Os enlaces da Memória com a Escrita: Os livros memorialísticos como fontes para se tecer a História



Baixar 68.51 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho68.51 Kb.
Os enlaces da Memória com a Escrita: Os livros memorialísticos como fontes para se tecer a História.

Cintya Chaves*
Resumo: Este trabalho se propõe a refletir a respeito dos livros memorialísticos, como fontes para a História, abordando sua proficuidade bem como suas diferentes possibilidades, sendo estes fecundos para perceber as relações de identidades dos indivíduos, bem como as disputas, no que diz respeito ao que deve ser lembrado e o que é conveniente ser esquecido.
Palavras- Chave: Livros memorialísticos, disputas, identidades.
Abstract: This paper examines the use of memoirs as a source for understanding history, exploring both its usefulness as well as the different possibilities memoirs offer in histroical research. This is important to understand the relationships and identities of individuals, as well as conflict with regard to what should be remembered as well as what should be forgotten.
Keywords: memoirs, disputes, identities.
Prelúdio.
A LEC [...] liderada por Dona Judite [...], no caso de Limoeiro do Norte, tornou-se tão forte no Ceará que chegou a eleger um governador, no caso, o Dr. Menezes Pimentel. A partir daquela fase política cearense, dona Judite revelou-se a liderança política mais forte da cidade de Limoeiro do Norte, conseguindo eleger vários prefeitos municipais, dentre eles, o seu irmão José Gondim Chaves. [...] as eleições de dois de Dezembro de 1945, [...] nesta ocasião que Franklin Chaves, irmão de Dona Judite, começou a sua brilhante participação na política do Ceará, elegendo-se deputado estadual por sete legislaturas seguidas.1
Os personagens apresentados na epígrafe acima fazem parte de uma família que tem por sobrenome Chaves. O fragmento acima possibilita indícios quanto às várias estratégias2 articuladas por esta, no que concerne a se estabelecer em diversos âmbitos do social. Para além dos atores enunciados acima, sucintamente, este artigo tentará esclarecer quem são os membros desta família, bem como as ações que a mesma desempenhou para alcançar a liderança de cargos ditos públicos.

Judite Chaves, José Gondim Chaves e Franklin Chaves são irmãos e filhos de Sindulfo Freire Chaves e de Dulcinéia Gondim Chaves. O pai destes foi agropecuarista, gerente dos bondes de burros, em Fortaleza e prefeito de Limoeiro nos anos de 1933-1934. A mãe foi professora. Judite Gondim Chaves casou-se em 1924 com Custódio Saraiva Menezes, que de 1935 a 1936 exerceu o seu primeiro mandato como prefeito eleito de Limoeiro e o seu segundo mandato durante oito anos de governo, 1937 a 1945, como interventor. Assim, Judite passaria a se chamar Judite Chaves Saraiva. Esta foi Indicada pelo padre Manoel Caminha Freire de Andrade, conseguindo a liderança da Liga Eleitoral Católica: Durante várias décadas, dona Judite comandou com sabedoria e equilíbrio, o seu grupo político, elegendo vários prefeitos e dezenas de vereadores. 3

Alguns indicativos levam a crer que o controle da Liga Eleitoral Católica permitiu aos Chaves um maior contato com Menezes Pimentel, eleito governador do Ceará pela mesma sigla, ampliando efetivamente os acessos e oportunidades da família na esfera política estadual. Vale ressaltar que ela esteve vinculada ao poder público durante um longo período. Franklin Chaves, irmão de Judite, foi deputado estadual até a década de 1970. Como se pode constatar, esta família atuou por vários anos na política Limoeirense, chegando a içar cargos políticos até de âmbito estatal.
A produção de uma Memória Escrita.
Judite Chaves Saraiva, filha de Sindulfo Serafim Freire Chaves e Dulcinéia Gondim Chaves, nasceu em Fortaleza aos 28 de Outubro de 1906. Casou-se com Custódio Saraiva de Menezes em 28 de Fevereiro de 1924 e passou a residir em Limoeiro do Norte – CE. Desde então, dona Judite é uma figura de referência na vida social, cultural, política, religiosa e educacional de Limoeiro do Norte. Atuando com discrição e eficiência na política e na assistência social, ela sempre deu suporte humano às administrações de seu marido Custódio como prefeito; foi ardorosa defensora do voto feminino e promotora da educação e da cultura. Judite e Custódio marcaram profundamente, e de forma positiva a história de Limoeiro do Norte, deixando o seu legado para as gerações futuras. Em seu centenário – 28 de Outubro de 2006 – dona Judite merece a minha homenagem e a de todos Limoeirenses.

