Os inícios dos contactos entre Portugal e as Terras da Boémia



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ÍNDICE
Introdução

  1. Os inícios dos contactos entre Portugal e as Terras da Boémia ...7-9

  2. A época das descobertas na literatura checa ….9-11

  3. As relações luso-checas até século XVIII ……..12

    1. Missionários jesuítas checos e outras presenças nos territórios portugueses...12-15

    2. Portugal sob o domínio dos Habsburgos……………………………………..15-19

    3. Os Silva Tarouca na Boémia………………………………………………….20-21

  4. O século XIX nas relações entre Portugal e as Terras da Coroa Checa..........................21

4.1. Os artistas checos em Portugal…………………………………………………22-23

  1. O século XX…………………………………………………………………………….23

    1. A época entre as guerras……………………………………………………...23-28

    2. A situação de pós-guerra……………………………………………………...28-30

    3. As duas revoluções…………………………………………………………...31-35

    1. Depois da entrada na União Europeia à actualidade…………………………35-36

  1. Conclusão…………………………………………………………………………...37-38

  2. Fontes usadas ………………………………………………….…………………. 39

1. Bibliografia…………………………………………………………………...39-40

2. Artigos publicados nos anuários Ibero-Americana Praguensia……………..........40

3. Internet…………………………………………………………………..........40-41

Imagens


Introdução

Parece que Portugal foi considerado entre nós durante muitos anos só como um país vizinho de Espanha e os seus méritos no conhecimento de novos mundos foram na consciência dos checos atribuídos erradamente à Espanha ou simplesmente à Península Ibérica sem grande relevo para Portugal, país com tão interessante história. Esta afirmação é comprovada pelo facto de os historiadores checos, até relativamente há pouco tempo, não se interessarem muito por este país “no fim da Europa”.

A motivação para a escolha do tema relações luso-checas está relacionada com o interesse em mudar esta situação e mostrar que as duas nações têm muito em comum. Primeiramente, ambos os países têm quase o mesmo número de habitantes (por volta de 10 milhões), mesma superfície do território nacional, os checos passaram durante os últimos séculos por fases de prosperidade, decadência e ditaduras assim como os portugueses e ambos os países conseguiram recentemente impor a democracia e entrar na União Europeia. Porém, durante anos determinantes, políticas seguidas nos dois países impediram a aproximação e o conhecimento mútuo.

O objectivo deste trabalho é analisar o desenvolvimento das relações entre a República Checa e Portugal através de história dos dois países e focar os problemas destas relações do ponto de vista histórico.

Neste trabalho não se levarão em consideração as relações entre a República Checa e o Brasil e outros países lusófonos porque tal estudo exigiria um outro trabalho de maior extensão, assim concentrar-nos-emos só nos contactos com Portugal.

O trabalho é dividido em cinco partes onde se trata sobre as relações mútuas desde os tempos mais antigos até hoje. No primeiro capítulo são abrangidos os inícios dos contactos entre as duas nações. No segundo, fala-se do reflexo das viagens descobertas na literatura checa. Seguinte capítulo trata do período que vai do século XVI até ao século XVIII, dando especial relevo ao trabalho dos missionários jesuítas checos nas colónias portuguesas. Neste capítulo foca-se igualmente a ligação dos Habsburgos tanto com Portugal, como com as Terras da Coroa Checa. No quarto capítulo, falaremos sobre os artistas checos que actuaram na corte real portuguesa ou brasileira no século XIX. O último capítulo ocupa-se dos problemas dos regimes totalitários em ambos os países e a sua influência nas relações bilaterais e mencionaremos também as mudanças nas relações mútuas registadas depois da entrada dos dois países na União Europeia.

Este trabalho não pretende dar uma lista de nomes, dados e acontecimentos, mas antes deve ser interpretado como uma tentativa de traçar um perfil das relações mútuas ao longo de várias épocas.

1. Os inícios dos contactos entre Portugal e as Terras de Boémia
A distância de 3000 km entre os dois países foi no início o maior obstáculo na possibilidade de conhecimento recíproco. A posição geográfica de Portugal, virado para o oceano e a presença do seu vizinho maior, a Espanha, impediu muitas vezes que as duas nações se aproximassem. Na historiografia checa Portugal fica sempre à sombra do seu grande vizinho e por isso também no estudo das relações mútuas muitas vezes encontramos as referências sobre Espanha ou referências sobre a Península Ibérica, devido ao facto dos historiadores checos se refirem à Península Ibérica como um todo.

