Os (in) desejados na Amazônia: Um olhar sobre migração, vulnerabilidade e pobreza no Brasil



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Os (in) desejados na Amazônia: Um olhar sobre migração, vulnerabilidade e pobreza no Brasil.

Márcia Rosane Vieira
Hidemi Soares Miyemoto
Universidade Federal da Bahia
Brasil

Julho/2015

Os (in) desejados na Amazônia: Um olhar sobre migração, vulnerabilidade e pobreza no Brasil.


Márcia Rosane Vieira.1

Hidemi Soares Miyamoto.2


O presente texto é parte de uma pesquisa de doutorado em andamento, tendo como objeto empírico migrante oriundo da região Sul do Brasil que se conduziram à Amazônia brasileira no processo da migração Contemporânea. Para tal, utilizamos como perspectiva teórica os estudos desenvolvidos por (HALL, 2000) que colaboram para a concepção dos quadros sociais que constituem as questões migratórias. Os aportes metodológicos são o etnográfico e a história oral focalizando aspectos da diáspora e a identidade desses atores. De um modo geral as migrações são determinadas por fatores socioeconômicos. A carência de recursos, de trabalho, condições de vida propicia a motivação para buscar em outros espaços aquilo que o lugar de origem já não supre mais. A mobilidade humana é em geral um sintoma de grandes transições, quando ela se intensifica, algo ocorreu ou está ocorrendo nos bastidores da história. No Brasil é difícil falar dos grandes deslocamentos da população sem mencionar a pobreza como também é complexo falar destes deslocamentos sem relacioná-los à vulnerabilidade social. Contudo, podemos dizer que os dois componentes em questão têm funcionado, na história do país, como duas faces de uma realidade mais ampla, ou seja, constituem, simultaneamente causa e efeito dos problemas estruturais da sociedade brasileira. Assim, buscamos na Literatura Brasileira uma analogia e retratar o percurso de Severino personagem central do livro Morte e Vida Severina3 e do migrante contemporâneo, protagonista deste texto, fazendo uma reflexão sobre migração, vulnerabilidade e pobreza no Brasil.

Severino é a figura do migrante oprimido socialmente, que saiu do seu estado e partiu para outros espaços do país cuja vida foi definida pelas desigualdades econômicas e sociais de seu lugar de origem. A vulnerabilidade social nos ajuda a pensar a situação de tantos “Severinos”, pois as mesmas podem ser vistas como processos e transições, mais do que como situações específicas e estanques; como algo que afeta mais grupos e comunidades, do que indivíduos; como algo que está relacionado a diferentes dimensões de vulnerabilidade e de privação do que como um aspecto isolado. Para fugir desta condição, Severino abraça os desafios de um migrante e, como tantos outros, lança-se na BR 1634 em busca de um lugar promissor, assim como fez Severino na Literatura Brasileira que partiu para o litoral fugindo da seca e da morte, pois viver em outros espaços parece ser mais atraente, mais vida e menos “Severina” para ambos.


Palavras chave: Migração. Vulnerabilidade. Pobreza


  1. Um olhar sobre migração no norte de Mato Grosso

As migrações enquanto fenômeno de espalhamento dos povos interfere sensível e diretamente na construção da identidade cultural de pessoas em transição e, lembramos que o exemplo mais peculiar desse fenômeno está no Velho Testamento, quando Moisés conduz seu povo à “Terra Prometida”. Na Contemporaneidade não cessam exemplos em que se percebe que os movimentos migratórios refletem no modo de pensar, agir e atuar das pessoas. Stuart Hall (2008) estudioso do fenômeno, fala do processo como sendo um núcleo imutável e atemporal, que liga o passado ao futuro e ao presente numa linha ininterrupta. Em outras palavras, a lealdade às origens pode ser vista naquilo que se diz acerca da tradição. Não somente na História, a diáspora se faz presente como efeito da zona de contato, mas também em outros âmbitos, como por exemplo, na literatura ela aparece interferindo nas personagens e nas narrativas, e muitas vezes como força propulsora da história contada.

