Os evangélicos e o jeitinho brasileiro Eduardo Guilherme de Moura Paegle



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Os evangélicos e o jeitinho brasileiro

Eduardo Guilherme de Moura Paegle

Professor de História do Instituto

Federal de Roraima (IFRR)



Brasil

E-mail: edpaegle@gmail.com


Resumo: A comunicação pretende abordar as relações entre as identidades criadas pelos evangélicos e o jeitinho brasileiro. A proposta visa analisar de como os evangélicos dentro de uma visão binária formada na oposição pecado\santidade se relacionam com a sociedade brasileira, sendo que esta última apresenta um espaço cinzento entre as ações que são legítimas perante o estado e as que não são. A ideia central é investigar se os evangélicos possuem mais dificuldades de se relacionar com o jeitinho brasileiro do que o catolicismo (no qual uma “teologia da concessão” permite espaços para comportamentos intermediários entre o que é e o que não é legítimo para o Estado) e se tal proposta é uniforme entre as diferentes matrizes evangélicas brasileiras. Para estudarmos o referido assunto utilizamos das análises de Roberto Damatta sobre identidade brasileira e os três ritos (o rito da ordem, rito da inversão e o rito da neutralidade), as análises de Jessé Souza e Gedeon Alencar em relação à identidade evangélica constituída no Brasil. Uma outra questão-problema é também de saber se o neopentecostalismo brasileiro haveria adotado uma “teologia da concessão” com uma menor rigidez doutrinária quando comparado com outras vertentes evangélicas brasileiras, tais como o pentecostalismo e as matrizes reformadas.
Palavras-chaves: evangélicos; jeitinho brasileiro; identidade.


  1. Introdução

A presente comunicação pretende abordar as relações de identidade entre os evangélicos e o jeitinho brasileiro. O antropólogo Roberto DaMatta, num livro clássico de antropologia chamado “O que faz o brasil, Brasil?” tinha com objetivo central saber como o povo desenvolvera uma cultura genuinamente brasileira e, sendo assim, na sua visão, a identidade nacional deveria ser buscada menos nas leis e no direito e mais no jeitinho brasileiro. Parafraseando o referido acadêmico, poderíamos nos perguntar “o que faz os evangélicos brasileiros, evangélicos brasileiros?”, ou seja, quais as suas especificidades identitárias e de que forma a ideia de uma cultura evangélica se relaciona com a cultura brasileira e vice-versa, tendo o jeitinho como pano de fundo dessa análise. Em outras palavras, considerando que não existem culturas estanques, torna-se necessário pensar de forma ocorrem as assimilações culturais de parte a parte, naquilo que chamamos de circularidade cultural. Para Néstor Canclini (2008:19), a expressão correta para assimilação é hibridação compreendido como “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas.” Hibridismo pode ser compreendido no sentido religioso como sincretismo, visto que não existem religiões nem culturas puras. Trata-se, portanto, de um conceito oriundo da Biologia que foi aplicado nas Ciências Humanas.

II – Os evangélicos e o dilema do “jeitinho brasileiro”

Jessé Souza (1999) organizou um livro com um sugestivo nome “O protestante e o malandro”. Sugestivo, porque indicaria conforme a tese weberiana de que esse binômio evidenciavam dois polos opostos. O protestante representava o trabalhador pontual, honesto, cumpridor dos seus deveres de uma vida dedicada ao Senhor, sob a égide calvinista “para glorificar Deus”, com sua riqueza derivada da poupança como um símbolo da graça divina de predestinação que, nessa visão, só é possível através de uma ética do trabalho e não com o ócio. Sérgio Buarque de Holanda (1995:151) lembra-nos das descrições de dois viajantes (o pastor metodista Daniel Parish Kidder e Thomas Ewbank) no século XIX sobre a impossibilidade de no Brasil vingar uma austeridade protestante nesse país que possuía aversão as cerimônias religiosas, ou em outras palavras, do rito frouxo. “Conta-se que os protestantes logo degeneram aqui.” A aversão ao método, ao rigor, a disciplina nas liturgias religiosas e na cosmovisão eram percebidas aqui pelos viajantes estrangeiros como um local impossível do protestantismo florescer.

