Os exercícios marcados a partir das nove da manhã fazem com que os corpos despertem cedo



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Encontro01.08.2016
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A)_____________________________________

Os exercícios marcados a partir das nove da manhã fazem com que os corpos despertem cedo. No estúdio, de frente para o espelho que ocupa uma parede inteira, David Marques, de 19 anos, não se lembra das torradas e do copo de leite que tomou quando mal havia luz na rua, do caminho feito de metro, das notícias que leu entre as estações. Concentrado no aquecimento que, com rigor, lhe leva trinta minutos de alongamentos, pouco conversa com os colegas. Às primeiras horas do dia, o silêncio parece um compromisso entre todos, dedicados mais a si do que aos outros. Ao sinal do professor, o pianista comece a tocar e sabem que, a partir daquele instante, o trabalho será mais duro. Há garrafas de água pelo chão e camadas de roupa que vão sendo tiradas por culpa do calor.

A aula termina com aplausos, quando passam quarenta minutos das dez da manhã. Os rapazes têm agora vinte minutos para se preparar para a disciplina teórica do dia, História da Dança. Seguem para os balneários, para mudar de roupa e pegar nos cadernos e nas canetas.

B)_____________________________________

Quando entram na sala, o nome Merce Cunningham - coreógrafo americano cujos métodos de composição influenciam toda a dança contemporânea - está escrito no quadro branco. Para a professora da cadeira, Maria José Fazenda, «hoje, exige-se aos bailarinos que sejam cultos, que conheçam a arte que praticam e que sejam exigentes». Contar-lhes a História da Dança é «garantir que, enquanto profissionais, eles vão dar o seu contributo na consciência do que já foi feito». Da escola os alunos saem, na sua opinião, «com competências como intérpretes, criadores e pedagogos». Duas horas e quinze minutos depois,



sem que se oiça qualquer toque ou seja feito qualquer sinal, termina. Patrícia Milheiro, de 27 anos, junta-se a David, e os dois improvisam uma refeição no bar. Os cuidados com a alimentação são óbvios: aquecem comida de casa no microondas da escola.

Já habituados ao ritmo, passam dias inteiros sem ver a luz do sol. Sem saber que uma coisa implicaria a outra, com 24 anos, Patrícia «queria passar o dia inteiro a dançar».

C)______________________________________

Pisou o seu primeiro palco com cinco anos: «Na altura fazia ginástica rítmica e lembro-me de um espectáculo de final de aulas, um sarau, estava excitadíssima.» Tem também memória de um problema muscular que a fez parar de dançar entre os 11 e os 20 anos - «fui-me esquecendo da dança»-, um curso no Balleteatro do Porto, um ano de uma licenciatura em História de Arte, na Faculdade de Letras do Porto, e uma certeza: «Naquela idade ou vinha e fazia o curso e dançava ou nunca mais podia pensar nisso.»

Pelo meio, recorda-se de uma audição que foi fazer a Amesterdão: «Tinha feito alguns espectáculos, procurei escolas lá fora, aquela pareceu-me a melhor. Fui para lá sozinha, estive lá uma semana, não entrei, fiquei desanimada e voltei. De vez em quando ia fazer umas aulas ao Balleteatro do Porto, à noite, mas fazia-me falta a prática diária. Então, decidi fazer as audições para a Escola Superior de Dança.» Hoje, os sacrifícios custam, mas «já sabia com o que contar». Se não estivesse a fazer dança, «poderia estar ligada ao cinema ou à música».

Às 14hOO, e de um só fôlego, a professora de Técnica de Dança Contemporânea, Cristina Graça, dá as indicações de que a turma necessita: «Alonga em quatro tempos, segura nas mãos, chega a boca ao tecto.» Trata todos os alunos pelo nome e sorri enquanto lhes explica que têm de resistir ao cansaço ou nunca passarão daquela linha. «Imaginem que as vossas pernas são tesouras», propõe.

Quando, duas horas depois, a última aula do dia começa, não parece possível que haja ainda energia para dançar. Mas é preciso que haja, porque a aula que se segue não é só uma aula, é um seminário de composição com a coreógrafa Amélia Bentes, que exige à turma «uma energia de grupo». Os alunos respondem ofegantes, depois da primeira passagem do trabalho. «Explica-me lá o que andas a fazer, para eu saber se sabes mesmo o que andas a fazer», pede a coreógrafa a um deles. E avança: «Eu não sinto que sintas o que fazes.» A proposta que lançou aos alunos «era pegar em pequenos contos, ou histórias, não para descrevê-las fisicamente, mas para lhes tirar o sumo de algo que nos é comum, momentos, marcas, vivências, surpresas, prisões, labirintos… a poesia do corpo, os sentimentos ambulantes que se rouba deste e daquele, de todos nós...».