Inspirada nos escritos de Hall (2008) inicio este texto ressaltando que a mobilidade humana é em geral um sintoma de grandes transições, quando ela se intensifica, algo ocorreu ou está ocorrendo nos bastidores da história. Os anos 70 foi marco da migração de pessoas da região sul do Brasil (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) para o norte de Mato Grosso. Estimulados por propagadas oficiais do governo da época e com as políticas públicas para a Amazônia Brasileira que visavam novas estratégias de ocupação, ou seja, ocupar o espaço vazio que se encontrava essa parte do país, bem como, amenizar o impacto que atingiu a região sul devido ao derrame econômico do café principalmente no estado do Paraná. O governo criou programas de colonização no centro oeste e na região Amazônica como forma de aliviar os problemas surgidos no campo. Assim, as pessoas da região sul tomaram parte das frentes pioneiras do Brasil se deslocando em direção ao centro oeste e à Amazônia matogrossense. Supostamente, as motivações socioeconômicas justificaram a saída dos sulistas de seus estados, assim, os migrantes partiram rumo a uma nova colonização, fugindo de da pobreza e em busca de realizar o sonho de serem novamente proprietários.

Aparentemente os motivos mais contundentes que os fizeram partirem rumo à região centro oeste do país foi ascensão social. A explicação da “crise do café” no sul do país supostamente provocou desesperança para muitos deles, dando impulso à migração dessas pessoas para outra região. As redes sociais por sua vez, são responsáveis pela manutenção do fluxo migratório após a década de 1970 até nos dias atuais, talvez as mesmas justifiquem também o fluxo de pessoas da mesma cidade ou de cidades próximas, com o grau de parentesco ou não, reforçando o movimento transregional por ter passado a fazer parte da vida dos sulistas. Assim, essas pessoas ficam em permanente contato com o estado de origem podendo, metaforicamente estar nos dois lugares.

As migrações ocorrem na maioria das vezes por laços de parentesco, amizade ou profissional. Assim, as redes estimulam a migração interligando as sociedades de origem e a de destino servindo de uma espécie de “porto seguro” para essas pessoas. No caso dos migrantes em Mato Grosso, os elementos agregadores às redes são: o CTG5, as Festas Típicas, os conterrâneos, a igreja (em geral a católica) e o contato com os parentes que ficaram no sul. É muito comum que um conterrâneo na sua chegada seja recebido na casa de alguém, parente ou não, e, na maioria das vezes já com a possibilidade de trabalho, mas, caso seja o contrário, essa pessoa terá apoio da família que o acolheu até que consiga trabalho e um lugar para ficar. Essas redes podem indicar a transregionalidade deste movimento migratório, no entanto, não rotula essas pessoas como moradores temporários ou permanentes, apenas ratifica que as decisões de retorno são complexas, pois não envolvem somente questões econômicas, mas também questões pessoais e familiares.

Estudar sobre os migrantes no norte de Mato Grosso foi uma opção surgida em função da pesquisa de mestrado e nas escassas publicações sobre a construção social da memória neste vasto estado. Motivada por esta lacuna e buscando sugerir contribuições que enriqueçam pesquisas científicas neste espaço, assim, optei trabalhar com o método etnográfico e com a história oral através de entrevistas focalizando aspectos da memória coletiva e a identidade dessas pessoas.

A história de vida dos migrantes em Mato Grosso talvez nos permita entender a migração a partir da interpretação que os sujeitos fazem da sua própria trajetória. Penso que ao narrar sua vida, esses atores busque em suas memórias elementos que expliquem e dão sentido a suas escolhas. Deste modo, a história oral constitui num caminho interpretativo específico. A memória evocada pelas histórias de vida dos migrantes reflete identidades presentes na vida dos mesmos talvez não revelados até então, pois narram suas vidas baseados nas recordações que fazem parte de uma memória coletiva, justificando a partir disto a sua opção por outro estado e afirmando a sua identidade sulista. Segundo Halbwachs (2004, p. 36) “nossos sentimentos e nossos pensamentos mais pessoais buscam sua fonte nos meios e nas situações sociais definidas”. E ainda ressalta o autor que “a sociedade antes de uniformizar os indivíduos, diferencia-o na medida em que os homens multiplicam suas relações (...) cada um deles toma consciência de sua individualidade”. A subjetividade por sua vez é definida por sua inserção em uma comunidade afetiva. No entanto, para haver comunidade afetiva,
é necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou noções comuns que se encontram tanto em nosso espírito como nos dos outros, porque elas passam incessantemente desses para aqueles e reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuaram a fazer parte da mesma sociedade, só assim, podemos compreender que uma lembrança pode ser ao mesmo tempo reconhecida e reconstruída (HALBWACHS, 2004, p. 34).
Se para a Sociologia o indivíduo é definido a partir de seu lugar na coletividade, podemos dizer que a identidade resulta da interação entre ele e a sociedade. Assim, o sentido de continuidade e permanência presente em um indivíduo ou classe social ao longo do tempo depende do que é lembrado, quanto o que é lembrado depende da identidade de quem lembra. Pensar a migração em Mato Grosso a partir das histórias de vida desses atores implica também a busca em entender que as lembranças trazidas desvendam a fronteira entre subjetividade e identidade em relação aos estados de origem (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) e ao Mato Grosso. Sabemos que trabalhar com as lembranças de uma pessoa, impõe reconhecer que a memória não é um dado fixo, ou seja, ela não é formada em um simples armazenamento de informações objetivas. Assim sendo, elas podem ser recuperadas, mas sob a interferência de diversos fatores. Os relatos podem evocar uma memória construída pelos migrantes na região centro oeste seja em relação ao sul do país e ao Mato Grosso, seja em relação à própria experiência migratória e de vida.