Roberto Damatta (1986:11-12) ao trabalhar a identidade brasileira, distinguiu logo no título do livro o Brasil com “B” maiúsculo do brasil com “b” minúsculo. Assim, ele explica:

Devo começar explicando o meu enigmático título. É que será preciso estabelecer uma distinção radical entre um “brasil” escrito em letra minúscula, nome de um tipo de madeira de lei ou de uma feitoria interessada em explorar uma terra como outra qualquer, e o Brasil que designa um povo, uma nação, um conjunto de valores, escolhas e ideais de vida. O “brasil” com b minúsculo é apenas um objeto sem vida, autoconsciência ou pulsação interior, pedaço de coisa que morre e não tem menor condição de se reproduzir como sistema; como, aliás, queriam alguns teóricos sociais do século XIX, que viam na terra – um pedaço perdido de Portugal e da Europa – um conjunto doentio e condenado de raças, que se misturando ao sabor de uma natureza exuberante e de um clima tropical, estariam fadadas à degeneração e à morte biológica, psicológica e social. Mas o Brasil com B maiúsculo é algo muito mais complexo. É país, cultura, local geográfico, fronteira e território reconhecidos internacionalmente, e também casa, pedaço de chão calçado com o calor de nossos corpos, lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, totalmente sagrada.

Roberto Damatta (1986) buscava compreender o Brasil através de um triângulo ritual: os ritos de ordem, os ritos de inversão e os ritos de neutralidade. Os ritos de ordem são exemplificados com os desfiles militares do sete de setembro, no qual a extrema hierarquização entre as autoridades e o povo, bem como os fardamentos, evidenciam as formalidades da solenidade. Também são chamados de ritos de reforço. Os ritos de inversão são exemplificados com o carnaval, no qual se celebra o malandro, aonde tudo é lícito, no qual pessoas sem reconhecimento social na sua vida cotidiana pode fantasiar e vivenciar um novo personagem, com uso de máscaras e adereços. A procissão católica representa o rito de neutralidade, algo além do mundo físico, aonde se celebra o santo. Temos aqui três personagens idealizados aqui: 1) O malandro, que é aquele que vive na rua e com o mínimo esforço (trabalho) possível consegue se sustentar que personifica o rito de inversão; 2) O santo ou o renunciador que abandona o trabalho deste mundo para se dedicar a uma causa que terá frutos no mundo espiritual, que personifica o rito de neutralidade; 3) O caxias (não à toa em homenagem ao Duque de Caxias), que se relaciona com o cumpridor das leis, o que zela pelo bom andamento delas, e é, portanto um representante do rito da ordem conforme Damatta (1986:31).

O jeitinho brasileiro encarnado pelo malandro ultrapassaria os limites do eticamente aceitável na visão dualista dos evangélicos brasileiros. Ao entendermos que o jeitinho brasileiro ou a malandragem vista como uma atitude desviante representaria um instrumento de sobrevivência (e claro, uma inversão de valores) numa sociedade marcada pelas desigualdades sociais como a brasileira e do abandono do poder público, é facilmente compreensível que a conservação da vida se sobrepõe à ética e a visão da impessoalidade republicana do estado. Usando uma metáfora futebolística, para o malandro é necessário “driblar” o sistema, ao burlar as leis existentes no Estado brasileiro, como forma de superar o “ambiente hostil”.

No Brasil, quando alguma personalidade de elevado status social busca algum benefício em proveito próprio e enxerga os seus interesses contrariados, como, por exemplo, furar a fila para conseguir bilhetes para entrar no cinema, mesmo que esteja atrasado, o expediente utilizado é do “carteiraço”, com a expressão “Sabe com quem você está falando?”, pois a igualdade de tratamento dele com pessoas de menor status social são visto como um afronta a sua condição socioeconômica. Nos EUA, a pergunta se inverteria, é quem tentasse dar um “carteiraço”, teria uma resposta em forma de pergunta, pois “Quem você pensa que é?”, pois não se deve subverter-se a noção de igualdade com malandragem. O jeitinho brasileiro e a malandragem são usados também por pessoas de elevada condição social. Enquanto nos EUA de cultura majoritariamente protestante e anglo-saxônica, a lógica de funcionamento é binária, ou a lei permite ou ela não permite, bem com em outras questões (na política, o partido republicano e o partido democrata, ou se é negro ou branco, ou é do Norte ou do Sul, etc...), no Brasil de cultura católica e latina, a lógica é do três, pois entre a impessoalidade do Estado e a dureza das leis existem as relações de compadrio e amizade, pois existem certas coisas que não podem, mas quando se tem relações com alguém importante, o “sabe com que está falando” entra em ação para conseguir um objetivo específico que, pode ser um emprego para um familiar, um vaga no hospital para uma amigo doente, um cargo comissionado, entre outras ações, que representa enfim, um privilégio inacessível pelos meios legais. O comportamento social é motivado pelas relações de amizade de forma direta, acima do direito, como bem observou Sérgio Buarque de Holanda (1995:135), pois, por exemplo, nos negócios no Brasil, um freguês é antes de tudo um amigo.