Josef Polišenský compara o período pré-histórico da Península Ibérica com as terras da presente República Checa: “ temos que constatar que a evolução étnica da península foi tão variada como na Europa Central. Algumas ondas étnicas, os cremados, os Celtas surgem tanto no nosso país como no cabo sudoeste do continente. De certa maneira podemos comparar também o papel dos dificilmente apreensíveis Íberos e os Ilíros entre nós. Mas os óppidos célticos(Stradonice, Závist, Staré Hradisko etc.) tiveram no nosso país uma duração muito mais curta do que na Ibéria.” 1

Segundo Jan Klíma a primeira referência sobre os eslavos foi trazida até aos arredores de Braga por São Miguel de Dumio, por volta dos anos 538, que durante a sagração da basílica do São Martim de Tours referiu em versos latinos tanto os nossos antepassados como todas as nações com as quais se tinha encontrado na Europa Central.

Durante a consolidação da Europa cristã a igreja teve possibilidade de desenvolver contactos internacionais, razão pela qual os contactos que se conhecem desta época se limitam quase exclusivamente à visita de alguns bispos a Praga. Em 1225, por ocasião da



1 Prof. PhDr. Josef Polišenský,DrSc.: Úvod do studia dějin a kultury Španělska a Portugalska, Filozofická fakulta Ostrava 1994, página 38

tradução: “musíme konstatovat, že etnický vývoj poloostrova byl stejně pestrý jako ve střední Evropě. Některé etnické vlny, lid popelnicových polí, Keltové, se dokonce objevují u nás i v jihozápadním cípu kontinentu. Do jisté míry můžeme srovnat i úlohu těžce postižitelných Iberů a Ilyrů u nás. Ale keltská oppida(Stradonice, Závist, Staré Hradisko ad.) měla u nás daleko kratší trvání než v Iberii.”

eleição do bispo praguense, chegam à Boémia como legados do Papa o bispo do Porto Konrád von Urach e San Rufina, legado na Alemanha, para aqui representarem os interesses da igreja romana. No fim de Setembro de 1373 visita Praga o bispo lisbonense Agapito Colonna, acompanhando Carlos IV e Václav IV na viagem da Alemanha. É bem conhecido que o rei Carlos IV seguia com atenção os assuntos da Península Ibérica: “ ...deixou mandar para si as notícias sobre os acontecimentos importantes em Espanha e Portugal como podemos ver por exemplo da carta do antigo cobrador da décima papal na Boémia, Bertrand de Macello - delegado papal na Espanha que comunicou ao imperador no dia 31 de Outubro 1368 algumas notícias de Lisboa.” 2

Na época das Guerras Hussitas(1419-1436) é conhecida a provável participação do infante D. Pedro, filho mais novo de D. João I, nas lutas contra os hussitas ao lado do imperador Sigismundo. Aquele terá chegado à sua corte acompanhado por doze fidalgos que participaram nas lutas travadas contra os hussitas. A mãe do imperador Maximiliano I, a infante D. Leonor, era filha de D. Duarte e mulher do imperador Frederico III. Na controvérsia de imperador com os Estados da Baixa Áustria foi ela quem dirigiu pessoalmente as negociações políticas com o rei checo, Jorge de Poděbrady, o qual na altura serviu de medianeiro de diálogo entre o imperador e os príncipes alemães. O objectivo da missiva do rei Jorge de Poděbrady às cortes reais europeias foi a unificação da Europa contra o perigo turco mas também o fortalecimento da posição do rei checo depois das Guerras Hussitas. A embaixada mencionada foi dirigida pelo cunhado de Jorge de Poděbrady, Lev de Rožmitál e Blatná que no ano de 1466 conseguiu chegar até Portugal. É desta altura que provem o primeiro testemunho sobre a visita do país no fim da Europa pelos checos, escrito

por Venceslau Šašek de Bířkov, que integrava a embaixada do rei Jorge de Poděbrady.
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2Ferdinand Tadra: Kulturní styky Čech s cizinou až do válek husitských,Jubilejní fond král.České společenství nauk 1897, página 197

tradução: “ dával si posílati zprávy o důležitých událostech ve Španělsku a Portugalsku, jakož např. vidíme z listu bývalého výběrčího papežského desátku v Čechách, Bertranda de Macello, kterýž poslán byv od papeže do Španělska císaři dne 31. října 1368 některé zprávy z Lisabonu sdělil”