A história desses migrantes será reportada através de entrevistas, estimuladas e gravadas com pessoas que podem testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, modo de vida ou outros aspectos históricos na contemporaneidade. De acordo com Neves (2003), a história oral movimenta-se em terreno pluridisciplinar, pois utiliza muitas vezes a música, literatura, lembranças, fotos, documentos, entre tantas outras ferramentas, para estimular a memória. Assim sendo, a característica principal desta metodologia é que ela pode ser produzida a partir de estímulo porque as perguntas só serão feitas aos entrevistados depois de consumado o fato ou a conjuntura do que se quer investigar, como é o caso desta pesquisa. A opção por este método deu-se pela busca em compreender aspectos dessa migração, como, as motivações complexas que levam essas pessoas a migrar, que talvez possam não aparecer utilizando outras metodologias isoladamente.




  1. Vulnerabilidade, pobreza e os (in) desejados na Amazônia

“Severino” é a figura do migrante oprimido socialmente, que saiu do seu estado e partiu para outros espaços do país, cuja vida foi definida pelas desigualdades econômicas e sociais de seu lugar de origem. Suas tentativas muitas vezes de se diferenciar, de firmar sua identidade, resultam em insucessos ao se perceber um entre tantos iguais, generalizados pelo nome, filiação e semelhança das condições de existência. O migrante “Severino” é um adjetivo designado ao personagem que por mais que almeje se identificar, desaba na despersonalização, na categoria do inominado migrante pobre e miserável. A voz do Severino é a voz de muitos migrantes de norte a sul, dos muitos Severinos, que se obrigam a deixar sua terra natal devido a difícil condição de vida fugindo da miséria e sonhando com uma vida melhor. Um exemplo desse processo é a migração de pessoas da região sul para a região centro oeste do Brasil.

O estado do Paraná era um grande produtor de café nas primeiras décadas do século passado, ostentando grandes riquezas, mas ao longo da década de 1930, a produção do café tornou-se excedente e, ante essa grande demanda, foi necessário que o governo brasileiro tomasse providências no sentido de diminuí-la. Sua intervenção indireta visou, num primeiro momento, eliminar seus excedentes e adequar sua oferta à demanda. Mas, para o Paraná, essa política trouxe sérias consequências, como a redução das culturas alimentares secundárias de subsistências que serviam como abastecimento urbano, tendo seu excedente exportado para outros estados da federação. Essas outras culturas, originalmente, acompanharam a produção do café durante toda a sua expansão, pois, dividiam o mesmo espaço de plantio do fruto. Diante disso, a erradicação dos cafezais paranaenses, que eram cultivados em grande parte sob o regime de pequenas propriedades, foi forçosa, o que acelerou as transformações no setor agrícola local, (SOUZA, 2004, p.63) apud (VIEIRA, 2011).

A partir da década de 1970, grande parte da população paranaense, fora atingida pelo derrame econômico do café no Estado, e, para fugir dessa situação os paranaenses tornaram parte das frentes pioneiras do Brasil que se deslocaram em direção ao Centro-Oeste e Amazônia mato-grossense (VIEIRA, 2011). A devastação dos cafezais vividamente e retratada pelos Severinos do sul resultou em pobreza, o suor do esforço do trabalho que teima em diminuir, os dissabores da terra que se esvaiu, do mesmo modo como se esvaíram muitos “Severinos”. Sem políticas públicas que enfrentasse o problema do derrame econômico no Paraná, fizeram com que os “Severinos” do sul buscassem outro lugar para viver. Aqueles que tinham um pequeno pecúlio partiram rumo a Amazônia Legal em busca de terras e a volta da prosperidade e os “outros” que o derrame econômico não deixou nada além de dívidas partiram também, no entanto, a sua busca era por sobrevivência, e é sobre esse Severino que o presente texto aborda.

