Os clubes agrícolas escolares na paraíba (1930-1934)



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OS CLUBES AGRÍCOLAS ESCOLARES NA PARAÍBA (1930-1934)
Priscilla Leandro Pereira (Bolsista PIBIC-CNPq)

Antonio Carlos Ferreira Pinheiro (orientador)


1- Considerações iniciais
Este trabalho é conseqüência dos primeiros resultados da pesquisa que se encontra em andamento intitulada: Grupos Escolares e Escolas Rurais na Paraíba: interfaces histórico-educacionais na cidade e no campo (1930-1937), parcialmente financiada pelo CNPq. O projeto tem como objetivo analisar o processo de implantação de políticas educacionais nos primeiros anos da Segunda República observando a sua dimensão social e cultural que marcou o início de um novo momento na história educacional paraibana. Tal aspecto esta centrado na discussão sobre as diferenças e semelhanças entre os grupos escolares e as escolas rurais. Esse dois tipos de instituição escolar fizeram parte de políticas estatais que redundaram na criação de duas “redes” de ensino que, articuladamente, pretendiam romper com o atraso do ponto de vista das práticas pedagógicas (ensino tradicional) e superar os elevados índices de analfabetismo que tanto assolavam o Brasil e a Paraíba em seu meio urbano e rural, isto é, no campo e na cidade. Todavia, aqui nos deteremos em analisar a experiência social relacionada aos Clubes Agrícolas Escolares vinculados, não raras vezes aos grupos escolares localizados na capital do Estado da Paraíba bem como em alguns centros urbanos do interior.

A base documental na qual se alimenta a nossa análise esta assentada, primordialmente, no Jornal A União, periódico este dos mais lidos e importantes no Estado da Paraíba. Entretanto, as mensagens dos presidentes/governadores enviadas para a Assembléia Legislativa, além dos relatórios elaborados pelos diretores da instrução pública são fontes que também muito tem nos auxiliado na reconstituição das grandes diretrizes políticas e educacionais propugnadas pelos “novos” donos do poder que passaram a gerir o Estado brasileiro a partir do Movimento de 1930. Tais aspectos, todavia, tem sido analisado tomando como referencial teórico gramsciano que nos possibilita compreender a história em seu movimento processual. Partindo do conhecimento mais geral sobre a formação econômica e social brasileira, articulada ao desenvolvimento do sistema capitalista, depreendemos como foram forjadas as relações de dominação no interior do Estado e do sistema educacional brasileiro.

Entretanto, todo movimento conjuntural é marcado por algumas especificidades e experiências que são processadas política economicamente, vivenciadas pelos sujeitos sociais e que terminam sendo próprias de uma determinada cultura. Nesse sentido, é que tomamos de empréstimo o pensamento de Thompson (1981), no que concerne ao processo de constituição de certas “peculiaridades e políticas, sociais e culturais”, no Estado da Paraíba, que influenciaram a tessitura da organização da instrução pública.
2. O Movimento de 1930 e as grandes mudanças na política educacional

O período desta pesquisa (1930-1937) é mais conhecido como a primeira fase da “Era Vargas”, marcado por grandes mudanças políticas, econômicas, sociais, culturais e, especialmente no âmbito educacional. Assim sendo, durante o referido período, Vargas implementou uma série de mudanças que foram subsidiadas politicamente com a nomeação de interventores para os Estados e a criação de dois ministérios: o do Trabalho, Indústria e Comércio, e o de Educação e Saúde, bem como com a promulgação da Constituição de 1934. Dois anos antes, isto é, em 1932, venceu os conservadores, principalmente os paulistas, grandes latifundiários do café, que almejaram retornar ao poder e ao mesmo tempo reivindicaram a elaboração de uma nova constituição para o Brasil. Tal movimento passou a ser conhecido como revolta Constitucionalista de 1932.