Venceslau Šašek descreve o encontro com Afonso V: “ em Braga apanhámos o rei português. Recebeu o Senhor Lev e todo o seu séquito com homenagem. É que o nosso Senhor trouxe ao rei a carta da sua irmã, mulher do imperador, escrita pela sua própria mão.”3 Neste livro Venceslau Šašek descreve a viagem de deputação por quase todo o território de Portugal até Évora passando pelo Porto, Arrifana, Agueda, Coimbra e Tomar. O autor pela primeira vez descreve o ambiente, a situação social nas aldeias e nas cidades. Importante é que trouxe para a Boémia informações sobre as viagens ultramarinas e sobre as suas consequências económicas. O tema desta viagem foi mais tarde trabalhada literariamente também por Alois Jirásek.
2. A época das descobertas na literatura checa

Portugal, o pequeno país na margem do continente, tornou-se no século XV uma grande potência. De uma posição marginal passa de súbito a ocupar uma posição dominante. Este facto inicia a sua expansão ultramarina.

As viagens marítimas dos portugueses do século XVI estão à primeira vista muito afastadas dos acontecimentos checos, mas o interesse por Portugal e os seus territórios ultramarinos está patente na literatura checa do fim do século XVI.

A fase inicial das viagens das descobertas é registada pelo mercador alemão, Lazar Nuremberger, nas suas memórias, cujo fragmento se conservou como Códice de Bratislava (Bratislavský Kodex) na biblioteca da Academia Eslovaca de Ciências em Bratislava. O Códice contém os textos latinos e alemães relativos às viagens das descobertas de Portugal e Espanha entre 1494-1518.



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3 Václav Šašek z Bířkova: Deník o jízdě a putování pana Lva z Rožmitálu a z Blatné z Čech až na konec světa Československý spisovatel v Praze roku 1974

tradução: “..v Braze jsme zastihli portugalského krále. Přijal pana Lva a celou jeho družinu s poctami. Náš pán totiž přinesl králi list od jeho rodné sestry, císařovny manželky, psaný její vlastní rukou”, página 96

Graças a Mikuláš Bakalář Štětina foi publicado, por volta do ano 1506 em Pilsen, O Tratado das terras novas e do novo mundo do qual antes não havíamos tido nenhum

conhecimento,nem dele havíamos ouvido(Spis o nových zemích a Novém světě, o němžto jsme prve žádné známosti neměli ani kdy co slýchali), baseado numa carta de Amerigo Vespucci e noutras fontes.4 Nesta obra já não se fala sobre os méritos dos Portugueses nas viagens das descobertas, mas antes sobre a política dinástica do casamento entre os Habsburgos e Jagellóis que deu para revalorização da situação. Nas terras da Boémia e a Eslováquia também não houve região alguma onde não tivessem penetrado as notícias sobre as descobertas. Em território português, aliás, participaram na preparação das viagens também cientistas da Europa Central, nomeadamente Martin Behaim e Valentim Fernándes de Morávia. O primeiro, conhecido como Martinho da Boémia, foi um importante geógrafo que participou numa das viagens de Diogo Cão até à costa sudoeste da África e que pela sua

contribuição na descoberta do Congo, foi no dia 18 de Fevereiro de 1486 elevado a cavaleiro. Em 1488 casa com D. Joana de Macedo, filha de Josse de Hurtere, capitão donatário das ilhas do Faial e Pico. Em 1490 vai a Nuremberg receber a herança de sua mãe e ali constrói o célebre globo terrestre. O segundo, Valentim Fernandes de Morávia, foi importante tradutor, impressor e editor que trabalhou para a corte real portuguesa no fim do século XV. Foi um dos primeiros iniciadores da imprensa em Portugal. Trabalhava como escudeiro da casa real de D. Leonor, irmã de D. Manuel I. Além disso publicou literatura de viagens e fez o registo dos sucessos actuais da expansão marítima portuguesa para informar os sábios da Europa Central.



