Os Anos de Chumbo Notas sobre a Economia e a Política Internacional no Entre-Guerras Frederico Mazzucchelli



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Os Anos de Chumbo

Notas sobre a Economia e a Política Internacional no

Entre-Guerras


Frederico Mazzucchelli


Para Sofia, Manuela, Pedro e Flora
APRESENTAÇÃO
Este livro reúne dez ensaios sobre a economia e a política internacional durante o período que se estende da hegemonia inglesa no século XIX até a eclosão da Segunda Guerra Mundial. É desnecessário insistir sobre a importância histórica do arco de transformações vividas pelo mundo ao longo destas décadas. A Primeira Guerra Mundial, a emergência dos EUA como nação líder, a ressurreição e a falência do padrão-ouro, a emergência do comunismo no plano internacional, a incorporação das massas ao cenário político, os desencontros que se sucederam ao Tratado de Versailles, os percalços e contradições que conduziram à emergência do nazismo, as contínuas mudanças de rota da França no entre-guerras, o triunfal regresso e o súbito abandono da Inglaterra aos cânones da ortodoxia, a prosperidade americana dos roaring twenties, a Grande Depressão, as políticas de recuperação de Roosevelt e Hitler, os caminhos que levaram à eclosão do segundo conflito mundial e o impacto da guerra sobre a vida das nações, são alguns dos temas aqui tratados.

O objetivo central do trabalho é estabelecer uma discussão sistematizada sobre as principais dimensões políticas e econômicas do entre – guerras. Trata-se, em verdade, do exame da fragilidade da estruturação internacional que emergiu após a Primeira Guerra. Basta estabelecer uma breve contraposição com a ordem que se forjou após Segunda Guerra, para que se perceba a precariedade dos arranjos estabelecidos ao final da primeira conflagração mundial.

Após a rendição dos nazistas e japoneses, em maio e agosto de 1945, as lideranças ocidentais prontamente perceberam que era imprudente – e, acima de tudo, temerário – retornar às práticas políticas e econômicas míopes do entre – guerras: o apego obsessivo aos termos punitivos dos tratados de paz de 1919, o protecionismo exacerbado, as desvalorizações competitivas, a insistência na ortodoxia fiscal e monetária, a submissão aos preceitos rígidos do padrão-ouro – que precipitou, inclusive, o aprofundamento da Grande Depressão –, a desconsideração sumária dos interesses das nações ‘revisionistas’ (Alemanha, Japão e Itália), a soberba com que Inglaterra e França conduziram a Liga das Nações e a renitência dos EUA em participar ativamente das questões internacionais, haviam levado o mundo ao desastre.

É verdade que as propostas iniciais para a desindustrialização da Alemanha e do Japão ainda ecoavam o revanchismo típico de Versailles. Sensatamente, contudo, tais sugestões foram abandonadas: a ‘pastorização’ dos dois países poderia inaugurar uma nova era de insegurança e incertezas na Europa e na Ásia. Sob o acicate da Guerra Fria, os Acordos de Bretton Woods (ainda que distantes das recomendações originais de Keynes e Dexter White), o Plano Marshall, a criação da OTAN e a estruturação dos Estados de Bem Estar Social, claramente passaram a indicar uma nova orientação para o manejo das questões domésticas e internacionais. As contribuições e iniciativas de Keynes, Beveridge, Mannheim e Monnet – entre outros – tornaram-se parte integrante do universo decisório das lideranças ocidentais. A partir de 1947, os países capitalistas ingressariam em um ciclo virtuoso de expansão, enquanto a Europa do Leste iria mergulhar em um longo inverno. Não se trata, é claro, de desconsiderar as tensões e contradições que a expansão capitalista traria mais à frente. O ponto fundamental a ser retido é que os Anos Dourados não foram mera obra do acaso. Ao contrário, foram, em grande medida, o resultado de uma construção política e de um acordo social, conscientemente concebidos e exitosamente implementados a partir de 1947.

