Os inícios dos contactos entre Portugal e as Terras da Boémia


Os Silva Tarouca na Boémia



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3. 3. Os Silva Tarouca na Boémia

Não é possível abordar a questão das relações luso-checas sem tratar da vida e actuação da família dos Silva Tarouca. Trata-se do único caso da residência permanente da nobreza portuguesa na Boémia.

O irmão de Fernando Teles da Silva, João Gomes de Silva, esteve nos anos de 1726 – 1738 ao serviço da casa de Austria na corte de Viena. Depois de ter contraído matrimónio com a condessa Joana Rosa de Meneses Tarouca, passou a chamar-se Silva Tarouca. O seu filho Manoel Silva Tarouca deixou Portugal para servir no exército de Eugénio de Sabóia e na corte de Viena, tornando-se conselheiro de Maria Teresa da Áustria. Foi fundador do ramo austríaco da família dos Silva, e em 1768 compra o domínio de Čechy pod Kosířem. Os seus descendentes, conhecidos entre nós como os condes Silva-Tarouca, nomeadamente Frederico distinguiram-se pelo apoio dado à vida cultural na Boémia.

Sabemos que o conde Frederico Silva Tarouca foi amigo do jovem Josef Mánes, e é ele quem o introduz no círculo da sua família, no palácio de Čechy na Hané. Não foi somente a amizade pessoal, mas também interesses comuns e artísticos que os ligavam: antiguidades, história e geografia.

Josef Mánes trabalhava para a família Silva Tarouca já no tempo dos seus estudos em Munique e a pedido do conde Augusto Alexandre Silva Tarouca, Mánes fez uma série de esboços de antepassados da família. Hoje alguns retratos encontram-se no palácio de Náměšť, na Morávia, que com outros formam parte das colecções da Galeria da Morávia de Brno. Os esboços estão depositados na Galeria Nacional de Praga.

Frederico foi sacerdote, encarregado dos monumentos da Morávia, e fundador da Biblioteca do Museu da Morávia. Já pouco depois de terminar os seus estudos, Frederico encabeçou o movimento católico nacional e a sua casa torna-se o centro dos nacionalistas

checo-moravos, na cidade de Brno. Frederico foi para muitos um exemplo de patriotismo e influenciou muitos artistas checos, nomeadamente o seu amigo já mencionado, Josef Mánes: “Ao conde Frederico Silva Tarouca atribuir-se-á a influência maior, fundamental no crescimento da consciência nacional checa e eslava do artista, que nasceu num ambiente dentro do qual, pouca coisa recorda a Nação Checa.” 19

Em 1848, funda-se a Unidade Católica, e Frederico é eleito seu presidente.

O irmão mais novo de Frederico, Augusto Silva Tarouca, tomou conta da propriedade familiar, cedida por Frederico, que seguiu a via eclesiástica. Também, como Frederico, Augusto se interessava pelas artes, assim como pela história, heráldica, literatura e música.

O arquivo familiar dos Silva-Tarouca é preservado no Arquivo Regional Estatal em Brno, contendo, entre outras coisas, também a numerosa correspondência de Manoel Silva Tarouca. Por intermédio de Manoel chegaram à Boémia livros portugueses, além de religiosos, também a literatura relacionada com as navegações, descobrimentos, a história e a geografia dos países da Península Ibérica e das suas colónias, manuais linguísticos, etc.



19Estas são as palavras do escritor Emil Edgar na introdução de uma seleção de cartas de Josef Mánes ao Frederico Silva-Tarouca intitulado Dopisy Josefa Mánesa hraběti Bedřichu Silva-Taroucovi(Cartas de Josef Mánes ao conde Frederico Silva Tarouca),Český čtenář 1920 in Ibero-Americana Praguensia – annuário XXXI, 1997: Josef Mánes e os Silva Tarouca – Pavel Štěpánek, pág.161

4. O século XIX nas relações luso-checas

Os enviados portugueses em Viena seguiam também os acontecimentos na Boémia durante as guerras Napoleónicas. Joaquim José de Miranda Rebelo nos seus apontamentos descreveu e analisou as consequências da batalha de Austerlitz em 1805.