Arlene Holanda.4


O trecho acima foi retirado da orelha de um livro que tem como proposta homenagear o centenário de nascimento de Judite Chaves (1906 – 2006) 5. Organizado por Maria Das Dores Vidal Freitas, que se intitula afilhada de Judite, e Maria Lenira de Oliveira, que se atribui sobrinha por afinidade, a produção foi justificada pelas organizadoras6 como uma forma de reconhecimento pelo o exemplo de vida e a determinação da homenageada, que sempre regou os contatos entre todos que compuseram o livro. Este último é composto por artigos, tendo por autores familiares (filhos, sobrinhos) e amigos (inclusive, filiados ao partido de Judite). Vale salientar, que foi através da visão contemporânea destes que cada artigo foi preparado. Assim, pode-se afirmar que cada linha deste livro está marcada pela memória, sendo deste modo, transpassado pela confluência de tempos, permeado pelas seleções, significações e elaborações, tendo como referência o presente e o lugar social ocupado pelos indivíduos, no caso os escritores.

O livro dito de memória, ou seja, aquele que apresenta os fatos almejando uma uniformização dos mesmos, uma estabilidade e/ou personificação, Dona Judite é uma figura de referência na vida social, cultural, política, religiosa e educacional de Limoeiro do Norte, como também a propagação de grupos, Judite e Custódio marcaram profundamente, e de forma positiva a história de Limoeiro do Norte, deixando o seu legado para as gerações futuras, ou indivíduos no que se refere ao passado, constitue uma das expressões mais complexas para os estudos históricos por ser a consumação “sólida” da relação próxima entre oralidade, memória e escrita.

Ao contrário da maioria dos documentos escritos, que são permeados pela impessoalidade e congelados em seu tempo de produção, a maioria dos livros aqui chamados de memorialísticos, são produzidos pós os acontecimentos, sendo gerenciados, portanto, por essa categoria, a memória, que por ser eminentemente social é sempre vivida e compartilhada7, ampliando, assim, os horizontes do entendimento do historiador, por permitir a este uma compreensão mais abrangente dos espaços sociais onde estes indivíduos estavam e estão engajados.

A produção destes livros de memória é regida pelo o anseio e interesses dos sujeitos sociais envolvidos e podem ser refletidos sob algumas perspectivas. Dentre elas serão destacadas a preocupação que os atores sociais possuem no que concerne ao seu teor social identitário ou de seu grupo, a aspiração de disciplinar o que será lembrado a respeito de seu grupo, estabelecendo-se assim, uma disputa pela memória, e o desejo dos grupos de projetar-se e se fazerem eternos através dos tempos em páginas em branco.

Assim, percebe-se que os agentes vivos desta família possuem uma intensa preocupação quanto à “preservação” dos feitos desses sujeitos mortos, tecendo discursos e disputando a memória em busca de uma personificação quanto a todas as conquistas alçadas pelo município de Limoeiro do Norte, situado na região do Baixo Jaguaribe, estado do Ceará.
Relações de Identidade: “os de casa e os de fora”.
Judite, [...] já trazia um nome, uma tradição de família e um presságio para fazer história na pequena Limoeiro do Norte, cidade de seus avós [...]. Tornou-se hábito entre nós, identificar as pessoas, invocando os seus ascendentes [...] era neta de Serafim e Joana, filha de Sindulfo e Dulcinéia, irmã de José, Dulce, Noeme e Franklin, sobrinha de Climério, [...] esposa de Custódio, mãe de Lirete e Lenira, [...] 8.
Muito presente nos livros de memória, a busca por conhecer a genealogia familiar é importante para legitimar os papéis ocupados pelos indivíduos nas esferas sociais e ressaltar a idéia que “vem do sangue”, ou seja, seria um dom, próprio já daquela família, isto é, seria natural a habilidade de um descendente de guiar e liderar o povo, seja no “setor” voltado mais para o social e ou cultural, mas em especial no caso deste estudo, através da administração dos recursos públicos, por meio da política partidária.