O jeitinho brasileiro é, portanto, nesse sentido, um afronta ao “protestantismo de reta doutrina” (ALVES, 1979), pois neste tipo-ideal, não existe dentro da teologia protestante espaço cinzentos, pois se legitima o que está relacionado a santidade e se abomina o que é ilícito, visto como pecado. Obviamente, o jeitinho brasileiro está dentro da ideia de pecado e de corrupção, logo deve ser descartado da cosmovisão que deve ser vivenciada pelo protestante. Temos que salientar neste ponto que a análise de Rubem Alves (1979) está assentada sobre o presbiteriano, ou seja, a corrente calvinista da Reforma Protestante, já que ele mesmo havia sido um pastor presbiteriano e abandonou o pastorado por questões políticas.

A ideia de Gedeon Alencar (2005:76) é apropriar-se do triângulo ritual proposto por Roberto Damatta e criar um triângulo ritual protestante. Dessa forma, para o referido autor “no triângulo ritual protestante, os desfiles do Dia da Bíblia correspondem à versão militar do Sete de Setembro, as festas internas às procissões e as festas de padroeiros católicos e, o carnaval à Marcha para Jesus.” Torna-se necessário dizer que Gedeon Alencar (2005) buscou entender a formação de um WASP1 tupiniquim. Existem na formação do protestante brasileiro a ideia de três culturas: 1) a cultura da negação (no comportamento ético do “não fazer”, como não beber e do anticatolicismo); 2) a cultura da acomodação, a ideia de um mundo na sua imagem e semelhança que atende ao homem moderno com a racionalidade e o fato de ser uma religião do livro, no caso a Bíblia; 3) a cultura de assimilação, que parece ser uma via de mão dupla, a cultura midiática assimilando a igreja e vice-versa, embora com atritos em algumas ocasiões, conforme Alencar (2005: 70-75).

O TRIÂNGULO RITUAL PROTESTANTE



DESFILE DO DIA DA BÍBLIA

FESTAS INTERNAS

MARCHA PARA JESUS

espaço público

espaço privado dos templos

espaço público

rito diurno

rito noturno

rito diurno

ritual de ordenamento; não reivindicatório.

idem

idem

celebração de um livro

celebração de uma efemeridade

celebração da ...?

povo e autoridade juntos mas separados

idem

povo e autoridade misturados

uniformização, roupa adequada

uniformização, roupa adequada

sem padronização, qualquer roupa

histórico

histórico

modismo importado

centralidade no andar e cantar

centralidade no falar e cantar

centralidade no cantar e dançar

contingência gestual

contingência gestual

incontingência gestual

Fonte: ALENCAR (2005:76).

As comemorações do Dia da Bíblia, instituídas pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) ao celebrarem um livro tentam fazer frente as procissões católicas. Somente com a existência de uma plateia evangélica (ou ao menos simpatizante à causa do evento) é que faz sentido. Só mostra poder na cena pública quem tem plateia para assistir. Em cidades pequenas do Brasil é comum ocorrerem as procissões católicas e não ocorreram o Dia da Bíblia, o que evidencia a força dos católicos nestas localidades. O dia da Bíblia é a versão evangélica do rito de ordem.

As festas internas, por sua vez, ao serem realizadas no espaço privado não necessitam, portanto, de uma plateia, nem marcam a ocupação de um espaço público. A comemoração do aniversário da igreja é um exemplo de festa interna, que sociologicamente é importante para o fortalecimento dos laços de fé entre os membros. É a versão evangélica do rito religioso ou também chamado de neutralização.