O interesse checo para a corte portuguesa, que porém tinha desde o ano 1808 a sua residência em Brasil, foi reavivado pelo esforço do Marquês de Marialva em obter para o sucessor do trono, D. Pedro, a noiva habsburga, arquiduquesa Leopoldina. Mas este interesse checo liga-se mais propriamente com o exotismo da natureza brasileira do que pelo interesse por Portugal.
4. 1. Artistas checos em Portugal

Do século XIX conhecemos sobretudo artistas checos que trabalhavam na corte portuguesa ou brasileira. Durante o reinado de D. Maria II. e seu marido Ferdinando Saský actuou na corte lisbonense o arquitecto de jardim, artesão e fotógrafo Václav Cífka. Este participou nas alterações do Palácio da Pena em Sintra e exemplos da sua criação artística encontramos no Museu de Azulejo, tanto como em Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa.

Até ao fim do século XIX actuaram em Portugal ainda outros artistas plásticos checos. Posição de relevo ganhou o paisagista e retratista Ferdinand Krumholz, que entre 1844 – 1847 actuou na corte de Lisboa, como retratista da rainha D. Maria II da Glória, de seu marido Ferdinando Saský e as demais figuras importantes da corte. Foi eleito pintor de câmara, membro da Academia Portuguesa das Belas Artes e tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo. Passou também uns anos no Brasil na corte de imperador D. Pedro II e da sua família, onde caiu nas boas graças do imperador e foi reconhecido por todos. Sobre o seu retrato de Manuel de Araújo Porto-Alegre, por exemplo, disse Gonzaga Duque que "é uma dessas obras que, só de per si, dilatam e firmam uma reputaçăo. Estilo de mestre, desenho que pode ser taxado rigoroso ou irrepreensível, colorido claro e exato, e expressăo admirável pela naturalidade, fazem desse retrato obra de inestimável valor".20

Entre outros pintores activos em Portugal pertencem o professor de educação artística Adolf Hausmann ou o pintor Hugo Steiner. Esta tradição continuou mais tarde não só através das exposições ocasionais recíprocas, mas também nas estadias dos artistas plásticos em ambiente português. Por outro lado, há igualmente menções documentadas, provenientes do século XIX sobre visitas de portugueses em Karlovy Vary. Aqui passou os seus últimos dias em 1845 o filho de duque de Saldanha.

Segundo um projecto de František Chalupa em 1873 foi reconstruída em estilo árabe a sinagoga, que fundaram em Praga os judeus portugueses, descendentes daqueles que tiveram de abandonar Portugal no reinado de D.Manuel.

O interesse por Portugal manifestou-se também no campo filológico e literário. Jiří Guth-Jarkovský na sua narração de viagem Do outro lado dos Pireneus (Za horama Pyrenejskýma) descreveu Lisboa, Porto e Coimbra. No ano de 1876, Josef Král, professor da Universidade Carolina, publicou uma antologia da obra lírica de Camões. Por sua vez Jaroslav Vrchlický publicou em 1902 Os Lusíadas de Camões, depois de a mesma obra ter sido traduzida por F. Doucha.



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20 www.pitoresco.com/Ferdinando Krumholtz
5. Século XX

A viragem do século XIX para o século XX pode ser caracterizada por muitas contradições. As pessoas rejeitam as velhas monarquias e pedem a igualdade republicana e direito de votar. Aparecem as invenções técnicas que mudam a sociedade, acredita-se no progresso durável e no bem-estar. Mas quando as esperanças não se realizam, as nações e os políticos vêem como único caminho, a resolução dos problemas na força – a guerra.

Também Portugal passa por muitas contrariedades. O progresso industrial deixa de lado país e a pobreza do campo era suportável só devido à incultura imensa do povo e à isolação. No dia 1 de Fevereiro de 1908 o rei português D. Carlos com o seu filho,sucessor de trono Luís Filipe tornaram-se alvo de atentado sangrento. O último rei D. Manuel II já não conseguiu acalmar as revoltas no país. Assim acaba a monarquia portuguesa e em 1910 é implantada a República. A República Checoslovaca nasce apenas oito anos depois no dia 28 de Outubro de 1918. Portugal porém imediatamente depois do fim da primeira guerra mundial concentrava-se novamente nas suas colónias onde fora preciso de acabar as campanhas militares tendentes a ocupação absoluta dos territórios africanos.
5. 1. A época entre as guerras

Em 1921 chega-se ao momento fundamental da ruptura no que diz respeito as relações mútuas quando a República Checoslovaca cria relações diplomáticas com Portugal.