O contraste entre a arquitetura institucional, política e econômica que nasceu dos desdobramentos dos dois conflitos mundiais é flagrante: enquanto a Primeira Guerra Mundial assinalou o início da tenebrosa marcha dos Anos de Chumbo, o final da Segunda Guerra Mundial – para muitos, a última grande batalha da Guerra de Trinta Anos do século XX – inaugurou uma era de esperanças e prosperidade, sobretudo no mundo capitalista avançado. É exatamente sobre a debilidade e o caráter potencialmente explosivo da ordem internacional forjada entre o início e meados do século XX, que se ocupa este livro.

A amplitude e a complexidade das questões discutidas impuseram algumas cautelas. A caracterização de cada ensaio como “Notas” buscou exatamente precisar o alcance dos textos. Há, de início, uma limitação intencional em relação à bibliografia utilizada. A bibliografia referente a cada um dos temas abordados é sabidamente extensa. A opção pela minuciosa revisão bibliográfica teria praticamente inviabilizado a elaboração de um esboço interpretativo mais geral sobre o período, que é o propósito maior destas páginas. O ponto de apoio das análises foram, assim, contribuições que considerei essenciais para a compreensão dos temas. Ao invés de pretender exaurir a bibliografia existente, a escolha recaiu sobre utilização extensiva de trabalhos estratégicos, como os de Hobsbawm, Barbosa de Oliveira, Eichengreen, Kemp, Aldcroft, Moggridge, Kindleberger, Fearon, Overy, Henig, Barkai, Campagna, Belluzzo, Nove, Harrison, Walton & Rockoff, Maddison e Mitchell, entre outros.

O próprio recorte temático foi definido de modo a privilegiar a discussão das questões julgadas centrais. Há, evidentemente, inúmeros aspectos que não foram tratados, ou apenas tangenciados. Na perspectiva aqui adotada, entretanto, as eventuais lacunas não representam necessariamente falhas, mas, acima de tudo, estímulos para a reflexão futura.

É de péssimo gosto pretender dar sugestões aos leitores, mas é conveniente assinalar que os ensaios podem ser lidos isoladamente. Apesar da evidente unidade que os articula, existe uma independência relativa entre cada um dos textos apresentados. Se algum mérito este trabalho possui, talvez o principal seja que ele não se destina especificamente ao “público economista”. É claro que, em alguns momentos, a análise propriamente econômica é preponderante, mas intencionalmente distante dos vícios e do vazio cognitivo do economics.

Não fossem a amizade, o estímulo e a inqüestionável liderança intelectual de Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, e este trabalho seria sequer concebido. As citações de Belluzzo existentes no texto, sem a devida remissão bibliográfica, referem-se a observações informais suas em salas de aula, seminários ou conferências.

Dois amigos de longa data, Carlos Alonso Barbosa de Oliveira e Eduardo Kugelmas foram interlocutores permanentes. Se não acatei inúmeras de suas sugestões, não foi por soberba, descaso ou desconsideração. Simplesmente, há um momento na elaboração de um livro em que não basta o autor permanecer rigorosamente concentrado. Ele deve, também, permanecer surdo. Os eventuais equívocos e omissões, portanto, são de minha inteira responsabilidade. O mesmo se aplica em relação às citações em língua estrangeira que, em respeito ao leitor, foram traduzidas livremente para o português.

Tão pronto este trabalho foi concluído, e Eduardo Kugelmas partiu. A perda de um amigo é sempre desconcertante. Eduardo, pela retidão de seu caráter, pela excelência de sua formação, pela acuidade de sua inteligência e por sua curiosidade irriquieta nos brindou exemplos marcantes em sua passagem pela vida. Nenhum deles maior, certamente, que a grandeza de seus gestos.