Desenvolveu, ainda, uma implacável perseguição contra a esquerda, através de propaganda, na qual transmitia, por meio de diversos canais de comunicação, certa fobia contra os comunistas, principalmente os vinculados a Luís Carlos Prestes, anarquistas e sindicalistas de uma maneira geral, ganhando ao mesmo tempo a adesão de vários governadores e de diversos outros segmentos sociais. Tal processo de neutralização da esquerda foi culminado com a derrocada da Intentona Comunista, em 1935. Assim sendo, Getúlio, sob o pretexto da necessidade de promover a “Salvação Nacional” do comunismo fechou o Congresso Nacional desencadeando, conseqüentemente, um golpe e instalando o Estado Novo, em 1937. Nesse sentido, passou a partir de então a governar de forma ditatorial.

Vale ressaltar que todos esses fatores refletiram diretamente no âmbito educacional, visto que a realidade brasileira muita havia se modificado passando, com conseguinte, a exigir mão-de-obra especializada. Para tanto, precisava-se investir na educação. Nesse sentido, foi um período de super valorização dos interesses nacionais, de crescimento, de desenvolvimento e modernização da nação. Por isso, o aspecto educacional foi tão amplamente discutido e focado, levando a um maior debate sobre a expansão e implementação tanto de escolas urbanas quanto de rurais em todo o país.

Todavia, se faz necessário reafirmar que um dos primeiros acontecimentos de relevância para o âmbito educacional foi à criação, em 1930, do Ministério da Educação e Saúde Pública, sob o comando do Ministro Francisco Campos, o qual tinha como um de seus objetivos proceder estudos e encaminhar todos os assuntos referentes ao ensino, exercendo portanto, papel organizador e regulador das ações políticas do setor, bem como aqueles relacionados à saúde pública e à assistência hospitalar. Logo após o surgimento desse ministério, o ministro executou, como uma das suas primeiras realizações, uma reforma na organizar escolar que ficou conhecida como Reforma Francisco Campos. Nesse sentido, entre outros aspectos, o governo provisório sancionou uma série de decretos para organizar o ensino secundário, regulamentou o ensino comercial e criar uma universidade que ainda não existia.

No âmbito das normatizações vale aqui destacar a de 11 de abril de 1931, que criou o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais de Educação, no entanto, eles só começaram a funcionar a partir de 1934.

Foi nesse contexto que um ano depois, isto é, em 1932, foi publicado o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova que consistiu num movimento formado por renomados educadores e intelectuais, dos quais aqui destacamos Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira, Paschoal Leme e Lourenço Filho. Tal documento visava propagar e sistematizar uma concepção educacional inovadora e buscava estabelecer uma renovação do setor educacional no Brasil. Os participantes desse movimento passaram a ser mais conhecidos como Renovadores da Educação, já que debatiam contra as idéias dos educadores tradicionais, trazendo como uma das maiores bandeiras: a ampliação da educação pública, a gratuidade, o ensino laico, a obrigatoriedade e a igualdade de direito de mulheres e homens em relação ao seu acesso à educação.

Os ideais do Manifesto já vinham sendo discutidos e praticados, mesmo que em menor escala, antes de 1932, visto que aconteciam conferências para discutir as idéias da Escola Nova, promovidas pela Associação Brasileira de Educação (ABE), a qual exercia uma grande influência sobre o governo, no sentido de renovar a área educacional. É interessante destacar que os princípios escolanovistas foram apoiados por intelectuais em vários Estados da nação, inclusive na Paraíba.

Nesse sentido, o discurso dos renovadores, sintetizado no Manifesto, se adequou sem muitas dificuldades às diretrizes políticas propugnadas pelo Movimento de 1930, já que havia uma sintonia de interesses e mudanças, visando romper com as possíveis marcas do regime oligárquico, ainda existente, e com os antigos interesses sociais, culturais e, principalmente, educacionais. Esse documento, portanto, se constituiu um marco no âmbito da história educacional brasileira que, indiscutivelmente, consubstanciou um momento de transformação na organização escolar vigente. A força de suas idéias foi tão grande que chegou a influenciar a elaboração da Constituição de 1934, uma vez que nela se encontram muitas de suas idéias. Entre outros aspectos podemos destacar a reafirmação de que “a educação é direito de todos e deve ser ministrada, pela família e pelos Poderes Públicos...” (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 16/07/1934).