A partir deste tempo começam a desenvolver-se numerosos contactos no campo das ciências humanitárias, naturais e exactas, nos domínios de técnica etc.

Seguem-se outros viajantes portugueses que visitam a Boémia, uns buscando informações de carácter económico, outros procurando, respectivamente, temas para os seus trabalhos de carácter literário ou pedagógico. No seu livro A Tcheco-Slovaquia, sua exemplar administração económica, financeira e industrial, publicado em Lisboa em 1924, com um prefácio do ilustre académico e jornalista Bento Carqueja, reuniu o sr. Armando Luís Rodrigues as suas impressões acerca de nossa nação sob o seu ponto de vista especial. 21

Outro escritor, Francisco da Costa Lobo, professor da Universidade de Coimbra, foi o delegado português ao Congresso da União Internacional Geodésica e Geofísica, realizado em Praga em 1927.

Além dos portugueses já mencionados, outros visitaram a Checoslováquia em diversos anos e com fins diferentes. Assim, Fidelino de Figueredo, bem conhecido em Portugal e no estrangeiro pelos seus notáveis trabalhos de crítica literária, visitou em 1929, por ocasião da celebração das festas do milenário de S. Wenceslau a República Checoslovaca. Em Coimbra publicou o tratado sob o título A iniciação Boémia e em numerosos artigos propagava T.G. Masaryk e a democracia checoslovaca. Colaborou também na publicação Tvůrcové dějin (Os criadores de história) que saiu em Praga em 1935.

Em 1930 António Ferro figurou como delegado português e enviado especial do Diário de Notícias, no Congresso Internacional de Crítica.

É surpreendente que no ambiente lusófono enraizou-se também a ideia da organização da cultura física pelo modelo de Sokol de tal maneira que Sokols e Falcões fundavam-se não somente no continente mas também por exemplo em Cabo Verde.

Gomes dos Santos, fundador e presidente do Núcleo de Propaganda Educativa, visitou a Checoslováquia, em 1932 por ocasião da Festa Federal dos Sokols. Também neste ano esteve em Praga o general Ferreira Martins de quem, a revista Pestrý Týden, de 9 de Junho de 1932, onde há colaboração portuguesa acerca dos sokols de D. Ana de Castro Osório e dos srs. Fidelino de Figueiredo e Costa Lobo, publicou o retrato. Neste festival representou a imprensa portuguesa o sr. Armando de Aguiar, redactor do Diário de Notícias.22

21Este trabalho é mencionado em Catálogo Ce qui a été publié sur la Tchécoslovaquie en langues étrangeres, Praha Orbis, 1928; in Ferreira Lima, Henrique de Campos: Relações entre Portugal e Tchecoeslováquia, Vila Nova de Pamalição, tip.Minerva de Gaspar Pinto de Sousa e irmão 1936, pág. 19
Depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Portugal e a República Checoslovaca subscrevem três documentos que deviam facilitar os contactos entre os dois países. Estes são: um acordo sobre a ajuda mútua jurídica nos assuntos comerciais e civis, uma convenção sobre o reconhecimento e execução das decisões judiciais, e uma convenção sobre extradição dos criminosos e ajuda jurídica nos assuntos penais. As tentações de aproximação porém foram em breve dificultadas pela linha política antidemocrática seguida por Salazar e também por uma tendência da Checoslováquia para solução da crise da Europa central.

Sabemos que nos anos 20 e 30 houve contactos a nível comercial, porque segundo os dados existentes o volume de comércio mútuo naquela época variava de 40 a 60 milhões de coroas por ano, isto é, de 2 até 3 por mil das vendas globais do comércio estrangeiro.23

O funcionamento da embaixada checoslovaca em Lisboa acabou no dia 18 de Agosto de 1937 depois de Portugal ter interrompido os contactos diplomáticos com Checoslováquia como represália para o facto que à ditatura salazarista não foram entregadas as armas checoslovacas de encomenda.24

Presidente do Conselho de Ministros e Ministro dos Negócios Estrangeiros António de Oliveira Salazar mencionou Praga no seu discurso proferido a 28 de Abril de 1938, atacando a democracia em geral. Segundo ele, “a Checoslováquia não foi nada mais do que

uma demostração de “cegueira” do mundo democrático que falava sobre a bondade dos homens e do desarmamento geral no limiar da visível catástrofe bélica.” 25

No fim de Setembro de 1938 em Munique teve lugar a conferência dos supremos representantes da Alemanha, Itália, França e Inglaterra (Hitler, Mussolini, Daladier,