Marcos Antonio Macedo Cintra e Aloísio Sérgio Barroso foram por demais tolerantes na leitura dos originais, e especialmente pertinentes em suas observações críticas.

Apenas em um ambiente intelectual sério, plural, fraternal e democrático é que um trabalho com as atuais características poderia ter sido conduzido. Nas figuras de Márcio Percival Alves Pinto e Mariano Laplane, registro meu reconhecimento aos colegas e alunos do Instituto de Economia da Unicamp. Este livro (com exceção do capítulo final, escrito posteriormente) é o resultado da Tese de Livre Docência que apresentei ao referido Instituto em dezembro de 2007. Agradeço os comentários acima de tudo generosos da banca examinadora formada pelos professores Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, Sérgio Buarque de Holanda Filho, Eros Roberto Grau, Aloísio Teixeira e José Carlos Braga. A qualidade das questões discutidas com debatedores de tal envergadura forjou em mim a convicção de que o presente trabalho não foi escrito em vão.

ÍNDICE TEMÁTICO
1 A Oficina do Mundo e o Livre-Câmbio: Notas sobre a Ordem Liberal Burguesa 12
Periodização 13

A industrialização originária 15

O ciclo ferroviário 18

A oficina do mundo e as industrializações atrasadas 21

A “Grande Depressão” e a IIª Revolução Industrial 27

As rivalidades internacionais e a eclosão da guerra 32



2 A Marcha da Insensatez: Notas sobre a Primeira Guerra Mundial 38
Dimensões políticas e sociais 40

Centralização das decisões e inflação 44

O vazio de liderança 49

A reintrodução do padrão-ouro 52

Tempos difíceis 55

3 Uma Nau sem Rumo: Notas sobre a França no Entre-Guerras 56
Recuperação, desvalorização do franco e inflação 56

Cartel des Gauches 63

O Franc Poincaré 64

O amor ao ouro 66

O Front Populaire 71

Daladier e o fim da semana de 40 horas 75

Uma trajetória melancólica 77

Anexo Estatístico 78
4 O Fascínio do Ouro: Notas sobre a Inglaterra no Entre-Guerras 83
O boom e o roteiro deflacionário 84

Back to $ 4,86 89

O desempenho da Inglaterra nos anos 1920s 92

A desvalorização da libra 97

Cheap money, protecionismo comercial e a recuperação inglesa nos anos 1930s 101

O declínio das exportações e as new industries 104

Nem brilhante, nem desastroso 107

Anexo Estatístico 109



5 Uma Frágil Construção: Notas sobre a República de Weimar 113
As divisões políticas 114

Condições frágeis 119

A hiperinflação 120

A política fiscal e a política monetária 127

A establização do marco 130

O Plano Dawes e as características da recuperação entre 1924-28 133

A contração no fluxo dos empréstimos internacionais 142

Brüning 146


6 Os Passos de um Gigante: Notas sobre os EUA entre a Primeira Guerra

e a Depressão 152
Antecedentes 152

Os EUA e a Primeira Guerra Mundial 161

Os Roaring Twenties 169

A Grande Depressão 179

Hoover 188

Anexo Estatístico 192



7 O Capitalismo Reformado: Notas sobre o New Deal 195
A recuperação econômica 197

Action and action now 202

A desvalorização do dólar e a regulamentação do sistema financeiro 205

O apoio à agricultura 213

A “política industrial”, o avanço da sindicalização e o sistema de proteção social 223

A política fiscal e o combate ao desemprego 232

O capitalismo reformado 238

Anexo Estatístico 240

8 O Capitalismo Tutelado: Notas sobre a Recuperação Econômica sob o Nazismo 241
As recomendações ortodoxas e a perspectiva nazista 242

As despesas militares e a recuperação econômica 246

A questão do financiamento 251

Características da recuperação econômica 257

O “Novo Plano” de Schacht e o II Plano Quadrienal de Göring 263

O capitalismo tutelado 270

Anexo Estatístico 272
9 Rumo ao Desatre: Notas sobre as Origens da Segunda Guerra Mundial 273
A questão imperial 276

Appeasement 282

O turning point de Munich 287

As ambições de Hitler e o desfecho sangrento 293
10 O Mundo em Chamas: Notas sobre o Impacto da Segunda Guerra Mundial 299
As marcas da violência 299

Dimensões econômicas gerais 304

As economias nacionais durante a guerra 312

Alemanha 313

Japão 322

Itália 328

Inglaterra 332

URSS 340


EUA 352

A última batalha de um longo conflito 366


Bibliografia Citada 371

ÍNDICE DAS TABELAS
Tabela 2.1 - Países Selecionados: Déficit Público (1914-1918) 47

Tabela 2.2 - Países Selecionados: Índices de Preços ao Consumidor (1913-19) 48

Tabela 2.3 - Dívidas Inter-Aliadas ao Final da Primeira Guerra 49

Tabela 3.1 - França e Inglaterra: Produção de Veículos Motorizados (1928-36) 69

Tabela 3.2 - França: Construção de Novas Habitações (1928-36) 70

Tabela 3.3 - Países Selecionados: Índices de Produção Industrial (1932, 1935, 1937) 70

Tabela III.1 - Países Selecionados: Evolução do PIB e dos Preços (1913-39) 79

Tabela III.2 - França: Déficit Público, Exportações, Importações e Saldo Comercial (1919-38) 80

Tabela III.3 - França: Contas Externas (1927-32) 81

Tabela III.4 - Cotação Média Mensal da Libra em Paris (1919-39) 82

Tabela 4.1 - Inglaterra: Balanço de Pagamentos (1925-31) 98

Tabela IV.1 - Inglaterra: Balança Comercial (1918-39) 109

Tabela IV.2 - Inglaterra: Origem das Importações e Destino das Exportações (1928, 1938) 110

Tabela IV.3 - Inglaterra: Destino das Exportações para o Império e para Europa Ocidental,

Central e EUA (1870, 1890, 1910, 1930, 1938) 111

Tabela IV.4 - Inglaterra, França, Alemanha, EUA: Exportações (1899, 1913, 1929, 1937) 111

Tabela IV.5 - Inglaterra, França, Alemanha, EUA: PIB (1899, 1913, 1929, 1937) 111

Tabela IV.6 - Inglaterra: Receitas e Despesas Públicas (1918-39) 112

Tabela IV.7 - Inglaterra: Número de Desempregados (1923-44) 112

Tabela 5.1 - Eleições Parlamentares na Alemanha (1919-32) 117

Tabela 5.2 - Alemanha: Indicadores Econômicos Selecionados (1919-23) 121

Tabela 5.3 - Alemanha: Variações Percentuais dos Índices de Preços, Dólar, Circulação

Monetária e Dívida Flutuante (Novembro 1918 – Novembro 1923) 122

Tabela 5.4 - Alemanha: Finanças Públicas (1919-23) 127

Tabela 5.5 - Alemanha: Indicadores Econômicos Selecionados (1923-32) 138

Tabela 5.6 - Alemanha: Balanço de Pagamentos (1927-32) 143

Tabela 5.7 - A Depressão na Alemanha (1928-32) 149

Tabela 6.1 - EUA: Balanço de Pagamentos por Períodos Selecionados 158

Tabela 6.2 - EUA: Finanças Públicas Federais (1913-19) 164

Tabela 6.3 - EUA: Finanças Públicas Federais (1919-22) 166

Tabela 6.4 - EUA: Indicadores Econômicos Selecionados (1921-29) 171

Tabela 6.5 - Percentagem das Famílias Americanas Possuidoras de Bens Duráveis (1920, 1930) 173

Tabela 6.6 - EUA: Indicadores Econômicos Selecionados (1928-33) 180

Tabela 6.7 - EUA: Indicadores Econômicos Selecionados da Agricultura (1929-33) 184

Tabela VI.1 - EUA, Inglaterra e Alemanha: População, PIB, PIB per capita (1870, 1913) 192

Tabela VI.2 - Distribuição da Produção Industrial Mundial (1870-1913) 192

Tabela VI.3 - EUA: Malha Ferroviária em Operação (1860-1910) 193

Tabela VI.4 - EUA: Setores Industriais Líderes por Valor Adicionado (1860, 1910) 193

Tabela VI.5 - EUA: População, Imigração e Força de Trabalho (1870-1920) 193

Tabela VI.6 - EUA: Indicadores Econômicos Selecionados (1913-33) 194

Tabela 7.1 - EUA: Indicadores Econômicos Selecionados (1929-41) 200

Tabela 7.2 - EUA: Evolução dos Preços ao Consumidor e no Atacado (1929-38) 207

Tabela 7.3 - EUA: Preços Recebidos, Preços Pagos, Parity Ratio, Renda dos Agricultores

e Evolução da Produção Agrícola (1929-41) 216

Tabela 7.4 - EUA: Trabalhadores Sindicalizados (1930-41) 230

Tabela 7.5 - EUA: Contas Públicas Federais, Desemprego e Emprego Emergencial (1933-42) 235

Tabela VII.1 - EUA: Área Cultivada e Produção de Culturas Selecionadas (1932-40) 240

Tabela 8.1 - Alemanha: Despesas com o Rearmamento, Gasto Público e Renda Nacional (1933-38) 250

Tabela 8.2 - Alemanha: Contas Públicas e Oferta de Moeda (1933-38) 255

Tabela 8.3 - Alemanha: Índice de Produção para Indústrias Selecionadas (1928-38) 258

Tabela 8.4 - Alemanha: Salários e Consumo Pessoal (1928-38) 259

Tabela 8.5 - Alemanha: Investimento Público e Privado (1928-38) 260

Tabela 8.6 - Produção de Automóveis e Veículos Automotores em Países Selecionados (1931-38) 262

Tabela 8.7 - Alemanha: Comércio Exterior (1928, 1932-38) 266

Tabela 8.8 - Alemanha: Produção de Matérias-Primas Estratégicas (1936-39) 267

Tabela 8.9 - Alemanha: Crescimento do PIB e da Produção Industrial (1932-39) 268

Tabela VIII.1 - Alemanha: Indicadores Selecionados (1934-36, 1936-38) / Discriminação por 272

Autores


Tabela VIII.2 - Alemanha: Desemprego Registrado Mensal e Médio (1933-39) 272

Tabela 9.1 - Despesas Militares em % à Renda Nacional: França, Inglaterra e Alemanha (1935-39) 288

Tabela 9.2 - Produção de Aviões Militares: Inglaterra, França e Alemanha (1935-39) 289

Tabela 9.3 - Força Naval da Inglaterra, França e Alemanha (1936, 1939) 289

Tabela 10.1 Países Selecionados: Evolução do PIB (1938-45) 308

Tabela 10.2 Forças Armadas dos Grandes Poderes (1939-45) e População (1938) 312

Tabela 10.3 Países Selecionados: Despesas Militares em % à Renda Nacional (1939-44) 313

Tabela 10.4 Alemanha e Inglaterra: Indicadores Selecionados do Esforço de Guerra (1939-44) 315

Tabela X.1 Países Selecionados: Produção de Armamentos (1939-45) 369

ÍNDICE DOS GRÁFICOS
Gráfico 3.1 - França: Evolução do PIB, das Exportações e dos Preços (1920-39) 58

