Os (des)caminhos do você: uma análise sobre a variação e mudança na forma, na função e na referência do pronome você



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OS (DES)CAMINHOS DO VOCÊ:

uma análise sobre a variação e mudança na forma, na

função e na referência do pronome você

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS

ÁREA DE CONCENTRAÇÀO LINGUÍSTICA E LINGUA PORTUGUESA



OS (DES)CAMINHOS DO VOCÊ:

uma análise sobre a variação e mudança na forma, na

função e na referência do pronome você

Por
VALÉRIA VIANA SOUSA

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras, Área de Concentração: Linguística e Língua Portuguesa, da Universidade Federal da Paraíba, como requisito para a obtenção do Título de Doutor em Letras.
Orientadora: Profa. Dra. Maria Elizabeth Afonso Christiano
Co-orientador: Prof.Dr. Dermeval da Hoa

Oliveira
JOÃO PESSOA

2008

VALÉRIA VIANA SOUSA



OS (DES)CAMINHOS DO VOCÊ:

uma análise sociofuncional sobre o pronome você

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________________

Profa. Dra. Maria Elizabeth Afonso Christiano (UFPB)

(Orientadora)

_____________________________________________________

Prof. Dr. Dermeval da Hora Oliveira(UFPB)

(Co-orientador)
_____________________________________________________

Profa. Dra. Maria Cristina de Assis Fonseca (UFPB)

(Examinadora)
_____________________________________________________

Prof. Dr. Camilo Rosa Silva(UFRN)

(Examinador)
_____________________________________________________

Prof. Dr. Aloísio de Medeiro Dantas (UFPB)

(Examinador)
_____________________________________________________

Prof. Dr. Márcio Martins Leitão(UFPB)

(Suplente)
____________________________________________________

Profa. Dra. Maura Regina S. Dourado(UFRN)

(Suplente)

À minha família,

que sempre achei que “fez a pós-graduação comigo”, sendo sacrificada, adiada, embora a todo tempo eu fizesse uma busca vã e tentasse conciliar ser filha, mãe, companheira e, sobretudo, ser bipresente;


Aos meus pais,

Tina e Souza, por toda a minha história de vida possibilitada por eles, pela construção do ser que sou;


Às minhas filhas Lua e Mar,

duas figurinhas que cresceram junto com as idéias dessa tese, estimulando-me desde o início com perguntas linguisticamente surpreendentes e compreendendo a ausência e a “pseudopresença” da mãe durante esses anos;


Ao meu companheiro Gildelson,

que aprendeu a lançar o seu olhar sobre o você e a ser pai / mãe simultaneamente.




AGRADECIMENTOS

A viagem.

É chegada a hora de aportar em um terno canto e realizar os agradecimentos. São muitos e, profundamente, sentidos.

Os caminhos.

Os descaminhos.

Os percursos, por vezes, largos;

por vezes, estreitos;

por vezes, íngremes;

por vezes, dúbios;

por vezes, intercruzados;

por vezes, com inúmeros caminhos e,

por vezes, sem aparentes saídas.

Uma longa jornada...

de estradas prazerosas, mas também de estradas acidentadas. No meio do caminho, encontrei, contudo, “seres” que aliviaram e contribuíram com essa viagem, tornando-a mais prazerosa e iluminando os meus caminhos.


O meu agradecimento carinhoso aos amigos e colegas do lado de cá, da Paraíba: a Cida, meu anjo; a Cida Lima e a Neide, grandes amigas de longas conversas acadêmicas e pessoais; a Rose, a minha irmã paraibana; a Telminha, um aconchego em tantos momentos; a Leilane, uma companheira de vivências; a Mag, um amigo luz que a vida me presenteou; a Alessandra, a Ana Clarissa, a Sílvia, a André, sempre tão amigos e tão especiais.

O meu agradecimento aos amigos e colegas do lado de lá, sempre colo, sempre ombro, Cida, Gorette, Luzimare, Zoraide e a Paulo, meu irmão, Eliana e Lavínia, sempre presentes em minha vida.

O meu agradecimento também à turma do VALPB e à turma do VARSUL, às professoras Edair Gorski e Izete Lemkull, aos amigos Marco Antônio e Iva;

O meu agradecimento aos que fizeram parte da construção do meu conhecimento: aos professores que me orientaram durante as disciplinas, Lucienne Espíndola, Maura Regina Dourado, Mônica Nóbrega, Cristina Assis; aos professores que me ensinaram em outros espaços informais, como Ana Cristina Aldrigue, Eliana Ferraz; a Dermeval da Hora, pela amizade e incentivo, pelas palavras sábias e pela rapidez das idéias sociolinguísticas. E, em especial, à Beth Christiano, pela compreensão e tolerância quase “sobre-humana” de entender os meus momentos e pela sua contribuição aos meus estudos.

Os meus agradecimentos às instituições que viabilizaram a pesquisa: ao Departamento de Estudos Linguísticos e Literários (DELL) e Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) pela liberação e apoio à pós-graduação; em especial, à Área de Linguística e Língua Portuguesa (ALPL), pela compreensão e respeito ao meu momento de estudo; À FAPESB, pela ajuda financeira que possibilitou a realização dessa pesquisa;

Ao Ser que me iluminou cada dia, me trouxe forças e me mostrou que um longo caminho só é possível a partir dos primeiros passos.

De coração, a todos que se inscreveram nessa minha vivência, por terem transformado a minha jornada solitária em uma jornada solidária, por terem retirado pedras e colocado flores em tantos momentos, por terem minimizado a extensão desse caminho,

o meu muito obrigada!