22Ferreira Lima, Henrique de Campos: Relações entre Portugal e Tchecoslováquia, Vila Nova de Pamalição, tip.Minerva de Gaspar Pinto de Sousa e irmão 1936, pág.22

23Jan Klíma, Dějiny Portugalska, pág. 241

24Janda Jan , Portugalsko, Nakladatelství politické literatury Praha 1964, o caso foi explicado no jornal Zahraniční politika, roč. 1937, pág. 522-544

25adaptado de Jan Klíma, Ibero-Americana Praguensia, anuárioXXXV 2001, O artigo: A repercussão da crise de Munique na diplomacia e imprensa portuguesa, pág.178
Chamberlain) e decidiu sobre a anexação das zonas fronteiriças checas à Alemanha. A Checoslováquia foi assim submetida à ditadura de Hitler.

Na altura não foi possível quase nenhum espaço para desenvolvimento das relações luso-checas. A Checoslováquia socialista apoiava mais propriamente a oposição antisalazarista.

Embora entre os anos 1937 e 1975 não fossem estabelecidas as relações diplomáticas entre os dois países era documentado muitos casos da presença ilegal dos portugueses na Checoslováquia como oponentes ao salazarismo.

Com os inícios dos contactos da oposição antisalazarista na Checoslováquia liga-se o nome de Bernard Freund, este checo assumiu a direcção de Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas e, ao longo da sua presidência, a organização registou um excepcional crescimento dos filiados, de 50 até várias centenas em 1932 quando Freund estava a abandonar o seu cargo.26 Não se sabe em que circunstâncias Freund surgiu em Portugal e de que maneira é que chegou a desempenhar um cargo tão importante no movimento comunista português, mas supõe-se que foi delegado da Internacional Comunista em Portugal. Mais tarde foi preso pelas autoridades portuguesas e finalmente desterrado do país.

Na primeira metade dos anos 30 nasce em Portugal uma organização de oposição antisalazarista sob o nome Frente Popular Portuguesa que tinha feito parte de Liga Portuguesa contra a guerra e contra o Fascismo. O seu papel foi divulgar por intermédio de publicações no estrangeiro, informações sobre a violação dos representantes democráticos em Portugal. Por meio duma carta dirigida ao ministro dos negócios estrangeiros checoslovaco, Kamil Krofta, a Frente Popular Portuguesa tentou convidar o ministro para solidarizar-se com o movimento antifascista.

26Linda Kundrátová, Kontakty portugalské antisalazaristické opozice s Československem v letech 1934 – 1947, diplomová práce FF UK 2002
A partir de 1937 os meios de comunicação deixam de informar sobre os acontecimentos em Portugal. Na altura a atenção da sociedade checoslovaca vira-se para a Espanha, na Checoslováquia nasce “Um comité de apoio a uma Espanha democrática.”

Nos últimos dias da segunda guerra mundial os Portugueses foram informados sobre a situação na Checoslováquia sobretudo por meio de O Diário de Notícias que dedicou especial atenção ao desenvolvimento do levantamento praguense


5. 2. A situação de pós-guerra

Na verdade o fim da Segunda Guerra Mundial não significou, contudo, um melhoramento nas relações luso-checoslovacas, por causa do pendor da Checoslováquia para a União Soviética. Com a restauração da Checoslováquia puderam ser restabelecidas pelo menos as relações comerciais entre os dois países, cujo volume atingiu aproximadamente os mesmos montantes dos anteriores à guerra. Depois de posterior decadência dos contactos entre Leste e Oeste também estas relações sofreram uma quebra. O regime fascista de Salazar tornou-se um dos inimigos do mundo comunista.

No decorrer dos anos 40 e 50 Portugal salazarista e Checoslováquia comunista não conseguiram pôr-se de acordo no respeitante o reatamento das relações diplomáticas. Porém, após a morte de Estaline, em 1953, deu-se uma reabertura dos diálogos luso-checoslovacos, tendo como resultado um acordo interbancário entre o Banco de Portugal e o Banco Nacional Checoslovaco, concluído em Janeiro de 1956 em Praga.