A idéia de que a educação é um direito de todos levou os administradores públicos a entenderam que era necessário criar e expandir escolas por todo o Brasil e as instituições escolares escolhidas para a sua efetivação voltou-se para a expansão dos grupos escolares e, paralelamente, a implementação de escolas rurais. Esse tipo de escola visava incentivar a interiorização da educação escolar pública no território brasileiro, com o intuito de difundir o “espírito” modernizador e nacionalista no país, bem como vencer o analfabetismo. Assim sendo, essa política não se destinava tão somente na qualificação do camponês, mas objetivava também formar um novo cidadão, pois uma vez instruídos e alfabetizados poderiam, os camponeses, participar efetivamente da vida política do país.

Entretanto, é importante lembrar que esse processo sofreu algumas dificuldades que refletiram muito na sua efetivação. Um deles era o permanente influxo migratório para as cidades, ocorridos antes mesmo dos anos de 1930, que dificultavam a estruturação e consolidação da escola pública nas regiões rurais do Nordeste e, conseqüentemente, da Paraíba. Além disso, o avanço do capitalismo também deixava suas marcas na zona rural, aumentando a necessidade da reforma agrária, impedindo a fixação de homens e mulheres no campo e, conseqüentemente, de crianças e jovens na escola; vemos aqui a dificuldade não só de implementar a escola rural, mas também a barreira de dar continuidade à educação escolar. Esses obstáculos foram bem discutidos no texto do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932. Vejamos:
E’ preciso reagir contra esses males, já tão lucidamente apontados, pôr em via de solução o problema educacional das massas ruraes e do elemento trabalhador da cidade e dos centros industriaes já pela extensão da escola do trabalho educativo e da escola do trabalho profissional, baseada no exercicio normal do trabalho em cooperação, já pela adaptação crescente dessas escolas (primaria e secundaria profissional) ás necessidades regionaes e ás profissões e industrias dominantes no meio. (Manifesto dos... Ghiraldelli Jr. p.68, 1994).
É notória, então, a inquietação daqueles que queriam transformar a educação em algo diferente, novo, especialmente àquela destinada à massa rural. Todos esses argumentos acabaram influenciando nos governantes o incentivo à educação rural, que pretendia se adequar não só aos costumes regionais, mas conter essa evasão rural e “fixar o homem ao solo” (RIBEIRO apud COSTA, p.8, 1941). Foi nesse sentido que o Estado brasileiro, a partir de 1930, começou a agir, sistematicamente, a partir da criação de escolas rurais, as quais visavam impulsionar o progresso, o desenvolvimento nacional e o atendimento à população do campo que precisava passar pelo processo civilizador. Nesse sentido, entre os muitos incentivadores do ensino rural que se destacaram nos anos de 1930-1940 um se tornou referência devido ao seu incansável trabalho que já vinha desenvolvendo desde os anos de 1920, em São Paulo. Trata-se de Sud Mennucci, que segundo Monarcha (2007,p. 21)
Havia conquistado notoriedade como professor primário, jornalista, crítico literário e reformador do ensino. Homem aceito e admirado por diversos círculos intelectuais e políticos, foi por esses anos que optou pelo estudo e defesa do ruralismo escolar ou, como era mais comum referir, “ensino regional”. Na condição de discípulo e publicista do pensamento de Alberto Torres, compartilha da crença de que era e deveria ser agrícola o destino do país.