A vulnerabilidade social nos ajuda a pensar a situação desses atores sociais desprovidos de recursos, pois as mesmas podem ser vistas como processos e transições, mais do que como situações específicas e estanques; como algo que afeta mais grupos e comunidades, do que indivíduos; como algo que está relacionado a diferentes dimensões de vulnerabilidade e de privação, do que como um aspecto isolado.

Nosso protagonista traduz uma condição de grande vulnerabilidade social que atingiu sua gente, de muitas formas, em múltiplas privações numa condição processual, ou seja, perdeu tudo que possuía: terras, cafezais, casa e o trabalho como meio de sobrevivência. Para escapar desta condição, “Severino” abraça então os desafios de um migrante e, como tantos outros, lança-se na BR 1636 em busca de um lugar promissor, do café sem geada e terras para seus filhos. Assim como fez Severino da Literatura Brasileira, que partiu para o litoral, fugindo da seca e da morte, pois a vida em outro espaço parecia mais atraente, mais vida e menos Severina para ambos.

Porém, as perdas não se limitam somente ao capital, o migrante deixa para trás sua origem, paisagens, geografia, rede social, seu modo de viver e festejar, assim, o desenraizamento vivido por ele atinge duramente sua vida e sua cultura. Bosi (1992, p. 16), diz que “o enraizamento é talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana e uma das mais difíceis de definir”. Afirmando que seria mais justo pensar a cultura de um povo migrante em termos de desenraizamento, e que o foco não deve recair sobre o que se perdeu, pois as raízes já foram arrancadas, partidas; ao contrário, deve-se “procurar o que pode renascer”. Mas, Severino traz consigo as sequelas da vulnerabilidade, deixando para traz um cenário marcado pelo desenraizamento de uma terra que não o acolhe mais.

Nos estudos sobre a pobreza e desigualdade a mudança da percepção de vulnerabilidade tem sido muito importante, adquirindo clara relevância, pois o mesmo por vezes é interpretado de maneira equivocada atribuindo-o um significado equivalente à noção de pobreza. Quando se compreende de fato o que é pobreza, beneficia o entendimento do que seja vulnerabilidade, pois pobreza e vulnerabilidade não são sinônimas. Filgueiras e Peris dizem que,

El interés mayor radica en su capacidad de explicar los caminos que conducen a la pobreza, o más propiamente al empobrecimiento. Se trata de una noción básicamente dinámica, que examina lãs condiciones y los factores de riesgo que pueden conducir a La condición de pobre. Indisolublemente asociada a esta perspectiva está la noción de activos y recursos de los hogares y de las personas como una forma de “capital” que pueden movilizar para su desempeño social (2004,p.21).
Ancorados sob a perspectiva de Filgueiras e Peris (2004) ressalto neste momento do texto que as categorias sociais são determinadas pela condição profissional, o pertencimento a determinados grupos étnicos, gênero ou idade se filiam a diversos grupos e graus de predisposição a vulnerabilidade. Sendo assim, este importante conceito traz aqui sua contribuição no aporte da análise de desigualdade buscando evitar a dicotomia pobre e não pobre propondo configurações vulneráveis que podem ser encontradas nos dois setores. As abordagens dos estudos de vulnerabilidade propicia a formulação de um quadro de ativos vulneráveis. Esse quadro de ativos se detém na observação dos recursos que os pobres possuem e não no quadro do que eles não possuem. No caso dos migrantes desta sessão, podemos dizer sob a perspectiva instrumental que o pouco recurso que muitos deles levaram para o centro oeste serve como ferramentas analíticas para melhorar a capacidade de ação dos programas antipobreza otimizando benefícios e promovendo oportunidades.

A aproximação estrutural de oportunidades, ativos e vulnerabilidade corresponde à posse, controle e gestão de instrumentos materiais e simbólicos para o desempenho do indivíduo na sociedade, ou seja, ativos e sua mobilização. Esses ativos que estamos falando faz analogia com a análise econômica dos recursos individuais favorecendo uma integração positiva que tem a ver com os atributos da própria família de origem do migrante. Segundo Filgueiras e Peris (2004), a estrutura de oportunidade de Mercado refere-se basicamente às dimensões de emprego, renda, poupança e consumo. Porém, com sua crescente centralidade na estrutura institucional que se baseia a ordem social, registra uma crescente incerteza a respeito do trabalho como via principal de construção do futuro das pessoas e de suas famílias. Sendo assim, o migrante que se encontra numa condição de vulnerabilidade no seu estado de origem não tem certeza que sua busca pelo trabalho é o caminho para sair desse quadro ou se ainda ficará mais vulnerável ainda. Essa incerteza seguramente contribuiu para o aumento do desemprego ou do emprego precário, assim, com a flexibilidade do trabalho, o enfraquecimento das instituições e do recuo do Estado como empregador e garantia de uma proteção social.