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4adaptado de Josef Polišenský, Úvod do studia dějin a kultury Španělska a Portugalska, FF Ostrava 1994, pág. 83-84


3. As relações luso-checas até ao século XVIII

Se levamos em consideração que a Boémia, Morávia e Silésia tiveram desde o século XVI até ao século XVIII imperadores, que como membros do ramo austríaco-checo da família dos Habsburgos levavam o título de infantes, é muito surpreendente que os historiadores checos não se ocupassem mais com a história de Portugal, interessando-se mais pela América espanhola e portuguesa. A primeira obra sobre a história de mundo, onde é tratada também a Península Ibérica, data de 1844 e deve-se a J. Vietz, professor da Universidade Carolina.


3. 1. Missionários jesuítas checos e outras presenças nos territórios portugueses

A partir de ano 1678 foram enviados para as colónias missionários jesuítas checos. Nenhum deles que se saiba fez carreira eclesiástica, mas antes se notabilizaram como médicos, farmaceuticos, construtores, linguistas, cartógrafos mesmo como propagadores das granadas checas, da bijuteria e cristal nos domínios portugueses.

Simona Binková trata no seu livro Česká touha cestovatelská os destinos dos jesuítas checos enviados para as zonas ultramarinas:” Augustin Strobach de cidade Jihlava é o primeiro duma série de missionários jesuítas checos. Só para o território da América portuguesa e espanhola partiram entre os anos 1678-1768 cerca de cento e sessenta missionários da Companhia de Jesus da província da Boémia. Foram mandados para as zonas fronteiriças, para onde os sacerdotes locais não queriam ir ou abandonavam as missões. Participaram nas viagens de descobertas perigosas e deixaram a riqueza do carácter etnológico e histórico que passou a ser base para os trabalhos modernos publicados nos últimos anos no estrangeiro, sobretudo na França e no México. Esta riqueza de fontes foi divulgada no mundo inteiro. Os membros da Ordem foram em meados dos anos cinquenta do século XVIII desterrados das colónias portuguesas e em muitos casos feitos prisoneiros. Apesar de tudo isso nas nossas bibliotecas e arquivos há muitos escritos de valor que os missionários mandaram a casa ou quais trouxeram consigo depois do regresso forçado das colonías. .” 5

No decorrer do século XVIII Portugal foi destino para dezenas de outros jesuítas missionários da Companhia de Jesus da província da Boémia. Conseguiram chegar até à China, Macau, América portuguesa ou espanhola. Muitos jovens jesuítas estavam ansiosos por partir para as missões. Muitos houve que durante muitos anos tentavam obter a autorização de generalíssimo da Ordem em vão. Contudo, Karel Slavíček, por ser excelente músico e matemático foi escolhido imediatamente. Este viria a descrever promenorizadamente toda a sua viagem:” No dia 13 de Marco de 1716 na sexta feira(...) deslocámo-nos nós quatorze jesuítas numa desfilada solene de sacerdotes, farmaceuticos e estudantes profanos de nosso colégio de Lisboa em Portugal ao barco “Santa Ana” que já há cinco meses dolorosamente esperava pela partida e passámos lá dentro a noite(...) Dia 14 a uma hora de tarde depois de levantar ferro saímos de porto graças a protecção de Deus sob vento forte, mas favorável com 14 embarcações destinadas ao Brasil e com uma destinada a Angola(...) Dia 29 de Agosto vieram dar- nos as boas vindas os pescadores chineses e vender-nos da sua pesca peixes tao bonitos que eu nunca tinha visto assim coloridos outra parte. Estas pessoas por dinheiro conduziram nos, o padre superior,a mim e mais dois jesuítas em dois barcos ao Macau(...) Assim chegámos no dia 30 de Agosto, navegando apenas 24 semanas, 1 dia e 12 horas nunca termos acatado, graças a ajuda de Deus, até ao fim da nossa navegação no dia de Sta. Rosa de Lima.”6



5 Simona Binková, Josef Polišenský: Česká touha cestovatelská(cestopisy, deníky a listy ze 17.století), Odeon 1989, página 23-24; tradução: “Augustin Strobach je prvním z řady jezuitských cestovatelů. Jen do španělské a portugalské Ameriky jich v letech 1678 – 1768 odešlo z české provincie Tovaryšstva Ježíšova asi sto šedesát. Byli posíláni do pohraničních oblastí, kam domácí kněží nechtěli jít nebo odtamtud odcházeli. Byli vysíláni na nebezpečné objevné cesty a zanechali po sobě úctyhodné bohatství etnografické a historické povahy, které se stalo podkladem pro moderní práce vydávané v posl.letech v zahraničí, především v Mexiku a Francii. Toto pramenné bohatství je rozptýleno po světě. Členové řádu byli už v polovině padesátých let 18.stol.vypovězeni z port.kolonií a namnoze dlouho věznění. Naštěstí po nich zůstalo mnoho cenných písemností, kt. misionáři posílali domů nebo které si po nuceném návratu z kolonií přinesli s sebou”.

6Josef Vraštil,Josef Kolmaš: Karel Slavíček – Listy z Číny, página 32, 37

“dne 13. března roku 1716 v pátek(..)nás čtrnáct jezuitů jsme se přemístili ve slavnostním průvodu kněží, magistrů a světských studentů naší koleje z města Lisabonu v Portugalsku na loď “Svatá Anna”, která už pět měsíců bolestně čekala na odjezd, a přenocovali jsme na ní(...) Dne 14. odpoledne o jedné hodině po vyzdvižení kotvy jsme za ochrany Boží vypluli za silného, ale příznivého větru se 14 loďmi směřujícími do Brazílie a s jednou určenou do Angoly.(...) Dne 29. srpna nám přicházeli vstříc čínští rybáři a prodávali ze svého lovu ryby tak krásné, že jsem jaktěživ nikde neviděl tak zbarvené. Tito lidé nás za peníze dovezli otce nadřízeného, mě a další dva jezuity ve dvou lodích do Macaa(...) Tak jsme dne 30. srpna, cestujíce pouhých 24 týdnů, 1 den a 12 hodin bez zajížďky a bez vystoupení na břeh s pomocí Boží dospěli k cíli své plavby na den sv. Růženy z Limy”

Desta altura provém também algumas informações relativas às relações comerciais entre os dois países que foram escritos pelo mercador Jiří František Kreybich. Este percorreu nos anos 1685-1721 com cristal grande parte da Europa central e ocidental e conta-nos sobre a venda de cristal em Portugal. A sua agenda original infelizmente desapareceu, embora tenham sido encontradas algumas publicações dignas de crédito.7 É pena que outros comerciantes que comerciavam em Lisboa durante os séculos XVII para XVIII não tivessem escrito agendas semelhantes. Antes do fim do século XVII as empresas de cristal da Boémia tiveram os seus agentes e feitorias em quase todos os portos importantes de Portugal e das suas colónias.

No fim do século XV deve ter passado pela Boémia o doutor Martim Lopes quem empreendeu uma grande viagem pela Europa descrita na sua carta do 1. de Fevereiro de 1500 de Roma dirijida ao rei D. Manuel I.

Segundo uma menção de António Galvão na obra intitulada Tratados dos diversos e devairados caminhos (Lisboa 1563) também o humanista, diplomata e escritor português Damião de Góis visitou a Boémia e a Morávia. Nas bibliotecas checas ficaram guardados numerosos seus escritos latinos e portugueses.

Há também referências que no fim do século XVI e no início do século XVII actuou, durante um certo tempo, na Universidade Carolina em Praga o professor lisboeta Dr. Bento Pinhel que aqui ensinou o direito eclesiástico. Ao meio universitário português ligam-se também alguns nomes checos e morávios, particularmente jesuítas que viajavam através de Portugal e das colónias. Assim encontramos os nomes de Václav Pantaleón Kirwitzer que abandonou a Boémia já no ano de 1616 e viajou através da Goa portuguesa até à China, onde se assinalou como excelente matemático e astrónomo. Conservaram-se igualmente cartas de Alberto Bukovský de 1694 que atestam a sua involuntária demora em Portugal onde ensinou



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7Simona Binková,Josef Polišenský: Česká touha cestovatelská(cestopisy, deníky a listy ze 17.století)Odeon 1989

tradução: “Kreybichovy zápisky jsou v originále nezvěstné, vyšlo však několik spolehlivých vydání.”

matemática, no Colégio dos Jesuítas em Coimbra, durante um certo tempo. Em 1682

visitou Portugal, durante as suas viagens de estudos e cavaleirescas pela Europa, o jovem Jakub Černín de Chudenice que a desejo do pai, escreveu um diário, até há pouco tempo desconhecido dos especialistas.8 Durante a sua curta estadia em Portugal visitou Lisboa e os seus monumentos históricos, Belém e a fortaleza de São Julião. Além de várias visitas de cortesia, foi igualmente recebido pelo regente D. Pedro e a rainha. No centro das

atenções de Černín estavam os monumentos arquitectónicos e eclesiásticos, problemas militares e o ambiente da corte, mas nos seus apontamentos não faltam um tom pessoal e comentários referentes às desvantagens das longas viagens.

Samuel Fritz descreve no seu diário a grande aventura da sua viagem pelas Amazonas até ao território português entre os anos 1689 – 1691.Ocupando-se com o problema das fronteiras entre Portugal e Espanha na zona amazónica, tornou-se o autor do primeiro mapa científico do rio amazona.

A descoberta dos mundos longínquos e a interligação dos quatro continentes deixou vestígios profundos na cultura da Europa Central. Exemplo disso são as obras pictóricas de alguns mestres barrocos, como de Jan Kryštof Handke que pintou a fundação de seminário em Goa ou traduções da literatura religiosa por exemplo de Mateus Vieira.

Entre Portugal e os Estados da Boémia existiam também relações económicas, evidentes nomeadamente no campo do comércio de vidro. As sociedades vidraceiras do Norte da Boémia dispunham de numerosos armazéns em Lisboa, e os contactos comerciais com Portugal ultrapassavam, no início do século XVIII, em extensão e importância, até as relações comerciais com Espanha.

“Durante o governo dos reis espanhóis Fernando VI e Carlos III, que em 1761 firmou com a França o assim chamado segundo pacto familiar dirigido contra a Inglaterra, tornaram-se

8 O original manuscrito do diário está depositado na secção dos manuscritos e impressos raros na Biblioteca Estatal da Republica checa
tensas as relações entre Espanha e Portugal, que era aliado da Inglaterra, na guerra com

Espanha, guerra na qual participaram, no assim chamado Regimento de Reães Estrangeiros,também quinze checos e moravos.”9


3. 2. Portugal sob o domínio dos Habsburgos

Depois da morte do D. João III em 1557 foi destinado como sucesor do trono o seu neto D.Sebastião que tinha apenas três anos. Após a regência da sua mãe e do irmão do falecido D. João III – D. Henrique, ascende ao trono com quatorze anos. O seu sonho foi recriar a política de D.Afonso V e penetrar no território da África do norte. Em Agosto de 1578 porém sofreu uma derrota esmagadora em Alcácer-Quibir. A maioria do exército ficou no campo de batalha e o resto foi capturado. Nesta campanha o rei D. Sebastião desaparece sem deixar vestígios. A participação checa na batalha de Alcácer-Quibir é documentada nos calendários históricos de Pavel Skála de Zhoř.

Na Boémia neste tempo surgiram referências a Portugal relacionadas com o desaparecimento do rei D. Sebastião por lembrar esta outra desaparição enigmática, a do rei D. Luís de Jagellão na luta contra os turcos, no ano de 1526. Visto D. Sebastião não ser casado e não ter descendentes seguiu-se uma crise de sucessão. Em 1581 Filipe II de Espanha fez-se proclamar em Tomar novo rei português, como Filipe I. de Portugal. Seguem-se sessenta anos de domínio Espanhol em Portugal, a autonomia política e económica do país era cada vez menos respeitada e os interesses económicos do país foram gravemente prejudicados. Poucos portugueses aceitaram esta situação. Naquela altura surgiu a crença de nação desesperada que esperava o regresso de D. Sebastião para lhe restituir a independência.

A inesperada morte do último descendente da dinastia portuguesa não podia deixar de interessar os checos, cada vez mais ameaçados pelo aumento do poder dos Habsburgos. No



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9Binková Simona, Os países checos e a zona lusitana,Ibero-Americana Praguensia, ano1987, pág. 142
tempo que antecede a batalha da Montanha Branca, a parte progressista da sociedade checa

seguia com particular interesse a luta que na Europa se travava contra os todo-poderosos Habsburgos. Ainda em 1578, foi publicado, pelo editor e tradutor praguense Jiří Dačický folheto intitulado: Portugalská bitva. S jistým vysvětlením novin z Madril a Lisabony, o žalostivém zahynutí Krále z Portugalie pátého dne měsíce srpna 1578 (A batalha portuguesa. Com uma explicação das notícias de Madrid e Lisboa sobre o deplorável falecimento do rei de Portugal no dia 5 de Agosto de 1578)10 que faz parte da primeira edição do Calendário Histórico de Daniel Adam z Veleslavína datado de 1578 e destinado ao público checo. O tratado sobre a derrota do rei português D. Sebastião está incluído no Calendário Histórico não só por razões de popularidade, mas o editor pretendia certamente despertar a atenção do leitor para a situação que se vivia à altura, o perigo turco, especialmente actual para os países da Boémia a partir da batalha de Moháč, onde morreu, em 1526, o governador Luís da dinastia dos Jagelões a quem sucedeu no trono, por quase 300 anos, a família austríaca dos Habsburgos.

No decorrer do século XVI aparece, nas Terras da Coroa da Boémia, um grande número de obras literárias antiturcas e Adam de Veleslavín próprio publica, a Crónica Turca com a sua própria introdução, em 1594, depois da nova guerra contra os turcos ter rebentado. Nela os turcos surgem como aliados dos mouros e os alemães, italianos e espanhóis ao lado dos portugueses.11

A luta dos Habsburgos espanhoís contra os neerlandeses a propósito de domínios portugueses foi bem seguida pelos magnatas checos, Vilém de Rožmberk e Vratislav de Pernštejn. “Os senhores de Rožmberk e os de Hradec seguiram com cuidado a quantidade de prata importada pelas flotilas e quais os domínios portugueses e espanhóis foram devastados



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10Portugalská bitva. S jistým vysvětlením novin z Madril a Lisabony, o žalostivém zahynutí Krále z Portugalie pátého dne měsíce srpna 1578, Praha 1578, Jiří Dačický, in: Kalendář historický, Daniel Adam z Veleslavína, Praha 1578, Biblioteca do Museu Nacional, pág.517-523

11Kozická, Kateřina: O sebastianismo na literatura checa dos séculos XVI-XVII,in: Ibero-Americana Praguensia, annuário XXVI,1992, pág.38
pelos piratas ingleses ou neerlandeses.” 12

A partir de meados de século XVII, as relações com Portugal desde 1640 outra vez independente, assim como com os domínios portugueses na América e na Índia, eram realizados por missionários jesuítas, ou por comerciantes de vidro e, provavelmente, também de linho. Os matemáticos jesuítas ensinavam nas escolas em Portugal e no Brasil e os seus companheiros boticários actuaram até ao ano de 1757 na cidade de Goa.

A restabelecida independência portuguesa, em 1640, não passa despercebida também a Jan Ámos Komenský como documenta a sua carta dirigida ao seu amigo Samuel Hartliba. 13

No início de século XVIII registam-se a intensificação e fortalecimento das relações mútuas ligados com o esforço dos Habsburgos austríacos para ocupar o trono espanhol. A Inglaterra e Portugal favoreceram arquiduque Carlos14 contra a diligência dos Bourbons na Guerra de sucessão espanhola. O casamento de João V. – futuro rei de Portugal, com a arquiduquesa habsburga Maria Ana, irmã de Carlos contribuiu para o reforço dos contactos dos Estados da Boémia com Portugal. As preparações e negociações ficaram primeiro a cargo de diplomatas. Da parte austríaca participou nas negociações do casamento Arnošt de Valdštejn. A embaixada à corte austríaca trouxe o gentil-homem Fernando Teles da Silva em 1707. A descrição da viagem de Lisboa até Praga,Viena e de volta foi feita pelo jesuíta Francisco da Fonseca que saiu em Viena em 1717 sob o título de Embaixada do Conde de Villarmayor Fernando Telles da Sylva de Lisboa a Corte de Vienna, e uma versão abreviada saiu em Lisboa no ano de 1787 com título de Relação Verdadeira da Jornada, que desde Lisboa fez a Corte de Vienna de Áustria o Conde de Villar Maior... .15 Nas suas notas não



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12Polišenský, Josef: Úvod do studia dějin a kultury Španělska a Portugalska, pág.108

tradução “Rožmberkové a páni z Hradce pečlivě sledovali, kolik stříbra přivezla flota a která španělská nebo portugalská država byla zpustošena nizozemskými nebo anglickými piráty.”



13trata-se de rei espanhol D.Carlos III, conhecido entre nós como Imperador Carlos VI.