RESUMO
Esta pesquisa consiste em um estudo que teve como objetivo discutir a referencialidade provocada pelo pronome você. Para isso, iniciamos o nosso texto com a história do pronome você, mostrando a origem desse pronome na locução nominal Vossa Mercê e o seu extensivo uso na atualidade, sobretudo em meios midiáticos. Em seguida, apresentamos uma discussão teórica, composta por estudos sociolinguísticos labovianos que nortearam a análise das nossas variáveis sociais; por estudos funcionais norte-americanos sobre a gramaticalização, que nos forneceram subsídios para compreender os motivos linguísticos que provocaram a mudança da forma Vossa Mercê para a forma você; por estudos de referencialidade, que nos permitiram refletir sobre os sentidos e valores provocados pelo você no ato discursivo e, ainda, por um estudo no qual esboçamos um contraste entre a compreensão da gramática tradicional e da gramática funcional sobre as classes gramaticais e as nuances e alterações sofridas pelos itens que a compõem. Examinamos, a partir dessas correntes teóricas, o pronome você no corpus de Variação Linguística da Paraíba (VALPB). Foram analisadas 60 entrevistas, nas quais localizamos 2004 ocorrências, sendo 944 femininas e 1060 masculinas, distribuídas em três faixas etárias (15 a 25 anos, 26 a 50 anos, mais de 50 anos) e em cinco níveis de escolarização (sem nenhuma escolarização, 1 a 4 anos de escolarização, 5 a 8 anos de escolarização, 9 a 11 anos de escolarização e mais de 11 anos de escolarização). Interessou-nos saber se os falantes paraibanos usam outras referencialidades do pronome você, quais são essas e qual é o perfil sociolinguístico do falante que usa uma ou outra forma. A partir desses resultados, propomos a discussão sobre o pronome você no espaço escolar. Os nossos resultados apresentaram que o uso do você com a referencialidade genérica e do você com a referencialidade em P1 ocupou 57, 1% nas entrevistas femininas e 66, 7% nas entrevistas masculinas. A tese defendida, então, é de que, na atualidade, tomando como mostra o corpus do VALPB, o pronome você é mais utilizado com outras referencias do que com a referência canônica, única reconhecida pela tradição gramatical. A presente pesquisa conta com o financiamento da FAPESB e com o apoio da UESB.
Palavras-chave: Sociolinguística. Funcionalismo. Gramaticalização. Referencialização. Pronome Você.

ABSTRACT
This research consists of a study that had as objective discusses the referencialidade provoked by the pronoun you. For that, we began our text with the history of the pronoun you, showing the origin of that pronoun in the nominal locution Your Favor and his/her extensive one uses at the present time, above all in means midiáticos. Soon afterwards, we presented a theoretical discussion, composed by studies sociolinguísticos labovianos that orientated the analysis of our social variables; for North American functional studies on the gramaticalização, that supplied us subsidies to understand the linguistic reasons that you/they provoked the change of Your form Favor for the form you; for referencialidade studies, that allowed to contemplate on us the senses and values provoked by the you in the discursive action and, still, for a study in which we sketched a contrast among the understanding of the traditional grammar and of the functional grammar about the grammatical classes and the nuances and suffered alterations for the items that compose her. We examined, starting from those theoretical currents, the pronoun you in the corpus of Linguistic Variation of Paraíba (VALPB). 60 interviews were analyzed, in which we located 2004 occurrences, being 944 feminine and 1060 masculine, distributed in three age groups (15 to 25 years, 26 to 50 years, more than 50 years) and in five education levels (without any education, 1 to 4 years of education, 5 to 8 years of education, 9 to 11 years of education and more than 11 years of education). it Interested in the knowledge if the speakers paraibanos use other referencialidades of the pronoun you, which you/they are those and which is the speaker's profile sociolinguístico that uses an or other form. To leave of those results, we propose the discussion on the pronoun you in the school space. Our results presented that the use of the you with the generic referencialidade and of the you with the referencialidade in P1 occupied 57, 1% in the feminine interviews and 66, 7% in the masculine interviews. The protected theory, then, is that, at the present time, taking as display the corpus of VALPB, the pronoun you are more used with other references than with the reference canonical, only recognized by the grammatical tradition. To present he/she researches bill with the financing of FAPESB and with the support of UESB.

Keyword: Sociolinguistic. Funccional. Gramaticalizacion. Referecializacion. Pronoum You.

LISTA DE FIGURAS



Eu escrevo ésta Gramática pera ti. 115

LISTA DE QUADROS


Quadro - Tipos Textuais segundo Werlich (1973). Error: Reference source not found