Nesse processo, a construção de uma identidade9 se constitui importante para o próprio grupo, no sentido interno, das relações subjetivas de pertencimento, bem como na transmissão de uma ideia de unidade para os que “são de fora”. Assim, tendo como referência as lembranças, uma família ou um grupo, por exemplo, partilham de recordações singulares que lhes são “somente suas”, embora haja pontos de intersecção com o social, estabelecendo-se uma identidade particular destes. Nesse sentido, ocorre o anseio de consultar o passado. Segundo Joel Candau: [...] a busca identitária movimenta e reorganiza [...] e [...] a genealogia se alimenta dos jogos identitários no presente, aos quais se submete o passado. [...] 10.

Portanto, ao usar a expressão, tradição de família, sua filha, Lirete Saraiva, reivindica para seus parentes o lugar de glória, no sentido de que foi graças a seus ascendentes, em especial, sua mãe, que o município de Limoeiro do Norte concretizou sonhos importantes. O termo tradição também corrobora com a ideia de ser biológico o formidável desempenho de sua mãe, como já mencionado. Destarte, como elucubra Joel Candau, há uma reapropriação do passado familiar e [...] essa reapropriação permite ao indivíduo elaborar e logo narrar sua própria história, que será confrontada com a de outros membros da família, assim como a norma coletiva familiar [...] 11.

Assim sendo, além de está almejando a reprodução de seu grupo familiar ou de outros interesses, dependendo de quem escreve e sobre quem se está escrevendo, ao se analisar os escritos memorialísticos, em especial quando se trata de memórias de uma família a qual o indivíduo pertence ou de outras famílias das quais estas podem ser inimigas ou adversárias da sua, bem como a produção de memórias sobre suas cidades, pode-se considerar que o produtor do discurso escrito está se relacionando com estas memórias sob o aspecto de organização identitária, seja sua ou de seu grupo, podendo até alcançar a seus leitores.

No caso, em especial, deste livro proposto para reflexão, que é, essencialmente, composto por artigos que apresentam memórias familiares, pode-se coligir que estas organizam as identidades individuais de seus descendentes. Esta organização identitária se estabelece entorno de rituais próprios de uma família, recordações, fotografias, receitas de pratos, objetos12, e a própria sistematização do livro memorialístico, que passa a ser consultado por aqueles descendentes que não conviveram com seus antepassados de “feitos espetaculares para a sociedade”.

Assim, pode-se inferir que estudar a linhagem, recorrer ao passado de sua própria família, é uma questão que encanta mais a memorialistas que, talvez, a alguns historiadores. Alguns membros de famílias, sentindo-se historiadores, haja vista a maioria das pessoas que não possuem formação em História, conceberem a mesma, mais pelo viés memorativo, factual, isenta de problematizações, investem horas na construção de árvores genealógicas, almejando respostas quanto a sua própria origem, mito da origem, esperando encontrar um algo definidor e intercessor, que remetam as suas identidades, para que, assim, possam ter um senso comum entre si, e, se encontrar, para se relacionar com os de “fora”, tendo como marco o que foi entendido como lhes sendo próprio.

Não obstante, a busca por esta identidade pautada na família, por vezes, é moldada de acordo com os interesses do indivíduo ao se relacionar com “os de fora”, evocando, assim, de seu passado familiar, apenas o que mais lhe convém, o que lhe constrói de acordo com o que percebe que o outro espera ver, ou que pode lhe permitir ganhar algo, negociar sócio-culturalmente.
Disputas pela memória: Jogos sociais nas lutas pelo “enquadramento”.
[...] Dona Judite é umafigura de referência na vida social, [...].

Ao observar o verbo empregado, a autora da epígrafe acima não usa o verbo foi, e sim, o verbo no presente “é”. Um dos objetivos do verbo no presente é autenticar a produção do livro e enaltecer o quão notável não era, mas ainda é a pessoa de Judite Chaves. O livro memorialístico, no caso especial deste, que é o centenário de Judite Chaves, é uma forma de comemoração; é o festejo do aniversário de Judite; se a mesma estivesse viva estaria completando 100 anos.

Nesse sentido, a obra do livro de memória faz uma relação de ponte entre passado e presente, sendo que ao lidar com o passado ocorre uma eleição de fatos, que no caso deste grupo, esta escolha está fundada na formulação de uma identidade sobre uma memória [...] alimentada de um passado prestigioso13. Esta eletividade dos acontecimentos remonta o tempo, e, pensando o livro sob esta dimensão da comemoração, que é intrínseca e extremamente selecionadora, pode-se parafrasear Candau e afirmar que estas são uma máquina de fabricar consensos.14

Pensando, tendo ainda como referência a reflexão de Candau, o desejo de articular consensos se configura naquilo que se denomina, e já foi nomeado por outros, de disputa pela memória. Os livros memorialísticos disputam ao mesmo tempo em que desempenham também um papel disciplinador das memórias de uma coletividade.

É interessante destacar que, nessa tentativa dos atores sociais disputarem pela memória, por vezes, algumas facetas dos sujeitos são encobertas. Contudo, no caso deste livro, que é uma homenagem a Judite Chaves, os autores privilegiam a “versatilidade” da atuação social de Judite, apropriando-se desta “versatilidade” para legitimar a impressão de Judite como a matriarca de Limoeiro do Norte. Assim, essas múltiplas faces15, dessa personagem, é construída sob a retórica de uma heroína abnegada que a todos ajudava em Limoeiro, isenta de quaisquer tipos de interesses egoístas.

Deste modo, deve-se compreender tal postura dos escritores do livro como uma tentativa de enquadrar a memória, “memória enquadrada”, expressão empregada por Henry Roussu, citado por Pollak16, onde o primeiro destaca que o fato de múltiplos atores se empenharem em construir narrativas em um determinado momento corresponde a uma pluralidade de olhares em disputa se configurando em batalhas intermináveis da memória.17

O enquadramento da memória, que segundo Bonafé, pode ser entendido como o olhar que venceu, ou seja, que sobreviveu e se perpetuou (sem nunca se ter tornado estático, até por que isso não seria possível) e que hoje se associa quase automaticamente a imagem do sujeito ou de um grupo a uma determinada postura, posição ou instância, que ele se envolveu dentre suas múltiplas atividades, orientam o olhar. No caso de Limoeiro, o enquadramento está associado a transmitir a impressão de ideia de totalidade, não apenas de Judite, mas da sua família, no que diz respeito às realizações, sejam políticas, sociais e/ou culturais que ocorreram no município.

Assim, Judite, bem como seus contemporâneos e descendentes são associados não somente a uma esfera social, mas a esferas, não obstante a face política de Judite ser salientada de maneira gloriosa por aqueles que compunham o seu grupo,


[...] era uma mulher muito política, e então ela recebia deputado, ela recebia governador, ela recebia todo mundo aqui em casa, porque ela era líder, uma líder política [...] eu sei que ela fazia parte de muitas associações, era mãe cristã, [...] até de integralismo [...]18.
E ser caracterizada como “autoritária”, por aqueles que ingressavam na cidade:
[...] Eu cheguei em 1947 em Limoeiro, conheci Dona Judite como uma líder política, daquele estilo político ainda como é que se chama do voto de cabresto, vem cá assina aqui, é tanto que nesse sentido eles eram do PSD e aí UDN já era mais aberta, mais liberal, apesar de ser um bocado moralista, [...] A UDN aqui em Limoeiro foi quem abriu pouco as coisas né para outro tipo de política, né, menos cabresto [...] 19.
Por este último fragmento, percebe-se o teor da atuação política de Judite, próximo já aos anos de 1950, e a percepção do Pe. João Olímpio. O que remete a lembrança do padre quando interrogado a respeito de Judite não é a ligação da mesma com a Igreja, que sabe-se que era muito forte devido a outras fontes, mas sim, o estilo da política dela. É claro que silenciar a respeito da ligação de Judite com a Igreja pode ser, também, interessante, tendo em vista o passado político-partidário dessa personalidade, negando inclusive a legitimidade que a Igreja ofereceu para algumas posturas do núcleo familiar da mesma.

Como se percebe, como qualquer outro dado “empírico”, os livros de memória, necessitam ser cruzados com outras tipologias de fontes, pois não é suficiente em si mesmo, havendo lacunas que só o entrecruzamento poderá responder.

