Orgulhosamente contra a mare



Baixar 10.63 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho10.63 Kb.
Walter Benevides

ORGULHOSAMENTE CONTRA A MARE



RILKF OU A CONVIVÊNCIA COM A MORTE

E OUTROS ENSAIOS por. Editora 1!6. Rio. 136pp. Cr$ 8,00

Denis Borges Barbosa
17 março 1977

A inteligência aris­tocrática legou à humanidade alguns escritores e poetas, uns tantos músicos e até mesmo pensadores, entre eles um muito desagradável mas de grande repercussão: o Conde de Gobineau, Walter Benevides, aristocrata de coração e de direito, vem enriquecer este legado com uma reunião de conferências e textos esparsos sobre temas estéticos.

A razão do livro; o tenha que unifica os dois ensaios sobre literatura e os dois sobre música, é exatamente a aris­tocracia. Segundo Benevides, o sentimento feudal - o que, pessoal (por opo­sição á liberdade pública), um certo tempero de auto­suficiência e, fundamental-mente, a preponderância do estético no corrrportamento. O aristocrata seria o tornem im­buído do princípio do prazer, para usar um temo técnico da ciência que Benevides mais abomina.

Tornando, assim, como o conjunto das qualidades não burguesas, o sentimento feudal é o instrumento utilizado para iluminar as biografias de Rilke (um plebeu que se acreditava nobre) e Byron (o "Lorde Errante" de Castro Alves). Benevides mostra, nes­ses ensaios, uma erudição precisa e elegante, tipíca do es­tilo do conferencista que ele principalmente é. Byron, guerreiro da aristocracia agonizante, Rilke cantador de incelença da aristocracia rnorta, ambos surgem numa at­rnosfera densa e rica. Inegável-mente, o Autor é dono de uma vocação literária das mais sólidas, como aliás escreve seu escreve seu prefaciador.

Ao chegar, porém, ao ter­ceiro ensaio -- o único a pos­tular uma tese controversa - os poderes do Autor não parecera à altura da tarefa. Defende Benevides que a música, a grande música, é fruto exclusivo do Espírito Feudal. Numa perspectiva aproximadamente hegeliana, este Espírito não se cola ao sis­tema econômico homônimo; antes, parece ser o resultado da ideologia da aristocracia num contexto em que o seu poder político declina. É por is­so que nos parece mas justo identificar a chama aristo­crática como sentimento, ao* invés de Espírito, corno pre­fereria o Autor.

As questões que suscitam esta teoria sobre a História das Artes são muito conhecidas: por que desapareceu a criação musical na Inglaterra, na Es­panha e nos países de língua flamenga? Por que a Ale­manha, em meio a uma babei política, produziu gênios corno Bach', Haydn, Mozart, Bee­thoven, Schubert, Schurnann? A resposta de Benevides é que o sentimento feudal, ao de­saparecer, elimina a possibilidade de produção musical. Com a progressão do capitalis­mo na Inglaterra e na Holanda, com o imperialismo ultra­marino espanhol, a pujança musical de um Byrd, de um Joschin, de um Vitoria seria paralisada. A Alemanha (aí in­cluído de quebra o Império Austro-Húngaro), perma­necendo politicamente es­facelada, daria causa a toda aquela música.

As intuições do Autor, ainda que saborosamente apresentadas, têm -- a nosso ver --- uma falha essencial, e esta provavelmente originada no mau entendimento do um texto de Croce citado em epígrafe. Diz o esteta italiano que "o conceito de causa é e deve permanecer estranho à História". Toma Benevides o trecho como legitimação para seus procedimentos teóricos, que consistem em identificar a coexistência histórica dos dois fenómenos (fim do feudalis­mo/fim da criação musical) com a necessidade da sua ocorrência. A tal idéia, pode-se contrapor a de correntes de pensamento mais atuais, às quais o conceito de causa é es­sencial para o estudo da His­tória. Não a causalidade mecanicista das ciências naturais, mas a causalidade mediada, complexa, das ciên­cias humanas, para o enten­dimento da qual tanto ajuda o conceito de estrutura.

Provido de seu habeas corpus teórico, Benevides in­corre ainda numa série de im precisões factuais, a menor delas não sendo a negarão da existência de música pura fora da cultura ocidental moderna. Estes pequenos erros podem ser até secundários, rnas a não explicação das relações entre a ideologia aristocrática e a criarão musical transforma o que poderia ter sido uma obra magistral num tour de force de brilhantismo.



No úitímo ensaio, Be­nevides readquire o seu vigor: é uma reunião de pequenos trechos -- imagens, juízos críticos -- tudo revelando o bom gosto impecável do esteta diletante e culto, Balé é um tipo inferior de ginástica para voyeurs; a ópera, o piano e o casamento monogâmico são pestilências da burguesia; o único instrumento apropriado para a mulher é a harpa. -tais são extratos de O Melômano impune, úitirna parte de ura livro orgulhosamente contra a, corrente, mas coerente com os padrões que ele próprio pres­creve para 0 pensamento aristocrático,

Denis Borges Barbosa é músico e crítico literário.
Catálogo: arquivos -> pessoal
arquivos -> Ementa: contribuiçÃo previdenciária de agentes políticos – restituiçÃo procedimentos
arquivos -> Estado de santa catarina requerimento de certidão de tempo de contribuiçÃo ctc e declaraçÃo de tempo de contribuiçÃo dtc
arquivos -> Agricultura orgânica como contribuiçÃo para um meio ambiente sustentavel
arquivos -> Questões Possíveis
arquivos -> Estado de santa catarina requerimento de certidão de tempo de contribuiçÃo ctc e declaraçÃo de tempo de contribuiçÃo dtc
arquivos -> Encargos sociais: regime para empresas normais
pessoal -> Curvam-se ante o brasil
pessoal -> A mariposa e a Estrêla The desire of the moth for the star
pessoal -> Dali, as estranhas memórias romanceada as confissões inconfessáveis, de Salvador Dali, apresentado por André Parinaud, José Olympic, Rio, 1976, 297 pp., Cr$ 70,00


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal