mensal.

Esta primeira entrevista foi realizada por Nemésio Heusi, importante colaborador de Ferreira da Silva em Blumenau, com o ex-prefeito Curt Hering. Curt Hering foi o 14º prefeito de Blumenau e governou entre 1923 e 1930. Heusi havia feito a entrevista em 1942, quando era Diretor da Agência jornalística Press-Pargas, e nunca havia publicado.

Em sua apresentação, num tom romântico, Heusi exalta que Ferreira da Silva solicitou sua participação.
Foi por volta do ano de 1942, em plena guerra, convém lembrar, que indo a Santa Catarina em missão jornalística, como antigo Diretor da Agência Press-Pargas, entrevistei, entre muitas personalidades, a figura saudosa de Curt Hering. Nunca cheguei a publicar as entrevistas porque ao regressar ao Rio, desliguei-me daquela agência noticiosa, arquivando as mesmas. Agora. Ferreira da Silva, este incansável historiador das coisas do vale do Itajaí, especialmente, me pediu para escrever algo para “Blumenau em Cadernos”. Revolvendo as páginas de meu velho arquivo, lá encontrei a entrevista com Curt Hering, notável, precisa, e porque não dizer, profética, tais foram suas palavras e os argumentos ditados em plena guerra [...]. (HEUSI, 1958, p.98).
Para Ferreira da Silva, a participação de Heusi com o a entrevista inédita de Curt Hering, personalidade sempre lembrada em Blumenau, seja em 1958 ou nos dias atuais, possibilitava a abertura de uma porta ainda não aberta em Blumenau em Cadernos: o valor da memória através da oralidade.

A entrevista com Curt Hering, mesmo produzida por outra pessoa, de uma temporalidade diferente da publicação e até a temática central da entrevista, a Segunda Guerra Mundial, apresentava a José Ferreira da Silva uma possibilidade de inserção na conservadora sociedade blumenauense do final da década de 1950. A personalidade “Curt Hering” representa para o imaginário local a volta aos tempos gloriosos da colonização germânica e a prosperidade do início do século XX. Ver uma entrevista de Hering nas páginas do periódico, atestava seu valor, porque


[...] a memória coletiva depende do poder social do grupo que a detém. Isso porque na rememoração, nós não lembramos as imagens do passado como elas aconteceram, e sim de acordo com as forças sociais do presente que estão agindo sobre nós. (FERREIRA, 2002, p.321).
A afirmação de Blumenau em Cadernos como periódico de destaque na historiografia catarinense, passava em primeiro lugar pela aceitação local. Como parte dessa ação, Ferreira da Silva publicou em janeiro de 1961, no número 01 do tomo IV, a entrevista com Augusta Abry (figura 3), esposa de Luiz Abry, figura importante para a história política do município de Blumenau.

Figura 3 – Augusta Abry

Fonte: SILVA, José Ferreira da. “Nonagenária ilustre”. Blumenau em Cadernos, Tomo IV, n°01, p.11-14, jan. 1961. p.11.
A entrevista é realizada pelo próprio José Ferreira da Silva. A história de vida de Augusta Abry, que na época estava com 95 anos, não só apresentava ao leitor de Blumenau em Cadernos uma identificação maior ao imigrante alemão do século XIX e uma aproximação com a vida das famílias dos blumenauenses das décadas de 1950 e 1960. Ferreira da Silva aponta motivos da entrevista.
Descendente de cepa tradicional, ligada, pelo matrimônio, a um incansável batalhador pela causa do progresso blumenauense, mãe de filhos que se distinguiram na vida do município e do Estado, a honrada dama teria de certo, muita coisa interessante a contar do seu longo passado. Anciávamos por entrevista-la, para pedir-lhe que dissesse algo de seu tempo, aos leitores dos “Cadernos”. (SILVA, 1961, p.11).
A publicação de uma história de vida, com características muito comuns a dos leitores de Blumenau em Cadernos, era usada por Ferreira da Silva como artifício para maior aceitação na sociedade local.
Falar de história de vida é pelo menos pressupor [...] que a vida é uma história e que [...] uma vida é inseparavelmente o conjunto dos acontecimentos de uma existência individual concebida como uma história e o relato dessa história. (BOURDIEU, 1996, p.183).
Estas duas transcrições merecem destaque por constituírem, mesmo que discretamente, evidências para a afirmação da biografia de José Ferreira da Silva junto a seus leitores. Era necessária aos leitores do periódico uma identificação maior com seu editor. As entrevistas, mesmo que poucas faziam parte desta estratégia.

Considerações finais
A pesquisa sobre a Revista Blumenau em Cadernos e seu primeiro editor, José Ferreira da Silva, visa ressaltar a importância deste impresso para a escrita da História Regional catarinense e, ao mesmo tempo, considerar esse corpus documental como portador de significados históricos.
[...] os impressos possibilitam uma leitura das manifestações contemporâneas aos acontecimentos e uma real aproximação dos discursos emitidos à época em relação ao projeto de sociedade, bem como as instituições sociais [...]. (AMARAL, 2002, p.121)
A publicação inicia com o primeiro número em novembro de 1957, trazendo para suas páginas mensais, um passado que para seu editor, José Ferreira da Silva, precisava ser atualizado e apresentado aos leitores daquele momento. “As aptidões e expectativas são também diferenciadas de acordo com os usos extremamente variados que os leitores fazem do mesmo texto” (CHARTIER, 1992, p.212).

As páginas de Blumenau em Cadernos apresentam a possibilidade uma memória ser suprimida em função de outra, que pode aparecer novamente, reinterpretada no suporte impresso. O suporte da memória é a revista, é o impresso.



Blumenau em Cadernos mostra ao historiador, uma narrativa histórica, onde os fatos estão ligados diretamente ao suporte. Onde, José Ferreira da Silva se constrói e se recicla para o presente.

Entretanto, a pequena participação da metodologia da história oral nas páginas de Blumenau em Cadernos, possibilita ao leitor a sacralização de Ferreira da Silva como intelectual. As poucas entrevistas são caminhos para essa realização.


[...] o único e precioso elemento que as fontes orais têm sobre o historiador, e que nenhuma outra fonte possui em medida igual, é a subjetividade do expositor. Se a aproximação para a busca é suficientemente ampla e articulada, uma secção contrária da subjetividade de um grupo ou classe pode emergir. Fontes orais contam não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez. (PORTELLI, 1997, p.31).
Através de Blumenau em Cadernos, existe a possibilidade de compreensão de fatos históricos, onde a própria revista seja o fato mais importante. “Compreender é operar uma mediação entre o presente e o passado, é desenvolver em si mesmo toda série continua de perspectivas na qual o passado se apresenta e se dirige a nós” (GADAMER, 1998, p.71). E, essa perspectiva pode, nas páginas de Blumenau em Cadernos, passar pelas entrevistas e depoimentos contidos em seu interior.

Referências
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