O livro de memória se insere também como um mecanismo de um grupo de fazer prevalecer o que lhe é mais interessante, não se reduzindo somente à representação:
[...] As representações não surgem subitamente no campo social, mas resultam de jogos de força bastante complexos, envolvendo combinações e enfrentamentos que a todo tempo se alteram. Se reduzirmos a memória a um campo de representações, desprezamos as condições processuais de sua produção. 20
Esta é uma das possibilidades de pensar documentos que fornecem a memória, como categoria central para se pensar a História. Os livros de memória se configuram muito bem sob esta perspectiva destes jogos de força, enfrentamentos e disputas redirecionando e homogeneizando olhares acerca do passado.
Por que Escrever-se?
O temor do esquecimento move os grupos a narrarem-se. A produção de livros de memória se configura no âmbito em que este narrar toma forma através da escrita, que segundo Michel de Certeau21, constitui uma prática moderna e ocidental dos indivíduos dos últimos quatro séculos. Estes anseiam fazer a sua história, fazer história, e a escrita traria a idéia de um rompimento com um mundo mágico, com o mítico, se constituiria, portanto, como uma produção mais sistematizada enunciando um caráter “mais verdadeiro”.

Certeau define o ato de escrever como uma atividade concreta, que consiste sobre um espaço próprio, a página, em que se construiria um texto que tem poder sobre a exterioridade. A escrita seria uma intervenção parcial e controlável, onde o sujeito não seria “possuído pelas vozes do mundo”, exercendo, deste modo, uma série de racionalidades, isto é, gestuais e mentais, traçando na página trajetórias que desenham palavras, frases, um sistema22. Escrever, portanto, explica o autor, se constitui um teatro da vida em que estariam representadas formalmente as práticas socais, tendo como intento uma eficácia social, atuando sobre a sua exterioridade.

Os livros memorialísticos podem ser associados a essas representações formais, das quais fala Certeau. Um dos primeiros pontos que motiva a quem escreve é o querer da imortalidade,

[...] Cada indivíduo sabe que, uma vez que a profundidade de sua própria memória não vai além de duas ou três gerações, ele mesmo será totalmente esquecido algum tempo após sua morte. [...] a transmissão que todo genealogista procura é, antes de tudo, a de si mesmo: salvaguardando a memória de seus ancestrais, ele protege também sua. 23


Com a família Chaves não é diferente, é interessante para o grupo, para a família, se posicionar como a progenitora dos grandes projetos que “tencionaram a ascensão” Limoeirense. Além disso, as escritoras do livro de memória, no caso aqui abordado, almejam atuar sobre uma exterioridade, no sentido de fabricar discursos que comunicam que Limoeiro do Norte, em seus aspectos positivos, só é o que é “hoje” porque os Chaves tiveram uma liderança política atuante, foram proativos, dedicados e íntegros durante suas administrações: [...] Judite e Custódio marcaram profundamente e de forma positiva a história de Limoeiro do Norte, deixando o seu legado para as gerações futuras. [...]. 24

A fração do parágrafo anterior, retirado do livro de memória, ainda estabelece outra relação com a identidade, diferente da citada no tópico Relações de Identidade: “os de casa e os de fora”. Assim, não é a questão de uma identidade interna, subjetiva, intra-familiar que ele sugere, mas sim, uma identidade de caráter sócio-político, buscando organizar a memória para que seja implantada a ficção da permanência e do sentimento de uma cultura comum.25

Para Candau, a manipulação do passado permite construir passados alternativos, em geral, mais úteis e convenientes, gerenciando, portanto, a maneira social de conceber o transcorrido: [...] uma relação elípitica, eletiva ou esquiva com o passado é com frequência uma maneira hábil de jogar com as memórias ou fragmentá-las.26

Os sujeitos descendentes se relacionam com o presente estabelecendo relações identitárias, como já mencionado, e almejando um reconhecimento de seus conterrâneos, um olhar diferenciado, de respeito e admiração por aquela sociedade em questão. Além disso, há vários trechos do livro que são expressivos, ou seja, transmitem indiretamente o ideal político de que eles são habilitados para atuar, devido ao sangue, na carreira político-partidária ou para opinar a respeito de tal assunto. Os livros memorialísticos seriam um instrumento de “oficialização” e de tornar acessível às memórias que prestigiam o grupo.