Em que pese o referido intelectual nutrir desconfianças sobre os intelectuais pertencentes ao movimento da Escola Nova, já que esses propugnavam, prioritariamente, o desenvolvimento da escola urbana, os seus “pioneiros” também estiveram atentos sobre as diversas particularidades que envolviam os diversos segmentos que compunham a sociedade brasileira. Nesse sentido, podemos aqui salientar o seguinte trecho do Manifesto dos Pioneiros. Vejamos:

offerecer á creança um meio vivo e natural, favorável ao intercambio de reacções e experiências, em que Ella, vivendo a sua vida própria, [...], seja levada ao trabalho e a acção por meios naturaes que a vida suscita quando o trabalho e a acção convem aos seus interesses e ás suas necessidades”. (Manifesto dos... Ghiraldelli Jr, Paulo, p.66, 1994).
Imbuídos dessa preocupação, posta por aqueles respeitados educadores, Vargas e os seus interventores não poderiam apenas implementar um sistema educacional urbano no meio rural, eles teriam que acompanhar o crescente processo de modernização e proporcionar ao homem do campo as mesmas condições e estruturas educacionais da população urbana, respeitando, todavia, o ritmo de vida rural, tentando adequar o funcionamento das escolas a ele.

Na Paraíba, o que estamos, provisoriamente, constatando é que o ensino rural se voltou mais para a formação de técnicos – ensino profissionalizante – do que para o ensino primário. Não obstante, surgiram, acompanhando os moldes brasileiros, movimentos em favor da criação dos Clubes Agrícolas Escolares Estaduais, tornando as escolas urbanas um forte núcleo de discussão sobre os problemas do meio rural, tendo grande incentivo da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres.

Em meio a essa discussão, vale socializar as informações encontradas sobre as experiências de escolas rurais profissionalizantes na Paraíba, bem como as diversas iniciativas em prol da criação dos Clubes Agrícolas Escolares no Estado.
3. Os Clubes Agrícolas Escolares na Paraíba: espaço para a difusão de uma mentalidade rural e agrícola
No mesmo período em que se processaram os estímulos direcionados para a educação profissionalizante voltada para as questões do campo, também começaram os gestores públicos paraibanos a investirem nos Clubes Agrícolas Escolares, classificados como ações “extra-escolares”, mas que estiveram incumbidos em divulgar conhecimentos sobre a vida no campo. Funcionavam anexos às escolas primárias da zona rural e, em alguns casos, em grupos escolares localizados nas cidades do interior e na capital.

Os Clubes Agrícolas Escolares eram geridos pelo Ministério da Agricultura, contudo, também recebiam auxílio de outros órgãos tais como a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres1 que se dispusera a difundir a idéia de um Brasil desenvolvido, contudo ruralista. Entre outras atribuições essa Sociedade ajudava os gestores públicos na identificação das melhores escolas, considerando, inclusive, as peculiaridades regionais. O seu objetivo maior, portanto, era o de ajudar as crianças a formarem uma mentalidade ruralista esclarecida e, simultaneamente, iniciá-las no mundo do trabalho.

Todavia, o Estado de São Paulo, em agosto de 1933, regulamentou a obrigatoriedade da criação dos clubes agrícolas escolares que deveriam funcionar em todas as escolas elementares. (MONARCHA,2007)

Na Paraíba, igualmente ao que estava ocorrendo em outras unidades da federação, alguns intelectuais e administradores do poder público, concebiam e lutavam por um país mais moderno, mais desenvolvido e, para tanto, precisava investir na educação das crianças do campo, as quais eram consideradas “atrasadas”, “não civilizadas” e recalcadas, inclusive, pela ampla divulgação do tipo “jeca-tatu” que havia sido construída a partir de algumas obras do Monteiro Lobato (MONARCHA, 2007). Nesse sentido, começaram a fomentar campanhas incentivando os professores dos grupos escolares e de outras instituições educacionais a incorporar esses clubes em seus ambientes. Estas propagandas foram estimuladas, principalmente, pela Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, como já nos referimos anteriormente, chegando inclusive, a promover o 1º Congresso de Ensino Regional, realizado na Bahia para reunir intelectuais que já discutiam sobre o ensino rural no país. Outrossim, a Diretoria do Ensino Primário da Paraíba, empenhou-se em promover os meios para que fossem fundados o maior número possível de Clubes Agrícolas no Estado, no intuito “de quanto antes, crear entre os escolares, uma mentalidade trabalhista e mais compativel com as necessidades do povo e do Estado”. (Jornal “A União”, 23/04/1934, p.1)

Nesse sentido, a Paraíba esteve no “roteiro” das grandes jornadas, no sentido de difundir os ideais ruralistas, a partir da constituição de uma “grande marcha” que havia tomado contornos mais fortes no Estado de São Paulo. No entanto, no ano de 1937, em João Pessoa, foram realizadas “palestras” que se seguiu para a cidade de Areia. Nessa última foram saudados “os primeiros técnicos formados pelo Instituto de Agronomia do Nordeste. (MONARCHA, 2007).