D)______________________________________

Porque «o corpo é uma máquina de contar histórias». Dividida em quadros, a coreografia é repetida para lá da exaustão. Eles e elas resistem, porque, adivinha a coreógrafa, «a ambição é sempre dançar, ir para o palco».

Todos os dias acabam com algumas mazelas. Às vezes são pequenos hematomas, outras vezes, lesões que inspiram maiores cuidados. Para quem, como David, dança desde os cinco anos, o corpo é um lugar que se sabe de cor. Assim, há sinais que são reconhecidos a tempo e imediatamente tratados.

E)_____________________________________

Cinco anos foi a idade com que este estudante viu, em Torres Novas, aquela que viria a ser a sua primeira professora de dança, Helena Azevedo dançar, e decidiu que queria ser bailarino. De lá para cá, dançou todos os dias, estudou até ao 12.º ano na área de Humanidades e fez, com 17 anos, as audições para a Escola Superior de Dança. Traçou, por isso, um percurso diferente do de Patrícia.

A música está sempre presente no dia daqueles que estudam dança. «Pode ser um estímulo, o princípio do movimento, pode ser um cenário sonoro. Pode mudar tudo.. », diz David. Mais: «Deve ter-se muito respeito pela música enquanto estudante de dança.» Ele, que quer «dançar coisas interessantes, inteligentes, que comuniquem», sejam suas ou de outros, defende que toda a gente devia dançar. Até porque considera que, «tal como a educação musical e a educação visual, a dança deveria fazer parte dos currículos escolares». Para o estudante, «a dança aproxima as pessoas de si, do seu corpo e das suas emoções, desenvolve capacidades criativas e motoras e pode estimular para a arte, para outras expressões artísticas».

Na sua opinião, «uma criança estimulada para a arte na infância vai ser público de dança, teatro, concertos, vai interessar-se por artes plásticas, vai ser uma pessoa atenta». David quer apostar numa formação «o mais abrangente possível» e envolver-se em projectos de qualidade.

Mas, por agora, os dois querem dançar. David e Patrícia querem escrever, ler, ouvir música, explorar a Internet e namorar no tempo que sobra. No tempo que inventam, por entre dias inteiros de dança

(in Notícias Magazine, 16 de Outubro de 2005)
GRUPO I
Compreensão e Interpretação
1. Classifique este texto jornalístico. Justifique a sua resposta, apresentando a respectiva estrutura e as características específicas desta tipologia textual.
2. A lei da alternância permite quebrar a monotonia de um texto e torná-lo mais dinâmico e atractivo para o leitor.

2.1. dois exemplos, devidamente documentados, da lei da alternância aplicada neste texto.


3. As pequenas e curiosas histórias individuais conquistam o leitor, colorindo e dando vida ao assunto principal do texto.

3.1. Identifique um episódio insólito e colorido (side story) inserido neste texto e apresente um breve resumo do mesmo.
4. Ao longo de um texto podem surgir subtítulos (normalmente são citações de palavras ditas pelos protagonistas ou sínteses feitas pelo repórter), que permitem ao leitor aperceber-se dos momentos fundamentais e do fio condutor do texto.

4.1. Elabore subtítulos para os diferentes momentos, de acordo com as alíneas que são sugeridas ao longo do texto.


5. “No tempo que inventam, por entre dias inteiros de dança.”

5.1. Descreva a rotina da vida de um bailarino, tendo em conta os dois exemplos apresentados ao longo do texto.

5.2. Como deve ser um bailarino nos nossos dias? Justifique a sua resposta com elementos do texto.

5.3. Segundo o bailarino David, qual o papel que a dança desempenha ou poderia desempenhar na sociedade actual? Justifique a sua resposta.



Funcionamento da Língua
6. «o corpo é uma máquina de contar histórias»

6.1. Identifique o recurso estilístico presente nesta citação. Justifique o seu valor expressivo.

6.2. Coloque a frase no Pretérito Imperfeito do Indicativo.

7. Quero dançar “coisas inteligentes”.



7.1. Identifique o adjectivo presente na frase, indicando o grau em que se encontra.

GRUPO II
8. A reportagem é o texto de eleição do jornalismo, uma vez que é a tipologia textual que permite ao profissional da comunicação mostrar todo o seu potencial, como a capacidade de investigar, de analisar e de transmitir. Se respeitar o código deontológico, este é um tipo de trabalho essencial para o bom funcionamento de uma democracia.

8.1. Elabore um comentário (150 – 200 palavras) às afirmações anteriores, procurando demonstrar que a reportagem é um texto jornalístico completo e que possui, muitas vezes, características de outras tipologias de textos informativos.

Bom Trabalho!


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