14J.A. Komenský para Hartlib, Obras selecionadas de J.A.Komenský,VIII/1975,p.361-366

15 “Poselstvo hraběte z Villarmayor, Fernanda Tellese da Silva, z Lisabonu na dvůr vídeňský a cesta královny, naší paní doni Marie Anny Rakouské z Vídně na dvůr lisabonský”
faltam a longa descrição da capital do reinado checo, a sua história e actualidade: “ Praga Metropoli, e Capital do Florentissimo reyno de Bohemia he uma das mais bellas Cidades de toda Europa e de todas, as que vimos, a que no sítio, e forma dos edificios mais se assemelha a Lisboa, só differe na grandeza, porque o conta mais, que quinze mil vezinos: parte fica sentada em montes, parte em amenos, a diliciozos valles: o rio Moldava a dividio em duas partes, a industria em tres. A parte, que fica para o Occidente, em que está o Palacio real, a Sé, e a Caza da Villa, se chama – Praga pequena...” 16 O mesmo Fonseca, sob o pseudónimo de Afonso Franco, é autor de: Compendio da vida de S. Joam Nepomuceno, Padroeyro do Reyno da Bohemia e Advogado dos Penitentes e dos que tem algum perigo na fama.17 Henrique de Campos Ferreira Lima no seu livro Relações entre Portugal e Tchecoslováquia também faz referências a S.João Nepomuceno:”Em Alcântara havia uma ponte, onde fora colocada em 1743, por promessa de um seu devoto, a estátua de S. João Nepomuceno, padroeiro da Boémia. Depois da demolição desta ponte, foi a estátua, obra do escultor João António de Pádua, levada para o museu do Carmo, onde, presentemente, se encontra.”18

Francisco da Fonseca acima referido trabalhou ao mesmo tempo como procurador geral na corte de Lisboa e o seu cargo foi decidir sobre o envio de missionários jesuítas para as colónias portuguesas entre as quais se encontravam também alguns missionários da Província da Boémia.

Durante as guerras de Silésia, Sebastião José de Carvalho e Melo - futuro Marquês de Pombal manteve certas relações com a Europa Central. Sua segunda esposa era filha do marechal Laudon, proprietário de Bystřice, perto de Hostýn na Morávia. No decorrer da sua estadia tomara conhecimento dos problemas das Terras da Coroa Checa e mantia

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16Polišenský, Josef: Uma desconhecida descricao de Praga e da universidade de Praga do ano 1707,in: Ibero-Americana Pragensia,annuário XII,1978, pág.198,o trecho de Embaixada..., parágrafo 156, p. 185-186

17O manuscrito da Memoria da Jornada que fes a Alemanha o P.Francisco da Fonsequa..., Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo Tarouca

18Ferreira Lima, Henrique de Campos: Relações entre Portugal e Tchecoslováquia, Vila Nova de Pamalição, tip.Minerva de Gaspar Pinto de Sousa e irmão 1936, pág.18-19
contactos com o príncipe chanceler Harrach e com os fidalgos checos Kounic e Kinský. As preparações de paz de 1748, em Cáchy, eram coordenadas em Lisboa pelo representante da corte vienense, princípe Rožmberk.

Outras referências a Portugal da mesma época relacionam-se com o terramoto de Lisboa de 1755. Apesar da distância entre os dois países – Portugal e a Boémia, o terramoto destruidor de Lisboa no dia 1 de Novembro 1755 afectou também o balneário mais antigo da Boémia, Teplice. “Entre as onze e doze da manha deixou de correr durante vários minutos a fonte principal do balneário. Ao renovar-se com a plena potência, a sua cor mudou temporariamente. Este fenómeno único foi analisado por Josef Stepling, jesuíta, director dos estudos de física e matemática na Universidade de Praga e um dos fundadores do observatório astronómico em Klementinum, no seu trabalho Reflexão em torno do motivo da alteração das águas minerais de Teplice em 1 novembro 1755.”18

Igualmente, na altura do reinado da Maria Teresia, em Portugal aparecem as referências sobre Boémia, quando Francisco da Cunha publica em Lisboa um tratado, no qual esboça toda a história da Boémia que incluiu também a descrição de Praga.

18Polišenský, Josef: A Boémia e o terramoto de Lisboa de 1755, in: Ibero-Americana Praguensia, anuário XXXI, 1997, pág. 222



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