O terceiro vértice do triângulo ritual protestante é o que necessita ser mais problematizado. Põe em xeque a neopentecostalização do campo evangélico brasileiro. Considerando que a marcha para Jesus é um modismo importado da Inglaterra e que sob a organização da Igreja Renascer em Cristo (neopentecostal) apresenta a “carnavalização do gospel” sob a ótica de Gedeon Alencar (2005:89-90) que chama essa reinterpretação oriunda de uma espécie de “Igreja Cristã do Jeitinho”. Jeitinho, porque o carnaval lembra a ideia de prazer, a valorização do corpo, da carne (ligado ao pecado), algo sempre negado teologicamente entre os evangélicos, que se apropriam e recriam esse rito que apresenta de forma ambígua, pois se apresenta como rito de inversão (sem uniforme, incontingência gestual, trios elétricos, povo e autoridade misturados, além de visibilidade pública com demonstração de força) e como rito de ordem (reforço), já que religião combina mais com ordenamento e hierarquias. O neopentecostalismo (já que é um evento organizado pela Igreja Renascer em Cristo, embora muitos outros grupos evangélicos que não neopentecostais também participem e até não evangélicos) através da Marcha para Jesus conseguem uma adequação cultural e ser mais sincrético e por isso com uma maior visibilidade midiática expressa nas últimas décadas com a ocupação cada vez maior de espaços televisivos, cargos políticos e crescimento numérico.

É interessante perceber, que diferente das restrições comportamentais dos pentecostais, os neopentecostais excetuando-se as restrições as bebidas, aos jogos de azar, as drogas e as relações extraconjugais, foram mais liberais e permitiram uma maior adequação cultural no comportamento em questões como lazer e moda dos fiéis, conforme Mariano (2005:210). Além disso, o neopentecostalismo assimilou práticas do catolicismo como sacralização de objetos (água ungida, rosa de Sarom), valorização de práticas supostamente judaizantes (a água santificada do rio Jordão, por exemplo) e afro (embora negue, como o caso da Igreja Universal do Reino de Deus, que tem na sexta-feira, o “dia do descarrego”).

O desejo do malandro, de ganhar a vida com o mínimo esforço possível com o famoso jeitinho brasileiro poderia ser assim brevemente colocado. Para o catolicismo, uma teologia dogmática na teoria, mas relativista na prática e com elevada capacidade de adaptação (ALENCAR, 2005:152) permite que o jeitinho brasileiro adentre dentro de uma teologia de concessão, mas tolerante em relação as práticas do jeitinho brasileiro.

Para os evangélicos, entre os protestantes reformados, existe a ideia de reta doutrina, com poucos espaços cinzentos e a negação do sincretismo (embora exista, já que o próprio cristianismo surgiu do judaísmo), ou seja, o papel do malandro e do jeitinho brasileiro precisa ser negado com a valorização da cultura dos países da Reforma e da sua cultura do trabalho (imigrantes alemães) ou da defesa de uma superioridade cultural dos EUA, o WASP tupiniquim seria nesse sentido uma contradição, pois tendem a jogar a lógica binária em detrimento a lógica do triângulo ritual, embora sob a influência de uma cultura “gospel” tendem a valorizar cada vez menos a ideia de renúncia (do não fazer) incorporando tendências comportamentais extra-eclesiásticas e permitindo brechas para o jeitinho brasileiro.

Para os pentecostais, a ideia de reta doutrina aplicada aos protestantes também é válida, mas a valorização estrangeira é do pentecostalismo original dos Estados Unidos com o movimento da rua Azusa de Los Angeles (que originou o pentecostalismo moderno no início do século XX), mas considerando-se os baixos índices de escolaridade e renda desse grupo, são eles que tendem à serem mais pressionados à subverterem as ordens e hierarquias numa sociedade tão desigual quanto a brasileira para o uso do jeitinho brasileiro para vencer as adversidades econômicas e sociais que estão sujeitas, embora responda também com elevados níveis de solidariedade interna, o que de um lado reforça a solução das dificuldades de uma sociedade desigual, mas fortalece também a ideia de gueto, de segregação (nós, os salvos\eles, os perdidos).

Por último, os neopentecostais que buscam subverter a ordem do jeitinho brasileiro, não mais com a ideia do malandro que não gosta de trabalhar, mas sim da ideia de uma ética de consumo (e não a ética de poupança calvinista weberiana) que passa pela teologia da prosperidade, na qual quanto maior o seu sacrifício, maior será a sua recompensa e que depende da sua fé e da sua entrega. Como a prosperidade e a vida dependem daquilo que você determina para Deus através do pensamento positivo como premissa básica da teologia da prosperidade, existe uma espécie de “patrimonalismo espiritual”, no qual eu incorporo riqueza e saúde daquilo que eu exijo de Deus, como forma de vencer as dificuldades da ausência do Estado nos serviços básico prestados para a população. A lógica do resultado é mais importante do que as questões éticas ou os tabus comportamentais.