Gráfico 3.2 - França: Evolução da Paridade Franco/Libra, Inflação, Billets em

Circulação e Déficit Público (1919-38) 62

Gráfico 3.3 - Países Selecionados: Evolução do PIB (1928-39) – 1928 = 100 69

Gráfico 4.1 - Países Selecionados: Evolução do PIB (1918-29) 92

Gráfico 4.2 - Países Selecionados: Evolução do PIB (1928-39) – 1913 = 100 101

Gráfico 4.3 - Inglaterra: Evolução do PIB e do Volume de Exportações (1929-39) 105

1

A Oficina do Mundo e o Livre-Câmbio: Notas sobre a Ordem Liberal Burguesa
Logo ao início de sua movimentada Viagem pelo Tempo Econômico (1994: 7-8), Galbraith observa:
“Estou convencido, como muitos outros, de que o grande ponto de mutação da história econômica moderna, aquele que mais do que qualquer outro introduziu a era moderna da economia, foi a Grande Guerra de 1914-1918, depois reduzida à expressão mais modesta e, no todo, menos exata e expressiva, de Primeira Guerra Mundial. (...) Na verdade, estaria correto chamar a Primeira Guerra Mundial de Grande Guerra; a Segunda Guerra foi a sua última batalha.”
De fato, a Grande Guerra de 1914-1918, dramaticamente descrita nas frentes de combate por Erich Maria Remarque no clássico Nada de Novo no Front, assinala o fim da chamada Ordem Liberal Burguesa. A Belle Époque e a Pax Britannica se transformam, então, em lembranças nostálgicas de um mundo perdido para sempre. O mosaico político da Europa se estilhaça, e se abre uma era de incertezas, contradições, ressentimentos e conflitos que culminam com a invasão da Polônia em 1939 (Overy, 1995: 3; 7; 10). O fim da guerra, além da derrota dos Impérios Germânico e Austro-Húngaro, trouxe consigo o colapso da ordenação mundial comandada pela Inglaterra. Neste sentido, ela representa, também, a sua derrota...

A hegemonia inglesa remonta ao caráter pioneiro de sua industrialização, à força de sua marinha, à extensão de seu Império e à dimensão internacional de suas finanças. Foi a partir desses pilares que a Inglaterra pôde liderar a organização da economia e da política mundiais, desde o final das guerras napoleônicas até o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando. Esta foi uma ampla e complexa estruturação, aparentemente estável e duradoura, que não pôde, contudo, resistir às transformações engendradas em seu próprio seio. A Pax Britannica culminou com a exacerbação das rivalidades nacionais, com o conflito sangrento e a sucessão de desencontros que se iniciam já em 1919 com o Tratado de Versailles.



Periodização
A Ordem Liberal Burguesa corresponde ao período que se estende desde a consolidação da Revolução Industrial na Inglaterra à eclosão do primeiro conflito mundial.

Trata-se de uma ordem, porque diz respeito a uma estruturação – um ordenamento - internacional da economia e da política mundiais comandada pela Inglaterra.

Esta ordem é liberal, porque tem como características centrais a livre movimentação de mercadorias, capitais e homens e a relativa dissociação entre a ação do Estado e a acumulação de capital. Desde logo, a emergência do protecionismo comercial e a ativa presença do Estado nas industrializações atrasadas e na corrida colonial do último quartel do século XIX, permitem a identificação de dois sub-períodos distintos: o primeiro, que se prolonga sem maiores contradições, desde a década de 1830 até a Grande Depressão (1873-1896); e o segundo, marcado pela crescente exacerbação das rivalidades nacionais, desde a Depressão ao conflito mundial.

Trata-se, por último, de uma ordem burguesa, porque diz respeito à generalização das relações econômicas, sociais e políticas do capitalismo por todo o mundo.