Na viragem dos anos 50 e 60 chegou uma série de contactos concretos entre os sábios ou escritores checoslovacos e portugueses. Importantes representantes da oposição política antisalazarista chegavam a Praga, na maioria dos casos eram membros do Partido Comunista Portugûes.27 Nos anos 1960 até 1961 curou-se aqui das consequências das doenças



27Daí em diante vou utilizar uma abreviatura PCP
provocadas pela vida ilegal e condições atrozes de prisão a funcionária do PCP, Georgette

Ferreira. Carácter oficial teve a visita do presidente de PCP Álvaro Cunhal em 1962. A Checoslováquia porém visitaram também outras figuras ligadas à oposição como Humberto Delgado ou Mário Soares.

Estes contactos, no caso da oposição anti-comunista sempre ocultos, culminaram em 1964 com o apoio a Frente Patriótica de Libertação Nacional antisalazarista, cujo congresso se realizou ilegalmente no mesmo ano perto de Praga.28 Informações sobre os congressos ilegais eram na altura sempre estritamente ocultadas de modo que não sabemos ao certo quantas reuniões da oposição antisalazarista tiveram lugar na Checoslováquia até ao fim da ditadura salazarista.

Datam-se do ano 1964 as referências sobre a estadia na Checoslováquia do General Humberto Delgado, representante de oposição antisalazarista, onde se curava durante um certo tempo no Státní Sanatorium de Praga. Um amigo de Delgado, António de Figueiredo exprimiu o efeito positivo de Praga sobre Delgado: “ ... diria eu que Delgado nunca antes se tinha encontrado naquela segurança e conforto como durante os meses passados em Státní sanatorium em Praga que, relativamente representaram um terço de tempo que lhe ficou até o fim da sua vida. A carta29, em que Delgado faz sentir mais uma vez o contraste entre uma inimizade fria, que encontrou em algumas democracias ocidentais, e a aceitação que tinha recebido na Checoslováquia revelando além do seu imperecível sentido de humor, a consciência do seu papel de dirigente no seio duma oposição dividida.”30

Outro testemunho da sua estadia é o encontro com“o erudito professor, especialista em literatura portuguesa” Hampejs que o marcou bastante.31

28Jan Klíma: Dějiny Portugalska, página 245

29 trata-se duma carta de Delgado para Figueiredo

30Jan Klíma: Dějiny Portugalska, página 245, tradução: “řekl bych, že Delgado nikdy nebyl v takové jistotě a pohodlí jako za oněch měsíců, kdy pobýval ve Státním sanatoriu v Praze, které relativně vzato představovaly třetinu času, který mu zbýval do konce života. Dopis, v němž Delgado dává ještě jednou najevo kontrast mezi chladným nepřátelstvím, které nalezl v západních demokraciích, a přijetím, kterého se mu dostalo v Československu, odhaluje kromě jeho nehynoucího smyslu pro humor přesné vědomí jeho role vůdce v lůně rozdělené opozice.”

31adoptado de Linda Kundrátová,in Humberto Delgado: A tirania portuguesa, Iva Delgado, Carlos Pacheco pág.113

Porém a estadia do general Humberto Delgado foi silenciada de tal forma que, nem a imprensa oficial, nem os arquivos fornecem mais pormenores.

Outro congresso conhecido decorreu de 24 a 26 de Abril de 1967 em Karlovy Vary como uma conferência dos partidos políticos comunistas e operários (konference komunistických a dělnických politických stran) na qual participaram os principais dirigentes do movimento comunista portugûes.

O posterior processo reformador do socialismo conhecido como “Primavera de Praga” captou a atenção da imprensa ilegal comunista portuguesa, tendo o jornal Avante! publicado em Maio de 1968 um importante artigo: “A Checoslováquia prossegue pela via do socialismo”, no qual se declara que a Checoslováquia tinha continuado a manter a sua fidelidade ao marxismo-leninismo e ao internacionalismo proletário.”32

O primeiro encontro de representantes dos partidos comunistas de Checoslováquia e Portugal depois dos acontecimentos de Verão 1968 data de Dezembro de 1969. A delegação encabeçada pelo secretário geral Álvaro Cunhal foi recebida por Husák e Bilak. Os representantes do Partido Comunista Portugûes foram informados sobre os acontecimentos de Verão 1968 sendo o resultado do encontro a promessa do partido comunista checoslovaco de continuar a cumprir os seus compromissos internacionalistas para com o PCP. Os contactos seguintes porém foram reduzidos ao mínimo.

A Checoslováquia nas relações internacionais continuava submissa a Uniao Soviética e fica na isolação internacional até à revolução de 1989.