A vulnerabilidade sócio demográfica é um fator importante nas questões de migração interna. Em seus fundamentos a proposta de vulnerabilidade sócio demográfica faz uma importante contribuição em dois sentidos: O primeiro deles é a construção de um paradigma que orienta pesquisa e construção do conhecimento sobre um conjunto de evidências não relacionadas entre si. O segundo é a identificação de prováveis situações, grupos e categorias de risco que exigem uma atenção especial por parte da política social e do sistema de proteção. Sendo assim, podemos dizer que a vulnerabilidade demográfica procura desenvolver um quadro conceitual a partir de quando adquirem sentidos das múltiplas manifestações de vulnerabilidade social decorrentes da dinâmica populacional, reafirmando o perfil sócio demográfico dos indivíduos. Para que possamos compreender mais aspectos da vulnerabilidade provocada pelo processo migratório, fazem-se necessárias algumas distinções, que ajudam a ampliar a visão e qualificar a abordagem. As condições infra-humanas nos lugares de destino é uma delas, pois normalmente são conhecidas de modo superficial pelo migrante, fazendo com que as pessoas se arrisquem influenciados pela mídia sobre a ilusão de vida fácil ou facilidade no arranjo de trabalho, moradia mesmo provisória nos lugares de destino, ou nas cidades em geral. Vieira ( 2011, p. 19), remete essa afirmativa aos migrantes que partiram rumo ao centro oeste em busca de uma vida melhor quando diz,
A propaganda sobre a Amazônia mato-grossense, no Sul, era muito entusiasmada; o governo não mostrava os pontos negativos que havia na região, como, por exemplo: a chuva que durava seis meses e tornava a BR 163 intransitável, a seca forte que durava outros seis meses e as doenças tropicais, como a malária. Assim, mesmo quem tinha terra no Sul migrou para a região, confiando nas propagandas oficiais do governo, enfatizando que o agricultor da região Sul era forte, experiente e que não se deixaria abater pelas condições físicas adversas do lugar.
Nesse contexto, foi quase inevitável que tal premissa resultasse em precariedade, contribuindo para formas de mobilidade que se protraem no tempo, como a circularidade e a pendularidade, ou até mesmo a formas precárias de sobrevivência como o caso de pessoas e famílias nos grandes centros que acabam morando nas ruas ou debaixo de pontes, por perder o pouco que possuía. Talvez uma da mais drástica situação de vulnerabilidade migratória ocorre com pessoas pobres ou em situação de pobreza. Podemos dizer que o migrante Severino seja o reflexo de tal situação, ou seja, migra em busca de melhores condições de vida e, em cada migração, perde mais do que possuía ou o que conseguiu ganhar desde a migração anterior. O mais preocupante nesse caso é a perpetuação da pobreza que pode ser internalizada em suas mentes e de seus filhos. Muitas vezes isso faz com que os mesmos acreditem na impossibilidade de uma vida melhor, assim, análoga a momentos do poema “Morte e Vida Severina”, impedindo a valorização de eventuais possibilidades de reverter à situação em que se encontram.

A ausência de estrutura infra-humanas nos processos migratórios ocasiona diversos problemas e entre eles é a depreciação dos pais migrantes a escolarização dos filhos, por dificuldade no acesso dos mesmos à escola ou por priorizar o trabalho ou qualquer outra forma de atividade que gere renda. Estas escolhas “forçadas” feitas pelos pais em relação a seus filhos são extremamente prejudiciais mesmo a longo e médio prazo. Tal situação pode conter desafios que desencadeiam processos de exclusão, os quais vinculam impossibilidades de desenvolvimento, como o analfabetismo por causa da pobreza ou do empobrecimento, a evasão escolar por causa das mudanças de residência e a falta de qualificação profissional ligada à circularidade. A vulnerabilidade social poderia ser fundamentada pela teoria da desigualdade, visto que vulnerabilidade social é entendida como aquela condição humana em que a privação de recursos coloca a pessoa em situação de risco físico e político. No caso das migrações, o êxodo traz inúmeras consequências que vai além das instituições que regem nossa sociedade.

Enfim, buscamos neste breve ensaio ampliar a compreensão da realidade acerca do fenômeno da migração induzida no Brasil, pois os interesses individuais e interesses sociais geralmente é o que classifica as dinâmicas migratórias. Mesmo assim, como entender a vulnerabilidade causada pela migração? E quais as vulnerabilidades que mais afetam a pessoa enquanto está em caminho? E quando chega a uma nova terra? São muitas as indagações embutidas num fenômeno tão amplo que é o das migrações na contemporaneidade. Para alguns, os migrantes são meramente mão de obra barata, para outros, os migrantes não passam de invasores que atentam contra a coesão social, para outros ainda, a migração é um processo histórico conhecido e entendido em sua complexidade, mensageiro de prosperidades e perigos, fragilidades e ganhos. Expressões como “migração forçada” que estão na tônica destas páginas, não pretendem desdenhar a existência e a importância dos deslocamentos livres e espontâneos. O direito de ir e vir estão na base de qualquer programa de luta pela cidadania. No entanto, na sociedade brasileira, a grande maioria da população deixa sua terra e sua gente não por um ato livre, mas por estar em jogo a própria sobrevivência. Por isso insistimos que o direito de ir e vir corresponde também o direito de ficar, no exemplo que apresentamos da migração sulina, quantos foram para o centro oeste e quantos tiveram o direito de ficar? Não sabemos a resposta. Mas sabemos que muitos migrantes que ainda hoje percorrem as estradas deste vasto país se pudessem optar, decidiriam permanecer na terra de origem. Assim, migrar deveria ser uma decisão livre e não “forçada” pela sobrevivência, representada pela vulnerabilidade e pobreza em qualquer parte do país.

Referencias


BOSI, Eclea. Cultura e Desenraizamento. In: BOSI, Alfredo. Cultura brasileira: temas e situações. São Paulo: Editora Ática. 1992.

FILGUEIRA, Carlos; PERIS, Andrés. América Latina: lós rostros de la pobreza y SUS causas determinantes. Santiago de Chile: ONU/CEPAL, 2004.

HALL, Stuart. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
_________. A identidade cultural na pós-modernidade/Stuart Hall; tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro- 10. ed.-Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
__________. Quem Precisa de Identidade? In: SILVA, Tadeu Tomaz da (org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.
________. Identidade cultural e diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Distrito Federal, 1996.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva/ Maurice Halbwachs; tradução Lais Teles Benoir. –São Paulo: Centauro, 2004
SOUZA, E. A. de. Sinop: Imagens e Relatos. Um estudo sobre a sua colonização – Cuiabá: Instituto de Ciências Humanas e Sociais – Ed. UFMT: 2004.

VIEIRA, Márcia Rosane. Reinventando a tradição sobre “o lugar chegado” e o “lugar deixado” na migração contemporânea: uma análise sobre a juventude em Sinop-MT. – São Leopoldo, 2011





1 Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia/UFBA - Brasil. Endereço eletrônico: marciavieira23@hotmail.com.

2 Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia/UFBA – Brasil. Endereço eletrônico: hidemi.soares@hotmail.com.

3 “Morte e Vida Severina” é um livro do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto publicado em 1955. O nome do livro é uma alusão ao sofrimento enfrentado pela personagem, apresentando um poema dramático, que relata a dura trajetória de um migrante nordestino em busca de uma vida mais fácil e favorável no litoral.

4 A BR-163 é uma rodovia longitudinal do Brasil, tem 1780 km de extensão, sendo que apenas 702 estão asfaltados. Ligam os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará. É a rodovia que integra o Centro-Norte do Brasil ao Centro-Oeste e Sul.

5 Centro de Tradições Gaúchas.

6 A BR-163 é uma rodovia longitudinal do Brasil, tem 1780 km de extensão, sendo que apenas 702 estão asfaltados. Ligam os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará. É a rodovia que integra o Centro-Norte do Brasil ao Centro-Oeste e Sul. Encontra-se asfaltada do Sul para o Norte até Guarantã do Norte, MT, a 702 km de Cuiabá, MT; daí, no sentido Santarém, PA, são 1152 km de estradas de chão. Possui fundamental importância para o escoamento da produção da parte paraense da Região Norte e norte da Região Centro-Oeste do Brasil.

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