LISTA DE TABELAS


CARACTERÍSTICAS PESSOAIS DOS FALANTES



Identificação

Sexo

Anos de escolarização

Faixa etária

AFD

M

nenhum ano

15 a 25 anos

AJM

M

nenhum ano

mais de 50 anos

ALA

M

mais de 11 anos

26 a 49 anos

ASF

M

1 a 4 anos

mais de 50 anos

ASS

M

5 a 8 anos

mais de 50 anos

EEL

M

9 a 11 anos

26 a 49 anos

FP

M

mais de 11 anos

15 a 25 anos

FS

M

1 a 4 anos

15 a 25 anos

GG

M

9 a 11 anos

26 a 49 anos

GHS

M

5 a 8 anos

15 a 25 anos

GLX

M

1 a 4 anos

mais de 50 anos

GSN

M

5 a 8 anos

15 a 25 anos

HBC

M

9 a 11 anos

15 a 25 anos

JJS

M

9 a 11 anos

mais de 50 anos

JM

M

nenhum ano

26 a 49 anos

JN

M

1 a 4 anos

15 a 25 anos

JS

M

nenhum ano

26 a 49 anos

JS

M

5 a 8 anos

26 a 49 anos

LGP

M

5 a 8 anos

26 a 49 anos

LGP

M

mais de 11 anos

mais de 50 anos

MCC

M

9 a 11 anos

mais de 50 anos

MV

M

mais de 11 anos

15 a 25 anos

NP

M

1 a 4 anos

26 a 49 anos

NPL

M

1 a 4 anos

26 a 49 anos

RRB

M

5 a 8 anos

mais de 50 anos

RVA

M

mais de 11 anos

26 a 49 anos

SVS

M

nenhum ano

15 a 25 anos

VLF

M

9 a 11 anos

15 a 25 anos

WAC

M

nenhum ano

mais de 50 anos

WL

M

mais de 11 anos

mais de 50 anos

AAM

F

mais de 11 anos

mais de 50 anos

AHS

F

9 a 11 anos

15 a 25 anos

CP

F

9 a 11 anos

mais de 50 anos

DPQ

F

nenhum ano

15 a 25 anos

EBC

F

9 a 11 anos

mais de 50 anos

EFS

F

1 a 4 anos

15 a 25 anos

GPS

F

5 a 8 anos

mais de 50 anos

GSF

F

5 a 8 anos

15 a 25 anos

HMG

F

1 a 4 anos

mais de 50 anos

IFS

F

5 a 8 anos

mais de 50 anos

IMS

F

nenhum ano

26 a 49 anos

JAS

F

1 a 4 anos

15 a 25 anos

JNA

F

mais de 11 anos

26 a 49 anos

JPS

F

1 a 4 anos

26 a 49 anos

JRM

F

nenhum ano

mais de 50 anos

LS

F

9 a 11 anos

26 a 49 anos

MGI

F

nenhum ano

15 a 25 anos

MJC

F

5 a 8 anos

26 a 49 anos

MJS

F

nenhum ano

mais de 50 anos

MLT

F

5 a 8 anos

15 a 25 anos

PAM

F

mais de 11 anos

15 a 25 anos

RAM

F

5 a 8 anos

26 a 49 anos

RCR

F

mais de 11 anos

mais de 50 anos

RTO

F

mais de 11 anos

26 a 49 anos

SCP

F

9 a 11 anos

15 a 25 anos

SMS

F

nenhum ano

26 a 49 anos

TCS

F

1 a 4 anos

26 a 49 anos

TOS

F

1 a 4 anos

mais de 50 anos

VDN

F

mais de 11 anos

15 a 25 anos

VEF

F

9 a 11 anos

26 a 49 anos

SUMÁRIO


Eu escrevo ésta Gramática pera ti. 115

Primeiro momento...
Fui abordada por minha filha, em uma de muitas perguntas do seu repertório infantil, e, ao tentar respondê-la ou, minimamente, tentar satisfazer a sua abordagem, ela interveio, dizendo: - Você fala você, mas eu nunca faço isso!!!

Observei, nessa nesga de instante, que ela tinha apresentado para mim possibilidades do você que, embora eu realizasse, não me dava conta de tal uso.

Pouco tempo depois, Luís Inácio Lula da Silva é eleito presidente e é convidado para uma entrevista nos meios televisivos. O repórter o questionou sobre as mudanças de estratégias na atual campanha e o comportamento de aceitação ou não dos correligionários diante desse novo formato do candidato. Lula, ao responder, disse - Sabe quando você é candidato pela quarta vez (...).

Nesse momento, o meu tempo parou. Novamente, o meu olhar tinha sido lançado para a observação de ampliação do sentido do pronome você. Devorei gramáticas a fim de verificar o que diziam a respeito. Fui a Câmara Jr., também nessa tentativa de satisfazer o que, por hora, inquietava-me: Quem é, de fato, você?



Segundo momento...

Não tendo encontrado resposta que saciasse a minha necessidade, recorri às teorias linguísticas.

Fui absorvendo estudos sociolinguísticos, sobre variação e mudança de formas linguísticas; idéias funcionais, sobre a gramaticalização que itens lexicais sofrem; concepções de referenciação, sobre a constituição dos signos linguísticos. E, assim, fui delineando Alguns caminhos com você...

Terceiro momento...

Feita a abordagem teórica, realizada a análise de dados, percebi a necessidade de historiar o pronome você e de observá-lo como recurso na atualidade. Não me contive e propus essa discussão ao espaço escolar. Nesse instante, senti que o você perpassa não apenas por caminhos, mas também existem Os (des) caminhos do você.

E conhecer esses (des) caminhos do você é o meu convite a você, leitor, nesse momento...


CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Esse caminho não-linear, irregular e acidentado chamado língua (gem) sempre foi permeado por fenômenos de variação e mudança. No entanto, nem sempre essa perspectiva foi consensual nos estudos linguísticos.

Na escola estruturalista, Ferdinand Saussure postulava a língua como um sistema regido por leis próprias e dotado de homogeneidade. Para esse teórico, a língua constituía uma instituição supra-individual da qual os indivíduos não participavam efetivamente. Nesse sentido, toda variação representava um fato idiossincrático e disfuncional. Na escola gerativista, os estudos chomskyanos sobre a competência e o desempenho foram enfatizados, e a fala e as suas variações individuais ou coletivas foram, por sua vez, consideradas como resultado de misturas dialetais ou variações livres e, dessa forma, novamente, ocuparam a posição periférica dos estudos linguísticos.