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32Linda Kundrátová, Kontakty portugalské antisalazaristické opozice s Československem v letech 1934 – 1947, diplomová práce FF UK 2002, página 11-12

5. 3. As duas revoluções

Depois da morte de Salazar em 1970 a política salazarista deixou de ter sentido e o seu continuador Marcello Caetano já não conseguiu encontrar o caminho das instituções coorporativistas ultrapassadas à sociedade dinâmica de bem-estar. A visão política da ordem assente no trabalho, disciplina, simplicidade e privações já não fazia grande sentido no mundo de então. As revoltas constantes de estudantes, descontentamento dos militares, pedidos de liberalização e fim da Guerra Colonial conduziram ao golpe militar de 25 de Abril de 1974 conhecido como “revolução dos cravos”.

A revolução de Abril trouxe consigo a revitalização dos contactos luso-checos. O novo regime tendente à esquerda era evidentemente mais próximo da Checoslováquia, por isso, nada entravava o aprofundamento dos contactos entre os dois países e as relações diplomáticas foram concluídas a 27 de Julho de 1974 a nível duma troca de embaixadas. O cargo de embaixadores desempenharam respectivamente Dr. António Telo Moreira de Almeida Magalhães Colabo em Praga e Miloslav Hrůza em Lisboa.

O progresso no campo de comércio não se fez esperar por muito tempo, a 1 de Março de 1975, foi concluído um acordo comercial a longo prazo sobre intercâmbio entre República Checoslovaca Socialista e Portugal 33. Em fim de Julho de 1975 encontraram-se o presidente checoslovaco de então, Gustáv Husák, com o presidente português, general Costa Gomes, por ocasião da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa em Helsinky. Em Portugal naquele Verão “culminaram as experiências de esquerda impostas pelos comunistas, encabeçados por Álvaro Cunhal, o que motivou a parte checoslovaca para outras tentativas de estreitamento dos contactos com um país realizando um programa socialista” 34



33tradução: Dlouhodobá dohoda o obchodní výměně mezi ČSSR a Portugalskou republikou

34Jan Klíma, Dějiny Portugalska, página246

tradução:”...v létě 1975 v Portugalsku právě vrcholily levicové experimenty prosazované komunisty vedenými Á. Cunhalem, což československou stranu inspirovalo k dalším pokusům o utužení styků se zemí realizující socialistické programy”


Em 1975 foi negociado um acordo intergovernamental de transporte aéreo entre os dois países com o objectivo de desenvolvimento de relações bilaterais com a Checoslováquia que

devia ajudar ao enfraquecimento da dependência económica e política de Portugal relativamente às alianças ocidentais. Uma série de outros acordos se seguem nos anos seguintes: em 1976 é assinado um acordo cultural, 18 de Julho de 1978 Acordo de tráfego internacional e 28 de Julho 1978 Convenção para evitar a dupla tributação internacional.35

Esta época é igualmente marcada por um mais forte intercâmbio cultural e artístico.

O acentuado desenvolvimento das relações que caracteriza este período deve-se à linha política então seguida em Portugal, que sem interferir deixa as regiões das antigas colónias portuguesas, agora independentes, entregues à influência do bloco comunista.

A partir de 1977, Portugal envereda por uma via democrática e a influência dos comunistas portugueses nos acontecimentos no país decresce.

Em 1986 a delegação do Conselho Português para Paz e Cooperação participou numa reunião do Conselho Mundial da Paz em Karlovy Vary, mas nesta altura as cerimónias de carácter comunista já não traziam impulsos significativos para fortalecimento das relações entre as duas nações.

Podemos constatar que uma contribuição considerável na evolução das relações mútuas teve com certeza a entrada de Portugal para União Europeia a 1. de Janeiro de 1986 após a qual aumentou o interesse dos checos por Portugal sobretudo no campo de estudo da sua

história e política.36

Na Checoslováquia em 1989 a crise de regime culmina com a repressão da manifestação dos estudantes no dia 17. de Novembro. A intervenção brutal da polícia e a

35Kulturní dohoda, Dohoda o mezinárodní silniční přepravě, Smlouva o zamezení dvojího zdanění v oblasti daně z příjmu

36são publicados vários escritos sobre história de Portugal,p.e. em 1986 publica a Universidade Carolina no centro dos estudos ibero-americanos European Expansion.Codex Bratislavensis, que contém as fontes manuscritas sobre as descobertas entre os anos 1494 -1519; K. Kozická recebe o reconhecimento na competição do ministério de educação portugues para o seu contributo relativo as novas fontes sobre as descobertas portuguesas e espanholas. Os livros de historiador Jan Klíma são nos últimos anos mais importante referência para os estudos da história portuguesa no meio checo

notícia sobre a morte dum estudante faz rebentar uma onda de protestos e greves. Inicia-se

então a chamada “revolução de veludo” que levou a queda do regime comunista.