As observações anteriores requerem algumas qualificações. Barbosa de Oliveira, em seu magnífico trabalho1, observa que as características da era concorrencial do capitalismo – notadamente a livre circulação de mercadorias e a relativa exterioridade do Estado frente à acumulação de capital – tiveram plena vigência até a Grande Depressão. Neste período, “a nova ordem internacional reproduziu-se de forma relativamente equilibrada”, graças à “articulação de interesses promovida pelo capitalismo inglês, articulação na qual o dinamismo da economia britânica era difundido ao resto do mundo” (B. Oliveira, 2002: 198). Hobsbawm (1977b: 58), a propósito, observa que, na Era do Capital (1848-1875), “a expansão geral do comércio mundial beneficiou a todos, mesmo que beneficiasse desproporcionalmente a Inglaterra”.

Este é o momento em que a Inglaterra se afirmou como a “oficina do mundo” (workshop of the world). As relações entre Estado e acumulação eram, então, manifestamente tênues, o que permite caracterizar o Estado Liberal como um fenômeno associado ao capitalismo concorrencial:


“[O] capitalismo concorrencial conforma uma estrutura econômica cuja reprodução é regulada por mecanismos puramente econômicos (...). [A] expansão do capital na era concorrencial podia dispensar apoios externos, que na fase da acumulação primitiva foram oferecidos pelo Estado absolutista. Por essas razões, podemos associar teoricamente essa estrutura concorrencial do capitalismo ao Estado liberal” (B. Oliveira, 2002: 177).
Hobsbawm, na mesma linha, relaciona a “não convergência entre a política e a economia” como um dos atributos marcantes do período concorrencial. Referindo-se às características da economia mundial na Era dos Impérios (1875-1914), o eminente historiador (1988: 83-4) observa “a crescente convergência” entre a política e a economia, como uma das dimensões ou “sintomas do retraimento da economia da livre concorrência, que fora o ideal - e até certo ponto a realidade - do capitalismo de meados do século XIX

A Grande Depressão, por sua vez, é um ponto de inflexão, “uma fase de transição entre a etapa concorrencial do capitalismo e a monopolista” (B. Oliveira, 2002: 238). A Ordem Liberal Burguesa se transfigura, já que a ação deliberada do Estado - o que inclui o crescente protecionismo comercial da década de 1880 – passa a ser um elemento determinante na vida das nações. Após a Depressão – que atingiu de modo especial a economia inglesa - a Inglaterra assiste à progressiva superação de sua indústria pela concorrência americana e alemã nos mercados mundiais. A partir de então, sua dependência face às operações da City, à ação de sua rede de serviços internacionais (fretes, seguros, traders) e às relações com o Império, torna-se crucial. Ao mesmo tempo, a concorrência internacional se exacerba, e culmina com a vertiginosa corrida colonial de finais do século XIX.

Ressalte-se, contudo, que estas transformações se dão em um contexto de forte expansão econômica geral e de preservação da mais ampla mobilidade dos movimentos internacionais de capital e de mão de obra (Hobsbawm: 1988: 68; 73). Mais ainda, o período 1870-1914 corresponde ao apogeu do padrão-ouro. Tal regime supunha não apenas a centralidade da praça financeira de Londres e a credibilidade quanto à defesa intransigente da paridade das moedas com o ouro – the commitment to gold -, mas também a efetiva cooperação entre os países (Eichengreen, 1995: xi; 2000: 57; 63). O que se tem, assim, é a cooperação em meio às rivalidades políticas e comerciais, em um ambiente de crescimento eufórico no núcleo capitalista central (já incluídos, aí, os Estados Unidos) e de livre movimentação financeira internacional.

Deste modo, os sub-períodos acima mencionados referem-se, respectivamente, à etapa concorrencial e à transição e configuração inicial da etapa monopolista do capitalismo.

É essencial destacar, contudo, que a hegemonia inglesa, na aurora do século XX, vinha sendo progressivamente solapada pelo fortalecimento político e pelo extraordinário crescimento econômico das nações rivais. Se a brutalidade da Primeira Guerra sancionou o seu fim, é porque seus fundamentos não tinham mais a mesma vitalidade exibida na exposição de Crystal Palace em 1851.




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