Em algumas escolas, como a dos neogramáticos e a dos funcionalistas, encontramos nuances que orientam uma suposta credibilidade na variação e mudança linguística. Mas, apenas com William Labov, na década de 60, é posta concretamente a impossibilidade de se estudar a língua isentando-a das relações com o sujeito e, consequentemente, das relações de ordem social. Assim, a língua passa a ser concebida como heterogênea, tendo em vista que reflete a variabilidade social e as diferenças no uso das variantes linguísticas que, por sua vez, correspondem às diversidades dos grupos sociais.

Nessa pesquisa, atentos ao fenômeno de mudança linguística, elegemos como objeto de estudo: o pronome você.

O você teve a sua origem primeira no item linguístico mercê, que significava uma solicitação ou uma generosidade concedida pela figura real. Era comum, em meados dos séculos XIII, os súditos solicitarem a mercê ou agradecerem a mercê concedida pelo soberano. Com as mudanças sócio-econômicas em Portugal e, por conseguinte, nas classes sociais, fez-se urgente a necessidade de uma forma que fosse digna de referência ao Rei. Assim surgiu a locução nominal Vossa Mercê no século XV substituindo o pronome vós como referência real. Amplamente utilizada, logo passou a referir-se também a outras funções na Corte e foi transformada pela “boca do povo” em vossemecê, vosmecê e, entre outras, na forma pronominal você.

Na atualidade, o você é amplamente utilizado como pronome pessoal do caso reto e está totalmente integrado ao sistema de pronomes pessoais, ocupando reconhecidamente o lugar de segunda pessoa na maior parte do Brasil, embora seja ainda classificado, na maioria dos compêndios gramaticais e escolares, como pronome pessoal de tratamento, herança da sua forma primeira, circunscrito ao tratamento familiar e íntimo.

Nesse estudo, em específico, ressaltamos o emprego do você na interlocução e, assim, apresentamos este pronome com outros valores além da referência à segunda pessoa, função P2 (Utilizamos para essa análise a categorização realizada por Câmara Jr. (2006), na qual são seis as pessoas pronominais: P1 - primeira pessoa do singular, P2 - segunda pessoa do singular, P3 - terceira pessoa do singular, P4 - primeira pessoa do plural, P5 - segunda pessoa do plural, P6 - terceira pessoa do plural). Através de análise de excertos de fala, constatamos o uso desse pronome, por vezes, como primeira pessoa, quando o falante, ao usar essa forma, faz referência a si próprio, função P1; e como genérico, quando o falante refere-se a um grupo maior de pessoas que compartilham de idênticas condições que as mencionadas por ele.

As hipóteses que nortearam a nossa pesquisa foram que:

O pronome você sofreu um processo de gramaticalização, no qual o item linguístico mercê transformou-se na locução nominal vossa mercê e esta no pronome você;

O pronome você, na atualidade, exerce a função de pronome pessoal do caso reto, embora, nos compêndios gramaticais, continue a ser classificado como pronome pessoal de tratamento;

O pronome você sofreu um processo de ampliação semântica no evento discursivo e tem sido utilizado com outras referências além da função P2;

O pronome você como P1 e como genérico são motivados por textos argumentativos e o pronome você P2 por textos narrativos.

Para nós, a língua (gem) é um complexo totalitário do ser, que dizendo, redizendo ou não-dizendo, se constrói-se a partir dela, com e por ela. A língua (gem), em sua essência, é síntese. É antítese e é tese. É significado, é significante e é mais, é também referente. É o momento, a sincronia, e o somatório de momentos, a diacronia. É paradigma e é sintagma. É forma e é função. Constitui-se na regularidade da língua e na irregularidade da fala também. Revela-se quando é marcada, mas também quando está na condição de não-marcada. É presença e, ao mesmo tempo, ausência de traços. É o produto da gramática e é o processo da gramaticalização. É objeto do mundo, mas é sobretudo objeto do discurso.

Com esse sentimento de união de valores dialéticos para a melhor apreensão do todo, o nosso propósito, neste estudo, é discutir a variação e a mudança linguística do pronome você, observando a construção e transformação, realizadas pelos falantes, da forma, da função e da referência desse pronome. Para tanto, estruturamos o nosso trabalho em cinco seções, que são introduzidas por essas Considerações Iniciais, a saber:

A seção I, A história do você, é o nosso ponto de partida. Consideramos importante a caracterização do percurso histórico desse pronome, tendo em vista que, a partir dele, delineamos a origem do pronome você, buscando a sua forma primeira no item linguístico mercê e, em seguida, na locução nominal Vossa Mercê. Esboçamos, nessa seção, o você nos tempos de outrora, através de um corpus de documentos antigos , e o você, nos tempos de agora, através de um corpus de mensagens veiculadas no suporte outdoor. Foi a nossa intenção, nesse instante, revelar o você em sincronias distintas e, por esse viés, explicitar o quanto os aspectos sociais se encontram refletidos nos elementos linguísticos.

Na seção II, Alguns caminhos com você, temos um bloco teórico, formado por quatro subseções, nas quais realizamos uma revisão de literatura com os pressupostos teóricos adotados. Sempre que possível, estabelecemos um diálogo entre a teoria e o nosso objeto de estudo.

Iniciamos esse aporte com Nos caminhos da sociolinguística. Neste, historiamos sucintamente os primeiros estudos linguísticos e mostramos o surgimento da sociolinguística. São introduzidas, então, questões que versam sobre a variação e a mudança linguística e apresentamos os princípios e problemas dessa teoria, segundo a ótica da sociolinguística laboviana. Interessou-nos, em especial, evidenciar que o fenômeno da mudança linguística é inerente às questões da língua, focalizar a variação e a mudança da forma e compreender a importância do estabelecimento da correlação entre as variáveis linguísticas e extralinguísticas. Nesse momento, pretendíamos buscar subsídios que corroborassem para a resposta sobre qual é o perfil social do falante que utiliza o você com um ou outro valor.

Em seguida, Nos caminhos da Gramaticalização, situamos os estudos funcionalistas da língua. Fundamentados nos estudos norte-americanos, discutimos aspectos sobre a variação e a mudança linguística, agora focalizados na função que a forma lexical assume no ato discursivo. Expomos a gramaticalização, algumas propostas de estágios desse percurso e mostramos como o item linguístico Mercê passou à condição de locução nominal Vossa Mercê e, depois, à condição de pronome você.

Nos caminhos da Referenciação buscamos a teoria do signo linguístico, bem como concepções e discussões sobre significado, significante e referente. Travamos ainda um diálogo entre referência e referenciação e entre objetos do mundo e objetos do discurso. Utilizamos, entre outras, as contribuições suíças de Saussure e de Lorenza Mondada. Pretendíamos, nesse momento, colher material para uma melhor compreensão dos motivos que levam um significante linguístico com um determinado significado a metamorfosear-se em outros significados, assim como ocorreu com o pronome você que, sofrendo uma ampliação semântica, tem o seu uso como a função de interlocutor, mas também com a função de primeira pessoa e com a função genérica.

Terminamos esse bloco teórico com O pronome você nas veredas das gramáticas tradicional e funcional, nessa nesga de tempo, situamos o você morfologicamente e mostramos, por um lado , a rigidez da taxonomia das classes gramaticais e , por outro, o trato funcional dessa questão, através da teoria dos protótipos, que traz a noção dos tênues limites que demarcam as categorias gramaticais. Apresentamos os atributos de pessoalidade, de gênero e de número dos pronomes pessoais do caso reto e propomos um diálogo entre a gramática tradicional e a gramática funcional acerca do tema em estudo.

Na seção III, Metodologia e estruturação das variáveis e análise de dados, trazemos o corpus do nosso trabalho, sessenta entrevistas que se encontram transcritas no Projeto de Variação Linguística da Paraíba – VALPB , e apresentamos a metodologia adotada na análise, a seleção e estruturação das variáveis. Nas entrevistas, selecionamos os itens você encontrados, um total de duas mil e quatro (2004) ocorrências. Correlacionamos o fenômeno linguístico do você como primeira pessoa, como segunda pessoa e como genérico às variáveis linguísticas associadas ao estilo e ao discurso (variável referência semântica do sujeito, variável tipo textual, variável tipo de interlocução) e às variáveis extralinguísticas sexo/gênero (masculino e feminino), faixa etária (15 a 25 anos, 26 a 49 anos e mais de 50 anos) e grau de escolaridade (nenhum ano de escolarização, 1 a 4 anos de escolarização, 5 a 8 anos de escolarização, 9 a 11 anos de escolarização e mais de 11 anos de escolarização) . Por fim, apresentamos os dados quantitativos encontrados mensurados e avaliados/analisados qualitativamente.

Na seção IV, Depois de muitos caminhos, uma ponte, discorremos sobre os termos gramática, norma e livro didático, a fim de apresentarmos uma discussão das referencialidades do pronome você no espaço escolar. É nosso desejo, nesse momento, estabelecer uma linha de comunicação (uma ponte) entre o que foi evidenciado sobre o pronome você no decorrer da tese e a maneira como esse pronome é ensinado na escola e, dessa forma, provocar uma reflexão sobre o ensino da língua.

Na seção V, Uns desvios no caminho estabelecido: ocê e cê, mostramos sucintamente, algumas ocorrências dessas formas reduzidas do você e uma possibilidade de clitização do , ancorados teoricamente em Kato et al (1996), em Vitral (1996, 1999) e Vitral e Ramos (1999).

Por fim, as considerações finais, momento no qual, retomando as hipóteses apresentadas inicialmente, estabelecemos um fio condutor com os resultados obtidos e ratificamos a tese de que o pronome você com outras referencialidades tem sido mais usado do que o pronome você como segunda pessoa.



1 A HISTÓRIA DO VOCÊ
Desejando analisar mais detalhadamente o nosso objeto de estudo, o pronome você, entendemos que seja necessário, em princípio, tecer algumas considerações acerca de sua história. Através desse estudo diacrônico, pretendemos situar a mudança social que implicou a mudança linguística ocorrida nessa forma antes nominal e agora pronominal.

Propomo-nos, então, observando a evolução da forma de tratamento Vossa Mercê, entender melhor o nosso ponto de chegada, o pronome você. Para isso, entrecruzaremos a história social e a história linguística do pronome, mostrando, em excertos de documentos e cartas, que as repercussões linguísticas foram oriundas de influências sociais e de desejos refletidos no seio de uma comunidade. Desta maneira, produzimos a subseção você nos tempos de outrora.

Em seguida, focalizamos o pronome você na atualidade. Observamos, então, que esse pronome destaca-se como o mais produtivo, sobretudo em meios midiáticos, e, com essa perspectiva de análise, compomos o subseção você nos tempos de agora.

Como aponta Faraco (1996, p. 52), “as mudanças nas formas de tratamento estão correlacionadas com as mudanças nas relações sociais e valores culturais”, o pronome você não foge a essa regra.

Então, vamos à história!

1.1 A história: via principal ou atalho?
Para o lugar que o vós deixou vago no sistema, apresentou-se o você (...)semelhante pelas origens às referidas fórmulas, mas muito mais evoluído dos pontos de vista semântico e fonético, estava o caminho aberto para a progressiva invasão e expansão (...) (CINTRA, 1986, p. 35).

Ancorados em Nascentes (1956), Cintra (1986), Faraco (1996), teceremos um breve escorço histórico-social a fim de estabelecer uma interface entre história, sociedade e língua.

A economia da Europa Ocidental inaugurou uma nova fase, no século XII, quando aconteceu um crescimento de suas atividades artesanais e comerciais. Como consequência desse momento, houve a concentração da organização econômica nas cidades e a formação de uma nova classe social, a burguesia, que, a partir de então, seria a classe que competiria com a nobreza na disputa pelo poder político e econômico.

Em Portugal, essa mudança sócio-econômica era demonstrada em uma vida de luxo e na penetração da burguesia no espaço da Corte, que, a cada dia, ocupava mais espaço. Em 1254, em função dessa ascensão, a burguesia se encontrava dividindo a representação da Corte, ao lado da nobreza e do clero. Em 1415, o cenário social de Portugal já era outro. Tinha sido transformado em um vasto império da era moderna, fato que foi responsável pela migração de um significativo número de proprietários de terra para Lisboa, recebendo em troca uma renda, denominada moradia, paga pelo governo.

Com esse processo de expansão colonial e o surgimento das novas demandas sociais, os cargos públicos foram multiplicados e distribuídos entre a classe que agora ocupava a nova aristocracia. Somente ligados diretamente ao Rei, como vassalos, existiam duas mil pessoas. Toda essa mudança social não aconteceu isoladamente, implicou mudanças no cenário global. Por conseguinte, essa alteração nas funções sociais fez com que as pessoas mudassem também os seus hábitos na indumentária, na alimentação e, consequentemente, na linguagem.

Portugal vivia um coroado momento histórico. Privilegiado pela riqueza e, assim ,também pelas mudanças sociais. A nobreza, em decadência, cedia espaço à alta burguesia, dando início a uma sociedade aristocrática. Como resultado, as pessoas, em massa, deslocavam-se do campo para a cidade e a estrutura feudal era deixada de lado. Iniciava-se, dessa forma, um caminho rumo a uma burguesia urbana e, dessa maneira, os personagens desse espaço deixavam de ser senhores feudais para serem reis.

Tal transformação exigiu uma reestruturação social e, como as formas de tratamento estão diretamente relacionadas ao uso social, a alteração dessas formas foi inevitável. A desigualdade das classes e dos valores sociais vigentes e a busca de uma nova estabilidade desencadeavam um desequilíbrio linguístico e um rearranjo pronominal.

O Rei, considerado nos tempos da Reconquista, como um chefe militar, a quem cabiam as demandas da corte, assume um outro status, o de ser o detentor do poder absoluto. Em uma sociedade de valores hierárquicos tão arraigados, na qual subjaz a idéia de que devam existir formas específicas de tratamento para cada camada da sociedade, esse novo status reclama uma forma de tratamento diferenciadora e, com isso, a forma pronominal de tratamento vós1 é substituída por não ser mais adequada para a referência real.

Até então, a forma pronominal vós era uma forma amplamente usada. Era a forma eleita pelos reis, rainhas, nobres para o tratamento com os vassalos e, concomitantemente, também era a forma utilizada pelos vassalos para se dirigirem as seus superiores. Além disso, o vós era usado entre os pares eclesiásticos, plebeus e nobres. Mas, como resultado de uma desigualdade social, um desequilíbrio linguístico foi desencadeado e a forma vós, antes usada para fazer referência à figura singular do rei, é substituída por Vossa Mercê, forma que, nesse período, demonstrava ter mais expressividade e dignidade de referência ao Rei.

A utilização de uma ou outra forma de referência nem sempre se deu de maneira tranquila. Observemos:

(1)Como milhor sabe Vossa Alteza que hua das propriedades do magnânimo he querer ante dar que receber (...). e, como quer que em vossos factos se podessem achar cousas assaz dignas de grande honra, de que bem poderees mandar fazer vellume, Vossa Senhoria, husando como verdadeiro magnânimo, a quis antes dar que receber. E tanto he vossa magnanimidade mais grande quanto a cousa dada he mais nobre e mais excellente. Pollo qual, stando Vossa Mercee o anno passado em esta cidade, me dissestes quanto desejavees veer postos em scripto os feitos do Senhor Iffante dom Henrique vosso tyo... (apud CINTRA, 1986, p. 80)

Esse registro, datado em 1453, explicita o convívio de três formas de tratamento distintas: Vossa Alteza, Vossa Senhoria, Vossa Mercê, usadas para referência a uma única pessoa, D. Afonso V. Segundo Cintra (1986, p. 20), ancorado nas atas das Cortes, “Esse momento de convivência de vários tratamentos para a mesma pessoa foi depressa ultrapassado.” Foram, logo, criadas as “pragmáticas” conhecidas por “leis das cortesias”, objetivando prescrever o uso adequado das formas de tratamento, que deveriam ser seguidas por todos que desejavam não incorrer na deselegância de tratar inadequadamente uma pessoa.

As leis de cortesia indicavam que o tratamento para o rei e a rainha devia ser Vossa Majestade; Príncipes, princesas, infantes e parentes do rei deveriam ser tratados por Vossa Alteza; e duques de Bragança, por Vossa Excelência. As formas compostas por Vossa + Nome2 imperavam nesse período e eram dotadas, na sua essência, de um elemento diferenciador das classes sociais.
1.1.1 Você nos tempos de outrora
A expressão Vossa + N, Vossa Mercê, formada pelo pronome possessivo vossa adjungido ao nome mercê, teve a sua origem no item linguístico mercê, sinônimo de graça, de favor, de merecimento, de generosidade. Era comum as pessoas dirigirem-se ao rei e solicitarem a ele a “vossa Mercê”. Com esse uso constante e rotinizado, essa expressão transformou-se na expressão ideal para referi-se ao Rei.

Segundo Nascentes (1956, p. 114-115), há um caráter dúbio no uso do Vossa Mercê. i) Ora esta expressão era marcada pela noção de causa, quando expressava uma estratégia argumentativa utilizada pelos súditos que, ao solicitarem algo ao Rei, apresentavam os requerimentos utilizando o habitual pronome vós, pediam uma graça por mercê e, assim, agregavam este vocábulo ao pronome possessivo em concordância com o pronome utilizado, formando a expressão vossa mercê. Expressão essa “que afagava a vaidade e o amor próprio” do soberano; ii) Ora era marcada pela noção de efeito, quando expressava a recompensa, denominada de mercê ou mercede, que era dada pelos reinantes aos súditos em troca dos serviços prestados. Conforme exemplos que seguem:

(2)Outro sy, Senhor, os vossos Fidalgos e vossos naturaes dos vossos Regnos fazem saber a a Vossa Mercee que elles recebem grande agravo dos Vossos Rendeiros das vossas imposições que vos poedes pela guisa que vossa Mercee he (...) e muitos destes, Senhor, acharedes que mais lhe levam e levaram per esta guisa do que elles ham, nem averam da conthia nem das mercees, que lhes vós fazedes, se vossa Mercee nom for de o temperar dóutra guisa: porque senhor, vos pedem por mercee que vos lembreis delle. (Grifos nossos) (artigos requeridos ao Rei D. João I Nascentes , apud NASCENTES,1956, p. 115)

O período de existência do pronome Vossa Mercê é datado de 1331 a 1481/1482 (SANTOS LUZ, 1958) ou, segundo Cintra (1986), entre 1460 a 1490, quando deixa definitivamente de ser utilizado como forma de referir-se ao Rei. Vossa Mercê vai perdendo a expressividade e tornando-se opaca, à medida que, por força da imposição, os criados e subalternos começam a fazer uso dessa forma para se referirem aos fidalgos. Nascentes (op.cit., p.116) justifica o fato, afirmando que “Vossa Mercê agradava a todo mundo. A classe humilde não tardou a apoderar-se da fórmula nova para uso próprio” .

Ao tempo em que Vossa Mercê vai desaparecendo, outras formas concorrem, neste período, para a ocupação desse lugar, formas como Vossa Alteza e Vossa Senhoria. No final do século XV e início do século XVI, três formas de tratamento formais conviviam, em ordem decrescente de hierarquia, a forma Vossa Senhoria, a forma Vossa Mercê e o vós. A primeira empregada para a aristocracia, a segunda para os demais casos, uma espécie de tratamento de cortesia para os que não tinham senhoria e, por fim, o vós3, usado indiscriminadamente.

Isso significa que, entre os séculos XIV e XVIII, a língua portuguesa não apenas registrou diversas formas de tratamento, mas alterou e muito a sua forma de tratar o interlocutor, saindo do sistema duo de tu/vós e vós para as formas de V+ nome qualitativo (Vossa Mercê, Vossa Senhoria, Vossa Excelência, Vossa Alteza, Vossa Excelência, Vossa Majestade).

Essa época de ampliação e generalização do Vossa Mercê e, consequentemente, simplificação fonética, em Portugal, culmina com a época na qual os portugueses vieram para o Brasil como colonos, na segunda metade do século XVI. Nesse século, com a massiva migração dos portugueses para o Brasil, os seus hábitos linguísticos, como sabemos, também invadiram o repertório linguístico dos nossos nativos. Tal processo de transformação ocorrido de Vossa Mercê > você não se deu de forma isolada, mas é perceptível que, ao tempo em que se configurava a mudança social, ocorriam também mudanças linguísticas. Por essa razão, esse fenômeno é considerado como o resultado de uma mudança encaixada linguística e socialmente.

Vejamos, a título de exemplo, a Carta de Pero Vaz de Caminha que se refere ao Rei através da forma Vossa Alteza.


(3)E neesta maneira Senhor dou aquy avossa alteza doque neesta vossa terra vy ese aalguu pouco alomguey, ela me perdoe, cao desejo que tijnha de vos tudo dizer mo fez asy poer pelo meudo. E pois que Senhor he ceroi substituído to que asy neeste careguo que leuo como em outra qualquer coussa que de vosso seruiço for uosa alteza há de seer de mym mujto bem seruida, a ela peço que por me fazer simgular mercee mãde vijr dajlha de sam thomee jorge dosoiro meu jenrro, o que dela rreceberey em mujta mercee. ( Carta a El Rei D. Manuel.)

É interessante observar que, na Carta de Caminha, a forma Vossa Mercê não mais é usada como tratamento real, sendo substituída por outra forma Vossa + N , nesse caso, Vossa Alteza; o pronome vós continua sendo usado como referência formal a um indivíduo e a forma pronominal vossa sobrevive com seu antigo valor.

Faraco (1996, p. 32), comentando sobre a ampla expansão do uso da forma Vossa Mercê, observa que esse fato aconteceu em duas direções: uma, na qual a forma manteve-se conservada e, a outra, na qual a forma sofreu perda de massa fônica.

De um lado, ela manteve sua integridade formal e seu valor como uma forma de tratamento relativamente respeitosa num estilo cuidado entre a pequena burguesia urbana, mas foi arcaizando-se durante os séculos XVII e XVIII, ao mesmo tempo em que sua rival abreviada (você) estava se tornando dominante (...) de uso corrente (...) em especial no português brasileiro, no tratamento da segunda pessoa do discurso.

No século XVI, Vossa Mercê ainda representava uma marca de respeito, embora não fosse mais honorífica. Servia, por exemplo, e era muito usada no encerramento do gênero carta, como revela o texto que segue:
(4)DEOS Guarde a VosSa Mer-│cê, muitos annos. Bahia e Cama│ra vinte de Novembro demil sete│centos e onze annos “matheus │de Góes Araújo”João de Barros Ma-│chado”Brás Pereira do Lago. (Documentos históricos do Arquivo Municipal. Cartas do Senado 1710-1730) (Grifo nosso)

No entanto, havia ainda uma notável preocupação das classes superiores de não serem mais tratadas por Vossa Mercê, que não representava a forma mais digna, e também (talvez principalmente) a preocupação em serem tratados por suas formas simplificadas, vítimas de preconceitos linguístico e social. Cintra (op.cit., p.27) apresenta uma cena do Auto do Fidalgo Aprendiz, escrito em 1946, no qual, através do diálogo de D. Gil Cogominho com o criado Afonso é possível perceber esse sentimento de decadência diante da expressão Vossa Mercê, que demonstra um falta de cortesia perante o interlocutor.


(5)AFONSO: Que manda Vossa Mercê?

GIL: Que tenhais mais cortesia! (Grifo nosso)


O ápice da história do Vossa Mercê é constituído pelo período em que essa expressão tem o seu uso marcado como forma de referência real. É uma forma que, diante de tantas mudanças sócio-econômicas, desbanca o vós e, com o passar do tempo, como consequência de novas mudanças, é, por sua vez, desbancada por outras expressões. Segundo Nascentes (1956, p. 114):
[o forma pronominal Vossa Mercê] degradou-se, fonética e semanticamente, a tal ponto que mutilou extraordinariamente a sua forma e, de tratamento real, pronominalizando-se, chegou a tratamento empregado para inferiores. (Grifo nosso)

Se, por um lado, o Vossa Mercê foi substituído por outras locuções e o vós tornou-se expressão de valor rústico, sendo associada, por vezes, a uma má formação “(...) ficou-se o vós, e a brandura dele para os amigos e para os mal ensinados(...)”(CINTRA, op.cit.,p.14); por outro lado, surge no sistema pronominal uma forma que se candidata a esse lugar: você.4 Cintra registra que o você já se encontra em textos do século XVIII como tratamento simétrico entre amigos5, mesmo de uma classe mais elevada como a alta burguesia.



1.1.2 Você nos tempos de agora
Nos tempos atuais, é facilmente visível que a forma pronominal você ocupa o lugar do pronome mais produtivo nos eventos discursivos. Os meios de comunicação demonstram isso como muita precisão.

Essa popularidade do você é estabelecida por ele atuar na língua como uma espécie de “pronome curinga”. Um pronome que direciona o texto especificamente para um leitor/ouvinte ao tempo em que também é capaz de direcionar a um grupo mais particular ou a um grupo mais amplo. Por esses predicativos e facilidades, o pronome você nos atinge massivamente nos tempos de agora através de panfletos, de cartas comerciais publicitárias e de mensagens veiculadas em outdoor.

São muito comuns e têm, recentemente, povoado o nosso universo, slogans que contenham o pronome você. Vejamos alguns: Praia, sol, baladas e espelho. Taí um monte de motivos pra você ficar em forma. (veiculado por uma academia); Você perde muitas oportunidades quando não sabe inglês e espanhol (veiculado por um curso de idiomas); Aqui você tem variedade e verdade (veiculado por uma empresa de informática); No Banco X, seu 13º. chega quando você quiser; Aqui você antecipa seu 13º. e todas as suas realizações;No banco X, você encontra seguros adequados às necessidades da sua Empresa; Abra e conheça esta oportunidade exclusiva para você;Você foi escolhido a dedo para receber em mãos esta oportunidade (veiculados por empresas bancárias); Descubra você também (veiculado por uma agência de turismo); Uma oferta especial para você (veiculado por revista). Como um dos slogans encontrados veicula, parece mesmo estarmos O tempo todo com você.

Observando, em específico, o suporte outdoor6, percebemos que o pronome você aparece como mais produtivo e, a partir da constatação de que o pronome você configurava-se como o mais frequente, buscamos apoio nos princípios de iconicidade e de metaiconicidade para analisar como o você age na atualidade.



1.1.2.1 Alguns princípios funcionalistas sinalizam o caminho
Ao discutirmos sobre o uso do pronome você, em mensagens veiculadas em outdoor, adotamos o modelo teórico do funcionalismo linguístico de orientação givoniana, como aporte teórico. Antecipamos para essa análise temas da teoria funcionalista, que será mais detalhada em Nos Caminhos da Gramaticalização.

De acordo com Givón (1991), dois princípios de abordagem funcionalista se sobrepõem: o princípio da iconicidade, no qual há uma relação direta e uma conexão não-arbitrária entre a forma de uma palavra e seu significado, e o princípio da marcação, no qual há a veiculação de uma distinção entre as formas linguísticas mais e menos usuais.


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