Segue-se uma época de mudanças radicais pelas quais o país enveredou pelo caminho da democracia, o que se reflectiu nas mudanças das relações luso-checas.

A amizade de longa data do Presidente da República portuguesa Mário Soares e o líder da nossa revolução Václav Havel assumiu o papel motor nestas relações.

A visita de Mário Soares, como primeiro representante da política estrangeira, devia exprimir não só a solidariedade com as mudanças na Checoslováquia de então, mas também chamar atenção para a semelhança do processo de passagem de regime totalitário a democrático em ambos os países.

A queda do bloco comunista e a liquidação da governação neoestalinista na Checoslováquia em 1989, afastaram definitivamente os obstáculos políticos na aproximação da nação checa, eslovaca e portuguesa. Em ambos os países porém prevaleceram sempre os

interesses de consolidação interna do seu país, destruídos pelos regimes totalitários e somente

em segundo lugar as relações bilaterais.

Os contactos a nível do comércio crescem bastante em número e continuam as visitas dos representantes políticos. Em Novembro de 1994 Mário Soares visita de novo o nosso país e no ano seguinte, o primeiro ministro checo – Václav Klaus retribui lhe a visita.

Portugal torna-se um dos países turísticos preferidos dos turistas checos que começam a interessar-se cada vez mais por este país.

No que diz respeito à cultura, é de referir sobretudo František Listopad, além do mais, como director da Escola Superior de Teatro e de Cinema em Lisboa. Este artista checo, em Portugal conhecido sob o nome Jorge Listopad, contribui bastante para a divulgação da cultura checa em Portugal. Graças a ele os portugueses conhecem as peças de Václav Havel e doutros dramáticos.

Outras referências relativas a Portugal ligam-se com o evento importante internacional, o que foi, a exposição mundial em Lisboa “EXPO 98” onde participaram também os membros da expedição da arqueologia experimental “Monoxylon II” de Hradec Králové.

A cooperação científica entre os dois países basea-se no acordo assinado em 1996 entre Academia das Ciências de República Checa e a Fundação Nacional Portuguesa para Ciências e Tecnologias.

A cooperação a nível da educação, cultura e ciências baseava-se no Protocolo executivo relativo ao Acordo Cultural, concluído em 1998, mas para ela contribuem também os contactos directos – p.e. Universidade Carolina colabora com a Universidade de Coimbra e a Escola Superior de Economia (VŠE) em Praga com a Faculdade de Agronomia (Hospodářská fakulta) da Universidade Nova de Lisboa. No mesmo ano inicia um programa de cooperação entre as escolas secundárias artísticas de cristal em Nový Bor, Kamenický Šenov e Železný Brod com a escola de cristal do Martinha Grande.37

Com a entrada na OTAN, em 12 de Março de 1999, realizam-se os sonhos políticos da maioria da população checa sobre um país livre, democrático e independente.

Para os checos foi um acto muito importante, significando o fim da era da exclusão da República Checa do sistema de desenvolvimento livre do mundo.

Em Julho de 2001 o presidente Jorge Sampaio visita oficialmente a República Checa. No mesmo ano a República Checa participa no projecto “Porto – cidade europeia da Cultura”. Outro evento cultural, MONSTRA 2001, festival de filme animado dedicado a criação dos autores checos teve lugar em Lisboa.

O ano de 2003 é caracterizado por uma série de visitas de altos representantes do governo a Portugal: ministro dos negócios estrangeiros Cyril Svoboda, presidente de Câmara

37Publikace o zahraniční politice ČR za období od července 1998 do prosince 1999;MZV 2000
dos deputados Lubomír Zaorálek na conferência dos primeiros ministros de países candidatos da União Europeia em Lisboa, ministro da cultura Pavel Dostál e outros. Em retribuição José Mário Durão Barroso, primeiro ministro de Portugal visitou a República Checa.



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