Esses clubes, em seu aspecto mais amplo, tinham por finalidade suscitar e desenvolver na infância o gosto pela agricultura em seus mais variados aspectos, como a floricultura, a apicultura, a pomicultura, a avicultura, a silvicultura, a sericultura, a pecuária entre outros, e visavam, especialmente, a cooperação, à medida que todos os associados trabalhariam para um mesmo fim, auxiliando-se mutuamente.

Os referidos clubes por sua vez apresentavam três princípios básicos: a eficiência, a seleção e o destino. A “eficiência”: todos os trabalhos deveriam seguir uma orientação técnica e eficiente; a “seleção: toda a criação ou plantação seriam feitas com espécies selecionadas; o Destino, porque todos os produtos deveriam abastecer, inicialmente, o mercado local, ou seja, dinamizaria a economia e a sociedade passaria a ter produtos de melhor qualidade e preços mais acessíveis.

Esses princípios eram fundamentais para a construção de um perfil de ‘aluno-cidadão-produtivo’ preocupado com a melhoria da qualidade de mercadorias que futuramente viessem a produzir no meio rural.

Outro aspecto relevante é que esses clubes também serviriam para aproximar pais e professores, para que houvesse uma maior relação entre escola e família, conforme passou a defender de forma mais veemente e sistemática Sizenando Costa em seu livro A Escola Rural, publicado, em 1941. Vejamos:
As instituições per e intra escolares, tais como os “círculos de pais e mestres”, as cooperativas e os clubes agrícolas etc., concorrerão para que, num trato direto entre professores e pais de alunos, mais profundamente se vincule a escola à família, e a organização do trabalho, pelas novas idéias, veiculadas pelas crianças e recebidas diretamente pelos pais, terá que sofrer uma remodelação completa, refletindo-se beneficamente na fortuna particular e consequentemente na pública. (COSTA, 1941, p. 18)
Percebemos, portanto, que esses clubes estavam também ligados aos interesses do povo, pois uma vez incorporados pela comunidade local, estaria refletindo seus ideais tanto na vida social quanto econômica das famílias e, conseqüentemente, do estado. Era uma forma de gerir uma nova fonte de renda para todos os envolvidos e, ao mesmo tempo, de estreitar o envolvimento entre pais e professores, contribuindo diretamente a para a melhoria da qualidade do ensino rural.

No entanto, para que essas relações acontecessem era preciso formar Clubes Agrícolas Escolares dentro dos padrões exigidos, para isso era sugerido tanto pelos dirigentes da instrução pública quanto pelos membros da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres que houvesse uma diretoria composta de presidente, vice-presidente, secretário, zeladores e diretor(a), esta podendo ser a professor(a) do grupo, da escola ou da classe.

Caberia ao diretor(a) orientar os trabalhos do Clube; aos zeladores, visitar as plantações ou criações, a fim de acompanhar os seus desenvolvimentos.

É interessante salientar que a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres fornecia, gratuitamente, aos Clubes sementes, mudas, cadernos, além de aparelhagens, (recursos didáticos) necessários para o seu melhor funcionamento.

A referida Sociedade, também premiava com dinheiro as janelas das escolas ou dos grupos escolares mais bem floridos, chegando ao valor de até 100$000.

As atividades realizadas pelos associados compreendiam desde o aprendizado de reflorestamento, incluindo a criação de hortas e pomares nas escolas, as quais, posteriormente, forneceriam alimentos aos próprios alunos. Aprendiam como criar e cuidar de abelhas, bichos-da-seda e de aves. Produziam belíssimos jardins aonde funcionavam os Clubes, tudo isso feito a partir de um trabalho cooperativo entre professores e alunos, exercitando assim a troca mútua de conhecimentos.

Weschenfelder (2007), ao analisar a constituição dos clubes agrícolas do Rio Grande do Sul, destaca que do ponto de vista didático eles
“eram assinaladas como processo integrado na própria aprendizagem as atividades agrícolas que serviriam como campo de observação e experiência para vitalizar o ensino e objetivá-lo.

As crianças também deveriam alcançar certos objetivos por meio de ações pedagógicas específicas para aprender a transformar a si mesmo e ao mundo em sua volta.” (p. 241)


Todos esses fatores aqui apontados fizeram com que os Clubes Agrícolas Escolares obtivessem sucesso crescente a cada nova iniciativa orientada pelos seus organizadores. Tal sucesso levou a na criação da Federação Brasileira dos Clubes Agrícolas da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres. Para o funcionamento dessa Federação eram designados delegados representantes de cada estado, a fim de proporcionar uma maior organicidade ao trabalho que estava sendo desenvolvido em quase todo o país.

Na Paraíba, tivemos como representantes, inicialmente o Dr. Diogenes Caldas e em seguida o Dr. João Maurício (1934), ambos conhecidos no estado pelos seus trabalhos frente às atividades agrícolas. Na gestão do Dr. João Maurício houve a união da classe agronômica instalando uma Diretoria Técnica de Clubes Agrícolas da Paraíba, a partir dessa iniciativa a inspetoria paraibana começou a organizar vários Clubes Agrícolas, tendo como pioneiro o Clube Escolar 5 de Agosto, fundado pela iniciativa da Sra. Naide Martins Ribeiro, que funcionou anexo ao Instituto 5 de Agosto.

Os associados desse primeiro clube se compromissaram com a cultura de diversas hortaliças, bem como da criação de galinhas e o preparo de viveiros de sementes de Tucum, Ipê Caboclo, Flamboyant, Seringueira, entre outros.

A criação desse clube foi um grande incentivo para que muitos outros fossem surgindo, dentre eles destacamos: o Clube Agrícola Escolar Arruda Câmara, anexo ao Curso Môdelo e ao Jardim de Infância, o Clube Agrícola Escolar “Antonio Pessôa”, anexo ao Grupo Escolar “Antonio Pessôa”, este merecendo destaque, pois na data de sua inauguração 260 alunos compareceram à Fazenda Simões Lopes, onde assistiram a um trabalho de aradura e gradagem do solo. Logo após ouviram uma breve preleção sobre a nomenclatura das máquinas agrícolas utilizadas e a utilização da lavra, estimulando seus alunos a se interessarem por questões agrícolas

Em seguida foram criados os Clubes Agrícolas Escolares “Izabel Maria das Neves”, anexo ao Grupo Escolar “Izabel Maria das Neves”, e o Clube Agrícola Escolar “Monsenhor João Milanez”, vinculado ao Grupo Escolar de mesmo nome, na cidade de Cajazeiras. É importante salientar que em meados de 1934, o Brasil já constava com mais de 400 clubes agrícolas escolares registrados.

O que percebemos tanto nos clubes paraibanos como nos brasileiros é que se pretendia mudar o nosso ensino tão, arraigadamente, tradicional e livresco, incorporando um ensino mais prático, mais técnico e mais próximo da realidade local dos alunos. Um ensino que levasse, ao mesmo tempo, o aluno a querer fixar-se a sua região, e lhe trouxesse condições profissionais, iguais a dos centros urbanos, para que ele tivesse acesso ao mundo do trabalho de forma digna, levando em consideração as suas peculiaridades campesinas. Para a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres a criação dos clubes agrícolas escolares:


Tem causado uma larga repercussão nos meios pedagogicos do país a insistente campanha desta Sociedade por uma reforma radical do ensino que o adapte ás imposições de cada região e ás possibilidades da sua vida economica. Temos demonstrado em sucessivos e copiosos estudos o desastre da nossa escola sem tecnicidade, sem profissão, livresca, desraigadora, verdadeiro canal de exodo, como dizia o nosso patrono, por onde se escoa a mocidade da hinterlandia nacional para o parasitismo das grandes cidades. (Jornal “A União”, 17/04/1934, p.12)
Vemos que toda essa movimentação, refletida aqui pela Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, estava imbuída, a nosso ver, dos ideais da Escola Nova, uma vez que essas experiências buscavam efetivar uma escola mais adaptada ao contexto dos alunos, mais ligada a terra, a qual proporcionasse à criança o saber a partir das experiências, introduzindo-as assim ao universo do trabalho, de maneira a se desvincular mais dos livros, do conhecimento já pronto.

Essas ações criavam estímulos, por meio de uma educação diferenciada, no sentido de afastar as famílias do êxodo rural, melhorando, por conseguinte, tanto os problemas relacionados à permanência da criança na escola em seu meio rural, quanto evitaria o crescimento populacional desordenados nos centros urbanos. Este último aspecto parece ter sido uma das grandes preocupações do “novo governo” que fora implantado pelo Movimento de 1930. Para eles era necessário afastar a miséria do país, fomentando o seu desenvolvimento econômico e conseqüentemente a sua modernização.

Portanto, a implantação desses clubes agrícolas na Paraíba repercutiu não só no campo, mas também na cidade, já que muitos deles foram instalados em grupos escolares sensibilizando muitos alunos sobre uma nova forma de aprender, isto é, de forma mais ativa e com responsabilidade.

Assim podemos concluir, mesmo que provisoriamente, que a implantação de escolas profissionalizantes agrícolas as escolas rurais e os clubes agrícolas escolares se constituíram importantes ações educacionais que visaram não somente contribuir para a diminuição dos índices de analfabetismo, mas concomitantemente, o de reelaborar uma cultura em que favorecesse a fixação do homem no campo mais preparado técnico e intelectualmente e conseqüentemente mais apto para atender as demandas oriundas do mercado e do próprio sistema capitalista.


4- Referências:

BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, em 1934.

COSTA, Sizenando. A Escola Rural. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1941.

FERNANDES, Flávio Sátiro. História Constitucional da Paraíba. João Pessoa, 1985.

GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura 9ª ed. (Tradução: Carlos Nelson Coutinho) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.

MANIFESTO DOS PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA, Anexo em GHIRALDELLI Jr., Paulo. História da Educação. São Paulo: Cortez, 2. Ed., 1994.

MONARCHA, Carlos. Cânon da reflexão ruralista no Brasil: Sud Mennucci. In: WERLE, Flávia Obino Corrêa (org). Educação rural em perspectiva internacional: instituições, práticas e formação do professor. Ijuí, RS: Unijuí, 2007

PARAÍBA, Estado da. Jornal “A União”, 1934 e 1935.

THOMPSON, E. P. a Miséria da teoria: ou um planetário de erros (uma crítica ao pensamento de Althusser). Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1981.

WESCHENFELDER, Noeli Valentina. A docência e as instituições escolares: pautas das políticas culturais para a educação rural. In: WERLE, Flávia Obino Corrêa (org). Educação rural em perspectiva internacional: instituições, práticas e formação do professor. Ijuí, RS: Unijuí, 2007.



1 A Sociedade dos Amigos de Alberto Torres foi criada em 10 de novembro de 1932, onde se ocupava de comentar a obra do patrono, Alberto Torres, publicando livros, periódicos, realizando e patrocinando eventos de caráter “ruralista” no país. Alberto Torres era um intelectual do pensamento autoritário de maior expressão política no período anterior à década de 1930. Sua atividade iniciou-se na militância republicana na virada do século XIX para o XX. Influenciado pelo pensamento positivista, suas concepções de sociedade e organização nacional eram determinados pela noção de ordem. O progresso vinculado a ordem foi embasamento chave na sua produção teórica levando-o a defendê-la e organizá-la em torno de temas como nacionalismo e anti-imperialismo.


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