Não se deve deixar de considerar que a publicação de um livro requer recursos financeiros ou contatos, mas que tal investimento confere ao sujeito um status social. A escritura, como sugere Certeau, é um mecanismo de “hierarquização de social, instrumento de produção de uma classe dominante”.


Considerações Finais
Os livros memorialísticos possuem grande poder no que concerne a administrar as sensibilidades dos leitores acerca do passado. Estes, que, muitas vezes, acham que estão lendo um livro de História local, assim por dizer, quando discordam de alguma abordagem sobre um “fato X”, provavelmente tiveram contato com alguém contemporâneo da época que foi escrita e, em algum aspecto, as versões se contradizem. A maioria dos leitores percebe o livro de memória como a verdade absoluta, não conseguem, tomando emprestado o termo do historiador Durval Muniz, violar as memórias.27 Mas, será que os historiadores, violam as memórias, facilmente?

Nesse sentido é interessante não olvidar que o cruzamento entre fontes é crucial e que, ao analisar os livros de memória não se pode esquecer que a dimensão da escrita e da oralidade não são dois termos opostos. Pois, mesmo os documentos tidos como os oficiais e aqueles registros que não são os institucionais, estão perpassados por dimensões da memória, assim como nas narrativas orais, o que os depoentes leem se entrecruzam em suas falas.



Eis um campo de possibilidades e interpretações, o livro de memória exige uma habilidade apurada no que diz respeito ao estabelecimento de problematizações pelo historiador. Este é um dos principais diferenciais para que se violente a estabilização que a memória oferta nesta relação, passado e presente.28


Livro de Memória
FREITAS, Maria das Dores Vidal; OLIVEIRA, Maria Lenira (orgs). Judite: centenário de nascimento (1906 – 2006). Fortaleza: Editora Premius, 2006.

Referências Bibliográficas
ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Violar Memórias e Gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”“. In: ______. (org). História: a arte de inventar o passado. Ensaios de teoria da história. Bauru, São Paulo: Edusc, 2007.
BONAFÉ, Luigi. Um herói em dois tempos: apontamentos para uma história da memória sobre Joaquim Nabuco. In. ABREU, Martha, SOIHET, Rachel e GONTIJO, Rebeca (orgs.). Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 239-248.
CANDAU, JoëL. O Jogo social da memória e da identidade (2): fundar, construir in ___.Memória e Identidade. São Paulo: Contexto, 2011.
DOSSE, François. A Oposição Memória/História in ____. História e ciências sociais. Bauru, SP: Edusc, 2004, 169-191.
CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis-RJ, 1994.
FENTRESS James & WICKHAM, Chris. Recordar in ___ Memória Social: novas perspectivas sobre o passado. Lisboa: Teorema, 1992, p.13-58.
GONDAR, Jô. Quatro Proposições sobre Memória Social. In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera. O que é memória social, Rio de Janeiro: UNIRIO, 2005.
JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. A oralidade dos velhos na polifonia urbana. Ed. Premius. 2011.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, nº 3, 1989. Disponível em: http://www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/ Memoria_ esquecimento_ silencio.pdf.
PORTELLI, Alessandro. Sempre existe uma barreira: a arte multivocal da história oral in ___ Ensaios de história oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010, p.19-35.
Ricoeur, Paul. Memória Pessoal e Memória Coletiva in ____. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: editora da UNICXAMP, 2007, p.105-142.
SARLO, Beatriz. Tempo Passado in ____.Tempo Passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007, p.9-22.
ZILBERMAN, Regina. Práticas Narrativas, Oralidade e memória in Sobre as poéticas do dizer: pesquisas e reflexões em oralidade. Ana lúcia Liberato Tettamanzy, Jocelito Zalla,Luís Fernando Telles D’Ajello, (organizadores). – São Paulo: Letra e Voz , 2010, 28-41.


* Mestranda em História e Culturas pela Universidade Estadual do Ceará, integrando a linha de pesquisa, Memória, Oralidade e Cultura Escrita. Bolsista CAPES. Este artigo ensaia reflexões acerca dos livros de memória, umas das fontes que vem sendo utilizadas no processo de elaboração da dissertação intitulada, Elites Políticas Limoeirenses: estratégias e discursos para novos espaços de atuação e poder (1934 – 1972), sob a orientação do Prof. Dr. William James Mello.