IV - Considerações Finais

Buscamos através deste artigo, fazer um breve esforço intelectual de tentar entender as relações entre a identidade brasileira e a identidade evangélica. Claro que quando traçamos um perfil daquilo que entendemos como identidade, seja a brasileira ou a evangélica, privilegiaram determinados aspectos em detrimentos de outros, pois a identidade se forja nos conflitos internos entre os grupos de pessoas envolvidas. Além disso, a análise procurou instigar as questões relacionadas ao jeitinho brasileiro através de comparações entre o triângulo ritual brasileiro e protestante.

A religiosidade brasileira (incluído a evangélica) combina de maneira ambígua entre dois polos: o doutrinário, representado por aquilo que é oficial, que normatiza a conduta com as questões emocionais ligados aos dramas visíveis e concretos (DAMATTA, 1986:116). O fato dos pentecostais e neopentecostais valorizarem mais a emoção pode criar uma tensão, no sentido de pender a balança para o lado da emoção do que da norma, já que consideram a ação do Espírito Santo de uma maneira muito mais significativa do que para os reformados, em suma, a experiência legitima a identidade eclesiástica.

Gedeon Alencar (2005:151) afirmou que o protestantismo de imigração tinha o estereótipo de “religião dos ingleses”; o protestantismo de missão, como “os cultos e diferentes”, os pentecostais, como “os alienados e os honestos” e o protestantismo moderno (que inclui o neopentecostalismo) sob a ideia de “grana, glamour e gospel”. O protestantismo de imigração buscou pouco contato com a sociedade brasileira em grande parte da sua história (portanto, pouco teve que lidar com o jeitinho brasileiro); o protestantismo de missão foi visto como intelectualizado demais para se popularizar e ficou mais restrita a classe média e alta (menos problematizado o jeitinho brasileiro, porque esse grupo sofreu menos as adversidades socioeconômicas da ausência do Estado brasileiro nos serviços básico para a população); o pentecostalismo era uma religião feita pelos pobres que deveriam dignificar os seus valores morais (tentou negar a malandragem e o jeitinho brasileiro com a moralidade); e o neopentecostalismo levou ao extremo a espetacularização da religião e a legitimação do enriquecimento financeiro (foi o grupo que conseguiu a maior adequação cultural aos valores nacionais).

A miscigenação do povo, o hibridismo cultural e o sincretismo religioso criou a ambiguidade de uma identidade evangélica brasileira, que conforme Gedeon Alencar (2005:149):

Não é branco, anglo-saxônico, racionalista, encorpado de categorias conceituais filosóficas e teológicas, moderno, estrangeiro, nem sistematizado em compêndios. Mas, também não é absolutamente oral, festivo, moralista, sensorial, experimentalista e libertário. É ambíguo, pluralista, intermediário, carnavalesco, sincrético. Enfim nem branco, nem preto. Protestantismo tupiniquim mulato. Nada mais Brasil.

Foi através dessas ambiguidades do que é ser evangélico brasileiro e privilegiando a questão do jeitinho brasileiro é que buscamos instigar o debate. Cabe ao leitor, julgar se as ideias deste artigo devem ser aceitas ou não. De qualquer modo, fica a contribuição acadêmica para esse debate.

Bibliografia

ALENCAR, G. (2005), Protestantismo tupiniquim: hipóteses da (não) contribuição evangélica à cultura brasileira, São Paulo: Arte Editorial.

ALVES, R. (1982), Protestantismo e repressão, São Paulo: Ática.

CANCLINI, N. (2008), Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade, São Paulo: EDUSP.

DAMATTA, R. (1990), Carnaval, malandro e heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro, Rio de Janeiro: Guanabara.

____________. (1986), O que faz brasil, Brasil, Rio de Janeiro: Rocco.

HOLANDA, S. (1995), Raízes do Brasil, São Paulo: Cia. das letras.

FREYRE, G. (2006), Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal, São Paulo: Global.

MARIANO, R. (2005), Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, São Paulo: Loyola.

RIBEIRO, D. (2006), O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das letras.

SCHWARCZ, L; STARLING, H., (2015), Brasil: uma biografia, São Paulo: Cia das letras.

SOUZA, J. (1999), O protestante e o malandro – a tese weberiana de singularidade brasileira, Brasília: UNB.





1 WASP é uma abreviação da expressão inglesa “White, anglo-saxon and protestant”, ou seja, “branco, anglo-saxônico e protestante”

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