1 NUNES; Antônio Pergentino. Atuação política de Dona Judite. In: Judite: centenário de nascimento (1906 – 2006). 2006. p. 32-40.

2 Segundo Michel de Certeau a Estratégia seria articulada pelos produtores, um sujeito de querer e poder, e se apoia no lugar, [...] as estratégias escondem sob cálculos objetivos a sua relação com o poder que os sustenta, guardado pelo lugar próprio ou pela instituição. [...] CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis-RJ, 1994. p. 46 e 47.

3 Idem, p.41.

4 Assessora de arte e design na Secretaria de cultura de Limoeiro, de 2004, amiga da família Chaves e se intitula como escritora limoeirense. Grifos nossos.

5 FREITAS, Maria das Dores Vidal; OLIVEIRA, Maria Lenira (orgs). Judite: centenário de nascimento (1906 – 2006). Fortaleza: Editora Premius, 2006.

6 Idem, p.15.

7JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. A oralidade dos velhos na polifonia urbana. Ed. Premius. 2011.p. 34.

8 FEIJÓ; Maria Lirete Saraiva. Em sua vida deu vida aos anos – Judite, 1906- 1989. In: Judite: centenário de nascimento (1906 – 2006). 2006. p.23.

9 Elencamos o conceito de Identidade enquanto “Representação social” proposto por Pesavento (2008), onde concordamos que a identidade é uma construção simbólica de sentido, que organiza um sistema compreensivo a partir da ideia de pertencimento. A identidade é uma construção imaginária que produz a coesão social, permitindo a identificação da parte com o todo, do indivíduo frente a uma coletividade, e se estabelece à diferença (...) é relacional, pois ela se constitui a partir da identificação de uma alteridade. Frente ao eu ou, ao nós, do pertencimento se coloca a estrangeiridade do outro. (p. 89-90).

10 CANDAU, JoëL. O Jogo social da memória e da identidade (2): fundar, construir in ___.Memória e Identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p.137.

11 Idem, 141

12 Ibidem, p.140.

13 CANDAU, JoëL. O Jogo social da memória e da identidade (2): fundar, construir in ______. Memória e Identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p.151.

14 Idem, p.148.

15 BONAFÉ, Luigi. Um herói em dois tempos: apontamentos para uma história da memória sobre Joaquim Nabuco. In. ABREU, Martha, SOIHET, Rachel e GONTIJO, Rebeca (orgs.). Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 239-248.

16 POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.2, nº 3, 1989. Disponível em: http://www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/ Memoria_ esquecimento_ silencio.pdf.

17 BONAFÉ, Luigi. Um herói em dois tempos: apontamentos para uma história da memória sobre Joaquim Nabuco. In. ABREU, Martha, SOIHET, Rachel e GONTIJO, Rebeca (orgs.). Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 334.

18 Entrevista realizada em 17/03/11 com a Sra. Elisiomar Chaves, 79 anos, sobrinha do casal Judite Saraiva e Custódio Saraiva.

19 Entrevista realizada com João Olímpio Castelo Branco, 72 anos em 14/04/11.

20 GONDAR, Jô. Quatro Proposições sobre Memória Social. In: GONDAR, Jô; DODEBEI, Vera. O que é memória social, Rio de Janeiro: UNIRIO, 2005. p. 23.

21 CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis-RJ, 1994. p. 224.

22 Op.cit, p. 224.

23 CANDAU, JoëL. O Jogo social da memória e da identidade (2): fundar, construir in ______. Memória e Identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p.139.

24 Assessora de arte e design na Secretaria de cultura de Limoeiro, de 2004, amiga da família Chaves e se intitula como escritora limoeirense. Grifos nossos.

25 CANDAU, JoëL. O Jogo social da memória e da identidade (2): fundar, construir in ______. Memória e Identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p. 147.

26 Idem, p. 168.

27 ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. Violar Memórias e Gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”“. In: ______. (org). História: a arte de inventar o passado. Ensaios de teoria da história. Bauru, São Paulo: Edusc, 2007.

28 Idem, p. 207.



©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal